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domingo, 10 de fevereiro de 2019

Um Sopro de Vida (Pulsações)



SPOILER FREE

Preciso começar dizendo que eu adoro Clarice Lispector. A Hora da Estrela é um livro maravilhoso e inesquecível. Além disso, a brasileira nascida na Ucrânia está no rol dos autores clássicos e mais importantes do século XX por mérito, porque ela é mesmo fantástica.

Dito isso, é também preciso apontar que Um Sopro de Vida (Pulsações) é um livro póstumo, organizado para publicação por outra pessoa que não Clarice. Apesar de Clarice estar doente na época que escreveu esse livro, sua doença, um câncer de ovário, só foi descoberto mais tarde e quando já era inoperável. E ele tem cara de exatamente isso.

O livro é uma espécie de literatura experimental, onde temos uma não-conversa entre um autor e uma personagem criada por ele. Parece uma grande busca interna psicológica do porquê os autores precisam de personagens e o que elas significam. Aqui o autor não tem nome, mas a personagem tem, Angela.

É estranho porque o livro não possui uma linha narrativa, e não tem exatamente nem início e nem fim, é só uma grande catarse. Eu não conseguiria dar spoiler nem se quisesse.

Foi um dos livros mais difíceis e chatos que já li na minha vida. Pronto falei.

Tem belíssimas citações, é verdade, mas também me pareceu um exercício muito sem sentido sobre o sentido da escrita. Pura masturbação mental que não me levou a lugar nenhum. Espero em breve ler algo da autora que limpe esse ranço da minha mente.

Nota 3.

Desato



SPOILER FREE

Quando descobri Viviane Mosé na internet, declamando seus poemas ou simplesmente falando sobre educação, me apaixonei. Quando depois descobri que ela tinha alguns livros publicados comecei a procurar. Desato é um desses achados.

Infelizmente, acredito que Desato não é o melhor livro da autora. Apesar de já conhecer o seu estilo de escrita corriqueira, onde os poemas surgem de coisas bastante mundanas, em Desato são poucos os poemas com o poder, por exemplo, de palavra suja.



Ou então com o peso e o significado de poemas presos.



Tem alguns bons poemas em Desato, claro, mas, não sei, tem muita coisa repetitiva e bem chatinha no meio desses bons poemas. Como sei que muitas vezes os autores são obrigados a publicar mesmo quando não tem material tão maravilhoso assim, não perderei as esperanças e lerei mais de Viviane.

Nota 7.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Bubble Gum

 
 
SPOILER FREE
 
Para o mês de fevereiro do Desafio Literário Popoca, resolvi dar um tiro no escuro com o livro da francesa Lolita Pille, Blubble Gum. Em outras palavras, pelo blurb do livro eu supus que uma história sobre um mega ricaço e uma aspirante a modelo e atriz certamente deveria ter uma festa importante.

Claro que eu acertei em cheio. Bubble Gum conta a história de Derek, dono de uma empresa de petróleo e de um grande conglomerado de outras empresas, e de Manon, uma francesa do interior. Derek e Manon não poderiam ser mais diferentes e mais parecidos. Os dois detestam a vida que levam, por motivos extremamente diferentes, claro. Derek sofre de tédio porque não existe nada que ele não possa fazer ou ter. Manon sofre de tédio porque não tem nada para fazer na sua cidade natal.

As soluções que eles encontram também são diferentes, Manon vai para Paris testar a sorte como modelo. Derek resolve testar o limite do possível ao escolher alguém para destruir. A partir daí o livro é uma das histórias mais bizarras e surreais que já li na minha vida.

Numa trama enlouquecida, Lolita Pille faz uma crítica bastante contundente à sociedade de consumo desenfreado e a consequente coisificação das pessoas. Nenhum dos personagens é gostável, são todos loucos, megalomaníacos e egoístas ao extremo. Mas o livro foi feito para ser assim.

Confesso que fiquei bastante dividida. Por um lado o livro é maravilhoso, por outro, a coisa toda é tão extrema e enlouquecida e detestável que a leitura se torna pesada. Não é um livro para quem quer ler para relaxar. E se você tem gatilhos com violência, sexo ou uso de drogas é melhor passar longe também.

Mas preciso dizer que apesar ou por causa dessas coisas todas, adorei o livro.

Depois de lançar três livros com bastante sucesso de público (Hell em 2003, Bubble Gum em 2004 e Cidade da Penumbra em 2008), mas nem tanto sucesso entre os críticos literários, com um deles, Hell, virando filme em 2006, a escritora Lolita Pille sumiu. Quer dizer, ela tem um instagram pouquíssimo acessado... e só.

Uma pena, adoraria ler mais obras dela.

Nota 8,5.

sábado, 26 de janeiro de 2019

a máquina de fazer espanhóis



SPOILER FREE

Valter Hugo Mãe é um dos expoentes da literatura portuguesa. Vencedor de diversos prêmios e elogiado pelo próprio vencedor do Nobel Saramago, seu trabalho na maioria das vezes me agrada muitíssimo.

Claro que todo grande autor tem também seus altos e baixos, e depois de ler um livro de poesia do Valter que eu confesso que não gostei, preciso dizer que foi um alívio ler a máquina de fazer espanhóis.

O forte do autor português está justamente no tipo de livro que a máquina é, uma mistura de prosa poética com reflexões sobre a vida. Com uma história como meio para fazer essas coisas, claro.

a máquina de fazer espanhóis traz a história de Silva, um senhor de mais de 80 anos que, após a morte da esposa, acaba sendo internado por seus filhos num lar para terceira idade. Com passagens absolutamente brilhantes sobre a velhice, solidão e motivos para viver, Valter Hugo Mãe mostra o quão bom autor ele é capaz de ser.

