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terça-feira, 19 de abril de 2022

o nosso reino


SPOILER FREE

Quem acompanha minhas resenhas sabe que quando eu gosto de determinado autor, eu não meço esforços de ler qualquer coisa nova ou antiga, eu gosto é de completar o álbum. Mas, quanto mais a gente lê determinado autor, maior a probabilidade de encontrar algo dele que não nos agrada.

Infelizmente esse foi o caso com o nosso reino do português Valter Hugo Mãe. Apesar de eu adorar o português, ter quase que todos os seus livros, e de forma geral adorar a sua obra, preciso ser sincera e dizer que não gostei desse livro.

A história se passa num vilarejo português na década de 70, e é narrada do ponto de vista de Benjamim, uma criança de cerca de 9 anos. História talvez seja exagero, o livro é quase que uma coletânea de impressões e pequenos causos, onde a percepção carregadíssima de catolicismo do menino é o fio da meada.

Valter Hugo Mãe faz uso da sua forma de escrever repleta de lirismo e poesia, mas, as imagens não me agradaram e nem me prenderam na narrativa. De forma geral, achei tudo muito exagerado por um lado e grosseiro por outro. Nada contra os exageros ou grosserias de forma geral, mas, precisa ter um objetivo ou um papel na narrativa. E sinceramente, não achei que agregou, ficou só com cara que o autor queria chocar o leitor só pra chocar mesmo.

O resultado ficou um tanto quanto desconjuntado, numa leitura sonolenta e sem graça. O resultado certamente independe de qual edição você encontre, a antiga pela Editora 34, e a nova pela Biblioteca Azul.

Minha nossa, como me doeu escrever isso sobre o autor... então, vou terminar dizendo que ele tem coisas incríveis, mas não recomendo o nosso reino como uma das suas obras a serem lidas. Pega qualquer outro livro, é provável de acertar.

Nota 4.

domingo, 11 de julho de 2021

Regresso a casa


SPOILER FREE

O Desafio Literário Popoca de julho tem um tema um tanto polêmico, poesia! Eu digo polêmico porque poesia é um tema muitas vezes visto com algum preconceito, e eu vejo com frequência uma relação de amor ou ódio dos leitores com poesia.

Particularmente eu amo poesia, e acho que aqueles que não gostam simplesmente não foram bem apresentados a esse estilo. Só acredito que alguém realmente deteste poesia se a mesma pessoa também detestar música, porque as duas artes são irmãs gêmeas. Se você gosta de música, você gosta de poesia, simples assim, e como qualquer estilo literário, é uma questão de encontrar as poesias e autores do seu agrado. Que nem música.

Também já ouvi muita história de gente que tentou gostar de poesia, mas afirma que não conseguiu. E nessas histórias eu vejo um dos equívocos mais comuns com relação a esse estilo, que é achar que funciona igual a romance. Não é igual. Livro de poesia não é para ser lido que nem romance, de uma sentada só ou com aquela fome de saber o que vai acontecer no próximo capítulo. Livros de poesia não têm aquela vibe de início, meio e fim, ou pelo menos, a maioria não tem, os que são assim são a exceção, não a regra.

Antes da pandemia, eu estava lendo poesia com frequência, e da forma que particularmente acho a mais agradável para o estilo: todo dia eu lia uma poesia de um livro diferente. Uma poesia. Se ficasse muito animada, eu lia duas. Mas por que isso? Porque cada poesia é como se fosse uma obra literária completa, e ler várias em sequência muitas vezes tira o impacto que a poesia deveria ter, o leitor perde o tempo que seria necessário para absorver e admirar aquela poesia em específico. Por isso que eu digo que poesia não é romance e não deve ser tratado igual.

Com a pandemia, eu perdi o hábito de ler diariamente poesia, por conta, bom, de tudo. Então, o tema foi muito bem vindo, e para sair da minha seca poética escolhi um autor português que eu já conhecia o trabalho em poesia, José Luís Peixoto. Eu também já li um romance dele há muitos anos, e a experiência foi tão ruim que esqueci o nome dele e depois comprei um livro de poesia, que esse sim, amei de paixão. Desde então fico caçando seus livros de poesia.

