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domingo, 15 de setembro de 2019

Female Energy Awakening - O Despertar Da Energia Feminina



SPOILER FREE

Depois de ler o primeiro livro da Miranda Gray, Lua Vermelha, fiquei muito animada em ler seus outros trabalhos. Além disso, o seu trabalho energético com a Bênção Mundial do Útero é extremamente bonito.

Dessa forma, preciso dizer que sou fã dela, mas nada me impede de ser crítica onde devo ser. O Despertar Da Energia Feminina é um livro muito interessante para quem já leu a Lua Vermelha, e para quem realmente curte o trabalho da Miranda. E apesar do conteúdo do livro ser muito rico e interessante, em especial a última parte do livro, que tem um ciclo enorme de exercícios e meditações que cobrem todo o ciclo menstrual, ele sofre de um defeito: propaganda.

Se você não conhece o trabalho da Miranda, não comece com esse livro, ele vai te deixar com uma má impressão nesse sentido, porque ele é cheio de propaganda dos eventos dela. Não que os eventos não sejam bons ou legais, pelo contrário, acho todos o máximo. Mas, num livro, preciso dizer que ficou um tanto estranho para quem nunca entrou em contato.

Em outras palavras, é um livro para quem ou já leu Lua Vermelha, ou para quem participa dos eventos da Miranda. Se você não faz parte de nenhum desses grupos, leia Lua Vermelha ou participe de uma Bênção Mundial antes de pegar O Despertar Da Energia Feminina, vai ser mais interessante e a leitura mais proveitosa.

Só por causa disso, nota 9.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Red Moon - Lua Vermelha



SPOILER FREE

Quem segue o meu blog com afinco já percebeu que eu tenho uma tendência de ler coisas sobre o feminino e sobre religiões menos comuns, por assim dizer. Lua Vermelha estava na minha lista de leituras há tempos. Como o livro Mulheres que dançam com os lobos (que ainda não li, está na lista também), ele está meio que na moda no meio dos círculos de mulheres.

O livro trata de um assunto bastante tabu mesmo entre mulheres: a menstruação. A questão abordada é a natureza cíclica dos hormônios femininos, que, como os primeiros calendários do mundo, em qualquer parte do mundo, não me deixam mentir, é diretamente conectada com a lua. 

Antes de mais nada, preciso de uma salva de palmas para Miranda Gray, que poderia ter escrito um livro muito bonito e bastante vazio sobre as fases da lua e as fases do ciclo menstrual. Mas ela foi muito, mas muito além disso. O livro tem lá as suas partes mais, digamos, esotéricas, mas ele foi muito bem pesquisado e bem fundamentado, em especial nas questões ligadas à mitologia e aos contos de fadas. Sim, as personagens femininas dos contos de fadas.

Foi aí que a autora me ganhou. Depois de todo o trabalho de coleta, estudo e ressignificação que ela fez com esse material, não dá para ignorar as conclusões e as sugestões que ela faz. Um trabalho realmente muito bom, profundo e de grande beleza e importância no mundo machista e misógino que vivemos. Kudos. 

Agora só preciso ler tudo o mais que essa mulher publicou, algo me diz que vai valer muito a pena.

Nota 10.


domingo, 2 de dezembro de 2018

A Filha Perdida

SPOILER FREE

Depois de ler a genial Série Napolitana da italiana Elena Ferrante, fiquei de olho nos demais livros da autora que ninguém sabe quem é. Sim, Elena Ferrante é um pseudônimo, e a autora, espertamente, raramente concede entrevistas e há anos se especula sua verdadeira identidade. Quem diria que isso ainda era possível nos dias de hoje?

A Filha Perdida foi publicado quase 6 anos antes do primeiro livro da Série Napolitana, e antes do sucesso da autora não era badalado. Peguei para ler simplesmente porque me apaixonei pelo trabalho da Elena Ferrante depois de ler A Amiga Genial.

A primeira coisa que reparei é que apesar de não ser o mesmo livro, parece ser o mesmo livro. A sensação de ler A Filha Perdida foi muito estranha, no sentido que parecia que eu estava relendo a Série Napolitana, só que de uma forma meio chata e sem graça. Claro que a história não é a mesma, as personagens são todas diferentes, mas ao mesmo tempo parecia ser a mesma coisa.

Não sei se é uma questão de estilo, algo como Saramago, em que você bate o olho e sabe que o texto é dele. Pode ser que seja, mas me pareceu algo mais na linha a autora só escreve na perspectiva de mulheres que gostam de remoer seus próprios sentimentos ad infinitum. Só que ao invés de ser interessante e instigante como no caso da história de Elena e Lila, aqui só me pareceu um tanto chato e exagerado.

Não é um livro ruim, veja bem, ele só tem outro peso e andamento que a Série Napolitana. A Filha Perdida é bem mais soturno, taciturno e melancólico, com uma tendência a exagerar nos floreios e autoanálises da personagem narradora, uma mulher de quarenta e poucos, divorciada e cujas filhas já saíram de casa. A história é basicamente as férias que ela decide passar na praia.

Para mim faltou o brilho e o frescor da história de Elena e Lila. Foi como rever um filme só que fora de foco e com cores desbotadas. Talvez seja uma questão de amadurecimento da autora, afinal, ela lançou esse livro antes do seu grande e premiado sucesso. É muito triste escrever uma resenha dessas para Elena Ferrante, mas eu sou sincera.

Nota 7.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Girls of Riyadh


SPOILER FREE

Depois de ler literatura feminina árabe de alguns países mais abertos, como Egito e o Líbano, finalmente consegui um exemplar de literatura feminina da Arábia Saudita! Artigo raro no mundo inteiro, inclusive dentro da Arábia Saudita, onde o livro foi devidamente banido, claro.

Rajaa Alsanea traz uma história escrita através de emails semanais, enviados para um grupo onde qualquer um pode se inscrever (gente, eu lembro desses grupos de emails! faziam o maior sucesso), onde a história de quatro jovens sauditas é contada em capítulos quase novelescos. A história é toda apresentada como sendo real, apenas com os nomes e alguns lugares trocados para manter a anonimidade e portanto a honra das quatro moças.

