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segunda-feira, 30 de maio de 2022

Os cinco porquinhos - Five little pigs


SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de maio, com o tema um livro com o número cinco no título, me deparei com o problema de ter poucos livros (ou quase nenhum) ainda não lidos que se encaixavam nessa categoria. Ao mesmo tempo, me encontrei com uma oportunidade de ler um livro que eu confesso que tinha um certo preconceito somente por causa do título. 

Os cinco porquinhos, um mistério da grande rainha Agatha Christie, do seu famoso detetive Poirot, recebe esse título por conta de uma rima infantil, que em inglês tem até mais de uma versão. Toda a questão ocorre em torno de cinco personagens principais, que foram testemunhas de um caso antigo e já considerado encerrado, a morte do pintor Crale, cuja esposa, Caroline, foi declarada culpada do seu assassinato. Entretanto, a filha do casal, uma criança de colo na época do ocorrido, às vésperas de seu casamento, contrata Poirot para provar que sua mãe era inocente.

Uma das coisas mais interessantes desse volume, é que é um dos poucos que vi da Agatha (se não o único que li até agora dela assim) onde é possível encontrar a história sendo contada de diversos pontos de vista diferentes. E não apenas porque Poirot vai conversar com cada um dos cinco envolvidos: Philip Blake (amigo de Crale), seu irmão Meredith Blake, Elsa Greer (a amante), Cecilia Williams (a governanta) e Angela Warren (irmã de Caroline). Além das entrevistas, cada um deles escreve uma espécie de carta, relatando tudo o que lembra do fatídico dia do assassinato.

O mistério, dessa forma, nos é apresentado em diversas camadas e ângulos distintos, o que é imprescindível por se tratar de um crime de arquivo morto, isto é, muito antigo e considerado já resolvido. E além das questões tradicionais dos livros de mistério da Agatha, esse ainda traz uma discussão bastante interessante sobre a memória.

De forma geral, a leitura, como na maioria dos livros da Rainha do Crime, é uma delícia, fluida e gostosa. E preciso dizer que Os cinco porquinhos me impressionou muito, e consigo dizer sem medo que, dos livros que já li dela, é simplesmente dos melhores, se não o melhor. Vale muito a pena.

Nota 10.

domingo, 24 de outubro de 2021

Snow, Glass, Apples


 

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema contos de fadas, resolvi pegar um autor que adoro, mas que faz um certo tempo que não leio, Neil Gaiman. Dessa vez, escolhi uma graphic novel lançada em 2019, Snow, Glass, Apples, que ainda não foi traduzida para o português, e que é baseada num conto do autor publicado em 1994.

Para a graphic novel, Gaiman se juntou à ilustradora Colleen Doran, com quem ele já havia trabalhado em Sandman e na adaptação de Deuses Americanos para quadrinhos, e que tem um histórico extenso de trabalhos com a Marvel e a DC. Com Snow, Glass, Apples eles ainda ganharam o prêmio Eisner de melhor adaptação, o Bram Stoker Superior Achievement in a Graphic Novel e o Ringo Award for Best Graphic Novel. E as razões deles terem ganhado os prêmios são bem visíveis.

Não só temos uma excelente releitura da Branca de Neve, no estilo sombrio de Neil Gaiman, com um jeito até mais adulto do que eu esperava para uma versão de um conto de fadas, mas Colleen fez um trabalho gráfico absolutamente brilhante. As ilustrações são de uma beleza ímpar, com uma pesquisa sobre o ilustrador irlandês Harry Clarke, que tem um estilo tipo Art Nouveau, o que deu à graphic novel um ar meio antigo que combinou muito bem com a narrativa.

Em Snow, Glass, Apples, Gaiman traz uma inversão de papeis para Branca de Neve, o que em 1994 não era comum, com um quê de sobrenatural. E a forma como ele vilaniza a protagonista é original, mas de uma forma que depois que você enxerga com os olhos dele, não tem mais como desver. Nunca mais vou conseguir olhar para Branca de Neve do mesmo jeito. E apesar da violência e das questões sexuais do enredo, Colleen conseguiu criar uma estética que valoriza o conjunto do enredo, ao invés de fazer um show de horrores, e mesmo assim o resultado não é infantil, o que me parece que era uma preocupação bastante justificada. Definitivamente o livro não é para crianças.

O resultado final é uma leitura belíssima, dinâmica e que deixa com um gostinho de quero mais, justamente porque ela é curtinha. Nem sempre curto as adaptações dos textos de Gaiman, porque muitas me parecem caça-níquel, mas Snow, Glass, Apples é tão bem feito que definitivamente é uma obra à parte e que se sustenta sozinha.

Nota 10.

sábado, 3 de abril de 2021

O Hobbit


 

SPOILER FREE

Com o aniversário de 20 anos do primeiro filme de Senhor dos Anéis (é verdade, pode checar, também fiquei chocada), resolvi não só rever os seis filmes baseados nas obras do Tolkien, como reler os livros.

E não tinha como começar sem ser pelo Hobbit, que tem o primeiro parágrafo mais icônico da literatura infantojuvenil:

Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e cheiro de lodo; tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit e isso quer dizer conforto.

Depois de tantos anos e leituras, reler o Hobbit foi uma experiência muito interessante. Por um lado, o texto de Tolkien é realmente muito divertido, e a razão de ter se tornado um grande clássico é bastante claro. Apesar das musiquinhas, que eu não consigo encontrar razão de ser na biografia do autor.

Ah, mas e o racismo e o machismo? Gente, o homem nasceu na era vitoriana na África do Sul, viveu no interior da Inglaterra quando criança e ficou órfão ainda criança, tanto de pai quanto de mãe, e foi criado por um padre católico. O que mais você esperaria? Nesse sentido, ele é até suave. Pelo menos ele não é propositalmente racista ou machista, o que já é acima da média de autores contemporâneos.

Curiosidade 1: o nome Bag End veio de uma fazenda da família da mãe dele.

Por outro lado, o texto sofre com os tempos modernos e a total falta de personagens femininas. A única personagem feminina com nome em O Hobbit é uma familiar do Bilbo, que rouba suas colheres. E não importa muito onde eles passem, todos os personagens são masculinos, sejam elfos, sejam anões ou orcs, trolls ou góblins. Imagino que todos nasçam de flores ou direto da terra (contém ironia).

Curiosidade 2:  O Hobbit foi primeiramente traduzido em Portugal com o título O Gnomo.

Pelo menos, pela pouca presença de seres humanos nessa história, O Hobbit escapa de forma bastante ilesa de questões raciais.