Regresso a casa é o último lançamento do autor, escrito durante a quarentena em 2020 e publicado em 2021. E faz jus ao seu histórico de trabalhos poéticos maravilhosos anteriores. Tanto que já recebeu o prêmio Bertrand de livro do ano de poesia.

A coletânea inclui poesias escritas durante a quarentena, mas também tem poemas relacionados a viagens que o autor fez para locais ditos exóticos, como a China e Coreia do Norte (ele tem um livro sobre essa viagem, que estou doida para ler também). E independente do tema, José Luís Peixoto acerta na mão. O resultado é um livro de poesias bem equilibrado, e que cobre temas que são caros ao autor, como família e amor.

Particularmente, eu gostei especialmente dos poemas relacionados à quarentena, talvez porque ainda estou em uma. E achei interessante ter reconhecido um deles que o autor já havia publicado no Youtube, em abril de 2020. É diferente ler o poema e escutar o próprio autor declamando. Mas, é interessante porque abre novos significados, afinal, o interessante da poesia é justamente isso, cada leitura, cada um que declama, coloca novas conotações e pesos a cada parte do poema. É como escutar versões diferentes de uma mesma canção. Cada releitura tem um sabor único.

Uma merecida nota 10!

E ao invés de colocar uma poesia para dar um gostinho, deixarei o próprio autor apresentar seu trabalho:


domingo, 28 de fevereiro de 2021

Regras de isolamento


 

SPOILER FREE

E o tema do Desafio Literário Popoca para fevereiro é livros que falem de quarentena! O que faz todo sentido, considerando que continuamos, em teoria, tendo que cumprir distanciamento social durante a pandemia em 2021... e foi assim que decidi pegar um livro lançado em maio de 2020 em Portugal, falando sobre a quarentena de 2020 em Lisboa. 

Regras de isolamento é um livro de textos curtos e com fotografias feito pelo casal Djaimilia Pereira de Almeida e Humberto Brito. A escritora Djaimilia começou a ser conhecida no Brasil por conta do livro Luanda, Lisboa, paraíso, e, apesar de ter vivido a maior parte da sua vida em Portugal, é nascida em Angola. Ela é casada com o fotógrafo português Humberto Brito, e juntos, eles fizeram essa coletânea de escritos (a maioria de Djaimilia, mas alguns de Humberto) e de fotos que ambos produziram no primeiro lockdown de Lisboa.

Foi meu primeiro livro de Djaimilia, e posso dizer que apreciei muito seus textos, que apesar de serem sobre a quarentena, acabam sempre evocando outros temas profundos e humanos, como família e ancestralidade. Os textos de Humberto, apesar de terem um estilo bem diferente do da esposa, me surpreenderam, pois tratam da filosofia por trás da fotografia.

De todos os textos de Regras de isolamento, só teve um que não curti, justamente o que me pareceu mais desconexo com a temática do livro. Todos os demais foram uma delícia de ler, apesar da carga do tema, e do fato que, pelo menos eu, continuo cumprindo quarentena. As fotos são bônus, pois são muito bonitas e complementam bem os escritos.

Fiquei surpresa com a velocidade que conseguiram publicar um livro desses. Mal entramos em 2021 e o livro já foi lançado há quase um ano! Quando eu digo que o home office faz as pessoas serem mais produtivas é desse tipo de coisa que estou falando. A rapidez para esse lançamento me surpreende, por mais que, originalmente, a maioria dos textos de Regras de isolamento terem sido publicados em revistas e outras publicações no início de 2020, ainda é um grande feito ele ter sido lançado em maio. É um tanto quanto assustador na verdade.

Certamente o livro serve como um belo cartão de visitas para Djaimilia, eu já comecei a caçar suas obras, se ela conseguiu produzir essas belezas tão rápido e num período tão conturbado, fiquei imaginando a qualidade da sua prosa "normal". Preciso ler mais dela, fato. E se eu encontrar algum artigo do Humberto por aí, certamente pararei para ler também.

Nota 9,5 por causa do único texto no meio que não curti.

sábado, 4 de abril de 2020

As mais belas coisas do mundo



SPOILER FREE

Valter Hugo Mãe é um autor português que estou sempre de olho para novos lançamentos, pois sou muito fã do seu trabalho. E esse ano, antes da quarentena, encontrei essa pequena pérola dele, numa belíssima edição da Biblioteca Azul, com ilustrações de Nino Cais, que já trabalhou com o autor em outro volume.