A parte mais interessante e maravilhosa do livro é que sim, tudo do que é apresentado no livro pode ser real, extremamente real. E a autora aproveita disso para fazer críticas nada discretas à forma como o governo saudita e a estrutura de clérigos wahabitas fazem o controle da sociedade. Dizer que a crítica é ferrenha é até pouco.

O livro está envolvido numa problemática de ter sido banido em árabe no Reino Saudita, apesar de poder ser encontrada a tradução para o inglês na terra do petróleo, além de vir com uma explicação com ar de desculpas pelas adaptações que foram necessárias na tradução. Isso porque não é possível reproduzir a quantidade de variedade de dialetos do árabe que a autora precisou utilizar para contar a história, apesar disso, o livro é recheado de notas de rodapé muito ilustrativas e bem feitas.

Questões de censura e linguística à parte, a história em si é maravilhosa, além de bem escrita, e de quebra faz um retrato muito realista da sociedade saudita, não só internamente, mas, se você prestar atenção, com relação aos seus vizinhos e com uma questão xenofóbica interessante também. Para aqueles que gostam de ler sobre a cultura árabe é um prato cheio, com a vantagem de ser não só uma visão originalmente saudita, mas também leve de ler. Em termos, se você considerar o conteúdo de algumas passagens da história. Apesar de que não tem nada explícito, claro.

A única coisa que me deixou triste é que a autora nunca mais escreveu nenhum livro literário depois desse (pelas minhas pesquisas ela só publicou um livro técnico sobre odontologia - informação interessante de você guardar quando for ler a história), o que é uma pena.

Super recomendo a leitura para todos!

Informação importante: o livro foi traduzido para o português com o título "Vida dupla"!

Nota 10!

domingo, 10 de junho de 2018

Ten Women - Dez Mulheres


SPOILER FREE

Eu comprei esse livro num impulso porque ele estava numa mega promoção da Amazon de literatura mundial, e eu nunca tinha ouvido falar da escritora chilena. Achei que seria uma ótima oportunidade de conhecer, mesmo com o texto traduzido para o inglês.

Posso dizer com convicção que valeu muito a pena. Marcela Serrano é uma escritora de mão cheia, e com inúmeros prêmios nas costas! Todos eles provavelmente merecidos pelo o que que pude ver em Dez Mulheres.

O livro traz relatos feitos numa espécie de sessão especial de terapia em grupo, de dez mulheres que frequentam a mesma psiquiatra. Para tornar a coisa mais interessante, a psiquiatra, Natasha, faz atendimentos gratuitos também, então a história de cada mulher é muito diferente e vai desde uma senhora que aqui viveria numa favela no Brasil, até uma estrela de televisão, e com as idades mais diversas, desde uma moça recém saída da adolescência até uma senhora de oitenta anos.

Todas as histórias são extremamente femininas, e todas me tocaram profundamente, algumas conseguiram até mesmo encher os meus olhos de lágrimas, o que é um grande feito para um livro (ou filme). O interessante é que mesmo com apenas a psiquiatra em comum, os relatos das mulheres fazem uma colcha de retalhos extremamente equilibrada e coesa, além de mostrar um lindo retrato do Chile.

Marcela se mostrou uma mestra na criação de personagens e de vozes, pois todas são distintas e realistas, ao ponto de você ficar pensando que pelo menos alguma coisa dali é baseada em fatos reais.

Fiquei tão apaixonada que já estou à caça de outros livros da autora. Virei fã.

Nota 10.

domingo, 27 de maio de 2018

Belly Dance Around the World



SPOILER FREE

Esse livro foi um achado que eu consegui para kindle na Amazon. Com uma coleção de 12 artigos sobre como as pessoas vivenciam diversos aspectos da dança do ventre ao redor do mundo, e relativamente novo, foi lançado em junho de 2013, o que o torna bastante atual.

A ideia é passear por diversas comunidades ao redor do mundo que praticam a dança do ventre, começando pelo Egito. Os dois primeiros artigos do livro tratam principalmente de como os egípcios enxergam essa dança. Em "What is baladi about al-raqs al-baladi?" a autora faz pesquisa de campo, notando como hoje em dia a sociedade egípcia enxerga e pratica o que chamamos de dança do ventre, além de entrevistar diversos egípcios sobre o que eles consideram que é "baladi".

No segundo artigo, "Finding the feeling: Oriental dance, musiqa al-gadid and tarab", a autora traz uma análise juntamente com entrevistas, de como as bailarinas profissionais de dança do ventre no Egito montam os seus shows (que são coisas épicas de mais de uma hora, com apenas uma bailarina solista) de forma a capturar o público e causar o que os árabes chamam de tarab (êxtase).

O terceiro artigo, "Performing identity" foca na comunidade canadense de bailarinas e praticantes de dança do ventre, e faz uma análise de como essa comunidade se enxerga com relação a sua prática, como ela foi influenciada por movimentos orientalistas e como descendentes árabes que fazem parte dessa comunidade percebem a representação da sua cultura inserida na cultura canadense.

O quarto artigo foi um dos meus favoritos em termos de análise. Em "1970s Belly Dance and the how-to phenomenon: feminism, fitness and orientalism", a autora apresenta uma análise do conteúdo de livros que começaram a surgir nos anos 70 nos EUA com o objetivo de ensinar dança do ventre. A autora faz uma análise riquíssima desse conteúdo com relação a outros movimentos da época, como o feminismo, o feminismo ecológico e o surgimento do movimento fitness, além do lançamento do icônico "Orientalism" do Edward Said.

 O artigo seguinte, "Dancing with inspiration in New Zealand and Australian dance communities", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia e da Austrália fazem uso da dança do ventre de forma a atingir formas diferenciadas de consciência, de forma que a dança passa a deixar de ser algo se uma cultura externa e passa a ser uma forma pessoal de expressão. Confesso que super me identifiquei.

 O próximo artigo trata especialmente de um novo estilo de dança que surge a partir de influências da dança do ventre, junto com outras danças étnicas, o ATS (American Tribal Style). Em "Local performance/Global Connection: American Tribal Style and its imagined community", a autora analisa como se dá a construção do que as praticantes de ATS entendem como uma comunidade global de bailarinas. Leitura obrigatória para praticantes de ATS.