Agora, independente da época em que o livro foi escrito ou a história do seu autor, O Hobbit sofre de ter personagens muito simples. Ou é bom ou é mau. É aceitável porque o público é obviamente infantojuvenil, mas, certamente o enredo fica mais pobre. O que Tolkien compensa com uma variedade enorme de espécies e raças, cada uma com sua história e características.

Além disso, toda a carreira acadêmica de Tolkien deu a ele uma profundidade na compreensão de como mitos funcionam. E isso possibilitou o autor de tornar o enredo bastante icônico e deixar um marco inegável na literatura. A estrutura aventuresca de O Hobbit, que se repete de forma mais complexa em Senhor dos Anéis, onde os personagens se descobrem mais fortes do que imaginam e acumulam experiência e itens encontrados no caminho é a base não só de outros livros, mas também de roteiros de cinema e TV e jogos. Isso não é pouca coisa.

O resultado é um livro que resistiu bem ao tempo, apesar dos problemas, e que a leitura é agradável e dinâmica.

Nota 9 para o livro.

E a adaptação para as telas?

Curiosidade 3: Até os sovietes adaptaram Senhor dos Anéis, vos apresento Khraniteli.
 

Bom, os livros de Tolkien foram adaptados inúmeras vezes, incluindo peças de teatro, animações, novelas de rádio (coisa de inglês, vamos combinar), especiais de TV, séries e filmes. Então, vamos esclarecer que estou falando dos filmes do Peter Jackson.


A trilogia de filmes de O Hobbit, que o diretor pôde fazer por conta do sucesso de Senhor dos Anéis, foi recebida de forma dividida pela crítica e pelos fãs. Há os que amam e os que odeiam, especialmente porque em O Hobbit, Peter Jackson resolveu usar aquela tecnologia bizarra de sei lá quantos mil frames por segundo que dava uma sensação muito doida no cinema nos primeiros minutos de projeção. Tanto que o início do primeiro filme é bem lento para tentar gastar o tempo necessário para os espectadores se acostumarem.

Pessoalmente, eu gosto de algumas decisões na realização dos filmes. Gosto do Bard ter ganho mais visibilidade, a cena em que ele mata o dragão é maravilhosa, e não tem no livro, por exemplo. Não desgosto de terem incluído o Légolas, apesar de Orlando Bloom estar claramente mais velho e encorpado. Quem mandou fazer a história fora de ordem? E gosto de ter uma elfa guerreira fodona que, de alguma forma, incorpora o "amor proibido" entre Guimli e Légolas e supre em parte a falta de personagens femininas no texto original. Aliás, Jackson podia ter ido mais longe nisso nos primeiros filmes, só digo isso...

Dito isso, preciso desabafar que os três filmes são muito longos. E para completar o tempo de 3 filmes, Peter Jackson criou arcos de história inteiros que não estão nos livros e que não ficaram bons. Sim, estou falando especificamente do arco do Thórin e do Azog. Vamos esclarecer, não precisava do Thórin ser o novo Aragorn, e o enredo dele ficou forçado até o último fio de barba. O Azog, no livro, só é mencionado uma única vez.

Queria fazer mais de um filme? Ok, ficou legal colocar a batalha contra o Necromante, aproveitando pra mostrar mais personagens dos filmes anteriores. Ficou legal explorar mais os elfos e os humanos. Aliás, estrelinha pela diversidade racial em Dale/Cidade do Lago, que não existe nos três filmes inteiros do Senhor do Anéis. Mas isso dá dois filmes, e é suficiente. Três não é um número tão mágico assim.

Apesar das reclamações, tenho que confessar que gostei mais dos filmes revendo agora do que na época em que foram lançados. O visual é muito bonito, e mesmo com os problemas é um excelente entretenimento.

Nota 8 para os três filmes.

SPOILERS

Pequena lista de diferenças entre os filmes e o livro:

  • Azog é mencionado uma única vez no livro, matou o avô do Thórin e é só isso.
  • Quem enrola os trolls até o sol nascer no livro é o Gandalf. O Bilbo estava preso nuns arbustos.
  • A batalha dos gigantes de pedra está no livro, mas ela é vista à distância e dura um parágrafo.
  • Sim, há cantorias a todo o momento. Os góblins também têm uma música pra eles. Entretanto as letras são diferentes, apesar de boa parte da maravilhosa canção inicial dos anões estar no livro.
  • As águias aparecem e salvam geral no livro. Mas não tem aquela disputa com o Azog e nem o momento de heroísmo do Bilbo pra salvar ninguém. Eles estavam cercados por wargs que esperavam os góblins pra juntos atacarem aldeias próximas.
  • Batalha com o necromante? Galadriel? Não. O Gandalf chega na entrada de Mirkwood e diz que precisa tratar de outro assunto, e só volta a aparecer pouco antes da batalha dos 5 exércitos.
  • Thórin não chega a ser capturado pelas aranhas em Mirkwood, ele é o primeiro a ser capturado pelos elfos, que depois capturam os demais anões quando eles estão lutando contra as aranhas. E, no livro, isso tudo acontece porque eles saem da estrada porque estão com fome, e na mata fora do caminho demarcado, luzes aparecem para iluminar grandes banquetes élficos. Bando de elfo fdp.
  • Depois que os anões são libertados pelo Bilbo da prisão dos elfos ninguém vai atrás deles no livro. Não tem o Légolas, não tem a elfa fodona, não tem a perseguição dos orcs. Eles fogem pelo rio e chegam direto na Cidade do Lago, onde são recebidos pelo chefe local e ganham todo o equipamento para seguir para a montanha.
  • Bard não tem família no livro, não é ele que salva os anões ou os leva escondidos pra cidade. A tal flecha negra é sim uma herança, mas, não é especial para matar dragões e nem existe o atirador especial para ela no livro. Aliás, o nome dele só aparece quando o dragão sai da montanha e ataca a Cidade do Lago. Depois, por ele realmente ser descendente do chefe de Dale, ele assume como chefe dos humanos na batalha dos 5 exércitos.
  • A batalha dos cinco exércitos é mais curta no livro. Os elfos aparecem porque os pássaros da montanha contam o que está acontecendo pros elfos, que querem o ouro também. Os humanos querem reparação pela destruição da Cidade do Lago. Os anões usam outros pássaros para chamar o seu exército. Os orcs/góblins aparecem porque estão atrás dos anões que mataram o rei dos góblins, e essa movimentação chama atenção das águias e do Beorn, que também participa da batalha. Morrem na batalha: Kili, Fili e Thórin, este último tem uma morte bastante pomposa, com direito a se despedir de um monte de gente, inclusive do Bilbo, a quem perdoa pelo roubo da Pedra Arken.

sábado, 14 de novembro de 2020

The Abominable Snowman


SPOILER FREE

Terry Pratchett é um autor com o qual eu tenho uma relação um tanto quanto estranha. Adoro seus livros, seus textos sobre literatura, e amo de paixão Belas Maldições com Neil Gaiman. Entretanto, não consigo ler muitas coisas dele, porque ele me cansa.

