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terça-feira, 3 de novembro de 2020

Dancers Among Us: A Celebration of Joy in the Everyday


SPOILER FREE

Como boa amante de dança, eu gosto dos livros com imagens relacionadas a dança, e foi isso que me levou a comprar Dancers Among Us, do fotógrafo Jordan Matter.

Mas o trabalho de Jordan ultrapassa apenas a questão estética da dança, seu objetivo com o projeto Dancers Among Us é retratar bailarinos de alta performance (em sua maioria de dança contemporânea) em locais e poses baseadas no dia a dia de uma pessoa comum. E o livro é apenas o primeiro registro físico de todo esse projeto, que pode ser encontrado no seu site oficial, onde é possível ver algumas das fotos oficiais, além de vídeos sobre como algumas sessões foram realizadas. Recomendo muito a visita. 

Jordan Matter iniciou esse projeto de mega sucesso, já com outras edições pós lançamento desse volume, meio que por acaso, quando foi chamado para fotografar um bailarino. Ele nunca tinha feito fotos de dança, apesar de ser fotógrafo profissional. E da parceria dos dois nasceram as primeiras fotos que dariam origem a esse lindo projeto, que foi baseado numa busca do fotógrafo por imagens que retratassem o completo abandono e paixão do seu próprio filho enquanto brincava, e nada como bailarinos para tornar essa paixão visível.

O livro é um apanhado das melhores imagens tiradas até 2012, com alguns textos do fotógrafo explicando suas ideias e as loucuras que ele e seus bailarinos tiveram que fazer para conseguir alguns desses registros tão incríveis. É um livro digno de colecionador.

Nota 10.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Life in motion


SPOILER FREE

Para quem não acompanha o mundo do balé clássico, Misty Copeland é atualmente a bailarina clássica negra mais famosa nos EUA. O fato dela ter conseguido chegar ao posto de bailarina principal do American Ballet Theatre sendo negra já fala por si só a respeito da qualidade do seu trabalho. O fato dela ter conseguido fazer isso tendo um corpo fora do padrão do balé clássico e ainda por cima só ter sido iniciada ao balé aos 12 anos de idade mostra o quão excepcional é a Misty.


Sabendo disso, eu já sou fã dela há algum tempo, e nem pensei duas vezes quando vi a sua autobiografia na Amazon, que em seguida entrou na wishlist e depois foi comprada em promoção.

O livro aparentemente foi escrito sem apoio de um ghost writer, e a história pessoal de Misty, que veio de uma infância pobre e complicada, é feita sob medida para levar às lágrimas. Junte a isso todas as superações raciais e dificuldades físicas/raciais e machucados inerentes à prática do balé clássico e você tem um livro armadilha pronto sem precisar de muitas palavras.

Por todas essas questões, Misty como bailarina é absolutamente irrepreensível e intocável. Mas como escritora... acho que ela devia ter pedido o apoio de um ghost writer. Não para tornar a história mais tocante, definitivamente não precisa disso, mas porque ela foi cuidadosa demais em alguns aspectos.


Entendo que como uma bailarina ainda na ativa, Misty Copeland precisa ter cuidado e ser bastante diplomática para não perder a sua posição. Mas o seu livro muitas vezes parece mais propaganda institucional ou pessoal de seus superiores e de onde ela trabalha do que uma autobiografia. Diferente de livro do Kenny Pearl, por exemplo, onde o autor foi generoso em seus relatos, Misty cai muito mais no puxa-saquismo do que na generosidade.

Ou isso ou ela tem uma sorte tremenda de só trabalhar com pessoas perfeitas.

E ela estende esse padrão não só para o pessoal do balé, mas também para sua família, amigos, professores, amantes e até o Prince. Sim, o Prince cantor, com quem ela trabalhou em mais de uma ocasião.

Sabe a música do Chico Buarque sobre a bailarina? O livro dela só tem gente assim.


O que de certa forma faz sentido, mas não deixa de ser uma pena.

Nota 7.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Dance was her Religion

 
 
SPOILER FREE

Como uma apaixonada por dança que é também uma leitora compulsiva, volta e meia eu pego um livro bem teórico sobre o assunto. Dessa vez, uma análise sobre o aspecto místico e religioso das bailarinas que iniciaram o que hoje chamamos de dança moderna Isadora Duncan, Ruth St. Denis e Martha Graham.

Como os seguidores fieis do blog devem lembrar, não é a primeira vez que li sobre essas bailarinas em especial. Aqui você vai encontrar a autobiografia da Isadora, aqui uma Graphic Novel sobre sua vida, aqui uma coletânea de textos e poesias da St Denis e aqui um romance histórico sobre a vida da Martha Graham.

Isso é só para mostrar que não sou uma leiga completa no assunto e poder reclamar do livro Dance was her religion com alguma autoridade. Se você não está acostumado com livros acadêmicos ou não sabe nada sobre essas três bailarinas, Dance was her religion é uma leitura interessante e muito válida. Agora, se você espera algum tipo de tratado ou novidade sobre o assunto, melhor não perder o seu tempo.

As análises da Janet Lynn Roseman contidas no livro são bastante rasas, e estão mais no campo do achismo, apesar das fontes serem bastante diversificadas, interessantes e por vezes até difíceis de acessar, o que torna o texto cheio de excelentes citações de outras obras. Em termos de informações novas ou inéditas, também não adianta procurar aqui. A parte interessante nesse sentido é que a autora acertadamente critica outras obras sobre as três bailarinas que possuem informações equivocadas, e isso pode te poupar a leitura de outros livros que certamente não vão levar a nada.

Outro ponto positivo é a coletânea de imagens, a maioria pouco comuns em obras sobre essas três bailarinas, o que torna o livro bonito. E nesse sentido, dê preferência para a versão impressa dele, o livro digital não é bem diagramado e não tem todas as imagens do livro físico. Fala a pessoa que tem os dois, claro.

Só para esclarecer que eu não sou completamente doida: estou numa campanha de substituir meus livros físicos por versões digitais, para tentar liberar espaço nas minhas estantes de casa e diminuir o acúmulo de poeira. A ideia é linda, mas a realização tem deixado um pouco a desejar, infelizmente. Esse caso ilustra bem um problema, em algumas ocasiões o livro físico vale mais a pena do que o digital e aí eu não consigo me livrar do papel.

No geral, a leitura é agradável e fácil de ler. Dance was her religion é bem organizado e o texto flui, mesmo com a enorme quantidade de citações e notas de rodapé (que na maioria das vezes indica as fontes, o que adoro, nada melhor que um livro cheio de fontes). Mas é sintomático que eu tenha tido muito mais vontade de sublinhar as citações do que o texto em si da Janet Lynn Roseman.

No fundo, o problema é que é um livro mais voltado para leigos no assunto. Então, pessoalmente, eu não aproveitei tudo o que eu esperava.

Nota 7.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Belly Dance Journal



SPOILER FREE

Como os visitantes frequentes aqui sabem, eu adoro o mundo árabe e a dança do ventre, tanto que de vez em quando esse assunto surge aqui.

Esse livro em específico eu encontrei na Amazon por um preço em conta e resolvi comprar para ver se tinha alguma dica interessante. Só descobri que ele era uma adaptação digital para uma espécie de diário de prática quando peguei para ler.

Por ser uma adaptação, achei o trabalho muito bem feito. A autora e os editores precisaram fazer diversos ajustes consideráveis para publicar de forma digital, e o resultado ficou muito bom. Para os leitores que quiserem escrever como sugerido na publicação original em papel, eles chegaram a disponibilizar imagens das páginas originais para servir como guia. Muito simpático!