Em "The use of nostalgia in tribal fusion dance", a autora ultrapassa a questão das influências orientalistas na cena atual da dança tribal fusion para entender o uso de movimentos culturais que ela categoriza como nostálgicos (como o valdeville), de forma a tornar a dança mais ocidental.
 
O artigo seguinte, "Belly Dance and  transculturation in New Zealand", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia acabam por fazer uso da dança do ventre como forma de criar uma expressão própria para mulheres que não fazem parte da comunidade indígena local, além das misturas que são criadas incorporando itens da dança maori, o que leva a toda uma discussão interna de apropriação cultural. Dá para fazer alguns paralelos interessantes com algumas fusões que diversas bailarinas têm feito pelo Brasil.

Em "Quintessencially English Belly Dance: in search of an English tradition", a autora traz todo um levantamento histórico de duas bailarinas do cenário inglês da dança do ventre que ela julga que moldaram o que hoje existe de dança na Inglaterra. O que achei interessante foi encontrar aqui a famosa Wendy Buenaventura, conhecida especialmente pelo livro "Serpent of the Nile", que apesar de muito orientalista e sem grandes fontes, é considerado quase uma bíblia da dança do ventre.

O artigo seguinte é o único que foca especialmente em uma única bailarina e a sua forma de trabalho, o que está bastante explícito no seu título "Delilah: dancing the earth".

O penúltimo artigo do livro foca especialmente em questões femininas na Índia e como isso afeta a visão local sobre a dança do ventre. Em "Negotiating female sexuality: bollywood belly dance, "item girls" and dance classes", a parte mais interessante para mim foi toda a análise de tipos de mulheres retratadas no cinema indiano, e o como é feito o uso de fusões com a dança do ventre para intensificar esses retratos.

O último artigo para mim foi o único que eu classificaria como bizarro. Em "Digitalizing raqs sharqi: belly dance in second life", a autora faz todo um levantamento do uso da dança do ventre no "jogo" second life, com direito a um estudo sobre uma comunidade (?!?!?!?) de bailarinas dentro do jogo e uma comparação com comunidades no mundo real. Para mim soa tão bizarro que até essa descrição parece estranha. Eu não entendo o second life.

Preciso dizer que apesar de alguns temas um tanto quanto específicos ou distantes da minha realidade, o livro em si é muito bom. Todos os artigos são bem escritos e com direito a uma bibliografia que dá vontade de ler inteira. Já recomendei especificamente para uma amiga minha que estava a procura de livros sobre dança do ventre. Super recomendado.

Nota 10.

sábado, 26 de maio de 2018

Omnipresent: The Sacred Feminine Balance



SPOILER FREE

Esse é o tipo de livro que eu gosto de manter no meu celular. Diversos textos curtos e bens escritos, perfeito para ler antes de dormir. Mas, li ele inteiro fora desse objetivo por motivos que prefiro não mencionar aqui... o que foi uma pena no sentido que ele realmente é perfeito para isso.

 O livro consiste em pequenos textos escritos por mulheres acerca do que cada uma pensa sobre o sagrado feminino. Alguns eu gostei pessoalmente porque me identifiquei com diversos dos pensamentos expostos, outros me deram um certo nervoso, mas isso meio que já é normal para mim. Tenho uma visão muito particular e um tanto chata do que seria o sagrado feminino, visto a nossa necessidade como sociedade de um feminismo forte e militante, que esse feminismo não tem como não moldar a minha forma de pensar.

Dito isso, a maior parte dos textos é muito interessante, e eu leria outras obras de algumas autoras que estão nesse volume, como a Joss Burnel , Jacqueline L. Robinson, Britanny N. Selle, Beth Shekinah (que é de origem judia!) e a Melissa Rae Thompson.

Mas não sei dizer exatamente qual é o objetivo desse livro ou qual seria o seu público alvo principal. Os textos não são exatamente profundos e nem explanatórios sobre nada em particular. Eles são exatamente o que o subtítulo do livro indica: "contemplações sobre o divino na terra". Alguns textos tem um teor mais biográfico, outros um jeitão mais poético, outros são reminiscências. O que mantém a coesão do livro é fato de que todos os textos apresentam um ponto de vista mais pagão do que seria o sagrado feminino e todos as autoras são mulheres.

É uma leitura interessante, mas eu não diria imprescindível, sobre o assunto.

Nota 8,5.


domingo, 24 de setembro de 2017

milk and honey - outros jeitos de usar a boca









SPOILER FREE

Rupi Kaur nasceu na Índia numa família sikh, mas hoje é cidadã canadense, conhecida na internet por seus poemas curtos acompanhados de ilustrações, que tratam especialmente de temas femininos. A artista é ilustradora, poeta, artista plástica, escritora e artista performática.

"Milk and honey", lançado originalmente em 2015, foi traduzido há pouquíssimo tempo para o português com o título "outros jeitos de usar a boca", o que é até razoável para o conteúdo do livro, mas mostra um pouco como funciona a tradução de títulos no Brasil (esse problema não se restringe a filmes). O livro de poesias é divido em 4 partes, "the hurting", que trata de abusos (inclusive sexuais), "the loving", que trata quase que exclusivamente de amor romântico, "the breaking", que fala sobre desilusões amorosas, e finalmente, "the healing", que traz diversas mensagens feministas importantes.

O texto de Rupi é sempre muito simples, assim como suas ilustrações, o que torna suas mensagens mais fortes e pungentes. Nesse sentido, fica muito claro que ela é uma artista bem contemporânea e o seu trabalho se encaixa perfeitamente na internet, o que é muito diferente do que eu já li de poesia. E eu gostei. Como as ilustrações são todas em preto e branco, o livro também funciona muito bem para kindle.

Como eu li cada um dos capítulos de uma só vez, o livro foi uma experiência muito interessante e gostosa, mas entendo que o estilo e o conteúdo podem não ser para qualquer leitor. A primeira parte é realmente muito pesada e chocante, já as outras podem desagradar por conta da simplicidade da escrita da autora. Mas pessoalmente eu amei. Já estou aguardando o lançamento do próximo livro dela, agora em outubro.