Então, como respiro entre um livro mais pesado e outro resolvi pegar The Abominable Snowman, que é um dos seus poucos livros infantis. Eu estava no clima por causa de Witches do Roald Dahl e me pareceu uma excelente ideia.

E que decepção. The Abominable Snowman definitivamente não é uma boa obra do Terry Pratchett. O livro em si é bem fraquinho, com uma história boba demais, apesar de ter o humor característico do autor. Até as ilustrações do Mark Beech estão meio sem graça. Talvez tenha sido a comparação direta com Roald Dahl, que é muito maravilhoso com seus livros infantis, acho que Pratchett escreve melhor para outro público. 

Talvez seja um pouco de exagero também, porque o livro não é ruim, afinal ainda estamos falando do inglês de chapéu que forjou sua própria espada quando se tornou Sir em 2009. O cara não brinca em serviço.

Mas tem muita coisa melhor dele para ler por aí.

Nota 7.

sábado, 31 de outubro de 2020

The Witches - As Bruxas


 

 SPOILER FREE

Aproveitando o finalzinho do mês para fechar com tudo o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema livros com protagonistas crianças com um dos clássicos da literatura infantil: As Bruxas!

O livro é de Roald Dahl, um aclamado autor inglês que escreveu diversos clássicos que muitos acham que são só filmes, entre eles A Fantástica Fábrica de Chocolate, Matilda e As Bruxas!


Esse ano foi a vez de As Bruxas ganharem um remake em Hollywood. O primeiro filme, de 1990, contava com ninguém menos que Angelica Huston no papel da grande bruxona má e participação especial do Mister Bean, quer dizer, do Rowan Atkinson. E ela protagoniza uma das melhor cena de todos os tempos com uma bruxa. 


O remake saiu direto no HBO Max no dia 22 de outubro por motivos de pandemia. E dessa vez temos Anne Hathaway no papel da bruxona, Octavia Spencer no papel da vó fofa e Stanley Tucci.

 

O filme de 1990 é mais próximo do texto original numa maior quantidade de aspectos, com passagens inteiras tiradas exatamente como no livro. Além de ser mais interessante de forma geral. O remake, infelizmente deixa a desejar perto do original, apesar das boas atuações e da excelente adaptação para o interior norte americano e com um protagonista negro. Que ideia linda desse roteiro, que teve participação do Guilherme del Toro.

Mas, nenhum dos dois se compara ao livro! Roald Dahl é o precursor de Neil Gaiman em termos de histórias infantis com uma boa dose de terror, vide os filmes originais de As Bruxas e Fantástica Fábrica de Chocolate, e seus livros. O autor inglês não disfarça as maldades e por vezes usa de requintes de crueldade em seus enredos.

Isso tanto é verdade que as primeiras adaptações dos seus livros para o cinema tiveram os seus finais modificados para ficarem um tanto quanto mais açucarados. Talvez porque os pais acabam indo junto ao cinema, mas nem sempre leem junto os livros com filhos. Mas seu texto é uma delícia de ler, mesmo com esses aspectos pouco convencionais, ou, na verdade, justamente por causa deles. 

Para aqueles que conseguiram nunca ouvir falar de As Bruxas, o livro, publicado em 1983 com ilustrações de Quentin Blake, em mais uma colaboração com o autor, acompanha a história de um menino de sete anos, sem nome definido, que passou a morar com a avó, uma grande conhecedora de bruxas. Aliás, as descrições originais das bruxas são maravilhosas, ponto pra Roald! Apesar da avó ser da Noruega, os dois se mudam para a Inglaterra, e após alguns problemas vão parar num hotel de luxo, onde, por acaso, está sendo realizada a grande convenção das bruxas do país.

Não é à toa que é um clássico, é uma leitura divertida para todas as idades! E vale a pena ler o livro e assistir aos dois filmes, nada mais maravilhoso para comemorar o Halloween!

Nota 10!

domingo, 30 de agosto de 2020

A súbita aparição de Hope Arden - The Sudden Appearance of Hope


SPOILER FREE

Agosto está acabando, mas ainda dá tempo de colocar no ar as resenhas do Desafio Literário Popoca do mês, cujo tema é um livro escrito sob um pseudônimo!

Aproveitei o tema para ler mais um livro da maravilhosa Claire North, que já apareceu por aqui com As primeiras quinze vidas de Harry August. Pois bem, Claire North é um dos pseudônimos da escritora Catherine Webb, que já ganhou diversos prêmios por seus livros. Como Claire North ela prima por suas histórias de realismo fantástico, como também é o caso de A súbita aparição de Hope Arden, na tradução de Portugal, porque o livro ainda não foi publicado no Brasil.

Pela primeira vez a autora traz uma protagonista feminina, Hope Arden, que tem o estranho poder de ser absolutamente esquecível. Você pode passar horas conversando com ela, mas se em um minuto você para para prestar atenção em alguma outra coisa que não seja Hope, ela foge completamente da sua memória. Ela e tudo o que você conversou com ela.

Só uma personagem com essa característica já é pano para manga para uma história sensacional e com um viés psicológico intenso para a protagonista, que se encontra eternamente sozinha e sem conhecidos, o que é devidamente explorado pela autora. Mas Claire North gosta também de tornar esse tipo de personagem apenas mais uma das partes dos seus enredos complexos.

Hope tira algum tipo de proveito da sua situação única, claro, e se torna uma ladra profissional, e com uma forma de atuação bastante incomum. Ela é pega algumas vezes, mas, quem se lembra não é mesmo? Até que ela se depara com algo que promete mudar o mundo, o aplicativo Perfection.

O aplicativo promete transformar seus usuários em pessoas perfeitas, perfeitamente belas, perfeitamente bem vestidas, perfeitamente bem atendidas em lugares exclusivos e também perfeitos. Em troca, ele tem acesso total à toda vida do usuário. Toda a vida.