Apesar do tamanho diminuto do livro, o que o leva a ser uma leitura um pouco rápida demais, seu conteúdo é de uma beleza ímpar. Baseado em memórias do autor do seu próprio avô (o que o leva a ser uma leitura indicada para o Desafio Literário Popoca de abril), As mais belas coisas do mundo traz um pequeno conto com trocas de conversas entre um menino e seu avô sob a perspectiva infantil. O que não significa que seja um livro para crianças, é um livro sem idade.

Valter Hugo Mãe é, na minha humilde opinião, especialista nesse tipo de texto, uma prosa com grande qualidade poética, que não necessariamente precisa de um enredo complexo. E As mais belas coisas do mundo é justamente desse tipo, portanto, é uma leitura realmente imperdível, uma excelente demonstração do trabalho do autor no seu melhor meio. E de quebra, essa edição em especial está muito bonita, vale a pena ter na coleção.

Nota 10!

domingo, 26 de janeiro de 2020

Coral e outros poemas



SPOILER FREE

E o primeiro livro de poesia de 2020 é da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Nem lembro mais quando comprei o livro dela, mas, preciso dizer que foi uma escolha acertada.

A poetisa tem uma certa paixão pelo mar que se repete por toda a coletânea Coral e outros poemas, o que é algo muito português, diga-se de passagem, e um jeitão um tanto quanto clássico de escrever poesia. Mas quando ela acerta, ela acerta muito em cheio. Fiquei positivamente surpresa com o trabalho que a Companhia das Letras fez. E agora tenho vontade de ler mais obras da autora.

Além da paixão pelo mar e mitos gregos, nesse livro você encontra poesias sobre a pobreza, guerra, fascismo, esquerda e, quem diria, sobre o Brasil. Aparentemente, Sophia gostava de diversos autores brasileiros, o que foi uma agradável surpresa.

Para quem gosta de poesia é uma excelente escolha, fica a dica.

Nota 9.

domingo, 11 de agosto de 2019

A Casa, a Escuridão



SPOILER FREE

Mais um livro de poesia do português José Luiz Peixoto! O que me deixa triste é saber que não tenho mais livros de poesia não lidos dele.

Minha única experiência de livro de romance dele não foi lá muito positiva, mas adorei tudo o que li dele de poesia. E A Casa, a Escuridão não foi exceção.

Vale demais a leitura, o livro ficou cheio dos marcadores que uso para marcar as poesias que gosto e facilitar encontra-las depois. Claro que também uso isso para ver o quanto o livro me agradou, visto que só leio poesias pela manhã e sempre alternando o livro ao longo da semana.

Por causa dos livros de poesia de José Luiz Peixoto vou acabar me aventurando novamente em ler um romance dele.

Nota 9,5.


sábado, 26 de janeiro de 2019

a máquina de fazer espanhóis



SPOILER FREE

Valter Hugo Mãe é um dos expoentes da literatura portuguesa. Vencedor de diversos prêmios e elogiado pelo próprio vencedor do Nobel Saramago, seu trabalho na maioria das vezes me agrada muitíssimo.

Claro que todo grande autor tem também seus altos e baixos, e depois de ler um livro de poesia do Valter que eu confesso que não gostei, preciso dizer que foi um alívio ler a máquina de fazer espanhóis.

O forte do autor português está justamente no tipo de livro que a máquina é, uma mistura de prosa poética com reflexões sobre a vida. Com uma história como meio para fazer essas coisas, claro.

a máquina de fazer espanhóis traz a história de Silva, um senhor de mais de 80 anos que, após a morte da esposa, acaba sendo internado por seus filhos num lar para terceira idade. Com passagens absolutamente brilhantes sobre a velhice, solidão e motivos para viver, Valter Hugo Mãe mostra o quão bom autor ele é capaz de ser.

Esse foi um dos melhores livros que já li do autor e isso não é pouca coisa. Recomendadíssimo.

Nota 10.



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Publicação da Mortalidade

 
 
SPOILER FREE

Quem me acompanha minhas resenhas há algum tempo sabe que eu sou fã do autor português Valter Hugo Mãe. Desde que o conheci leio pelo menos um livro dele por ano, e claro, não resisti comprar esse livro de poesias dele quando o vi numa livraria.