Nota 10.


terça-feira, 13 de junho de 2017

The Story of the Lost Child - A história da menina perdida

From October 1976 until 1979, when I returned to Naples to live, I avoided resuming a steady relationship with Lila. But it wasn't easy. She almost immediately tried to reenter my life by force, and I ignored her, tolerated her, endured her. Even if she acted as if there were nothing she wanted more than to be close to me at a difficult moment, I couldn't forget the contempt with which she had treated me.

SPOILER FREE

E esse é o último volume da quadrilogia napolitana da autora italiana Elena Ferrante. Em português o livro foi lançado com o título "A história da menina perdida", mas como comentei anteriormente, eu li essa série num Kindle emprestado, e a dona do Kindle só tinha o último volume em inglês (não sei por qual razão misteriosa), então, li o bendito em inglês mesmo.

Como nos livros anteriores, Elena Ferrante dá uma aula de narrativa, sensibilidade e realismo, com uma qualidade literária simplesmente notável. A princípio a mudança no idioma me "soou" estranha, e o uso de algumas expressões direto do italiano por falta de uma opção razoável em inglês, o que não ocorre nas traduções brasileiras, ficou engraçado até me acostumar.

Fora a questão idiomática, os dramas que surgem nesse volume são excelentes, não só para ilustrar todas as questões femininas que já estavam sendo tratadas e desenvolvidas ao longo da narrativa até esse momento, mas como fechamento dessa história. É uma história completa, tem amor, ódio, tristeza, felicidade, traição... é uma grande colcha de retalhos de sentimentos, num retrato bastante realista da vida. Não é à toa que acham que a obra é autobiográfica.

Nesse último livro da quadrilogia, Elena traz a fase madura de sua vida e de sua amizade com Lila, quando as duas já possuem vidas e carreiras estabelecidas, o que não as torna imunes a tragédias. E quando a(s) tragédia(s) acontece(m) toda a questão passa ser como se reage a ela(s) e se ela(s) é (são) superáveis pela personagem.

Elena Ferrante produziu uma obra de peso. Depois dessa quadrilogia estou curiosa com outros livros já publicados pela autora.

Nota 10.

História de Quem Foge e de Quem Fica


Encontrei Lila pela última vez cinco anos trás, no inverno de 2005. Estávamos passeando de manhã cedo pelo estradão e, como há anos vinha acontecendo, não conseguíamos nos sentir à vontade. Lembro que apenas eu falava; ela cantarolava, cumprimentava gente que nem respondia, e nas raras vezes que me interrompia só pronunciava frases exclamativas, sem um nexo evidente com o que eu dizia. Ao longo dos anos, muita coisa ruim tinha ocorrido, algumas horríveis, e para retomar a via da intimidade teríamos de nos fazer confidências secretas, mas eu não tinha a força para encontrar as palavras, e ela - a quem talvez não faltasse força - não tinha a vontade, nem via utilidade nisso.

SPOILER FREE

Terceiro livro da quadrilogia napolitana de Elena Ferrante, a "História de quem foge e de quem fica" traz a vida de Lenú e Lila já na fase adulta, onde os dramas adolescentes dão lugar a problemas maiores, como o matrimônio, a maternidade, o mercado de trabalho e os dramas políticos da época.

Eu confesso que tenho uma certa dificuldade de lembrar exatamente onde cada livro começa e termina, pois a linha histórica e a estrutura narrativa são muito consistentes. Parte dessa sensação pode ser por conta do fato de eu ter lido os livros um em seguida do outro, mas prefiro colocar na conta da qualidade e consistência do trabalho da autora. E eu sinceramente me sinto feliz de ter lido os livros assim, não sei se conseguiria esperar entre um lançamento e outro, nem se conseguiria aproveitar tão bem a leitura sem ter diversos detalhes ainda frescos na memória. E a memória é importante numa narrativa que se presta a narrar mais de meio século de vivências.

Uma discussão que tenho visto com frequência é o questionamento de quanto do livro é autobiográfico ou não, o que é compreensível, pois o realismo no texto é realmente impressionante. Mas, sinceramente, isso não me interessa, pois não é relevante diante da qualidade literária de Ferrante e dos temas que ela trata. E apesar dessa teoria ser enormemente alimentada pelo fato da escritora publicar sob pseudônimo, fico me perguntando o porquê desse tipo de questionamento. Só porque é muito realista a autora não teria capacidade de ter escrito de forma ficcional? Acho isso intrigante.

De toda forma, esse é o volume mais voltado para a narradora, e, portanto, o que mais parece autobiográfico, e o que traz de forma mais intensa os sentimentos e questionamentos internos de uma escritora que pensa sobre o feminismo nas décadas de 60, 70 e 80. Só isso já é razão suficiente para ler o livro.

Nota 10.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

História do novo sobrenome


Na primavera de 1966, em um estado de grande agitação, Lila me confiou uma caixa de metal que continha oito cadernos. Disse que não podia mais guardá-los em casa, temia que o marido pudesse lê-los. Levei a caixa comigo sem fazer comentários, afora uma menção irônica ao excesso de barbante com que o atara. Naquela fase, nossas relações estavam péssimas, mas perecia que essa impressão era apenas minha. Ela, nas raras vezes em que nos víamos, não manifestava nenhum embaraço, era afetuosa, jamais deixava escapar uma palavra hostil.

SPOILER FREE

Na continuação de "A amiga genial", Elena Ferrante nos traz a juventude das duas amigas, Lenú e Lila. Nessa época Lila está casada e Lenú está avançando nos seus estudos rumo à faculdade, a primeira do bairro a chegar nesse ponto de sua educação.

A partir dessas duas perspectivas absolutamente distintas, a relação entre as amigas ganha novos contornos, ficando mais complexa. E novos acontecimentos envolvendo relações com rapazes trazem um colorido diferente para a história, diferenciado-se do primeiro livro.