Hope, apesar de ser totalmente esquecível por humanos, não é esquecida por máquinas, e por isso ela decide ficar distante de Perfection. Porém, quando uma pessoa de quem ela gosta se suicida, ela imediatamente culpa o aplicativo e a empresa por trás dele, iniciando um grande enredo de gato e rato, com direito a terrorismo, perseguições e tramas extremamente complexas de espionagem.

Apesar da história ser contada do ponto de vista de Hope, com todo o peso psicológico que ela traz, o livro é recheado de personagens incríveis, com direito a muita ação e adrenalina. É um livro que dá muito gosto de ler, e cheio de passagens belamente escritas e que questionam o atual status de vigilância que as pessoas aceitam em suas vidas.

Claire North sabe montar enredos com essa cara, que poderiam ser fantásticos e bem mais básicos, mas ela não se limita ao básico e vira a história de tudo quanto é ângulo, trazendo profundidade para os seus textos. Não é à toa que ela já recebeu tantos prêmios, são todos merecidos.

Nota 10!

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A Luneta Âmbar - The Amber Spyglass (His Dark Materials #3)



SPOILER FREE

E finalmente chegamos no último livro da trilogia His Dark Materials, ou Fronteiras do Universo em português, do autor inglês Philip Pullman. A série mais famosa do autor, que também já virou filme e agora é uma série da BBC e HBO.

Como mencionei na resenha da Bússola Dourada, o início da saga é muito bom, apesar do final estilo gancho do livro. Infelizmente a continuação, A Faca Sutil, deixa um tanto quanto a desejar, e, aparentemente, o autor ouviu algumas reclamações e fez diversos acertos para o final da série, A Luneta Âmbar, que também pode ser uma cor, e por isso estou colocando no Desafio Literário Popoca de julho, para fechar o mês com chave de ouro!

Depois de dois volumes cheios de adrenalina, que contam através da história de Lyra e Will uma grande e longa guerra entre forças angelicais, que acabam por ser reproduzidas em guerras humanas religiosas, o último livro não tinha como não ser apoteótico. E sim, apoteótico ele é do início ao fim. Esse é o volume que traumatiza os leitores de Philip Pullman, aquele que faz com que, mesmo tendo amado a história, as pessoas prometerem não ler de novo. Mas não se precipite, a leitura vale cada lágrima e as chatices do livro anterior.

Aqui finalmente fica explicado o que é a tal da Dust, ou Pó na tradução para o português. Finalmente toda a confusão do Universo fica um pouco mais clara, e dessa forma, decisões importantes podem e precisam ser feitas.

A trilogia fecha mesmo com uma belíssima chave de ouro. E chegamos ao final da incrível história de amadurecimento de Lyra e Will, e como de alguma forma ela é universal. E também porque ela é importante para a humanidade como um todo. Afinal, amadurecimento não é necessariamente uma questão etária, mas é crucial para a sociedade evoluir. E Philip Pullman consegue demonstrar isso de forma maravilhosa na sua trilogia, usando como base diversos contos de fadas e também outras obras literárias.

O resultado final é tão bom que até dá para esquecer a pisada de bola no livro II.

E tem sim a questão religiosa, que ficou um tanto quanto de lado no segundo livro, mas no terceiro ela é escancarada e não tem muito o que dizer para tentar disfarçar. É um livro para pessoas que gostam de pensar e questionar. Certamente não vai agradar a todos e não necessariamente isso é ruim, até porque é impossível agradar todo o mundo.

E agora vou desagradar os fãs raiz do autor.

Apesar da trilogia ser muito maravilhosa e o enredo em si ser uma obra-prima, Philip Pullman não é um grande gênio literário. Sua escrita é boa, mas não é incrível, o enredo é melhor que o seu texto. Veja bem, meu objetivo não é diminuí-lo como escritor, mas diminuir um pouco a expectativa de futuros leitores e ser mais realista. As passagens exageradamente melosas dos livros continuam todas presentes no texto e parecem fazer parte do estilo do autor, e pessoalmente não me agradam.

No geral, nota 9,5.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A Faca Sutil - The Subtle Knife (His Dark Materials #2)



SPOILER FREE

Depois de um primeiro volume maravilhoso, apesar do final em gancho, a série Fronteiras do Universo, His Dark Materials no original, segue com o livro A Faca Sutil.

Quem acompanhou a primeira temporada da série da BBC, distribuída pela HBO no Brasil, já teve um gostinho do início desse livro, pois ela mostra em paralelo as histórias de Lyra e Will, que nos livros só nos é apresentado nesse segundo volume. E, vamos ser sinceros, é uma apresentação um tanto quanto longa, o que torna a escolha na série bem mais interessante.

A Faca Sutil é uma grande reviravolta no enredo de Fronteiras do Universo, pois não só aparece pela primeira vez o Will, o coprotagonista de Lyra a partir daqui, mas também ocorre a primeira grande expansão do universo onde se passa a história. O que é um tanto quanto difícil de explicar sem dar spoilers... mas digamos que novos horizontes se abrem...

Mas nem tudo são flores na continuação da saga, não só pela continuação dos problemas, aventuras e violência associados, mas também porque Philip Pullman pisa na bola nesse livro. Mais especificamente, ele esquece quem é a Lyra.

O interessante é que eu não lembro dessa sensação ao ler a série há 15 anos, mas dessa vez as mudanças na Lyra me pareceram muito claras, e não me agradaram. Em diversos momentos fiquei com a sensação de que a personagem do primeiro livro não faria as coisas da forma como faz no segundo, e o que aconteceu entre um e outro não explica bem as mudanças. Outra questão, que pode ser da época do livro, é que no primeiro volume Lyra dá uma sensação muito interessante de quebra de expectativa de gênero, que é carregada pelo livro todo. Só para no volume seguinte ela parecer muito, mas muito mais, menininha.

Por que isso Philip? Precisava diminuir a Lyra para o Will ganhar importância?

O resultado deixa muito a desejar por causa disso. O enredo em si continua interessante, cheio de ação, adrenalina e emoção. Mas ele perde quando se perde a personagem mais interessante.

Lyra é tão mais interessante que ela que ganha destaque em todos os outros livros derivados da série original. Pena que o autor só realmente percebeu isso depois...

Para deixar a situação ainda pior, o livro termina com mais um gancho... leia com o volume seguinte a postos.

Nota 8.

terça-feira, 21 de julho de 2020

A Bússola Dourada - The Golden Compass (His Dark Materials #1)



SPOILER FREE

Finalmente entrando no Desafio Literário Popoca de julho, com o tema livro com cor no título! Considerando a alta probabilidade da segunda temporada da série His Dark Materials ainda ser lançada em 2020, nada melhor do que verificar o trabalho original, a série de livros do autor inglês Philip Pullman!