Então descobri que Valter Hugo Mãe, apesar de escrever prosa de forma absurdamente poética, não é exatamente um poeta. Ou pelo menos, esse volume não faz jus a qualidade dos demais livros que já li dele.

A Publicação da Mortalidade é dividido em diversas partes, como uma coletânea de pedaços de outros livros (o que eu não tenho certeza se procede ou se é só estilo para esse volume), algumas com poesias bem curtinhas, outras com poesias bastante extensas. Independentemente do tamanho, as poesias vão no máximo até bonitinhas, não há nada genial no livro inteiro.

Valter Hugo Mãe acerta em passagens das poesias, que realmente geram diversas citações belíssimas, mas no geral as poesias muitas vezes parecem uma tentativa fracassada de genialidade por chocar o leitor do que por algo inato do texto. O texto em si é bastante fraco, o que me deixou decepcionadíssima. Eu esperava muito, mas muito mais dele.

Uma pena. Talvez eu deva me manter apenas na leitura da prosa poética de Valter Hugo Mãe.

Nota 5.

sábado, 18 de agosto de 2018

Morreste-me



SPOILER FREE

José Luís Peixoto é um autor que às vezes me agrada e às vezes não. Mas, como um espoente da literatura portuguesa ele sempre acaba voltando para a minha lista de leitura. 

Dessa vez ele retornou porque eu estava em casa no dia dos pais pensando no meu falecido pai e como gostaria de fazer alguma coisa com ele. Como ele foi co-responsável por minha paixão por livros e esse livro em específico fala sobre a perda do autor do seu pai, achei que era extremamente conveniente e adequado.

Morreste-me me deixou com o coração apertado e os olhos cheios de água durante toda a leitura, o que foi bem mais breve do talvez eu teria aguentado, logo, o fato do livro ser muito curtinho não é um ponto negativo. Claro que a descrição do autor da doença do seu próprio pai de alguma forma me lembrar o que aconteceu com o meu ajudou muito na identificação emocional, e acho que me fez apreciar ainda mais o texto.

No livro o autor simplesmente derrama nas páginas tudo o que ele sente com relação à morte do seu pai, num misto de poesia, prosa e memórias. José Luís Peixoto acertou em cheio na combinação desses elementos e na carga emocional do texto. O livro é lindo de morrer. E muito triste também.

Fiquei muito feliz com a minha escolha de momento para fazer essa leitura, e com a experiência também. Lerei mais coisas do autor com mais afinco depois desse livro.

Bravo.

Nota 10.


domingo, 3 de junho de 2018

A Criança em Ruínas



SPOILER FREE

Essa foi uma ótima semana para terminar livros de poesia. Foram três seguidinhos! E a chave de ouro foi essa beleza do português José Luís Peixoto.

Eu já tinha lido um romance dele, Nenhum Olhar, que na verdade eu não gostei. Mas ele é tão bem conceituado na terrinha que resolvi dar uma outra chance. E quando descobri que ele escrevia poesia, resolvi tentar.

Ainda bem que resolvi tentar! A Criança em Ruínas é um livro lindo! Dividido meio que em temas, como família, amor próprio e amor romântico, o autor aproveita para brincar com as palavras e experimentar estruturas diferentes. Pena que é tão curto! Fica o maior gosto de quero mais no final.

Gostei tanto, mas tanto desse livro, que já estou com outro volume de poesias do autor e já me convenci de tentar novamente um romance.

Nota 10.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Homens Imprudentemente Poéticos



SPOILER FREE

E o ano começou bem demais! Tudo porque esse mês o tema do desafio literário é livre e porque eu não consegui esperar mais para ler esse livro maravilhoso de um dos meus autores favoritos, o português Valter Hugo Mãe, que ganhei no amigo oculto do Natal!

Dessa vez, Mãe nos traz uma história passada no Japão medieval, onde dois vizinhos, ambos artistas, ambos com tragédias pessoais, são inimigos mortais por razões sem o menor sentido. Coisa de "santo que não bate".