A questão para mim é que como eu não sabia que a ideia era ser um diário de prática de dança do ventre, eu esperava que o livro fosse um pouco maior e mais recheado de ideias. Não que o conteúdo em si seja ruim, de jeito nenhum, achei todos os conselhos e as sugestões pertinentes e muito bons. O problema é que tem pouco deles.

Os assuntos cobertos também são interessantes, e até bastante originais, fugindo do lugar comum desse tipo de livro. Mas poderiam ser mais desenvolvidos e não apenas em formato de bullets.

Em outras palavras é um excelente livro para iniciantes, mas meio sem graça para alunos avançados ou com muito tempo de estudo.

Nota 8.

sábado, 16 de junho de 2018

The Collaborative Habit: Life Lessons for Working Together

 
 
SPOILER FREE

Twyla Tharp é uma bailarina e coreógrafa de muito sucesso. Seu currículo inclui musicais da Broadway (exemplo: Hair), filmes de Hollywood (exemplos: Hair e Sol da Meia Noite) e trabalhos com grandes companhias de dança. Sem esquecer mais de um trabalho com a lenda Mikhail Baryshnikov.

Essa não é a primeira publicação da Twyla (sempre com a participação de algum escritor profissional) em temas adjacentes à dança que podem servir para qualquer pessoa (em outras palavras, autoajuda). Mas, essa é a primeira que eu leio.

Como alguém que já leu diversos textos que falam de administração, trabalho em equipe e organização, eu confesso que eu esperava algo mais do texto da Twyla. Talvez algo diferente que ela, por ter uma vivência muito específica no meio da dança, pudesse trazer e que tivesse pelo menos cara de novidade.

Nada disso. Não há nada de novo nesse livro.

O que valeu a pena então? As histórias. Com uma bagagem invejável na história da dança contemporânea norte-americana e uma variedade incrível de parcerias em tudo quanto é tipo de área artística, a melhor parte do livro são justamente essas histórias.

Caso você queira ler um livro sobre trabalho em equipe que não seja chato e repletos de exemplos corporativos, este é uma boa opção.

Caso você espere algo revolucionário, deixe para lá. Esse não é o livro para você.

Caso você goste de anedotas do mundo artístico, especialmente da dança, esse livro vai te agradar, apesar das inúmeras passagens marcadas, bem estilo autoajuda, que em tese servem para você se lembrar do resumo do que a autora quer passar.

Nota 7.

domingo, 27 de maio de 2018

Belly Dance Around the World



SPOILER FREE

Esse livro foi um achado que eu consegui para kindle na Amazon. Com uma coleção de 12 artigos sobre como as pessoas vivenciam diversos aspectos da dança do ventre ao redor do mundo, e relativamente novo, foi lançado em junho de 2013, o que o torna bastante atual.

A ideia é passear por diversas comunidades ao redor do mundo que praticam a dança do ventre, começando pelo Egito. Os dois primeiros artigos do livro tratam principalmente de como os egípcios enxergam essa dança. Em "What is baladi about al-raqs al-baladi?" a autora faz pesquisa de campo, notando como hoje em dia a sociedade egípcia enxerga e pratica o que chamamos de dança do ventre, além de entrevistar diversos egípcios sobre o que eles consideram que é "baladi".

No segundo artigo, "Finding the feeling: Oriental dance, musiqa al-gadid and tarab", a autora traz uma análise juntamente com entrevistas, de como as bailarinas profissionais de dança do ventre no Egito montam os seus shows (que são coisas épicas de mais de uma hora, com apenas uma bailarina solista) de forma a capturar o público e causar o que os árabes chamam de tarab (êxtase).

O terceiro artigo, "Performing identity" foca na comunidade canadense de bailarinas e praticantes de dança do ventre, e faz uma análise de como essa comunidade se enxerga com relação a sua prática, como ela foi influenciada por movimentos orientalistas e como descendentes árabes que fazem parte dessa comunidade percebem a representação da sua cultura inserida na cultura canadense.

O quarto artigo foi um dos meus favoritos em termos de análise. Em "1970s Belly Dance and the how-to phenomenon: feminism, fitness and orientalism", a autora apresenta uma análise do conteúdo de livros que começaram a surgir nos anos 70 nos EUA com o objetivo de ensinar dança do ventre. A autora faz uma análise riquíssima desse conteúdo com relação a outros movimentos da época, como o feminismo, o feminismo ecológico e o surgimento do movimento fitness, além do lançamento do icônico "Orientalism" do Edward Said.

 O artigo seguinte, "Dancing with inspiration in New Zealand and Australian dance communities", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia e da Austrália fazem uso da dança do ventre de forma a atingir formas diferenciadas de consciência, de forma que a dança passa a deixar de ser algo se uma cultura externa e passa a ser uma forma pessoal de expressão. Confesso que super me identifiquei.

 O próximo artigo trata especialmente de um novo estilo de dança que surge a partir de influências da dança do ventre, junto com outras danças étnicas, o ATS (American Tribal Style). Em "Local performance/Global Connection: American Tribal Style and its imagined community", a autora analisa como se dá a construção do que as praticantes de ATS entendem como uma comunidade global de bailarinas. Leitura obrigatória para praticantes de ATS.

Em "The use of nostalgia in tribal fusion dance", a autora ultrapassa a questão das influências orientalistas na cena atual da dança tribal fusion para entender o uso de movimentos culturais que ela categoriza como nostálgicos (como o valdeville), de forma a tornar a dança mais ocidental.
 
O artigo seguinte, "Belly Dance and  transculturation in New Zealand", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia acabam por fazer uso da dança do ventre como forma de criar uma expressão própria para mulheres que não fazem parte da comunidade indígena local, além das misturas que são criadas incorporando itens da dança maori, o que leva a toda uma discussão interna de apropriação cultural. Dá para fazer alguns paralelos interessantes com algumas fusões que diversas bailarinas têm feito pelo Brasil.

Em "Quintessencially English Belly Dance: in search of an English tradition", a autora traz todo um levantamento histórico de duas bailarinas do cenário inglês da dança do ventre que ela julga que moldaram o que hoje existe de dança na Inglaterra. O que achei interessante foi encontrar aqui a famosa Wendy Buenaventura, conhecida especialmente pelo livro "Serpent of the Nile", que apesar de muito orientalista e sem grandes fontes, é considerado quase uma bíblia da dança do ventre.

O artigo seguinte é o único que foca especialmente em uma única bailarina e a sua forma de trabalho, o que está bastante explícito no seu título "Delilah: dancing the earth".

O penúltimo artigo do livro foca especialmente em questões femininas na Índia e como isso afeta a visão local sobre a dança do ventre. Em "Negotiating female sexuality: bollywood belly dance, "item girls" and dance classes", a parte mais interessante para mim foi toda a análise de tipos de mulheres retratadas no cinema indiano, e o como é feito o uso de fusões com a dança do ventre para intensificar esses retratos.

O último artigo para mim foi o único que eu classificaria como bizarro. Em "Digitalizing raqs sharqi: belly dance in second life", a autora faz todo um levantamento do uso da dança do ventre no "jogo" second life, com direito a um estudo sobre uma comunidade (?!?!?!?) de bailarinas dentro do jogo e uma comparação com comunidades no mundo real. Para mim soa tão bizarro que até essa descrição parece estranha. Eu não entendo o second life.