Se o primeiro livro é um tanto lento por tratar de dramas e acontecimentos infantis, aqui a questão da sexualidade surge com ímpeto e, novamente, uma franqueza arrebatadora. Todo o questionamento do que é aceitável, ou não, do que é conversado abertamente ou não, de como é um relacionamento conjugal comum naquela época, a violência contra a mulher, e até mesmo a questão do prazer da mulher nos relacionamentos conjugais ou não, tudo isso é tratado de forma direta ou indireta na narrativa de Ferrante. E nesse ponto a escolha da autora por uma narradora mais velha que relembra o passado dá a ela toda uma possibilidade de análise e de destrinchar sentimentos que torna o tema ainda mais rico.

A história, que no fundo é muito triste e deprimente, ganha toda uma vivacidade e cores incríveis que tornam a leitura extremamente prazerosa. Digo isso de forma literária, pois o livro tem diversas passagens de violência bastante fortes. (fiquem avisados)

Virei fã da Elena Ferrante. Seu trabalho sensível é leitura obrigatória para ilustrar as questões femininas no século XX.

Nota 10.

A amiga genial


Hoje de manhã Rino me ligou, pensei que ele quisesse mais dinheiro e me preparei para negar. No entanto o motivo da chamada era outro: a mãe dele tinha desaparecido.
"Desde quando?"
"Faz duas semanas."
"E só agora você me liga?"
O tom deve ter parecido hostil, embora eu não estivesse chateada ou indignada, era apenas uma ponta de sarcasmo. Ele tentou contestar, mas de modo confuso, embaraçado, misturando o dialeto com o italiano. Disse que tinha certeza de que a mãe estava passeando em Nápoles, como de costume.

SPOILER FREE

Ler esse livro foi uma experiência interessante por diversos motivos. O primeiro e melhor deles é que o livro é muito bom e extremamente bem escrito, que é o melhor motivo para se ler um livro. Um segundo motivo é por ser literatura italiana e feminina, que nem sempre encontramos fora do círculo dos autores homens intelectuais mais comumente disponíveis fora da Itália. O terceiro motivo é que achei sensacional o fato de ninguém saber com certeza quem é a autora, visto que ela escreve com pseudônimo. E por fim, li o livro num Kindle emprestado, o que foi uma experiência muito interessante.

A história se desenrola na verdade ao longo de quatro livros, e "A amiga genial" é apenas o primeiro deles. A ideia é apresentar do ponto de vista de Elena Greco (só não tem o mesmo sobrenome da autora), uma senhora já de idade, escritora, a história de sua amizade com Lila (chamada assim só por ela, os demais a chamam de Lina). É uma história absolutamente feminina, que trata de questões femininas, relacionamentos femininos e mudanças sociais relacionadas especialmente à mulher, num espaço temporal que vai desde os anos 50 até o século XXI.

Nesse primeiro livro, a história cobre a infância e adolescência das duas amigas, com diversas questões sociais e financeiras interessantes e o que se esperava das mulheres naquela época. E como uma decisão bastante arbitrária distanciou para sempre o destino das duas meninas.

Nesse sentido, uma das coisas que mais me encantaram na narrativa de Elena Ferrante é a absoluta "franqueza", num retrato extremamente humano, no sentido de abarcar sentimentos conflitantes e nem sempre nobres. Um verdadeiro exercício de literatura de qualidade.

E a história é interessante, com diversas reviravoltas e personagens cativantes. Não é só literatura por literatura. Fascinante!

Fiquei tão animada que confesso que já li todos os quatro livros. Aguardem as resenhas! (pra variar estou atrasada...). Só vou adiantar que o primeiro é o mais lento de todos os livros, se esse já o bom, os seguintes são ainda melhores!

Nota 9.

sexta-feira, 3 de março de 2017

The Illustrious Jade Egg



SPOILER FREE

Esse é um livro tão curtinho que é quase um folheto sobre o uso do Jade Egg, mas extremamente informativo e tranquilo de ler. Imagine um guia rápido com as informações mais importantes que você precisa manter em mãos, é isso.

Para os curiosos (todos, imagino), o Jade Egg é uma prática milenar oriental ligada ao Taoísmo, que consiste no uso de uma gema feita de Jade no formato de um ovo (muito óbvia essa parte) para exercícios e meditações femininas para a saúde do sistema reprodutor feminino. Vale ressaltar que a autora, Saida, foi muito cuidadosa na linguagem que ela utiliza, de forma que o texto é amigável aos LGBTs, o que me surpreendeu positivamente, pois já cansei de ler textos de linhagens espirituais que poderiam não ser preconceituosas, mas que são até o último fio de cabelo.

Eu curti tanto o livro/folheto que fui catar mais livros escritos pela autora e já estou lendo outro, bem mais abrangente no assunto, que consegui encontrar na Amazon.

Nota 10

Leitores interessados no assunto, favor tratar inbox comigo, pois tenho indicações de contatos para esse trabalho no Brasil.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

The Secrets of Egypt



SPOILER FREE

Eu ando super atrasada nas minhas resenhas, e esse livro aqui é a principal causa desse atraso. Estou há um mês enrolando para escrever sobre ele porque confesso que não gostaria de escrever e publicar o que eu realmente gostaria de dizer sobre ele.

Joana Saahirah é uma bailarina de dança do ventre portuguesa que morou durante oito anos no Egito, onde fez uma carreira muito interessante, e que abriu portas para ela viajar dando workshops pelo mundo inteiro. Ela possui um blog que é muito legal, e que tem um jeito de auto-ajuda para bailarinas, e eu acompanhei os seus vídeos e posts durante muito tempo, e gosto tanto do trabalho dela que assim que o livro saiu na Amazon eu comprei.

Demorei um bocado para lê-lo, é verdade, mas com a minha lista interminável de leituras, isso é normal.

Mas, gente, como fiquei triste ao ler o livro.

O que eu esperava: a história de Joana como bailarina, como ela saiu de Portugal, como foi se mudar, depois viver no Egito, como foi se adaptar a essa cultura tão diferente, e como isso mudou Joana como pessoa e como bailarina.

O que eu encontrei: uma história confusa, que a princípio era para ser o que eu esperava, mas veio entremeada dos textos de auto-ajuda do blog dela, o que não seria um problema, se não fosse extremamente repetitivo, e, o pior, contada de forma preconceituosa. A jornada de Joana no Egito não foi fácil, entendo isso perfeitamente, viver lá não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher e bailarina, e entendo também que ela tenha sofrido muito, mas muito mesmo nesse processo. Mas fiquei chocada com a raiva guardada que ela acabou por colocar no livro, o que fez com que o texto soasse diversas vezes como extremamente preconceituoso, em especial com a religião islâmica.