Para variar, o autor é capaz de tornar as histórias mais simples e mundanas num festival de poesia. O que ele é capaz de fazer com as palavras é algo que só lendo os seus textos para entender, não sei como descrever tamanha beleza literária. Fiquei tão embasbacada que até publiquei uma frase que me marcou durante a leitura no Facebook.

"O sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz." Valter Hugo Mãe

Tem coisa mais verdadeira? E linda? E humana?

Leiam Valter Hugo Mãe. Vale a pena cada letrinha.

Nota 10.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O paraíso são os outros



SPOILER FREE

Mais um livro do Desafio Literário desse mês, de livros para ler de uma só vez!

Dessa vez escolhi o último livro lançado pela Cosac Naify do autor português Valter Hugo Mãe, "O paraíso são os outros", uma obra muito curtinha, mas linda e singela, que conta as percepções de uma garotinha acerca do amor. O autor estava realmente inspirado. Para abrilhantar o trabalho, a edição ainda tem obras do artista brasileiro Nino Cais, com bonitas fotomontagens feitas a partir de fotos antigas de casamentos.

Fiquei muito triste com o fim da Cosac Naify, eles faziam edições belíssimas e tinham um cuidado especial com esse autor, do qual virei fã desde o primeiro livro que li dele ("O filho de mil homens"). Foi uma perda para os leitores brasileiros.

Nota 10!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Depois de morrer aconteceram-me muitas coisas



SPOILER FREE

Agosto foi um mês complicado e estou super atrasada com as leituras dos Desafios Literários, mas essa eu já consegui terminar! O tema era "livro com título diferente". Por acaso, eu já estava há tempos de olho num livro que comprei numa leva de autores portugueses que comprei no ano passado com o intuito de conhecer melhor a nova geração de autores lusitanos, que já havia me maravilhado com Valter Hugo Mãe, e que entrou na lista de compras justamente por causa do título, no mínimo, inusitado.

Como o português era português mesmo, com direito a diálogos escritos para soar como lusitanos do interior da terrinha, confesso que demorei um bocado a me sentir confortável na leitura e realmente entender o que estava acontecendo. A partir daí a leitura fluiu bem melhor, e pude realmente aproveitar a história de dois imigrantes portugueses (ilegais, claro) em alguma terra estrangeira, sendo que nenhum deles falava uma palavra da língua local.

Toda a narrativa se centra nessa dificuldade de viver num país estrangeiro sem ter nenhuma ideia nem da língua nem da cultura local, contando um dia na vida do casal e do filho, onde eles se perdem e não sabem como voltar para casa. O livro é permeado de questões sociais, como o quê levou os portugueses a saírem do seu país, a forma como são tratados no estrangeiro, e a dificuldade de se adaptar nessa situação.

Ricardo Adolfo não trata desses temas com delicadeza, pelo contrário, o seu narrador é o próprio imigrante, que, na sua limitação social e de estudos, tenta não só entender o quê está acontecendo, mas busca as melhores alternativas para sair dos problemas. Problemas em que eles mesmos se metem por conta da total ignorância acerca do lugar e da língua com o qual precisam, não apenas conviver, mas extrair um meio de subsistência.

Apesar do título do livro sugerir algo mais para o ramo da comédia, o texto é bastante pesado e desesperançoso, levantando questões extremamente incômodas, especialmente nos dias de hoje.

Inclusive, é uma leitura extremamente recomendada por tratar de algo tão atual.

O meu único problema é que eu não estava no clima para uma leitura desse peso, se não fosse por isso a nota seria maior.

Nota 8,5.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

The Secrets of Egypt



SPOILER FREE

Eu ando super atrasada nas minhas resenhas, e esse livro aqui é a principal causa desse atraso. Estou há um mês enrolando para escrever sobre ele porque confesso que não gostaria de escrever e publicar o que eu realmente gostaria de dizer sobre ele.

Joana Saahirah é uma bailarina de dança do ventre portuguesa que morou durante oito anos no Egito, onde fez uma carreira muito interessante, e que abriu portas para ela viajar dando workshops pelo mundo inteiro. Ela possui um blog que é muito legal, e que tem um jeito de auto-ajuda para bailarinas, e eu acompanhei os seus vídeos e posts durante muito tempo, e gosto tanto do trabalho dela que assim que o livro saiu na Amazon eu comprei.

