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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O teste do casamento - The bride test


SPOILER FREE

E finalmente chegamos no último tema do Desafio Literário Popoca 2022! Em dezembro, o tema livros com protagonistas com deficiência entrou em campo, e resolvi escolher um livro da nossa lista de sugestões: O teste do casamento, da norte americana descendente de vietnamitas Helen Hoang.

Atenção, na nossa lista de sugestões, o livro está com o título Noiva à Experiência, que é da tradução portuguesa da obra! No Brasil, saiu com o título O teste do casamento.

A autora Helen Hoang foi diagnosticada como autista em 2016, já adulta, e escreveu sobre a experiência dessa descoberta no seu primeiro livro, Os números do amor, que fez um enorme sucesso, e, por isso, ela escreveu uma nova obra sobre pessoas com autismo. 

Em O teste do casamento, temos Khai Diep, um jovem filho de vietnamitas que foi diagnosticado com autismo, mas que a família nunca realmente tratou, então, ele acha que não tem sentimentos. Seguindo a linha de famílias asiáticas que se metem nas vidas dos seus integrantes, a mãe de Khai viaja ao Vietnã para encontrar uma noiva para ele, e retorna com Esme Tran, uma jovem mestiça que nunca conheceu o próprio pai.

O interessante de autores como Helen Hoang é que eles podem descrever pessoas com deficiência de uma forma mais profunda de quem apenas pesquisa sobre o assunto, e, para mim, isso foi muito marcante no livro. O foco da narrativa não é a estranheza que Khai provoca, e sim, como ele se sente ao perceber que é diferente, e como aqueles que o amam procuram entender essas diferenças e se adaptar.

Fora toda essa questão do autismo de Khai, o livro é uma histórica romântica como muitas outras, seguindo inclusive fórmulas conhecidas do gênero. O que mostra que essas narrativas, assim como todas as outras, podem e devem ser universais e incluir todo tipo de pessoa. 

Fazia muito tempo que eu não lia nada desse gênero, que, confesso, adoro, então, foi muito difícil parar de ler, trabalhar, comer e dormir. Fiquei totalmente viciada, e o livro não durou nada na minha mão. Agora terei que ler o primeiro livro da autora, porque gostei da sua escrita.

Recomendo muitíssimo, não só porque é uma boa história e bem escrito, mas porque de quebra você ainda sai entendendo melhor uma questão que atinge mais pessoas do que se imagina.

Nota 9,5.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

A Rede de Alice - The Alice Network


SPOILER FREE

Depois da rasgação de seda do nosso editor chefe no Popoca sobre A Rede de Alice, eu não resisti e peguei o livro para o Desafio Literário Popoca 2022 de novembro, com o tema ficção ou fantasia que se passem em guerras. Vou lembrar que, apesar de toda a pesquisa histórica incrível da autora norte americana Kate Quinn, o livro ainda é um romance histórico, portanto, ficcional.

Adoro pegar livros indicados, pois sei melhor onde estou me metendo. E apesar de não ter ficado tão entusiasmada com a história de Rose e Eve quanto o Tiago ficou, preciso tirar o chapéu para a autora. Gostei o suficiente para já ter incluído outros livros dela na minha lista de desejos interminável na Amazon.

A parte histórica e as descrições do período da primeira guerra estão um primor. Dá um prazer enorme ler romances históricos assim, que delícia! A divisão da narrativa entre o período da primeira guerra, com Eve como narradora, e o pós segunda guerra, com Rose como narradora, dá um dinamismo muito interessante para a leitura, o que realmente faz o livro parecer passar mais rápido.

Entretanto, confesso que passei a primeira metade do livro com vontade de pular todos os capítulos da Rose, porque os da Eve eram muito melhores e mais divertidos. Demorei muito para entrar no ritmo da história da Rose, e só realmente passei a curtir os seus capítulos já no final do livro. 

Se alguém sentir isso, vai na fé, eu prometo que o livro melhora.

Fora esse pequeno porém, faço coro com o nosso editor sobre a maravilhosa escrita da Kate Quinn, que conseguiu a proeza de aparecer duas vezes num único ano com o mesmo livro no Popoca!

Nota 8,5.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Caçadora (A Última Caça-Vampiros #1) - Slayer (Slayer #1)


SPOILER FREE

“Em cada geração nasce uma garota: apenas uma garota em todo o mundo, uma escolhida. Ela sozinha terá a força e habilidade para lutar contra os vampiros, demônios e as forças do mal. Ela é a Caça-Vampiros.”

Se você assistia TV no final dos anos 90, é provável que tenha escutado essa chamada no início de cada episódio de Buffy, A Caça-Vampiros. O show, criado pelo então desconhecido Joss Whedon, pré-reconhecimento com Vingadores e pré-queda com Liga da Justiça, fez um sucesso enorme e angariou fãs, muitos fiéis até hoje. Depois de 7 temporadas (1997-2003), uma série spin-off (Angel, com 5 temporadas, 1999-2004) e diversos quadrinhos continuando a saga de Buffy (com os primeiros escritos ainda pelo criador Joss Whedon), e sem mencionar o filme original de 92, o Buffyverso volta a dar frutos.