Não que o Egito seja um lugar lindo e maravilhoso para mulheres, mas, assim, existem formas e formas de se dizer as coisas, não é mesmo? Não acredito que piadinhas, afirmações genéricas e uma visão de superioridade européia sejam uma boa forma de tratar o assunto. Se era para sensibilizar os estrangeiros, deu a entender que os egípcios, bárbaros e incivilizados, não têm jeito, se era para sensibilizar os egípcios, bem, se eu fosse egípcia eu ficaria com muita raiva. Então, sinceramente, não consigo entender o objetivo de tratar as coisas dessa forma.

Ainda bem que existem outros livros de bailarinas que são mais leves nesse sentido, e que também trazem informações super interessantes de como é viver como bailarina na terra das pirâmides. Se você se interessa pelo assunto sugiro "Ma liberté de danser", da egípcia Dina, e "Stories of a travelling bellydancer", da finlandesa Zaina Brown.

Nota 4.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

We should all be feminists



SPOILER FREE

Gente, final de ano é uma confusão mesmo, estou super atrasada nas resenhas... mas vamos tentar colocar em dia!

Chimananda Ngozi Adichie é uma autora africana (nigeriana para ser mais exata) de sucesso internacional, e em 2012 ela sua terceira palestra no famoso evento TED, dessa vez sobre feminismo, que depois virou esse livro super pequenininho, que obviamente eu comprei na promoção (sempre!). Eu já tinha ouvido falar super bem da palestra e do mini-livro, então achei que valia os 0,99 de dólar que paguei. E sim, realmente valeu cada centavo.

"Todos nós deveríamos ser feministas" é realmente bem curtinho e o formato é de palestra, com pequenos causos da vida da autora ilustrando a sua opinião sobre a necessidade do feminismo no mundo atual. Uma leitura rápida, leve (dentro do possível pelo tema) e agradável. Por conta do formato, não é um livro que se aprofunda em nenhuma questão específica do feminismo e nem da luta das mulheres negras ou africanas (o que achei uma pena, tomara que vire outra palestra no futuro), mas funciona de forma interessante para sensibilizar aqueles que não conhecem o feminismo "de verdade", e como a luta pelos direitos das mulheres ainda é muito atual e necessária.

Para quem já lê sobre o feminismo pode achar o conteúdo meio "mais do mesmo", mas é sempre interessante conhecer novos materiais de boa qualidade para indicar para os "iniciantes", então recomendo para todos.

Nota 9.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

As Brumas de Avalon - 4 volumes



SPOILER FREE

Então, pela primeira vez esse ano estou super atrasada, isso porque inventei de ler mais um brutamontes: As Brumas de Avalon (a série completa de 4 livros, é claro, senão não tinha graça). E óbvio que eu dei "sorte" de tirar férias justamente nesse período, e meu tempo para ler simplesmente desapareceu e por isso demorei muito, mas muito mais do que o previsto lendo o volume único da série que eu tenho para kindle (graças a deus! imagina carregar o bruto no muque?).

Fiz essa escolha porque em agosto o tema de um dos Desafios Literários que estou seguindo era uma releitura (li essa série aos 15 anos, então faz muito mas muito tempo que eu li), de outro desafio o tema era uma aventura e de outro um clássico de aventura. E como considero que todas as versões da história do Rei Arthur são aventuras e As Brumas é um clássico, os 4 volumes da série estavam contando para todos os desafios (inclusive para o quarto desafio, que é ler 52 livros no ano - com esses cheguei a 46 segundo a contagem aproximada do Goodreads). Os livros que compõe a série conhecida como "As Brumas de Avalon" são: "A Senhora da Magia", "A Grande Rainha", "O Gamo-Rei" e "O Prisioneiro da Árvore", no total são aproximadamente mil páginas. Ah, sim, e caso alguém ainda não saiba, "As Brumas de Avalon" conta a história do Rei Arthur e sua corte, mas o seu diferencial é que ela é contada a partir do ponto de vista das mulheres presentes na história, além de focar na mudança religiosa do paganismo celta-druida para o cristianismo. Por isso, às vezes, a série é considerada feminista.

Mas indo para a análise do conteúdo dos livros, fazia muito tempo que eu não relia algo, e a experiência de ler novamente "As Brumas" foi muito especial. Lembro nitidamente da sensação de ler os livros pela primeira vez, do fascínio que senti e de como foi importante essas leituras para mim na época. Reler o texto hoje foi muito interessante, os livros continuam maravilhosos, e a história é tão cativante quanto eu me lembrava, mas depois de mais de 15 anos a minha forma de ver o mundo e os temas tratados pela autora, em especial o paganismo, é bem diferente, por isso a forma como li os pormenores da história foi completamente diversa da primeira leitura, e eu pude ser bem mais crítica do que quando era adolescente e pouco sabia dos assuntos ligados à Wicca.

Achei interessante confirmar algumas impressões bem fortes acerca de alguns personagens do livro, como a Guinevere ser uma chata, o Mordred um fdp e o Arthur meio bundão, mas, em compensação, na minha memória a Morgana era espetacular, e na releitura já não a achei tão especial assim. Confesso que em alguns momentos fiquei sem paciência com alguns personagens e achei que algumas situações foram alongadas talvez um pouco demais da conta ao longo das obras, mas no final a leitura continuou agradável. E eu continuo indicando os livros para qualquer um que se interesse pelas lendas arthurianas e por paganismo. Só não indico como fonte histórica de nada, pois além da mitologia arthuriana, que obviamente é apenas um mito, tem gente que acredita que a parte sobre o paganismo e a forma de culto da deusa e dos druidas e a relação das mulheres na sociedade na época (século V d.C. para os distraídos) esteja bem descrita nesse livro, e infelizmente isso não é verdade.