Demorei um bocado para lê-lo, é verdade, mas com a minha lista interminável de leituras, isso é normal.

Mas, gente, como fiquei triste ao ler o livro.

O que eu esperava: a história de Joana como bailarina, como ela saiu de Portugal, como foi se mudar, depois viver no Egito, como foi se adaptar a essa cultura tão diferente, e como isso mudou Joana como pessoa e como bailarina.

O que eu encontrei: uma história confusa, que a princípio era para ser o que eu esperava, mas veio entremeada dos textos de auto-ajuda do blog dela, o que não seria um problema, se não fosse extremamente repetitivo, e, o pior, contada de forma preconceituosa. A jornada de Joana no Egito não foi fácil, entendo isso perfeitamente, viver lá não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher e bailarina, e entendo também que ela tenha sofrido muito, mas muito mesmo nesse processo. Mas fiquei chocada com a raiva guardada que ela acabou por colocar no livro, o que fez com que o texto soasse diversas vezes como extremamente preconceituoso, em especial com a religião islâmica.

Não que o Egito seja um lugar lindo e maravilhoso para mulheres, mas, assim, existem formas e formas de se dizer as coisas, não é mesmo? Não acredito que piadinhas, afirmações genéricas e uma visão de superioridade européia sejam uma boa forma de tratar o assunto. Se era para sensibilizar os estrangeiros, deu a entender que os egípcios, bárbaros e incivilizados, não têm jeito, se era para sensibilizar os egípcios, bem, se eu fosse egípcia eu ficaria com muita raiva. Então, sinceramente, não consigo entender o objetivo de tratar as coisas dessa forma.

Ainda bem que existem outros livros de bailarinas que são mais leves nesse sentido, e que também trazem informações super interessantes de como é viver como bailarina na terra das pirâmides. Se você se interessa pelo assunto sugiro "Ma liberté de danser", da egípcia Dina, e "Stories of a travelling bellydancer", da finlandesa Zaina Brown.

Nota 4.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

o apocalipse dos trabalhadores



SPOILER FREE

2015 já começou bem! Nada como abrir o ano com o português Valter Hugo Mãe, no tema "autores que eu indico para todo o mundo"!

Seguindo uma linha mais melancólica, como em "A desumanização", nesse livro o autor trata da mecanização do dia a dia dos trabalhadores, focando na mulher a dias (faxineira ou empregada doméstica para os brasileiros) Maria da Graça e sua colega de função e também carpideira Quitéria. As duas vivem sem saber muito bem o porquê de tudo e o propósito das suas vidas, num cotidiano maçante que cisma em tentar mecanizar suas emoções, mas como seres humanos resistem a esse processo, na busca pelo significado dos acontecimentos à sua volta e dos seus próprios sentimentos.

Justamente por tratar do tema da mecanização do ser humano no mundo moderno, o livro não é tão poético quanto os outros que já li do autor (o melhor nesse quesito continua sendo "o filho de mil homens"), mas tem um estilo peculiar. Dessa vez, para aumentar a sensação de invariabilidade da vida dos seus personagens, o autor se absteve da utilização de letras maiúsculas. O que me incomodou no início, mas logo me acostumei e confesso que achei genial.

Além disso, tem a relação particular da Maria da Graça com a religião e a vida após a morte, de forma que ela visita frequentemente a entrada do paraíso nos seus sonhos, o que daria uma resenha cheia de spoilers à parte, de tão sensacional.

No geral o livro é muito bom, coisa de alto nível mesmo, porém, confesso que achei um pouco chato (talvez fosse esse o objetivo? acredito que sim). E é só por isso que ficou com nota 9.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A desumanização



SPOILER FREE

Apesar de ter sido lançado originalmente em 2013, o livro do autor português Valter Hugo Mãe, "A desumanização", só chegou ao Brasil em 2014, e, claro, assim que o vi na livraria o peguei, porque "O filho de mil homens" deixou uma marca indelével no meu espírito de leitora. Agora sou feliz proprietária de 4 livros do autor, mas até agora esse foi apenas o segundo volume que li, o que será remediado em breve.