Preciso dizer que apesar de alguns temas um tanto quanto específicos ou distantes da minha realidade, o livro em si é muito bom. Todos os artigos são bem escritos e com direito a uma bibliografia que dá vontade de ler inteira. Já recomendei especificamente para uma amiga minha que estava a procura de livros sobre dança do ventre. Super recomendado.

Nota 10.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Before they were belly dancers


      In 1896, my paternal great-grandmother and her only child, my grandmother, set out from Peoria, Illinois, on their Grand Tour of Europe, an extended vacation that eventually included a Cook's Cruise of Egypt's Nile. At the dock at Asyût, under a bright February sun, my great-grandmother wrote on her diary:
     Boats were drawn up along the shore; camels with huge loads went by and altogether it was a strangeand lively scene. Today just before the steamer started it was still more so. Many freight dahabehs [boats] were unloaded onto the camels and men with pig- and goat-skin water bagswere filling them from the river. A great gaunt, pink-legged ostrich strode by. A dancing girl with her face tattoed danced on the sand to the music of a coconut fiddle.

SPOILER FREE

Esse é um livro que fiquei muito feliz quando descobri que existia, dada a escassez de material acadêmico sobre a história da dança do ventre produzido por amantes da dança. Em consequência, fiquei meses namorando ele antes de comprar, até que não resisti. Acho inclusive que não o comprei em promoção, o que é algo muito raro.

E não me arrependi, pois o trabalho da Kathllen é excelente. Através de uma extensa pesquisa em textos de viajantes que visitaram o Egito entre 1770 e 1870, se não me engano, ela faz um levantamento bastante completo do que foi escrito sobre o mundo da dança no país, organizando a informação em diversos temas, de forma a melhor organizar os dados disponíveis.

Como boa pesquisadora, a autora ainda leva em consideração a questão do preconceito dos viajantes, em sua maioria ingleses e franceses, em seus relatos para tentar extrair o máximo de dados não corrompidos por uma visão eurocêntrica ou desmerecedora da cultura egípcia, especialmente no quesito de perceber a dança como excessivamente sexualizada ou animalesca.

Dessa forma, ela consegue apontar diversos fatos interessantes nos escritos de viagens, tais como a história das roupas utilizadas pelas bailarinas, a questão dos tipos de bailarinas que existiam na época, inclusive bailarinos homens que se apresentavam em tudo quanto é tipo de espaço. Ela consegue apontar alguns estilos de dança que já não existem mais, alguns acessórios que eram comuns, e até um pouco da biografia de algumas bailarinas e um bailarino da época.

De quebra ela ainda trata de alguns mitos comuns na comunidade da dança do ventre, apontando o que deles pode ser considerado apenas rumor e o que é de fato invenção. Levando em consideração a fonte de pesquisa, ela toma bastante cuidado ao não afirmar como verdade absoluta o que é contado pelos viajantes, o que é um ponto positivo. A única questão que eu acho que ela não trata muito bem é a questão dos europeus entenderem os bailarinos homens como travestis, pois pessoalmente eu tenho minhas dúvidas do quanto dessas afirmações são válidas e o quanto é julgamento europeu em cima de homens que dançavam "de saia ou vestido", usando maquiagem e mexendo o quadril.

A excelente qualidade do trabalho a parte, é preciso dizer que o livro é extremamente acadêmico, o que torna a leitura um tanto pesada e maçante em alguns pontos. Não que todos os textos acadêmicos sejam assim, mas não é o foco da autora fazer um texto leve ou agradável.

Fiquei tão feliz com essa leitura que já comprei mais um livro desse tipo, dessa vez do Anthony Shay (que eu já e gosto do trabalho) para ler no próximo ano.

Nota 9,5.

domingo, 10 de setembro de 2017

The Dance Gods: A New York Memoir

     I looked into the U.S. Immigration Officer in the eye and lied. The lie was planned and consisted of one sentence; my hopes of having a New York City career, dancing with the legendary Martha Graham Dace Company, depended on me saying it convincingly.
     I had spent the past two hours on a packed train, travelling from Toronto to the Canada - U.S. border near Buffalo, practising "the lie". Now the moment had come to sell it. The officer standing beside my seat was tall, thick and anonymous behind blue-tinted sunglasses. He asked the expected question: "What is the purpose of your visit?"
     The truth would have been: "I'm planning on living and working in your country illegally for many years without the required visa or Green Card." I gave my rehearsed answer instead, somehow managing to direct it intact through the butterfly wings beating frantically in my gut: "I'm going to spend a week in New York as a tourist to see the sights."
 
SPOILER FREE

Kenny Pearl foi um bailarino nos anos 70, dançando em companhias de prestígio, como da lendária Martha Graham e Alvin Ailey. Canadense e judeu, diferente de muitos grandes bailarinos, começou a dançar muito tarde, e apesar disso, chegou no topo do mundo da dança.

Em "The Dance Gods" ele nos traz com uma generosidade incrível momentos da sua trajetória, e, não tem como escapar, da história da dança e de diversas lendas, como a própria Martha Graham. E como artista, ele apresenta suas memórias em conjunto com o que acontecia no mundo a sua volta, entrelaçando movimentos culturais, política, história e seus sentimentos e pensamentos.

Além disso, Kenny é muito honesto, não deixa de lado nada do que pode pesar contra ele, como decisões ruins, sentimentos mesquinhos e ações duvidosas. Em contrapartida, ele é muito generoso e respeitoso com seus colegas e mentores, sem deixar de colocar peso em fatos menos agradáveis dos mesmos. Ele nos apresenta pessoas reais, que apesar dos defeitos, tem bom coração e merecem a fama que atingiram.

Em particular, Kenny nos oferece suas pensamentos sobre a dança, o que é ser bailarino, e sua relação com o corpo, a mente, os sentimentos, e o que o descuido com o corpo pode fazer com um artista que depende do corpo para se expressar. Num momento onde várias drogas novas surgiram, assim como novos cuidados médicos, a questão da relação do corpo com uma atividade como a dança é algo muito interessante. E nada simples. Como balancear corpo, mente, sentimentos e arte?

Numa prosa fluida e num belo texto, Kenny Pearl abre o seu coração de artista e sua experiência aprendendo a dançar e dançando ao redor do mundo ao lado de grandes nomes da dança. É um dos livros mais bonitos que já li sobre o assunto. Sensacional não é suficiente para descrever.

Nota 10.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Les danses dans le monde arabe ou l'héritage des almées


SPOILER FREE

Esse é um livro que deveria ser editado em todos os países onde se estuda dança do ventre, e que talvez eu devesse ter lido há muitos anos atrás, mas sabe como é a vida... nunca dá tempo de ler tudo que a gente gostaria e/ou deveria.

É uma coletânea de ensaios de diversos autores, começando pelo estudioso Christian Poché, francês, óbvio, que tem diversas obras muitíssimo interessantes sobre musicalidade, em especial a música árabe. Não consigo entender porque ele nunca foi traduzido para o inglês, é simplesmente uma perda para todos aqueles que não falam francês.

No ensaio de Christian (olha a intimidade), chamado "La danse arabe: quelques repères" (A dança árabe: algumas referências), ele trata da utilização de diversos termos pelos árabes para denotar ou não a dança ao longo da história. Porque, quem estuda dança do ventre deve ter percebido, existe uma total inexistência de estudos realizados por árabes acerca da dança árabe. Só se começa a ter algum tipo de registro de origem árabe, de estudos ou de forma puramente jornalística, a partir do século XX. E quando eu digo registro, não é alto do tipo, "na região Blá existe a dança Blé que se faz assim e assado", não, é algo ainda mais complicado, é a ausência da palavra em árabe que denomina o ato de dançar. De todos os textos do livro, esse é o mais pesado e complicado, mas é realmente essencial para se entender algumas dificuldades acadêmicas e também o posicionamento de diversos árabes com relação à dança.