A autora estadunidense Kiersten White assumiu a missão de criar um novo spin-off literário no universo de Buffy. A história se passa num mundo pós a série de TV, mas, não tenho certeza sobre ser após os quadrinhos, pois os quadrinhos são confusos, e é muito difícil de saber o que é considerado cânone e o que não é, dado o troca troca de direitos autorais entre diversas editoras. De qualquer forma, olha o spoiler para quem não viu a série, pule para o próximo parágrafo agora, já não há uma única caça-vampiros no mundo, o conselho dos guardiões foi pro saco, e Buffy agora age sozinha, liderando um grupo de caçadoras.

Mas o livro A Caçadora, como ficou a tradução para o português é sobre Nina, filha do primeiro guardião de Buffy (apenas mencionado na série, é preciso ver o filme pra saber quem ele é, assista com cautela), que tem uma irmã gêmea, Ártemis. Numa ode ao estilo da série, Nina se torna uma caça-vampiros no apagar das luzes da existência da magia no mundo, o que a torna a última, e, claro, ela parece estar conectada com uma profecia sobre o fim do mundo. Só que Nina, por ter perdido o seu pai por causa de Buffy, detesta as caçadoras, e passou sua vida trabalhando como uma espécie de enfermeira do conselho dos guardiões, e ela não aceita muito bem sua nova categoria.

Num enredo que faz inúmeras referências à série original (incluindo a diversos personagens mais obscuros), Kiersten White consegue recriar o clima da primeira temporada de Buffy, o que é uma mistura de profecias, questões adolescentes, relacionamentos amorosos e de amizade e a descoberta da sua identidade. Se você não curte alguma dessas coisas, pode deixar A Caçadora de lado.

Agora, você gosta de Buffy e tolera bem uma história muito young-adult com direito a parte do enredo só acontecer porque todos mantêm diversos segredos (o que era comum em Buffy, e faz parte da natureza dos guardiões, vamos ser sinceros), então, A Caçadora é o livro pra você ler no Desafio Literário Popoca 2022 de outubro, com o tema vampiros e criaturas afins, ou um livro da Anne Rice. Essa pelo menos foi a minha escolha.

Foi uma escolha extremamente dentro do tema, é verdade, e se por um lado, curti demais toda a nostalgia que a leitura me trouxe de Buffy (estou até pensando em rever pela enésima vez a série), além de ter adorado os novos personagens, por outro, acho que minha paciência com histórias adolescentes não anda das maiores. Todo o diálogo interno e as dúvidas foram um pouco demais para mim depois de um certo percentual do livro.

O fato do livro terminar num quase gancho não ajudou muito, mas, eu entendo o que a autora fez. A história principal desse primeiro volume termina, mas, ela deixa uma armadilha no final para você querer ler o volume seguinte, o que funciona, pois apesar de eu não ter terminado o livro apaixonada, já estou com o livro seguinte na minha lista de desejos da Amazon.

O que eu posso fazer? Tenho um fraco com histórias de vampiros.

Nota 7, isto é, Buffy passando de ano por pouco porque passa as noites patrulhando.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

The Hidden Palace (The Golem and the Jinni #2)


SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de agosto, com o tema folclore, aproveitei para pegar The Hidden Palace, uma continuação inesperada de O Golem e o Gênio, que foi o primeiro livro da americana Helene Wecker. Infelizmente The Hidden Palace, lançado no ano passado, ainda não foi traduzido para o português, mas O Golem e o Gênio está disponível numa linda edição da Darkside.

Depois de rasgar seda até não poder mais para esse primeiro volume, como vocês podem ver aqui, peguei o segundo com muito gosto. Por conta do tempo entre a leitura entre um livro e outro, confesso que recorri à internet para encontrar um resumo de O Golem e o Gênio, o que me deixou mais confortável, apesar de depois de ter lido Hidden Palace eu poder afirmar que não teria sido necessário.

Novamente Helene Wecker traz suas belíssimas personagens baseadas nas culturas árabe e judaica, com o enredo se passando nas comunidades imigrantes de Nova Iorque do pré-guerra no início do século XX. A história é centrada em Chava, uma golem criada por um rabino, e Ahmad, um gênio preso em forma humana por um feiticeiro, e entorno dos dois temos diversos personagens das comunidades judaicas e árabes locais.

Entretanto, serei sincera, O Golem e o Gênio não precisava de uma continuação, a história é muito redonda. Infelizmente, The Hidden Palace ficou com cara de continuação lançada para ganhar dinheiro, e não porque era uma história que a autoria precisava contar. Tudo bem que a escrita bonita e agradável continua presente, assim como um esmero fantástico na pesquisa histórica, tanto na parte do enredo que se passa em Nova Iorque, quanto a parte que se passa no Oriente Médio.

O problema é que parece que não tem muita história para contar. A trama é lenta e se arrasta por boa parte do livro, só pegando um ritmo mais interessante bem no final. Diferente do primeiro volume, aqui não há um vilão claro, o que poderia ser interessante, mas o resultado foi uma linha narrativa dispersa demais. Tanto que o livro parece bem mais longo do que realmente é.