"A desumanização" é um livro difícil e pesado, com um ar muito diferente do "filho de mil homens", mas com a mesma poesia e sensibilidade que parecem ser as marcas registradas do autor. Valter Hugo Mãe nos traz dessa vez o relato de uma menina de 11 anos que perdeu sua irmã gêmea, nos contando como ela sente (ou deixa de sentir) a morte (ausência, esquecimento ou abandono?) do seu duplo. A história ainda por cima se passa na Islândia, uma terra de extremos, bem apropriada para os sentimentos também extremos dos seus personagens.


O autor traz uma narrativa que incomoda, que cutuca o leitor e o faz sofrer junto com a narradora, mas ao mesmo tempo é tão cheia de poesia e figuras tão lindas que o leitor acaba por ver beleza até mesmo na dor e no sofrimento. Eu me senti extremamente dividida lendo esse livro, pois ao mesmo tempo que me deixava extremamente deprimida eu não conseguia parar de ler e me deliciar com passagens belíssimas do texto, uma sensação muito doida. Ainda não me decidi se foi agradável ou não. Mas ainda assim indicaria a leitura para quem tiver estômago para uma aula de tristeza e melancolia.

Talvez o problema tenha sido que eu buscava uma leitura mais leve, e me deparei com uma criança plantada, maior tristeza das tristezas. Guardarei o livro para reler num momento mais propício, quando poderei apreciar melhor a visão da boca de deus.

Nota 9.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O filho de mil homens


SPOILER FREE

Nada como ter outros participantes do Desafio Literário na família para ganhar um livro com o tema de Setembro no meu aniversário! E o livro chegou bem a tempo de me "salvar" de ler novamente Saramago para o tema de escritores portugueses contemporâneos (eu amo Saramago, mas realmente queria experimentar autores desconhecidos, apesar da má experiência com José Luís Peixoto). E que presentão!

"O filho de mil homens" é simplesmente um dos livros mais bonitos que já li em toda a minha vida. Não há num uma frase sem sentido na obra, nada ali fica sobrando, todas as palavras contribuem para a sua beleza e poesia. Fiquei muito triste em diversos momentos por não ter um lápis à mão (eu costumo ler no metrô) para rabiscar o livro e fazer marcações, em outros momentos essa vontade simplesmente se desfazia quando eu percebia que iria marcar páginas inteiras. É um livro tão lindo que dá vontade de ler em voz alta (lembrei disso aqui) só para enternecer o coração de quem estiver em volta. É tão bonito que parece que foi feito para repartir com os outros, mas ao mesmo tempo dá vontade de guardar só para você debaixo do travesseiro.

A história começa com um homem de quarenta anos que gostaria de ter um filho, e a partir dessa premissa outros personagens vão surgindo, cada um com um pedaço a menos no coração. Assim, com um tom de fábula que flerta com o fantástico, o autor tece uma delicada colcha de retalhos com tudo o de mais bonito e de mais feio no ser humano, e mostra como o mais bonito, se for bem cuidado, transmuta o mais feio, transformando a vida de todos e por consequência o mundo. É uma história sobre amor, solidão, medo, preconceito e compaixão. Precisa dizer mais alguma coisa?

Precisa. É um desses livros que alimentam a alma. Imperdível e imprescindível.

Nota 10.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Nenhum olhar


SPOILER FREE

Esse mês é dedicado aos autores portugueses contemporâneos no Desafio Literário, por isso, no final do mês passado resolvi me dar de presente alguns livros de autores portugueses que eu ainda não conhecia, Nenhum Olhar foi o primeiro dessa leva que chegou lá em casa (ou outros ainda não chegaram infelizmente). Escolhi esse livro porque o autor é muito bem comentado em diversos blogs, e, bom, ganhou diversos prêmios, e esse, aparentemente é o livro mais famoso desse autor, tendo sido traduzido para diversas línguas.

Infelizmente o livro não é tão bom quanto o seu currículo sugere. Sabe aqueles autores brasileiros chatos que escrevem sobre a pobreza e o sofrimento do interior do Brasil? (não confundir com obras maravilhosas como A Hora da Estrela) Pois bem, imagine a versão portuguesa deles. Agora pegue essa temática adaptada e misture com o jeito chato de escrever da Virginia Woolf em As Ondas. Você tem Nenhum Olhar.