Confesso que para mim A Bússola Dourada é mais uma releitura, já que li os livros há uns 15 anos. Depois de ver um filme fracassar completamente na adaptação desse clássico juvenil lançado em 1995, com direito a explicação de todo o mistério da trilogia ser colocada na abertura, em voice over! E mais de 10 anos depois desse desastre, finalmente ter uma boa surpresa em forma de série de TV, eu precisava reler os livros!

Em tempo, e para cumprir tabela: o filme foi lançado em 2007, e contou com um elenco estrelar: Nicole Kidman, Daniel Craig, Ian McKellen, Eva Green, Sam Elliott... mas, não foi um sucesso de bilheteria, por motivos de roteiro e direção. A cara congelada da pobre Nicole certamente não ajudou. Acho que foi o primeiro filme que vi dela pós botox e fiquei chocada. O filme teve um retorno financeiro tão ruim que, apesar de ter sido planejado para ser uma trilogia, nada nunca mais foi feito.

A série de TV foi lançada em 2019 pela BBC, disponibilizada no Brasil pela HBO, e, talvez porque a galera aprendeu a lição, ou talvez por ser uma série e eles terem mais tempo para desenvolver a história, ficou com uma pegada completamente diferente, e muito superior. A série também conta com grandes nomes: Dafne Keen (Logan), Andrew Scott (Sherlock e Fleabag), Lin-Manuel Miranda (Mary Poppins e Hamilton) e James McAvoy (X-Men e Atomic Blonde). A série tem muitos pontos positivos, e estou ansiosa para assistir a segunda temporada, mas vou parar por aqui para tentar manter o mínimo de foco.

O livro A Bússula Dourada é o primeiro da trilogia His Dark Materials, traduzida como Fronteiras do Universo em português (mais um caso das traduções inexplicáveis, mas que pelo menos se mantêm alinhadas com a ideia da obra). Apesar de normalmente ser descrito como um livro infantil, tenho minhas dúvidas com relação a isso, eu diria mais juvenil, por motivos de violência explícita.

A história se passa numa Inglaterra parecida, mas diferente, da nossa, e seguimos as aventuras da órfã Lyra Belacqua, uma jovem que cresceu na Universidade de Jordan em Oxford. Lyra não vai a escola, mas os acadêmicos da universidade tentam, muitas vezes em vão, suprir essa lacuna. Ela é mentirosa e adora uma boa briga, além de ser uma líder natural. No seu mundo as pessoas possuem daemons, algo semelhante à alma, mas é um animal que acompanha a pessoa fora do seu corpo, e é visível para os outros, e esse animal pode mudar de forma até assumir uma forma definitiva na puberdade.

Tudo vai bem até que o melhor amigo de Lyra, Roger, desaparece, capturado por um bando chamado de Gobblers, e ela decide viajar para o norte, onde vivem as bruxas e os clãs de ursos polares com armaduras. Até aí, tudo está na contra capa do livro! E para quem viu a série, nada de mais.

O sucesso da trilogia no mundo literário elevou o autor a um novo status, e desde então ele tem publicado diversas obras conectadas com os livros originais, e também sobre como escrever histórias e o poder dos contos de fadas. Aliás, Fronteiras do Universo parece um conto de fadas, daqueles tradicionais, onde ninguém omite a violência que existe no mundo, os riscos são muito reais e as personagens sofrem muito.

Agora imagine uma história nesse estilo só que com uma forte crítica às religiões, em especial às judaico-cristãs. Philip Pullman muitas vezes é comparado a Tolkien e C.S. Lewis (Nárnia), mas porque ele anda na direção oposta quando se trata de alegorias religiosas. A obra de Lewis é quase que uma ode ao cristianismo, enquanto Pullman faz de tudo para mostrar todos os podres das instituições religiosas e como algumas crenças podem fazer muito mal às pessoas e à sociedade onde elas vivem. A controvérsia com relação a isso nos livros é tão grande que várias organizações católicas já pediram que os livros fossem banidos.

Independentemente de crenças religiosas, A Bússola Dourada é um livro excelente, cheio de adrenalina, batalhas tanto físicas quanto psicológicas, grandes mistérios e personagens fascinantes. A mitologia criada por Pullman é muito bem feita, e a construção do mundo onde se passa o enredo é impecável. E o mais interessante, Lyra é uma criança de verdade! E mesmo sendo menina, ela é arteira, cheia de energia e uma guerreira feroz. Eu fico sempre feliz quando vejo homens escrevendo bem personagens femininos, isso é tão raro.

Claro que não dá para ler o primeiro volume e parar, até porque o final infelizmente tem gancho para o livro seguinte. Por isso mesmo já estou lendo A Faca Sutil, cujo início já começou a aparecer logo na primeira temporada da série da BBC, numa excelente escolha de adaptação.

Nota 10, indico em qualquer mundo.

terça-feira, 12 de maio de 2020

A Day at the Office



SPOILER FREE

Conheci o autor inglês Matt Dunn há relativamente pouco tempo, com o livro 13 dates, que me deixou positivamente surpresa. Não é sempre que encontramos um autor homem escrevendo bem histórias românticas. Apesar de não ser o suprassumo do gênero, guardei o nome do autor para futuras leituras.

Daí esse ano, com todos os seus problemas, me levou a ler mais livros leves do que o meu normal, e Matt Dunn entrou em promoção na Amazon, e, assim, acabei pegando para ler A Day at The Office. A melhor descrição desse volume é uma versão limitada a um escritório do filme Simplesmente Amor. Como a história se passa no dia dos namorados (versão inglesa! 14 de fevereiro é Valentine's Day), e é montada em torno de encontros e desencontros amorosos com personagens muito ingleses, a comparação é inevitável. Mesmo com o filme se passando no Natal, ele ainda gira em torno de uma data comemorativa comercial com personagens muito ingleses e encontros e desencontros amorosos.

Como sou fã do filme, o livro ganhou vários pontos comigo quando percebi a semelhança no jeitão do enredo. E os personagens de Matt Dunn são muito divertidos, com excelentes diálogos e um humor bastante inglês que me agrada. Apesar de algumas improbabilidades serem usadas para fazer a história andar e dar um toque extra de comicidade, não fiquei com a sensação de forçação de barra. No geral, ficou apenas mais divertido. E diferentemente do livro anterior que li do autor, os finais das histórias românticas são bastante realistas e variadas, sem cair nos clichês de final feliz que poderiam muito bem ter sido usados aqui até cansar.