No ensaio seguinte, da organizadora do livro, Djamila Henni-Chebra, cujo título é "Égypte: profession danseuse" (Egito: profissão bailarina), está o melhor texto do livro. No trabalho de Djamila está traçada toda a história documentada da dança do ventre, num trabalho primoroso de pesquisa em jornais e revistas egípcios. Pessoalmente, a melhor parte de ter lido esse texto é ter tido uma confirmação acadêmica e organizada de tudo o que eu já havia lido em pedaços por aí e que fui juntando na minha cabeça, Djamila simplesmente traduziu boa parte do que consegui apreender em 15 anos de dança e estudo num texto preciso e gostoso de ler. Pensando bem, acho que eu deveria me sentir mal.

O livro segue com 3 ensaios de danças folclóricas, o primeiro do Egito, compreendendo em trechos traduzidos da tese de mestrado escrita nos anos 70 por Magda Saleh, prima ballerina do Egito, que hoje vive nos EUA. Fiquei tão encucada com os trechos desse livro, que são tão ricos e bem escritos, que agora estou enlouquecida atrás do texto completo de Magda, e ainda não consegui. Uma tristeza.

O segundo ensaio de danças folclóricas é de Sellami Hosni, sobre a Tunísia, que achei interessante, mas eu não me interesso particularmente pelas danças tunisianas, então não li com tanta atenção.

E, por fim, um ensaio sobre danças da Algéria, de Brahim Bahloul.

Olha, é uma leitura obrigatória para quem estuda dança oriental.

Nota 10.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Choreographic Politics



SPOILER FREE

Então, como vocês sabem eu também sou bailarina, então de vez em quando eu leio uns livros bem técnicos relacionados à dança, em especial à dança do ventre, e esse aqui foi um achado que eu fiz há alguns anos na Amazon (sempre na Amazon...). Anthony Shay é bailarino e coreógrafo, e um grande estudioso da dança (ele tem outros livros na minha lista de leituras que também prometem), e de vez em quando ele lança algum livro imperdível com algum estudo absolutamente inédito na área.

"Choreographic Politics" é um desses livros. Nele, Anthony traz uma grande análise de companhias de danças folclóricas de diversos países, entre eles: URSS (isso mesmo, a união soviética), México, Turquia, Grécia, Irã (antes da revolução, claro) e, o grande motivo de eu ter comprado o livro, Egito.

A análise gira em torno da representatividade real dessas companhias com relação ao país que elas se dispõe a representar, não só com relação a totalidade ou não das etnias e estilos cobertos nas suas apresentações, mas também na verossimilhança do que é apresentado em palco com o que se encontra sendo dançado entre a população.

O ponto é que essas companhias acabam sendo uma representação gráfica da imagem que os seus governos querem passar do ideal que eles querem que seja a sua cultura, e acabam sendo um instrumento não só de propaganda externa, já que elas fazem turnês por todo o mundo, mas também podem ser utilizadas para moldar a forma como o seu próprio povo vê o seu país e trabalhar até mesmo um ideal de nacionalismo e o que significa pertencer a uma determinada nacionalidade. Bem complexo, não é mesmo?

Para tentar entender isso tudo, o autor se dispõe a mostrar, caso a caso, como a situação sócio-econômico-política de cada país teve uma relação direta com a forma como cada uma das companhias de dança analisadas realizou o seu trabalho, montou as suas coreografias, criou o seu corpo de baile, conseguiu ou não apoio do estado ou da população, e como elas influenciaram umas às outras em suas turnês internacionais. Um trabalho monumental e monstruoso em sua grandiosidade e tempo depreendido, e que Shay realiza com maestria.

Para quem quer apenas saber as curiosidades: Shay demonstra que boa parte do que chamamos dança russa é pura invenção, e nada tem de folclore de raiz. O México tem problemas sérios de identidade cultural, com uma briga de representatividade entre indígenas e descendentes de espanhóis, cuja herança cultural é muito mais celebrada e considerada de alto nível (semelhanças com o Brasil? hum...). A Turquia praticamente fabricou do nada o que significa ser turco, e nesse processo as danças foram muito utilizadas. A Grécia baniu do seu folclore tudo aquilo que pudesse ser remotamente conectado ao seu passado de dominação turco-otomana, e no processo não só ignora folclores com essa origem que realmente existem, como também aumentou a hostilidade para com sua população de origem muçulmana. Aliás, Grécia e Turquia tem um passado negro com relação a minorias que ambos tentam fingir que nunca existiu, mas vamos pular isso.

E, finalmente, o Egito. É tão bom ver um trabalho bem feito e bem fundamentado sobre o folclore egípcio... e melhor ainda, que fale com todas as letrinhas o que a muita gente no meio da dança do ventre prefere não falar, que a maioria dos folclores apresentados pelo Mahmoud Reda, o grande coreógrafo egípcio que todo o mundo usa como base para estudo, é inventada e nada tem a ver com o que os egípcios realmente dançam. Aliás, o Egito, assim como outros países árabes, tem um relacionamento meio complicado com a dança, uma coisa de amor e ódio que a gente, hoje, tem dificuldade de entender. E como estudar a história é importante para entender não só esse relacionamento, mas também o porquê de algumas coisas na própria dança. O que faz sentido, pois a cultura é um reflexo da história também.

Me fartei com o livro. Bom demais. Para quem curte geopolítica, relação entre política e cultura e dança, é um prato cheio.

Nota 10.

The Secrets of Egypt



SPOILER FREE

Eu ando super atrasada nas minhas resenhas, e esse livro aqui é a principal causa desse atraso. Estou há um mês enrolando para escrever sobre ele porque confesso que não gostaria de escrever e publicar o que eu realmente gostaria de dizer sobre ele.

Joana Saahirah é uma bailarina de dança do ventre portuguesa que morou durante oito anos no Egito, onde fez uma carreira muito interessante, e que abriu portas para ela viajar dando workshops pelo mundo inteiro. Ela possui um blog que é muito legal, e que tem um jeito de auto-ajuda para bailarinas, e eu acompanhei os seus vídeos e posts durante muito tempo, e gosto tanto do trabalho dela que assim que o livro saiu na Amazon eu comprei.

Demorei um bocado para lê-lo, é verdade, mas com a minha lista interminável de leituras, isso é normal.

Mas, gente, como fiquei triste ao ler o livro.

O que eu esperava: a história de Joana como bailarina, como ela saiu de Portugal, como foi se mudar, depois viver no Egito, como foi se adaptar a essa cultura tão diferente, e como isso mudou Joana como pessoa e como bailarina.

O que eu encontrei: uma história confusa, que a princípio era para ser o que eu esperava, mas veio entremeada dos textos de auto-ajuda do blog dela, o que não seria um problema, se não fosse extremamente repetitivo, e, o pior, contada de forma preconceituosa. A jornada de Joana no Egito não foi fácil, entendo isso perfeitamente, viver lá não é para qualquer um, ainda mais sendo mulher e bailarina, e entendo também que ela tenha sofrido muito, mas muito mesmo nesse processo. Mas fiquei chocada com a raiva guardada que ela acabou por colocar no livro, o que fez com que o texto soasse diversas vezes como extremamente preconceituoso, em especial com a religião islâmica.