Esse foi um dos melhores livros que já li do autor e isso não é pouca coisa. Recomendadíssimo.

Nota 10.



You and Yours



SPOILER FREE

Quando li pela primeira vez algo da autora Naomi Shihab Nye eu fiquei muito impressionada com o seu trabalho e decidi procurar algo mais oriental dela. E consegui encontrar isso em You & Yours.

Esse livro de poesia premiado em 2005 é um senhor soco no estômago dos americanos pós início da guerra do Iraque. Boa parte dos poemas de Naomi nesse volume tratam de questões relacionadas às guerras iniciadas pelo Bush, incluindo temas como xenofobia.

Como descendente de palestinos, Naomi também trata com carinho desse tema, em textos bastante tocantes sobre a situação da Palestina e até mesmo de porque alguém se torna terrorista. Aliás, uma das minhas citações favoritas desse livro:

Suicide bombers, those tragic people driven insane by oppression, do not come out of vacuums. They come out of demolished homes. They saw their fathers blindfolded, hauled off to prison in buses. They saw their friends gassed by poison, blown up, intestines strewn in the dust. Their mothers wailing and bloody.

Homens bomba, essas pessoas trágicas enlouquecidas pela opressão, não surgiram do vácuo. Eles vieram de casas demolidas. Eles viram seus pais serem vendados, levados para prisões em ônibus. Eles viram seus amigos sendo mortos por gases venenosos, explodidos, intestinos jogados na poeira. Suas mães chorando em desespero e sujas de sangue. (tradução livre minha)

Definitivamente o livro merece os prêmios que recebeu e fico muito satisfeita de ter procurado mais trabalhos da autora, que agora quero ler ainda mais!

Nota 10.

Instructions - Instruções



SPOILER FREE

Quem frequenta o meu blog sabe do meu amor incondicional ao trabalho do inglês Neil Gaiman. Para mim ele é um dos escritores mais versáteis da atualidade, com graphic novels, contos, novelas, livros infantis, infantojuvenis, young adult e para adultos. Seus trabalhos já viraram programa de rádio, filme, desenho animado e série de TV. Aliás, ele também já escreveu roteiros para essas coisas também.

Apesar de estar ainda na meia idade, seu trabalho é bastante extenso. E por ser muito famoso, às vezes me parece que a galera tenta produzir qualquer coisa nova com o nome dele para ganhar dinheiro. Instruções parece que vai entrar nessa lista de coisas.

A questão é que o texto não me pareceu ser feito exatamente para o livro. É uma poesia do Gaiman, linda, é verdade, mas ela na verdade foi feita para compor outros livros do autor. Como podemos ver na belíssima leitura do próprio aqui embaixo:



As ilustrações do Charles Vess são bonitas. Isso também não está em questão.

O problema é que o texto não foi feito para ser apresentado assim e isso ficou transparente ao longo da leitura para mim. Ficou com cara de: olha que texto legal! Vamos incluir numa coletânea. Agora vamos incluir em outra. Agora vamos fazer uma versão ilustrada! E dá-lhe formas de arrancar dinheiro dos fãs.

Vale apenas para introduzir crianças ao trabalho do autor, mas tem que lembrar que nem toda criança gosta desse tipo de texto. E o trabalho para crianças do Neil Gaiman tem coisas bem mais interessantes que isso.

Nota 8.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Life in motion


SPOILER FREE

Para quem não acompanha o mundo do balé clássico, Misty Copeland é atualmente a bailarina clássica negra mais famosa nos EUA. O fato dela ter conseguido chegar ao posto de bailarina principal do American Ballet Theatre sendo negra já fala por si só a respeito da qualidade do seu trabalho. O fato dela ter conseguido fazer isso tendo um corpo fora do padrão do balé clássico e ainda por cima só ter sido iniciada ao balé aos 12 anos de idade mostra o quão excepcional é a Misty.


Sabendo disso, eu já sou fã dela há algum tempo, e nem pensei duas vezes quando vi a sua autobiografia na Amazon, que em seguida entrou na wishlist e depois foi comprada em promoção.

O livro aparentemente foi escrito sem apoio de um ghost writer, e a história pessoal de Misty, que veio de uma infância pobre e complicada, é feita sob medida para levar às lágrimas. Junte a isso todas as superações raciais e dificuldades físicas/raciais e machucados inerentes à prática do balé clássico e você tem um livro armadilha pronto sem precisar de muitas palavras.

Por todas essas questões, Misty como bailarina é absolutamente irrepreensível e intocável. Mas como escritora... acho que ela devia ter pedido o apoio de um ghost writer. Não para tornar a história mais tocante, definitivamente não precisa disso, mas porque ela foi cuidadosa demais em alguns aspectos.


Entendo que como uma bailarina ainda na ativa, Misty Copeland precisa ter cuidado e ser bastante diplomática para não perder a sua posição. Mas o seu livro muitas vezes parece mais propaganda institucional ou pessoal de seus superiores e de onde ela trabalha do que uma autobiografia. Diferente de livro do Kenny Pearl, por exemplo, onde o autor foi generoso em seus relatos, Misty cai muito mais no puxa-saquismo do que na generosidade.

Ou isso ou ela tem uma sorte tremenda de só trabalhar com pessoas perfeitas.

E ela estende esse padrão não só para o pessoal do balé, mas também para sua família, amigos, professores, amantes e até o Prince. Sim, o Prince cantor, com quem ela trabalhou em mais de uma ocasião.

Sabe a música do Chico Buarque sobre a bailarina? O livro dela só tem gente assim.


O que de certa forma faz sentido, mas não deixa de ser uma pena.

Nota 7.