Uma leitura excelente para quem gosta de romances e para quem precisa de um livro mais leve na vida.

Nota 9.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Once Upon A Player (British Bad Boys #2)



SPOILER FREE

Depois de ler o primeiro livro da série British Bad Boys, descobri que eu tinha o segundo volume. Quando a sensação de chatice do primeiro passou, acabei pegando o segundo. O que uma quarentena não faz com as nossas leituras, não é mesmo?

A autora inglesa Christina Phillips não é assim nenhuma grande escritora, mas para um young adult é bastante fofinho. Dessa vez acompanhamos o irmão gêmeo do protagonista do primeiro livro, Lucas, que dessa vez é jogador de futebol (como a autora é inglesa, futebol realmente é futebol e é possível reconhecer os times!), e como ele se apaixona por Violet, uma estudante de designer de interiores. Dessa vez não tem nenhuma menção a contos de fadas, apesar do título, menos mal.

Mas a autora tem uma fórmula, que se repete com nomes, lugares e situações levemente diferentes entre os volumes, que a princípio podem ser lidos em qualquer ordem, e realmente podem. O problema é que eu não gosto da fórmula "todo problema é simplesmente porque as pessoas têm diálogos em suas cabeças ao invés de usar a boca e realmente falar as coisas".

Fora esse pequeno grande problema, e a sensação de que eu estava lendo o mesmo livro de novo, a leitura é divertida e não faz feio. Sem grandes problemas no âmbito machismo também, o que é sempre positivo e, infelizmente, um tanto quanto raro.

Nota 6,5 pela preguiça.



domingo, 27 de outubro de 2019

Cinderella and the Geek (British Bad Boys #1)



SPOILER FREE

Quem tem acompanhado o blog esse ano já percebeu que eu tenho favorecido leituras mais leves e descomprometidas que o meu normal. Cinderella and the Geek é mais um dessa leva.

A autora inglesa Christina Phillips traz uma história fofa, de uma jovem que trabalha numa empresa de jogos (pense na Blizzard) e é apaixonada pelo seu chefe. E é basicamente isso com tema de Cinderela porque tem uma noite que lembra o baile.

O enredo é bastante simples e não compromete. As personagens são fofas. Tem momentos muito engraçados.

Porém, o livro não tem nenhuma tensão. É daqueles livros que você chega ao fim e fica pensando, ué, cadê o clímax? Não tem mesmo. Toda a tensão da história é baseada no fato que o casal principal não fala um com o outro. Eles fazem decisões nas suas cabeças e não dizem pro outro. E é isso.

E como esse tipo de enredo me irrita: nota 7.

domingo, 15 de setembro de 2019

Female Energy Awakening - O Despertar Da Energia Feminina



SPOILER FREE

Depois de ler o primeiro livro da Miranda Gray, Lua Vermelha, fiquei muito animada em ler seus outros trabalhos. Além disso, o seu trabalho energético com a Bênção Mundial do Útero é extremamente bonito.

Dessa forma, preciso dizer que sou fã dela, mas nada me impede de ser crítica onde devo ser. O Despertar Da Energia Feminina é um livro muito interessante para quem já leu a Lua Vermelha, e para quem realmente curte o trabalho da Miranda. E apesar do conteúdo do livro ser muito rico e interessante, em especial a última parte do livro, que tem um ciclo enorme de exercícios e meditações que cobrem todo o ciclo menstrual, ele sofre de um defeito: propaganda.

Se você não conhece o trabalho da Miranda, não comece com esse livro, ele vai te deixar com uma má impressão nesse sentido, porque ele é cheio de propaganda dos eventos dela. Não que os eventos não sejam bons ou legais, pelo contrário, acho todos o máximo. Mas, num livro, preciso dizer que ficou um tanto estranho para quem nunca entrou em contato.

Em outras palavras, é um livro para quem ou já leu Lua Vermelha, ou para quem participa dos eventos da Miranda. Se você não faz parte de nenhum desses grupos, leia Lua Vermelha ou participe de uma Bênção Mundial antes de pegar O Despertar Da Energia Feminina, vai ser mais interessante e a leitura mais proveitosa.

Só por causa disso, nota 9.

domingo, 30 de junho de 2019

Death



SPOILER FREE

O tema para o Desafio Literário Popoca de julho é uma Graphic Novel! Excelente tema para relaxar e avançar mais rápido na meta de livros do ano! E pensando nisso, escolhi algo do autor para qualquer momento e de quem eu leria até a lista de supermercado Neil Gaiman.

Depois de ler a coleção completa de Sandman, ou pelo menos as histórias originais, porque lançaram mais coisa depois, achei que era hora de começar a ler o que foi lançado depois. E nada como começar pela melhor personagem secundária de Sandman, a Morte!



Essa coletânea com histórias da Morte também foi lançada em português, e, se formos muito exatos ao significado de Graphic Novel, o que por si só não é algo muito exato, não necessariamente seria considerada uma. Mas isso não diminui em absolutamente nada a qualidade do material.

A coletânea abre com os dois capítulos de Sandman em que a Morte tem uma participação mais especial, o que serve para relembrar a personagem para quem já conhece e para apresentá-la para quem não leu Sandman. Em seguida temos o conto A Winter's Tale, uma história bem curtinha, que põe em evidência o ponto de vista da Morte sobre a morte.

Depois temos The High Cost of Living, uma história em 3 partes com a Morte como personagem principal no seu dia em que pode viver entre os mortais. Não tem como não se apaixonar por ela, caso você ainda não tenha se apaixonado até aqui, a partir desse ponto não tem mais retorno.



Em seguida temos um outro conto, The Wheel, onde Destruição e Morte aparecem para um menino. Neil Gaiman quando acerta faz bonito.

The Time of You Life retoma algumas personagens que apareceram em histórias anteriores, mas dessa vez como protagonistas de uma pequena saga em 3 partes onde a Morte aceita uma barganha. Fechando a coletânea temos Death and Venice, uma história um tanto quanto surreal bem no estilo Neil Gaiman, onde um homem conhece a morte quando criança e passa a vida pensando nela.

Depois de tantas histórias maravilhosas, o livro traz uma galeria de imagens da Morte e uma espécie de anúncio sobre a AIDS onde a morte fala sobre a doença e outras DSTs. Tem até um aviso antes, bem anos 90.

Considerando que é uma coletânea, a média da qualidade das histórias é muito alta. Vale a pena ler suas mais de 300 páginas. Recomendo para os fãs de Sandman e quadrinhos em geral.