Não que o Egito seja um lugar lindo e maravilhoso para mulheres, mas, assim, existem formas e formas de se dizer as coisas, não é mesmo? Não acredito que piadinhas, afirmações genéricas e uma visão de superioridade européia sejam uma boa forma de tratar o assunto. Se era para sensibilizar os estrangeiros, deu a entender que os egípcios, bárbaros e incivilizados, não têm jeito, se era para sensibilizar os egípcios, bem, se eu fosse egípcia eu ficaria com muita raiva. Então, sinceramente, não consigo entender o objetivo de tratar as coisas dessa forma.

Ainda bem que existem outros livros de bailarinas que são mais leves nesse sentido, e que também trazem informações super interessantes de como é viver como bailarina na terra das pirâmides. Se você se interessa pelo assunto sugiro "Ma liberté de danser", da egípcia Dina, e "Stories of a travelling bellydancer", da finlandesa Zaina Brown.

Nota 4.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Isadora Duncan - Minha Vida



Um dos temas das leituras de março desse ano (é, estou atrasada mesmo nas resenhas!) é uma biografia, e já estava na minha pilha de livros para ler há alguns anos a auto-biografia da bailarina Isadora Duncan, apenas uma das criadoras do que hoje chamamos de dança contemporânea.

Eu já havia lido uma Graphic Novel sensasional e lindíssima sobre a vida dela (aqui) e um livro com escritos de uma das suas contemporâneas mais famosas, Ruth St. Denis (aqui), e peguei o livro da Isadora bastante ávida por suas histórias, vivências e ideias.

Eu me sinto até mal em escrever o que vou escrever, mas, preciso ser sincera. Confesso que a autobiografia de Isadora deixou muito a desejar. Talvez por ter sido escrita no final da sua vida, quando ela já estava empobrecida e sua fama e sua dança mais apagadas da memória do público, o seu texto é extremamente recentido. E dessa forma, Isadora tenta se enaltecer e lembrar do auge do seu sucesso e tenta fazer ele durar o máximo possível ao longo da história que ela conta de si mesma (inclusive deixando de lado tudo o que aconteceu após a sua ida para a Rússia, que é o ponto onde termina a narrativa do livro).

O resultado do seu rancor é um texto pedante, cheio de citações de todos os artistas e personagens importantes que fizeram parte dos seus fãs. Entre essas citações e descrições de ações que beiram a irresponsabilidade, estão suas ideias sobre a dança e outras formas de arte, que é a parte mais interessante do livro, mas que fica escondida e é difícil de apreciar no meio de tanta loucura e orgulho.

Lendo sua versão da história, fica muito claro como ela era uma mulher livre muito, mas muito à frente do seu tempo (gosto especialmente da descrição da Paola Blanton sobre a Isadora, que ela era uma hippie 50 anos antes do movimento surgir, e era mesmo!), e isso causou muito sofrimento tanto para ela quanto para sua família e suas alunas. Em diversos momentos fica claro que suas atitudes e escolhas foram feitas de coração, mas foram muito condenadas simplesmente por terem sido tomadas numa época em que elas eram mal vistas. Fora as tragédias pessoais! Gente, é tragédia demais para uma pessoa só. E também fica claro o quanto isso a feriu e foi sendo somado ao longo do tempo no seu rancor e orgulho, porque só alimentando o orgulho para aguentar e permancer firme em sua liberdade e sanidade mental.

Pensando dessa forma, o livro é muito triste, porque você vê alguém com um gênio maravilhoso e com tanto potencial para deixar uma escola firme e forte para durar anos e anos se desfazendo ao longo da narrativa, e a sua escola nunca tomou o porte necessário para manter o seu legado tão presente quanto poderia ser hoje. Não que não esteja presente, quem estuda dança contemporânea sabe da sua importância na história da dança, mas muitos classificam o seu trabalho como sendo atualmente de museu, o que é muito triste. Talvez isso se dê pelo fato que quem deu continuidade à dança contemporânea foram os pupilos da Ruth St.Denis e de outras bailarinas da época, mas é importante lembrar que nada do que foi feito no século XX em termos de revoluções dançantes teria sido possível sem ela. E ver alguém com esse porte e genialidade se perdendo ao longo das décadas é algo de partir o coração.

Nota 7.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Destined to dance: a novel about Martha Graham


SPOILER FREE

Então... esse foi um dos poucos livros na minha vida que fiquei com muita, muita vontade de não terminar de ler. Foi uma luta ir até o final, e eu só fiz isso por dois motivos: 1- a Martha Graham é uma figura histórica importantíssima na dança, 2- se é para falar mal é para falar mal com propriedade.

"Destined to dance" supostamente é um romance histórico sobre a vida da bailarina Martha Graham, uma das pioneiras do que chamamos hoje de dança moderna. Mas o livro já começa fazendo escolhas duvidosas. Veja bem, Martha Graham só veio a falecer em 1991 , o que quer dizer que tem muita gente ainda viva que conheceu e conviveu com ela, fora toda a documentação abundante sobre a sua vida que é de razoável fácil acesso, além das diversas biografias e uma autobiografia já lançadas no mercado, logo um romance histórico precisaria ser feito com muito cuidado.

E já na primeira página a coisa desanda: o livro é escrito em primeira pessoa. Pessoalmente achei de arrogância incrível querer fazer um romance em primeira pessoa sobre uma personalidade com uma autobiografia lançada, mas tudo bem. Só que não para aí. Além de ser em primeira pessoa, o romance se passa no Hades (espécie de purgatório da mitologia grega), onde Martha vai fazer uma revisão da sua vida, numa espécie de auto julgamento. Duplamente arrogante na minha opinião, mas ainda podia ter salvação.

Mas não, o livro é escrito de uma forma absurdamente superficial, parece até um resumo escolar da vida da bailarina e coreógrafa, correndo para listar uma quantidade enorme de informações que não seriam relevantes num romance, só que em primeira pessoa. O que ficou especialmente bizarro, visto que até menções a críticas de jornais e de revistas aos espetáculos da Martha o livro tem. Mal escrito é um elogio.

Quando a tortura termina, a autora pelo menos se dá ao trabalho de mencionar suas fontes, que é a melhor parte do livro. Aliás, confesso que não entendi a preocupação da autora em mencionar o que é verdade ou não é no seu trabalho, visto que apenas os pouquíssimos diálogos e um personagem bizarro no final da história é que são inventados. No mais, tudo é baseado em fatos reais, e apesar de estar em primeira pessoa, é tudo tão pouco aprofundado e corrido que a autora não chegou a correr risco de fazer a bailarina se auto julgar. Afinal, listar trabalhos, relacionamentos, colegas bailarinos, viagens e prêmios não quer dizer nada, fora os relacionamentos é um curriculum, ou um artigo da Wikipedia.

Mais vale ler qualquer biografia já publicada da bailarina.

Nota 2, pela listagem de fontes no final.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Stories of a Traveling Bellydancer


SPOILER FREE

Então, como muitos já sabem (ou devem ter percebido), eu sou bailarina e adoro ler sobre dança e sobre o Oriente Médio. Quando descobri esse e-book estilo diário de viagem de uma bailarina de dança do ventre, não pude resistir e comprar, ainda mais pelo preço módico oferecido na Amazon!

Depois de passar algumas semanas me namorando no kindle, finalmente resolvi que era hora de lê-lo. Para minha surpresa, o livro é melhor do que eu esperava! (Pois é, confesso que não dava grandes coisas por ele, foi apenas uma paixonite por conta do tema, e vamos combinar que a capa tem um jeito terrível de chick lit).