Outra coisa que achei interessante foi ver que alguns personagens presentes na Trilogia do Rei Arthur do autor Bernard Cornwell também estão presentes aqui, mas eu simplesmente não me lembrava deles nas Brumas de Avalon, talvez seja uma questão de importância que cada autor tenha dado para eles, talvez minha memória é que tenha falhado. De qualquer forma, achei interessante ver esses personagens sendo descritos de formas tão diversas, mas ainda assim mantendo a linha central do mito arthuriano. Agora fiquei com vontade de reler a obra do historiador inglês e fazer uma comparação mais rica entre os pontos de vista de cada autor. Quem sabe, se der tempo nos próximos meses de Desafios Literários? Dezembro é um mês de tema livre!

Nota 9,5 para a série, porque como li um volume único, fica um pouco complicado de dar notas separadas para cada livro.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Descent to the Goddess: A Way of Initiation for Women



SPOILER FREE

Então, esse ano estou tentando ler pelo menos um livro mais "sério" todo mês, e esse já estava me namorando há anos na minha estante, e como estou atrasada nas leituras do mês e ele é razoavelmente pequeno resolvi que ele era uma boa escolha.

"Descent to the Goddess" traz uma análise junguiana do mito de Inanna/Ishtar, que resolve descer ao reino dos mortos para visitar a irmã Ereshkigal, tudo sob uma perspectiva moderna da mulher submetida a uma sociedade patriarcal. Não é uma leitura fácil, pois o texto é cheio de interpretações e simbolismos complexos, diversas vezes tive a sensação de que o livro foi escrito estritamente para psicólogos, e certamente isso influenciou um bocado o tempo que levei para ler o volume.

Minhas dificuldades à parte, achei a leitura muito enriquecedora, pois me ajudou a ver outras facetas de como o machismo e a cultura patriarcal em que vivemos podem afetar a mulher, e mais, como podemos lidar com isso, mesmo que a solução não seja tão bonita quanto desejamos, e como não necessariamente o fato dessa solução ser feia é ruim, pelo contrário, faz parte da vida.

Talvez se o formato fosse mais voltado para leigos a leitura seria mais agradável e eu tivesse absorvido melhor a mensagem da autora, porque o conteúdo é riquíssimo e extremamente relevante.

Nota 9.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Unveiling - the inner journey


SPOILER FREE

Enquanto esperava chegar outros livros de autores portugueses contemporâneos resolvi retomar essa leitura específica para bailarinas de dança do ventre e para mulheres interessadas em um caminho espiritual específico para mulheres.

Esse é um tema que hoje em dia me divide internamente, pois ao mesmo tempo em que vejo a necessidade específica para mulheres desse tipo de trabalho, atualmente tenho uma visão mais aberta do que seria feminino/masculino e do que isso significa para homens e mulheres, e essa forma mais abrangente de ver o problema me deixa desconfortável com algo feito exclusivamente para um sexo, ainda mais quando se trata apenas do sexo com o qual a pessoa nasce (isso quando ela nasce com um sexo bem definido, mas enfim).

O que hoje em dia eu acho que falta não é nem mais algo específico para mulheres, o que eu acho que falta é valorizar tudo o que é feminino, estando presente em quem quer ou o que quer que seja. Claro que esse processo pode e deve incluir algo voltado especificamente para o público feminino, mas voltado especificamente não significa, no meu ponto de vista, excludente ao público masculino. Até porque não são só as mulheres que precisam voltar a valorizar o que há de feminino nelas, os homens também precisam voltar a enxergar que eles também possuem traços femininos em si e voltar a ver isso com bons olhos, e não como falhas de caráter.

Feita essa introdução sobre o meu ponto de vista, vamos ao livro! A autora Alay'nya é uma bailarina de dança do ventre e cientista e PHD (no início do livro ela menciona o seu caminho acadêmico nesse sentido mas eu sinceramente não lembro mais dos detalhes), que durante anos praticou artes marciais antes de entrar em contato com a dança. A sua ideia com o livro é mostrar como a dança do ventre pode ser utilizado como um caminho espiritual para mulheres numa comparação quase que direta com outras formas mais conhecidas (e consideradas masculinas) como as artes marciais e a yôga.

Nesse quesito, de mostrar como a dança do ventre pode ser usada energeticamente, como ela trabalha o corpo físico e como isso pode ser transposto para o campo energético, além de como ela pode ser usada para o auto-conhecimento, a autora acertou lindamente. As passagens sobre os exercícios que a dança pode propor, tanto físicos quanto emocionais e espirituais são ótimas. A comparação que a autora faz dos caminhos que a dança pode proporcionar para trabalhar a jornada arquetípica contida nos arcanos maiores do tarô chegou a me deixar emocionada (e com vontade de estudar mais o assunto).

Porém, nos momentos em que a autora se propõe a falar sobre a psique feminina versus a psique masculina... achei um osso duro de roer. Não que fosse muito complexo, pelo contrário, nunca vi tantos clichês em toda a minha vida. Acho que ela colecionou todos os clichês de filmes estilo comédia romântica possíveis e resolveu colocar no livro como verdade universal amparado por pesquisas pseudo-científicas. Tem momentos que realmente dói ler as bobagens da autora.

O pior, na minha opinião, é que são os clichês mais machistas possíveis, daqueles que reduzem o homem a um ser simples que só quer saber de sexo, dinheiro e poder, e a mulher num ser "complexo" que ninguém entende porque ela quer ser dona de si mesma (afinal já passamos pela primeira revolução feminista, senão certamente esse pedaço não estaria no livro), dominar os homens, ser mãe e manter uma espécie de juventude eterna. A típica visão machista do mundo. Isso vindo de uma mulher que se acha feminista em alguns momentos e acha que "superou" o feminismo em outros. Enfim, a autora é uma mulher confusa, que, por consequência, acha que todas as mulheres são confusas.