Nota 10.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

The First Fifteen Lives of Harry August - As primeiras quinze vidas de Harry August



SPOILER FREE

O Desafio Literário Popoca de junho está dando trabalho. Confesso que eu não tinha ideia que seria tão difícil encontrar livros com meses no título. Mas nada é impossível e encontrei no meu kindle esse volume da autora britânica Claire North.

As primeiras quinze vidas de Harry August (não ligo que o mês seja o nome do personagem, ainda é um mês e está no título) ganhou o prêmio John Campbell Memorial Award for Best Science Fiction Novel of the Year em 2014, e foi nomeado também para o BSFA Award for Best Novel e Arthur C. Clarke Award for Best Science Fiction Novel. A autora tinha menos de 30 anos. Nada mal, não é?

O livro traz a história de Harry August, um homem que nasceu nos anos 20 na Inglaterra, lutou na segunda guerra mundial, teve uma vida longa e quando morreu nasceu de novo nos anos 20 no mesmo corpo e... bem, o título é meio autoexplicativo a partir desse ponto. E sim, o livro traz pelo menos pedaços de todas as primeiras quinze vidas do personagem principal. Fora de ordem. E a história faz sentido. E tem um apocalipse no meio.

É preciso tirar o chapéu para Claire North, ou Catherine Webb, ou Kate Griffin, a autora faz uso de alguns pseudônimos... o que ela conseguiu fazer nessa história é simplesmente incrível. O livro é uma mistura de ficção científica, mistério, espionagem e estudo sobre a natureza humana. E ela consegue trazer isso tudo numa história que tinha tudo para ser confusa ou repetitiva e no final a leitura é absolutamente fantástica. Fiquei pasma com a destreza da autora em alternar as quinze vidas do personagem principal sem se confundir, nem confundir o leitor, e ainda por cima fazer disso algo cheio de adrenalina a partir da metade do livro.

Não é para qualquer um. Fiquei muito impressionada. E ainda por cima o texto é bom, com várias passagens fáceis de virar citações. Vida longa a essa jovem autora, que ela ainda possa produzir muita literatura de alto nível, como As primeiras quinze vidas de Harry August. Fica a dica para leitura para o Desafio de junho!

Nota 10.



terça-feira, 11 de junho de 2019

Red Moon - Lua Vermelha



SPOILER FREE

Quem segue o meu blog com afinco já percebeu que eu tenho uma tendência de ler coisas sobre o feminino e sobre religiões menos comuns, por assim dizer. Lua Vermelha estava na minha lista de leituras há tempos. Como o livro Mulheres que dançam com os lobos (que ainda não li, está na lista também), ele está meio que na moda no meio dos círculos de mulheres.

O livro trata de um assunto bastante tabu mesmo entre mulheres: a menstruação. A questão abordada é a natureza cíclica dos hormônios femininos, que, como os primeiros calendários do mundo, em qualquer parte do mundo, não me deixam mentir, é diretamente conectada com a lua. 

Antes de mais nada, preciso de uma salva de palmas para Miranda Gray, que poderia ter escrito um livro muito bonito e bastante vazio sobre as fases da lua e as fases do ciclo menstrual. Mas ela foi muito, mas muito além disso. O livro tem lá as suas partes mais, digamos, esotéricas, mas ele foi muito bem pesquisado e bem fundamentado, em especial nas questões ligadas à mitologia e aos contos de fadas. Sim, as personagens femininas dos contos de fadas.

Foi aí que a autora me ganhou. Depois de todo o trabalho de coleta, estudo e ressignificação que ela fez com esse material, não dá para ignorar as conclusões e as sugestões que ela faz. Um trabalho realmente muito bom, profundo e de grande beleza e importância no mundo machista e misógino que vivemos. Kudos. 

Agora só preciso ler tudo o mais que essa mulher publicou, algo me diz que vai valer muito a pena.

Nota 10.


terça-feira, 28 de maio de 2019

Good Omens - Belas Maldições



SPOILER FREE

Com o lançamento da série previsto para 2019, eu não podia deixar passar a oportunidade de reler a obra escrita a quatro mãos pelos mestres ingleses Terry Pratchett e Neil Gaiman.

Belas Maldições foi lançado numa época (início dos anos 90) em que os dois autores ainda não tinham alcançado o auge do seu sucesso. Terry Pratchett tinha lançado os primeiros volumes da sua série Disc World, e Neil Gaiman ainda estava construindo sua carreira de escritor. Mas, como eles mesmos contam nas suas respectivas introduções do livro (que são textos maravilhosos à parte, não compre uma edição sem eles), eles se tornaram amigos quando Neil Gaiman ainda trabalhava como jornalista e foi entrevistar o autor do recém lançado A Cor da Magia (primeiro livro de Terry Pratchett).

Depois de alguns anos de amizade, os dois começaram a trocar quase que cartas sobre um conto sem final que Neil Gaiman havia começado a escrever e enviou para Pratchett. A partir daí, ainda num mundo sem emails (imagine isso), os dois começaram a trabalhar em conjunto no manuscrito do que viria a se tornar o best seller Good Omens, ou Belas Maldições em português. Sim, o livro sofre com a tradição de traduções bizarras do Brasil. Mas as edições americanas, antes do lançamento da série de TV, conta com uma linda edição dupla (imagem aí em cima), que você pode escolher a capa de sua preferência.

Confesso que lembrava pouco da minha primeira leitura do livro, o que não é de estranhar, pois li um volume emprestado de uma amiga (que me fez jurar de pé junto que eu iria devolver, o que eu fiz, claro) na tradução para o português, há mais de dez anos. Desde então, eu já pensava em conseguir uma cópia no original para ler, o que demorou mais do que eu imaginava porque o livro nunca, nunca, mas nunca mesmo, entra em promoção na Amazon. Desisti e paguei o preço cheio, que, serei sincera, nem era tão caro assim.

E valeu cada centavo e cada minuto gasto na releitura. Para quem gosta de humor inglês, Queen (a banda), Terry Pratchett, Neil Gaiman e Lucifer (a série de TV), o livro é um prato cheio. Não só os autores estão afiadíssimos juntos, ao ponto de não ser possível identificar exatamente quem contribuiu com o quê, como eles montaram um dos enredos mais divertidos da literatura sarcástica inglesa.