Zaina Brown é uma bailarina da Finlândia (agora posso dizer que conheço uma autora de lá, vejam só!), que depois de morar algum tempo em Nova Iorque, resolveu passear pelo Egito, e de lá começou a viajar e a dançar pelo Oriente Médio, África e alguns outros lugares exóticos. O livro é uma adaptação dos emails que ela enviava aos amigos durante essas viagens, e o estilo da sua escrita é igual a de qualquer blog. Nesse quesito, Zaina é mediana, ela não escreve mal, mas não é brilhante, e a limitação de estilo pode ser chata para aqueles que buscam outros tipos de leitura.

Mas o que esse livro tem de fabuloso não é o estilo, e sim a história a ser contada! Zaina é uma boa cronista, e seus comentários sobre a forma como as pessoas vivem nos diversos locais por onde ela passa são ótimos! E além de visitar locais absolutamente exóticos (daqueles que você só vê fotos na National Geographic), ela é daquelas turistas que gosta de vivenciar a forma de vida local (até certo ponto, como boa européia ela tem limitações, especialmente no quesito talheres), e se mete em cada aventura que me deixou imaginando de onde ela tira tanta coragem. Além disso, todas as fotos das viagens contadas no livro estão no Facebook dela, o que dá um colorido extra ao livro, já que você pode depois ver o que foi descrito.

Agora fiquei triste por ter tão poucos vídeos dela no Youtube, gostaria de conhecer um pouco melhor a bailarina depois de ter lido o livro. Quem sabe agora que o Oriente Médio está meio complicado de se viajar, ela fique um pouquinho mais nos EUA e faça uns vídeos legais para os leitores assistirem também?

Nota 8.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Unveiling - the inner journey


SPOILER FREE

Enquanto esperava chegar outros livros de autores portugueses contemporâneos resolvi retomar essa leitura específica para bailarinas de dança do ventre e para mulheres interessadas em um caminho espiritual específico para mulheres.

Esse é um tema que hoje em dia me divide internamente, pois ao mesmo tempo em que vejo a necessidade específica para mulheres desse tipo de trabalho, atualmente tenho uma visão mais aberta do que seria feminino/masculino e do que isso significa para homens e mulheres, e essa forma mais abrangente de ver o problema me deixa desconfortável com algo feito exclusivamente para um sexo, ainda mais quando se trata apenas do sexo com o qual a pessoa nasce (isso quando ela nasce com um sexo bem definido, mas enfim).

O que hoje em dia eu acho que falta não é nem mais algo específico para mulheres, o que eu acho que falta é valorizar tudo o que é feminino, estando presente em quem quer ou o que quer que seja. Claro que esse processo pode e deve incluir algo voltado especificamente para o público feminino, mas voltado especificamente não significa, no meu ponto de vista, excludente ao público masculino. Até porque não são só as mulheres que precisam voltar a valorizar o que há de feminino nelas, os homens também precisam voltar a enxergar que eles também possuem traços femininos em si e voltar a ver isso com bons olhos, e não como falhas de caráter.

Feita essa introdução sobre o meu ponto de vista, vamos ao livro! A autora Alay'nya é uma bailarina de dança do ventre e cientista e PHD (no início do livro ela menciona o seu caminho acadêmico nesse sentido mas eu sinceramente não lembro mais dos detalhes), que durante anos praticou artes marciais antes de entrar em contato com a dança. A sua ideia com o livro é mostrar como a dança do ventre pode ser utilizado como um caminho espiritual para mulheres numa comparação quase que direta com outras formas mais conhecidas (e consideradas masculinas) como as artes marciais e a yôga.

Nesse quesito, de mostrar como a dança do ventre pode ser usada energeticamente, como ela trabalha o corpo físico e como isso pode ser transposto para o campo energético, além de como ela pode ser usada para o auto-conhecimento, a autora acertou lindamente. As passagens sobre os exercícios que a dança pode propor, tanto físicos quanto emocionais e espirituais são ótimas. A comparação que a autora faz dos caminhos que a dança pode proporcionar para trabalhar a jornada arquetípica contida nos arcanos maiores do tarô chegou a me deixar emocionada (e com vontade de estudar mais o assunto).

Porém, nos momentos em que a autora se propõe a falar sobre a psique feminina versus a psique masculina... achei um osso duro de roer. Não que fosse muito complexo, pelo contrário, nunca vi tantos clichês em toda a minha vida. Acho que ela colecionou todos os clichês de filmes estilo comédia romântica possíveis e resolveu colocar no livro como verdade universal amparado por pesquisas pseudo-científicas. Tem momentos que realmente dói ler as bobagens da autora.

O pior, na minha opinião, é que são os clichês mais machistas possíveis, daqueles que reduzem o homem a um ser simples que só quer saber de sexo, dinheiro e poder, e a mulher num ser "complexo" que ninguém entende porque ela quer ser dona de si mesma (afinal já passamos pela primeira revolução feminista, senão certamente esse pedaço não estaria no livro), dominar os homens, ser mãe e manter uma espécie de juventude eterna. A típica visão machista do mundo. Isso vindo de uma mulher que se acha feminista em alguns momentos e acha que "superou" o feminismo em outros. Enfim, a autora é uma mulher confusa, que, por consequência, acha que todas as mulheres são confusas.

Um dos problemas da visão apresentada pela autora, é que ela se baseia nos arquétipos da forma como são usados pela psicologia junguiana, e que ela infelizmente não entendeu bem. Veja só, só porque existem arquétipos femininos e masculinos isso não significa que homens só possuam arquétipos masculinos e mulheres só possuam arquétipos femininos. O que acontece é que na nossa sociedade nós ensinamos aos homens desde que eles nascem a reprimir os seus arquétipos femininos (aquela história de sempre: homem não chora, não brinca de casinha nem pode demonstrar sentimentos, né?) e enquanto isso ensinamos às mulheres que elas só podem demonstrar alguns arquétipos femininos (afinal, nem todo arquétipo feminino é considerado bom, ainda mais se for sobre liberdade sexual), a mulher ainda pode demonstrar alguns traços masculinos (claro, senão ela não sobrevive no mercado de trabalho masculinizado, né?) mas ai dela se se tornar masculina demais nesse processo. Em outras palavras, vivemos em uma sociedade em que tanto homens quanto mulheres se sentem incompletos e tolhidos de alguma forma (apesar deles demonstrarem isso de formas diferentes e, claro, as mulheres sofrerem mais por serem consideradas sempre inferiores).

E aí a autora perdeu uma oportunidade de ouro. Ao invés de falar do processo de "unveiling" como uma integração do ser como um todo, tanto dos arquétipos masculinos quanto femininos, podendo ser usado por qualquer pessoa, ela resolveu se ater ao caso da integração apenas dos arquétipos femininos nas mulheres. Sendo que o arquétipo da amazona é uma pseudo exceção que ela trata como sendo um traço masculino que as mulheres podem ter, e até devem cultivar nos dias de hoje, mas que deve ser domado para não tornar a mulher masculina demais. Veja bem, eu sou super a favor do equilíbrio das coisas, dos arquétipos e tudo o mais, o problema, no meu ponto de vista, é que o equilíbrio é diferente para cada um, então não existe isso de mulher masculina/feminina demais nem de homem masculino/feminino demais.

Enfim, sei que nem todos vêem as coisas assim (vide os posicionamentos da autora), mas espero que a humanidade esteja evoluindo nesse sentido. O que me entristeceu foi esperar algo mais interessante e progressista de uma bailarina de dança do ventre com tanta experiência em outros caminhos espirituais, ao invés da confirmação de um monte de preconceitos e clichês.