Um dos problemas da visão apresentada pela autora, é que ela se baseia nos arquétipos da forma como são usados pela psicologia junguiana, e que ela infelizmente não entendeu bem. Veja só, só porque existem arquétipos femininos e masculinos isso não significa que homens só possuam arquétipos masculinos e mulheres só possuam arquétipos femininos. O que acontece é que na nossa sociedade nós ensinamos aos homens desde que eles nascem a reprimir os seus arquétipos femininos (aquela história de sempre: homem não chora, não brinca de casinha nem pode demonstrar sentimentos, né?) e enquanto isso ensinamos às mulheres que elas só podem demonstrar alguns arquétipos femininos (afinal, nem todo arquétipo feminino é considerado bom, ainda mais se for sobre liberdade sexual), a mulher ainda pode demonstrar alguns traços masculinos (claro, senão ela não sobrevive no mercado de trabalho masculinizado, né?) mas ai dela se se tornar masculina demais nesse processo. Em outras palavras, vivemos em uma sociedade em que tanto homens quanto mulheres se sentem incompletos e tolhidos de alguma forma (apesar deles demonstrarem isso de formas diferentes e, claro, as mulheres sofrerem mais por serem consideradas sempre inferiores).

E aí a autora perdeu uma oportunidade de ouro. Ao invés de falar do processo de "unveiling" como uma integração do ser como um todo, tanto dos arquétipos masculinos quanto femininos, podendo ser usado por qualquer pessoa, ela resolveu se ater ao caso da integração apenas dos arquétipos femininos nas mulheres. Sendo que o arquétipo da amazona é uma pseudo exceção que ela trata como sendo um traço masculino que as mulheres podem ter, e até devem cultivar nos dias de hoje, mas que deve ser domado para não tornar a mulher masculina demais. Veja bem, eu sou super a favor do equilíbrio das coisas, dos arquétipos e tudo o mais, o problema, no meu ponto de vista, é que o equilíbrio é diferente para cada um, então não existe isso de mulher masculina/feminina demais nem de homem masculino/feminino demais.

Enfim, sei que nem todos vêem as coisas assim (vide os posicionamentos da autora), mas espero que a humanidade esteja evoluindo nesse sentido. O que me entristeceu foi esperar algo mais interessante e progressista de uma bailarina de dança do ventre com tanta experiência em outros caminhos espirituais, ao invés da confirmação de um monte de preconceitos e clichês.

Nota 6.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

God dies by the Nile


SPOILER FREE

E depois de ficar um bom tempo sem escrever por aqui por conta de uma viagem, e claro, por conta da volta da viagem (as coisas acumulam que é uma loucura), voltei com estilo! No mês dedicado à vingança no Desafio Literário, resolvi passear pelo conturbado Egito com a egípcia Nawal El Saadawi.

Escolhi esse livro por 2 motivos, o primeiro é que eu gostei demais de outro livro da autora ("Woman at point zero"), o segundo é porque na contracapa dizia que o livro era sobre a vida de uma mulher camponesa cujas sobrinhas sofrem nas mãos do prefeito da sua cidade e ela resolve se vingar. Perfeito, né?

Apesar dessa história não ser tão contundente na questão feminina, Nawal El Saadawi abrange o leque de problemas sociais retratados nesse livro, pois ao invés de se ater aos problemas das mulheres egípcias, ela aborda também os problemas do interior do Egito, onde os camponeses sofrem nas mãos dos seus governantes (bondade chamar assim, capataz é bem mais adequado) e também das suas crenças despropositadas (a velha história de que apesar de não estar no Corão as pessoas ainda pensam de determinada maneira como se estivesse - é claro que esse tipo de coisa é válida para qualquer sistema religioso, mas enfim). Tudo isso de forma bem explícita e com histórias de arrepiar.

A única coisa que me deixou chateada é que, apesar de ter a tal mega vingança mencionada na contracapa, o livro não trata exclusivamente do assunto, e eu confesso que esperava uma construção mais elaborada para o ato final. Tudo bem que eu esperar algo super elaborado ou montado com maquiavelismo por uma camponesa egípcia de origem absurdamente humilde era algo pouco lógico, mas fazer o que, né?

Apesar disso, a autora egípcia está cada vez mais ganhando o meu respeito, seus livros são marcantes e deixam traços indeléveis nos seus leitores. Ela mostra a verdade de forma tão nua e crua que é impossível ficar insensível. Por conta disso mesmo também não recomendo a leitura em série dos seus livros, pessoalmente, acho que eu ficaria deprimida se fizesse isso.

Nota 10.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Orgulho e preconceito


SPOILER FREE

Finalizando, finalmente, o mês de livros citados em filmes, mais um da Jane Austen! Mais do que citado em "Diário de Bridget Jones", esse livro é um grande clássico que já virou sei lá quantos filmes. Mas que eu nunca tinha lido por puro preconceito (piadinha infame, mas inevitável).

Depois de descobrir que eu não tinha o livro em casa (eu jurava que tinha!), comecei a ler outro da mesma autora, mas como eu tinha me predisposto a ler esse primeiro, fiquei em cócegas até encontra-lo em pdf na internet (afinal ele não possui mais direitos autorais que o impeçam disso). Não só consegui, como li o livro achando-o inferior a Razão e Sensibilidade (o que veio a substitui-lo quando descobri que não tinha uma cópia impressa). Enquanto a personagem principal aqui é realmente mais interessante por fugir às normas sociais vigentes da época, a história em si é ainda mais contos de fadas e isso me incomodou muitíssimo.

Finalmente entendi, mas não concordei, com a fascinação que o Sr. Darcy exerce sobre o imaginário feminino, e a mudança de sentimentos de Elizabeth Bennett me deu arrepios. Mas novamente, Jane Austen veio salvar seu livro com uma dose cavalar de boa escrita e críticas contundentes à sociedade da época, de um jeito que me fez não desgostar tanto assim do final e gostar muitíssimo da leitura. Não há nada que uma boa literatura não consiga.

Uma confissão a ser feita: já li em diversos lugares que Jane Austen é conhecida por sua ironia, mas confesso que ela me escapou quase que por completo, talvez justamente por não viver na mesma época ou por ter uma visão tão diferente do mundo. Em alguns anos talvez seja interessante o pessoal do meio acadêmico fazer novas edições com notas explicativas de romances como esses, pois tenho certeza que eu teria apreciado muito mais a leitura, e (espero) a tendência é que a situação feminina fique cada vez mais distante da descrita pela autora, de forma que suas ironias se percam por completo, o que, tenho certeza, seria uma pena.

Nota 8,5