Em tempo, Belas Maldições traz a história do Apocalipse, com o momento em que um demônio que vive na Terra, Crowley (e tem um pacto com um anjo, Aziraphale), recebe a missão de ajudar a colocar na família correta o Anti Cristo. A explicação para o nome completo do livro, The Nice and Accurate Prophecies of Agnes Nutter, Witch (As Justas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa), está no fato que todos os acontecimentos que se passam no livro foram previstos pela tal da Agnes, mas ela era uma bruxa do século XVII ou XVIII e não conseguia entender ou descrever boa parte do que ela previa, além de não ter ideia da ordem das coisas. Os Cavaleiros do Apocalipse são um show à parte, com atualizações simplesmente maravilhosas para o mundo contemporâneo.

Tomara que eles atualizem só mais um pouquinho e mantenham a "trilha sonora original".

Preciso dizer que fiquei ainda mais ansiosa para o lançamento da série?

Além de ser produzida e escrita pelo próprio Neil Gaiman, a série conta com um excelente elenco: David Tennant, Michael Sheen, Jon Hamm, Anna Maxwell Martin, Josie Lawrence, Adria Arjona, Michael McKean, Jack Whitehall, Miranda Richardson e Nick Offerman. A previsão é que seja lançada agora no dia 31 de maio, no Amazon Prime, e tenha seis episódios (espero que seja só isso, nada de virar American Gods, por favor, Deusa da Mídia), que depois deverão passar semanalmente na BBC.

Prontos para a contagem regressiva para o Apocalipse?

Nota 10!     

sábado, 2 de março de 2019

The Bookshop on the Corner



SPOILER FREE

Quando esse livro foi publicado em 2016, foi um certo furor, e por isso ele entrou na minha biblioteca. Agora, seu eu soubesse que ele é da mesma autora de Sweetshop of dreams provavelmente não teria comprado o livro.

Confesso que senti que eu conhecia a autora logo nas primeiras páginas. Algo me parecia muito familiar, de um jeito não muito positivo, apesar do texto ter odes muito bonitas à leitura. The bookshop on the corner traz a história da bibliotecária Nina, que perde o emprego quando a biblioteca onde ela trabalha no subúrbio de Londres acaba sendo fechada. Mas ela ama livros, e sua paixão é encontrar o livro perfeito para cada leitor.

Então, ela acaba comprando uma van e indo morar no interior, mais especificamente na Escócia (que é quase outro país, numa piada interna muito divertida, ou não, em tempos de Brexit). Daí ela se apaixona por um cara, vai a algumas algumas festas locais, se apaixona por outro, os dois têm lá os seus problemas e defeitos, com uma certa dose de moralismo esperada de uma história que se passe no interior da Inglaterra, ou Escócia, ou Irlanda, são todos mais parecidos do que gostariam de admitir, e todos vivem felizes para sempre.

O problema até lá, além da questão moralista, é que o livro é chato. Nina é uma boa pessoa, mas sua falsa falta de coragem dá dor de tanto revirar os olhos. E o enredo é tão previsível que eu já sabia com quem ela ia acabar ficando no final assim que ela se instala na Escócia. Se fosse divertido apesar de previsível, ou pelo menos tivesse boas cenas de sexo no caminho eu nem reclamava, mas não tem nada disso.

A questão é que o livro é voltado para um tipo de público que eu não me encaixo, a história tem ar de anos 80, apesar de se passar em 2016. É para quem gosta de romance puramente tradicional, com personagens tradicionais que só parecem transgressores na sua superfície mais superficial. E que não gosta de cenas quentes sendo descritas, apenas mencionadas que existem, e um livro sem palavrões, claro.

Certamente não faz o meu gênero. 

Nota 6.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Instructions - Instruções



SPOILER FREE

Quem frequenta o meu blog sabe do meu amor incondicional ao trabalho do inglês Neil Gaiman. Para mim ele é um dos escritores mais versáteis da atualidade, com graphic novels, contos, novelas, livros infantis, infantojuvenis, young adult e para adultos. Seus trabalhos já viraram programa de rádio, filme, desenho animado e série de TV. Aliás, ele também já escreveu roteiros para essas coisas também.

Apesar de estar ainda na meia idade, seu trabalho é bastante extenso. E por ser muito famoso, às vezes me parece que a galera tenta produzir qualquer coisa nova com o nome dele para ganhar dinheiro. Instruções parece que vai entrar nessa lista de coisas.

A questão é que o texto não me pareceu ser feito exatamente para o livro. É uma poesia do Gaiman, linda, é verdade, mas ela na verdade foi feita para compor outros livros do autor. Como podemos ver na belíssima leitura do próprio aqui embaixo:



As ilustrações do Charles Vess são bonitas. Isso também não está em questão.

O problema é que o texto não foi feito para ser apresentado assim e isso ficou transparente ao longo da leitura para mim. Ficou com cara de: olha que texto legal! Vamos incluir numa coletânea. Agora vamos incluir em outra. Agora vamos fazer uma versão ilustrada! E dá-lhe formas de arrancar dinheiro dos fãs.

Vale apenas para introduzir crianças ao trabalho do autor, mas tem que lembrar que nem toda criança gosta desse tipo de texto. E o trabalho para crianças do Neil Gaiman tem coisas bem mais interessantes que isso.

Nota 8.


sábado, 15 de dezembro de 2018

Sweetshop of Dreams (A Novel with Recipes)


SPOILER FREE

Vai chegando o final do ano e o estresse acumulado pede leituras mais leves, por isso escolhi esse livro da inglesa Jenny Colgan para começar a entrar no clima para do desafio Smuthathon, para o qual uma amiga, que também adora um livro erótico, me convidou.

Primeiro que o livro não tem tantas receitas quanto ele promete no título. Eu esperava uma coisa no estilo Como Água para Chocolate, com uma receita por capítulo ou algo parecido. Não, o que o livro oferece são descrições e críticas de doces antigos típicos, com umas 2 ou 3 receitas muito básicas do meio para o final do livro. Ah, e a história se passa basicamente dentro e em torno de uma loja de doces.

Segundo, é um romance água com açúcar (se o título já não entregasse isso, né?), então, confesso que eu esperava pelo menos alguma cena mais caliente. Não tem nenhuma. Tem uma cena de sexo, mas ela termina tão mal, mas tão mal, que tira toda a graça da coisa.

Terceiro, tudo bem que é um romance água com açúcar, logo eu não esperava personagens complexos, mas daí a ter apenas clichês dos anos 80 é complicado. Se o livro fosse dos anos 80 estava explicado e desculpado, mas ele foi publicado em 2012. Não existe desculpa para isso e para todo o sexismo que escorre do livro por todos os lados.

Levando isso tudo em consideração, é inexplicável que o livro tenha ganho o prêmio
Romantic Novel of the Year (RoNa's) de 2013. Para você ver que não dá para julgar um livro pelos seus prêmios...

Nota 5.