Nota 6.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Wisdom Comes Dancing





Quem acompanha o blog sabe que de vez em quando eu leio uns livros bem diferentes, e esse aqui é outro dessa safra! Nesse livro foram selecionados diversos textos, poemas e fotos da bailarina Ruth St. Denis, dando uma visão panorâmica sobre a sua filosofia com relação à dança e à espiritualidade.

A primeira parte do livro contem diversos textos de Ruth St. Denis sobre a Dança Divina, que parecem ensaios para um livro que ela planejava escrever sobre a dança, mas que nunca foi terminado ou publicado (o que realmente é uma pena). A segunda parte do livro está recheada de palestras que a bailarina deu, especialmente em 1936, na Society of Spiritual Arts em Nova Iorque. A terceira parte contem apenas poemas da bailarina, com os desenhos originais feitos por Ruth Harwood para ilustra-los (muitos poemas de Ruth St. Denis foram publicados na época). A quarta parte do livro contem alguns outros escritos da bailarina sobre o que significa dançar, ser bailarina, a dança como algo sagrado e os seus anseios de construir um templo onde a forma de louvar fosse a dança.

Ruth St. Denis era realmente uma mulher fantástica, nível Isadora Duncan de revolucionária no mundo da dança e na sua vida particular (levando em consideração a forma como as mulheres viviam na época, claro), e suas ideias lembram muito o trabalho teórico da sua contemporânea Isadora Duncan. A diferença entre elas está em como Ruth estudou muito mais o Oriente do que Isadora, e como ela misturava diversas religiões na sua forma de ver o divino e de se relacionar com ele, com ou sem a dança. Confesso que essa mistureba me deixou muito inquieta, mas o problema pode ser especificamente meu.

Outra diferença entre o trabalho de Ruth e Isadora tem a ver com a forma de se relacionar com o feminino, pois para Ruth todo ser humano tem dentro de si as duas forças, tanto a masculina quanto a feminina, e o equilíbrio divino estaria no meio do caminho entre as duas, isto é, no andrógino. Isso é especialmente marcante em algumas de suas fotos. (o livro tem uma sessão linda delas)

Agora, tanto para Ruth quanto para Isadora, o corpo, e por consequência a dança, é um canal de conexão com Deus, e por isso ele deve ser trabalhado de forma a ressaltar as suas qualidades nobres, para que o corpo possa servir de forma cada vez melhor como instrumento de oração, e também para melhor manifestar as qualidades divinas.

Algumas passagens que eu não resisto de colocar aqui:

"To dance is to relate one's self to the whole of the Universe. By placing one's body in the direct power of rhythm it becomes molded and developed in strength and beauty."

"Good posture and movement are natural and beautiful. In this culture of a future race we should learn to walk like gods instead of shuffling and stumbling like mortals."

"We should be like artists. Musicians regard their violin or piano with pride and care as the one thing necessary for their self-expression. Our bodies, likewise, should become the objects or our greatest concern. As musicians, onve having tuned their instrument to the correct pitch, promptly forget it in the joy of its use and the beauty it reveals, likewise our bodies, having been trained and harmonized, will be forgotten in the joy of our use. At present we neither value our bodies nor know how to use them to get the maximum of joy and health that is possible."

E para finalizar, o poema mais lindo de todos do livro (na minha humilde opinião):

Prayer for Artists

O, Divine Father and Mother,
Makers of heaven and earth,
Supreme artists of creation,
I, thy humble instrument
Kneel here at Thy feet.
I listen for Thy inward word
And I wait to behold Thy inward vision.

Cleanse Thou me
From all sin and self-righteousness
From all illusion of prided vanity and fear.
Make me sensitive to Thy sounds,
To Thy vision, and to Thy rhythms.

Let me express beauty,
The wonders of Thy universe 
And the immortal glories of my own soul
Which Thou hast given me.

Allow me to enter into that temple
Not made with hands
Wherein I may express the beauty of love
And the majesty of truth.

In humble and surrended gratitude
For life, for love and for wisdom
I offer again and yet again
To Thee, my heart, my body and my mind.

November 1936

Nota 10, né?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Skin of Glass


SPOILER FREE

Eis um livro extremamente diferente que me foi indicado por uma querida amiga da dança, "Skin of Glass - finding spirit in the flesh" de Dunya Dianne McPherson. Eu achava que era um livro sobre dança-meditação, mas descobri que é uma mistura de autobiografia com memórias.

O livro é emocionante do início ao fim, pois a vida Dunya é realmente fora do comum. Tudo começa com a dança clássica (balé) na sua infância, e na sua transformação em bailarina profissional. E tudo muda quando, em plenos anos 70, época do amor livre, Dunya acaba por sofrer um trauma na coluna que a impossibilita de dançar. Nessa época ela conhece um Mestre Sufi que a apresenta ao caminho da dança como forma de meditação e busca pela espiritualidade, através não só dos tradicionais giros sufis mas também da dança do ventre.

Dunya conta com detalhes como foi essa mudança de paradigma: a dança que era feita apenas para o olhar dos outros passa a ser feita apenas com o intuito de se olhar para dentro. E o que foi que ela encontrou dentro de si mesma nesse processo. Tudo isso narrado de forma extremamente poética e cheio de citações sufis e do Corão.

O interessante não é só o fato dela narrar toda essa transformação, mas ela também fazer isso do ponto de vista feminino, que contesta a espiritualidade "masculina" imposta a ela como sendo o único caminho a ser seguido pelo ser humano, além de estudar o papel da mulher na sociedade e nos relacionamentos. E nós acompanhamos a autora nessa viagem ao seu passado, que nem sempre traz boas lembranças, pois o caminho da espiritualidade não é desprovido de dor e decepções, tanto novas quanto desenterradas.

Fiquei absolutamente extasiada com o seu relato, e triste quando o livro acabou. Eu queria mais, muito mais. Agora vou correr atrás dos DVDs da autora, pois o livro não é sobre como meditar dançando, e sim como isso nos leva numa viagem para dentro de nós mesmos. E agora eu quero saber o caminho das pedras!

Quem curte autobiografias e memórias vai adorar esse livro. Quem gostaria de saber como é se entregar completamente à dança, leia o livro também. Quem gosta de livros sobre a espiritualidade também vai gostar. E para quem curte poesia, também é um ótimo pedido.

Nota 9 com muito zagroota*!


* nome dado ao grito ululante que as mulheres árabes fazem que denota contentamento, muito presente em festas de aniversário, casamento, e, no contexto da dança do ventre, de aprovação à bailarina. O famoso "lilililililililiiiiiiiii"

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Isadora Duncan a Graphic Biography


SPOILER FREE

Estou adorando esse mês do Desafio Literário, fazia realmente muito tempo que eu não lia nada parecido com quadrinhos. E essa Graphic Novel foi um grande achado que fiz pesquisando livros sobre Isadora Duncan, e arranjei um usado bem baratinho pelo site Better World Books, que vende livros usados por um preço extremamente amigável e não cobra frete, mesmo internacional. Só demora pra chegar, não se deve acreditar no prazo dito no site. Você compra e esquece, um dia chega.

