Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador negros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador negros. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Coffee will make you black

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2021 de novembro, com o tema protagonista negro, escolhi um já quase clássico da autora norte americana April Sinclair, Coffee will make you black. Apesar do livro ter sido lançado em 1994, até hoje não foi traduzido para o português, então, traduzo eu mesma o título: Café vai fazer você ficar preto. 

Pode parecer estranho, mas o título se refere a um dito popular dos EUA, especialmente nos séculos XIX e XX, que se dizia para as crianças não quererem beber café, para que ficassem com medo de escurecer sua pele. Em outras palavras, o título desse livro sozinho já diz muita coisa e a quê ele se propõe.

April Sinclair, criada em Chicago durante o movimento dos direitos civis dos negros americanos, traz a história de Stevie, uma jovem negra que começa o livro com 12 anos, e que vive durante os anos 60, bem no meio do movimento Black Power. A narrativa é toda centrada no ponto de vista de Stevie, que mesmo sendo uma leitora voraz e boa aluna, quer muito ser considerada cool. 

Apesar do pano de fundo político forte e do tema constante do racismo institucional dos EUA, a história de Stevie é de uma jovem se descobrindo, brigando com sua mãe, tentando fazer e manter amizades e conseguir um namorado. Talvez hoje seja meio clichê já, mas esse é o livro mais antigo que já li com esse tema onde praticamente todos os personagens são negros e que não é uma autobiografia.

Dentro do tema criança virando adolescente e se descobrindo, Coffee will make you black é um volume bem dentro do esperado, bem escrito, com questões típicas, mas muito abrangente, porque a autora não fica só no basicão. Ela inclui por exemplo, questões de descoberta da sexualidade que não eram muito comuns em livros publicados nos anos 90. 

Entretanto, o pano de fundo do movimento dos direitos civis e a questão do racismo trazem um peso para a trama que o leitor precisa estar disposto a enfrentar. Além disso, mesmo em inglês a leitura não é das mais simples, porque April caprichou nas gírias da época, o que, pessoalmente, eu gosto, porque data a história sendo contada, o que é mesmo o objetivo, mas, por outro lado pode deixar a leitura mais lenta.

No geral, é um excelente livro, e estou animada para pegar o volume seguinte, pois é uma duologia. Mal posso esperar para ver para onde vai a história de Stevie em Ain't gona be the same fool twice!

Nota 9,5.


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Kindred



SPOILER FREE

Então, o segundo livro que escolhi para ler em setembro, mas que só terminei de ler em outubro, foi selecionado por conta da autora negra (tema de um dos desafios literários desse mês), Octavia E. Butler, que é não só uma autora fabulosa (que descobri lendo Bloodchild), mas por conta da sua importância como uma das primeiras mulheres a escrever ficção científica. E a primeira mulher negra!

"Kindred" é considerada uma das suas obras mais importantes, e, gente, que leitura! Na verdade o livro é tão forte que é mais uma surra do que uma leitura. Num misto interessante de auto-biografia e de ficção científica, o livro narra a história de Dana, uma mulher negra que vive nos EUA nos anos 70, mas que inexplicavelmente começa a viajar no tempo para a Louisiana escravagista por conta de um dos seus antepassados.

O livro então é narrado pela própria protagonista, que tenta se moldar à época em que se encontra mas sem perder os seus valores, o que não é uma tarefa nem um pouco fácil. Levando em consideração que nos anos 70 ela é casada com um homem branco, e que há uma onda forte do movimento negro nos EUA, viver na época da escravatura norte-americana pode ser não só extremamente complicado, mas ela também corre o risco de mudar totalmente as suas crenças e sua forma de ver o mundo e as pessoas.

"Kindred"  é um livro extremamente centrado na questão dos negros, especialmente das mulheres, da forma inumana que a escravatura funcionava e como o ser humano é capaz das coisas mais abjetas. Uma das características únicas desse livro é o choque de realidade, porque quando se lê um romance histórico dessa época ou um relato de um ex-escravo é como se nos distanciássemos de alguma forma daquela narrativa, mas "Kindred" trabalha o contato com o passado de uma forma diferente, a distância simplesmente some e tudo o que o leitor vê é a ferida aberta. É um livro chocante nesse sentido.

Levando isso tudo em consideração, a leitura é obrigatória para quem quer entender um pouco mais as raízes do racismo (que aqui no Brasil é igualzinho...), porém aviso que o livro pode te deixar deprimido. Foi o que aconteceu comigo, achei o livro fantástico, mas confesso que foi um exercício de força de vontade, porque é uma pancada emocional. Muito necessária, mas não menos pancada.

Leitura recomendada para todos que querem se tornar seres humanos melhores.

Nota 10.