Quem curte literatura "alternativa", daquelas onde o lance do escritor é causar impressões no leitor ao invés de contar uma história, vai gostar desse livro. Pessoalmente, eu acho chato. Um monte de personagem fazendo reminiscências sobre a sua própria vida sem sentido e seus sofrimentos para mim é algo insuportável, a não ser que seja muito inspirador, o que não achei que fosse o caso, apesar do autor conseguir alguns momentos bem poéticos.

O livro é dividido em duas partes, sendo que a primeira é muito, mas muito chata. No meio de Josés, Marias (como bem convém a um livro português que se passa no interior de Portugal) e personagens insólitos como o gigante e o demônio (ainda não entendi muito bem quem eles são, mas desconfio que o gigante seja apenas um homem grande bizarro e o demônio, bom, o demônio eu acho que é o próprio mesmo), absolutamente nada acontece numa cidadezinha do interior, onde tudo gira em torno de uma grande fazenda. E José, a sua mulher, e mais alguns personagens no mínimo bizarros (mas não por isso mais interessantes) vão desfiando suas ladainhas até suas mortes.

A segunda parte do livro é mais interessante. Trata dos descendentes dos personagens da primeira parte, e aí o livro ficou mais interessante para mim, pois há toda uma reviravolta com relação a como os pais desses personagens eram e como os seus filhos são. Quase coisa de fofoca de cidade pequena, sabe? Não dá para não se interessar. Então, conforme a trama vai escalando e ficando cada vez mais interessante, o autor resolve acabar com a brincadeira e voltar à temática da primeira parte do livro e destruir tudo só porque ele é o autor e pode fazer isso.

Podem fazer todas as análises psicológicas e/ou filosóficas do mundo com esse livro (e olha que isso é pano para manga nesse caso), eu ainda vou achar brochante o que o autor fez. Bro-chan-te. E sem gostinho de quero mais ou de foi bom mesmo assim, sabe? Só brochante mesmo.

Nota 4.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Todos os nomes


SPOILER FREE

E chegamos ao mês dedicado a autores portugueses contemporâneos no Desafio Literário! E claro, não tinha como escapar do maravilhoso e premiado Saramago. O que nesse caso foi muito bom!

Esse livro, "Todos os nomes", tem uma história engraçada (sempre tem, né?). Meu marido tinha um exemplar que ele demorou meses lendo, e quando estava quase terminando ele perdeu o livro. Sério, perdeu. O livro simplesmente desapareceu! Tudo bem que ele costuma perder coisas em casa, mas isso costuma ser temporário, e normalmente eu acho as coisas que ele perde e tudo fica bem. Infelizmente não foi o caso do livro interminado. Tem coisa mais triste do que isso? Perder um livro no meio da leitura? Morri de pena, e dei um novo exemplar de aniversário ou de natal (as datas são próximas e isso faz alguns anos, por isso não me julgue). E finalmente ele pôde terminar a leitura! E agora foi a minha vez de pegar o livro, e graças a deus não o perdi! Já pensou? Aí seria demais, né?

Enfim, anedotas à parte, "Todos os nomes" é um livro típico do Saramago. Só ele consegue pegar uma personagem comum e sem graça, vivendo uma vida absolutamente comum e sem graça e encher de poesia e coisas inusitadas. Escrito no formato clássico do Saramago, o livro conta a história de um senhor que trabalha no Registro Geral de uma cidade sem nome. Ele tem uma vida absolutamente sem graça e monótona, até o dia em que algo muda dentro dele e num "surto" ele resolve aproveitar o fato de trabalhar no registro para conseguir algumas informações extras para uma espécie de coleção que ele faz (uma coleção absolutamente comum, diga-se de passagem) e por causa disso algo inesperado acontece e por causa disso a vida até então pacata e sem graça do Sr José vira de cabeça para baixo.

Claro que o virar de cabeça para baixo é bem no estilo Saramago de ser, onde o insólito encontra o comum de uma forma extremamente poética, e triste, claro, senão não seria Saramago.

O livro é uma delícia de ler, e apesar do tom triste e meio deprê a leitura é leve e rápida. O final, apesar de aberto, é lindo. Daqueles que te deixam suspirando e imaginado coisas.

Mas não é o melhor livro do Saramago. O que não conspira contra a qualidade do livro, claro.

Nota 10, só pra variar.