Tendo como assunto Isadora Duncan, a graphic novel não tinha como não ser linda, e é mesmo. O prefácio da Lori Belilove (que é uma professora da técnica da Isadora em Nova Iorque, mas que volta e meia está nos visitando lá em Salvador) é muito interessante. E claro, a vida da Isadora Duncan é um escândalo. Ela era uma verdadeira revolucionária, em todos os sentidos. Fora que todos os aspectos da sua vida parecem saídos de um romance, de tão surreal que são. Essa mulher não era desse mundo.

Mas... mas... a autora, Sabrina Jones, deixa a desejar com o seu livro. Apesar de ter feito uma linda e extensa pesquisa tanto factual quanto gráfica da Isadora (dá até para reconhecer alguns passos *.*), o livro é extremamente superficial. Parece um resumo muito resumido da vida dela, e não uma biografia. O que eu achei uma pena, pois se o livro fosse mais extenso (pelo menos 3 vezes maior), ele poderia ser bem mais interessante e rico. E nós teríamos muito mais lindas imagens da Isadora para ficar olhando...

Nota 7,5.

Novamente para vocês terem uma ideia:

Aqui um gostinho do resultado na Graphic Novel

E a inspiração da autora veio de ilustrações de outros artistas que pintaram Isadora

E também de fotos dela feitas na época

Isadora dançando no Partenon em Atenas

E uma das imagens mais famosas, desenhadas e copiadas da bailarina

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ma liberté de dancer

SPOILER FREE


Post adaptado, o original está no blog Ventre da Dança


Como sou muito eclética, e andei fazendo compras um pouco grandes na Amazon, resolvi variar e ler uma auto biografia. Mas não uma auto biografia qualquer: a da grande bailarina egípcia Dina! É um livro bem recente, foi lançado no início do ano na França, com a colaboração de uma jornalista francesa, porque a Dina não ia, assim, escrever diretamente em francês, né?

Fiquei namorando o bendito livro por um mês na Amazon francesa, até chegar a conclusão que não dava para não comprar, e aí arranjei uma bela desculpa para comprar 20 livros (divididos entre a Amazon americana e francesa, veja bem), desses a maioria fala sobre a dança do ventre ou sobre o mundo árabe... mundo civilizado é outra coisa!

Pois bem, o livro da Dina é MUITO LEGAL! Além de ser escrito na primeira pessoa, com ela contando para você como foi a vida dela até hoje, inclui impressões de primeira mão sobre como a relação do povo egípcio com a dança do ventre foi mudando nos últimos 20, 30 anos. Em outras palavras, ainda por cima é uma bela aula de história e de cultura!

Então, como o livro por enquanto só está disponível em francês (mais fresquinho do que isso impossível!!!!), vou dar uma ideia do que vocês podem encontrar na história da Dina, mas sem spoiler, porque acho sacanagem. Ela passa por todos os momentos marcantes da sua própria vida, o que é bem interessante, afinal todas querem saber como foi que ela começou a dançar, não é? Onde ela aprendeu, com quem, se teve problemas com a família por conta da sua escolha... está tudo lá! De quebra ela descreve como é o seu dia a dia de diva no Egito! Passa pelo nascimento do filho dela (a descrição do parto é ótima! Melhor propaganda da dança do ventre que já li), pelos casamentos mais importantes e pelo escândalo em que ela foi envolvida e que aqui no Brasil quase ninguém ouviu falar.

De lambuja, ela comenta e explica porque nos vídeos antigos de dança do ventre você vê todas as mulheres assistindo aos shows descobertas, usando decote e cabelos da moda (da época, pelo amor de deus, o que é aquilo!), mas nos vídeos mais contemporâneos você conta nos dedos (isso quando você encontra) as mulheres que não estão usando véu. Pura aula de história e antropologia!

Mas nem tudo é perfeito... nem o livro da Dina. A primeira coisa que se nota é o subtítulo "la dernière danceuse d'Egypte" (a última bailarina do Egito), que é no mínimo um escândalo quando você tem a egípcia Randa dançando pelo mundo inteiro e com show fixo no Nile Maxime (um navio cruzeiro que passa pelo Cairo). Mas é a Dina, né? É DIVA. Mas ela não fala da Randa em momento algum do livro... só de bailarinas mais antigas. Tudo bem, não conheço mais nenhuma bailarina egípcia em atividade hoje que não seja a Dina ou a Randa, seria compreensível que as duas disputassem uma com a outra, né? O que nem sei se é o caso, mas suspeito por razões óbvias.

Outra falha, sendo o único livro que conheço que foi escrito por uma bailarina egípcia, era de se esperar que tivesse pelo menos alguma informação sobre a versão das egípcias para a origem da dança do ventre, ou sobre os movimentos e técnicas egípcios, não é? Pois bem, não tem quase nada sobre o assunto :-( achei uma pena. Podiam ter aproveitado.

Outra coisa que faz falta: FOTOS. Só tem a da capa snif snif snif... como podem fazer um livro auto biográfico de uma bailarina sem fotos? Não entendi.

Mas ainda assim é leitura obrigatória para estudantes de dança do ventre! Recomendadíssimo!

Nota 8,5!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Escritora Rosina-Fawzia Al-Rawi

Hoje é dia de postar sobre uma escritora! Afinal, ainda não consegui terminar o tal livro deprê...

Esse post originalmente é do blog Ventre da Dança, sobre dança do ventre e o feminino, porém, ele é sobre livros, então também merece constar aqui! Espero que gostem.

Essa escritora de origem Iraquiana e que atualmente mora na Alemanha foi um verdadeiro achado. O primeiro livro dela com que tive contato foi indicado por uma professora minha, e desde então eu cato tudo que essa mulher escreve (apesar de só conhecer 2 livros dela publicados em inglês).

O primeiro livro dela é de 1996, e é bem conhecido no mundo da dança do ventre: Grandmother's Secrets - The Ancient Rituals and Healing Power of Belly Dancing (algo como Segredos da Vovó - os antigos rituais e o poder cura da dança do ventre).






O meu exemplar, coitado, já está todo marcado, sublinhado e escrito nas bordas (a lápis!)... mas é de leitura obrigatória. Inclusive, acho que está na hora de relê-lo...

A escritora conta a sua história pessoal com a dança do ventre, como ela é passada de geração em geração na sua família, e, no seu caso, como ela aprendeu a dança com a avó desde pequenininha. É tão lindamente escrito que às vezes até parece um livro de poesia.

O livro é dividido em 4 partes, a primeira é justamente como ela aprendeu a dançar (lindas histórias com a sua avó), a segunda é um apanhado da história da dança do ventre (é aí que o bicho sempre pega, dado que os documentos históricos sobre a dança são muito raros e imprecisos) com direito ao mito da descida de Ishtar ao submundo para salvar Tammuz (mito que uma outra bailarina me indicou um livro esgotado que contradiz essa versão do mito... a ser verificado ainda). A terceira parte é um lindo manual sobre cada parte do corpo e a sua importância na dança, na vida e para a feminilidade. A quarta e última parte é uma coletânea de rituais com a dança do ventre, especialmente os ritos de passagem.


O outro livro dela, Midnight Tales - A Woman's Journey Through the Middle East (algo como Histórias da Meia Noite - A Jornada de uma Mulher pelo Oriente Médio), é uma espécie de coletânea de histórias pessoais durante viagens ao Oriente Médio. É um livro extremamente rico, mostrando um mosaico da cultura do Oriente Médio, e é dividido por país, o que é bem interessante, pois evidencia melhor os contrastes entre eles.

Pessoalmente eu curto livros assim, pessoais, acho que enriquece e dá mais cor aos relatos, mais que os livros puramente científicos. E como estamos tratando do feminino, essa cor e a vivência se tornam essenciais.