Quer dizer que não vale a pena ler? Também não é assim, acho que foi uma questão de expectativa. Como minha lembrança do livro anterior é tão maravilhosa, eu esperava algo nesse nível, e não foi bem o que encontrei. Mas, The Hidden Palace tem suas qualidades, como já comentei, e se Helene Wecker lançar mais obras, certamente vou parar para ler.

Nota 7,5.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

O Diabo do Rio - River Marked (Mercy Thompson #6)


 

SPOILER FREE

Seguindo para mais um volume da meu vício atual, a série Mercy Thompson, cheguei no livro 6, River Marked, que ficou traduzido como O Diabo do Rio pela editora portuguesa Saída de Emergência. A tradução do título ficou meio abrasileirada na minha opinião, mas pelo menos tem a ver com o enredo.

Nesse livro, Mercy finalmente casa com o lobisomem Adam, e, claro a lua de mel deles se torna uma grande confusão. Tudo porque os fae oferecem para eles um lugar para ficar perto de um rio, e claro, o tal rio está tendo um aumento de mortes nos seus arredores que ninguém sabe explicar.

Um dos pontos mais interessantes de O Diabo do Rio é que é o primeiro volume da série totalmente voltado para os antepassados da Mercy, os nativos dos EUA. Temos presente toda a questão indígena e a origem do poder de Mercy de se tornar um coiote e ver fantasmas, além de finalmente sabermos mais sobre o seu pai.

Nesse sentido, para mim esse é o volume mais interessante da série até agora. Realmente estava fazendo falta ter mais esse lado da história dos indígenas, e uma discussão sobre Mercy ter sido criada totalmente fora da sua herança cultural, o que a torna pouco conhecedora das suas próprias potencialidades.

Fora esse pano de fundo mais interessante que a média dos livros da série até agora, as demais características da série continuam as mesmas. Temos muita ação por lado, pouco ou nada de cenas mais sensuais, apesar da história se passar numa lua de mel, e, infelizmente a falta de personagens femininas. Pelo menos, dessa vez, as pouquíssimas personagens femininas que aparecem não odeiam a protagonista. Menos mal, mas podia ser muito melhor do que é.

Até o momento, a série Mercy Thompson da americana Patricia Briggs é uma excelente leitura. Para quem gosta de fantasia e de ação, é uma excelente pedida. Não é perfeito, poderia ser melhor, mas ainda assim recomendo muito.

Nota 9,5.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Segredo de Prata - Silver Borne (Mercy Thompson #5)

SPOILER FREE

Seguindo na minha atual saga de ler a série Mercy Thompson da americana Patricia Briggs, cheguei no quinto volume, Segredo de Prata, como ficou a tradução pela editora portuguesa Saída de Emergência.

Dessa vez, Mercy volta a se envolver com questões dos fae, e numa tentativa de ajudar o amigo do filho do seu mentor, se vê no meio de uma busca desenfreada por um artefato mágico. O problema é que tem gente que acha que ela é que tem posse do tal artefato, o que significa que ela está sendo perseguida. Para piorar a situação, sua entrada no grupo de lobisomens não tem sido muito fácil, e um possível complô está se formando.

Num misto de história de mistério e ação, Patricia Briggs traz a tona algumas narrativas estilo contos de fadas, no que combinou muito bem com os lobisomens e vampiros. O mundo criado pela autora, em sua riqueza e complexidade, é um dos trunfos da série Mercy Thompson, e isso é particularmente verdade nesse volume. A adaptação que ela fez para narrativas clássicas ficou muito interessante.

Ainda temos algumas questões que são constantes nos livros da série. De forma positiva, temos a nossa protagonista, que foge à fórmula da escolhida e mega poderosa, pelo contrário, as coisas acontecem muito por sorte (ou azar, ou força do roteiro) e Mercy é sempre uma das personagens menos fortes presentes no enredo, o que torna toda a ação muito mais interessante. E claro, como boa brasileira, adoro torcer para a zebra da situação.

De forma negativa, a falta de personagens femininas que sejam amigas de Mercy ao invés de olhar torto pra ela o tempo todo é uma das coisas que me irrita. A única personagem feminina que ela se dá bem e sempre aparece nos livros é a filha do Adam, o par amoroso dela. Menos mal porque ela poderia nem se dar bem bom ela, mas, é simplesmente estranho todas as outras mulheres detestarem ela sem grandes motivos. Digo sem grandes motivos porque os citados são os mesmos para alguns homens, o que parece afetar só parte da população masculina, mas quase toda a população feminina. Estou torcendo para isso mudar em algum momento.

Por outro lado, Patricia Briggs consegue fugir dos finais com gancho, e seus livros são sempre redondinhos e com um final que te deixa com gosto de quero mais ao invés de ódio eterno. Estou ficando até com vontade de ler outras séries da autora, como a Alfa e Ômega, que se passa no mesmo universo. Agora vamos ver até onde vai o meu fôlego para ler as aventuras de Mercy, e até onde a autora consegue manter os volumes interessantes.

Nota 9.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Bone Crossed - Cruz de Ossos (Mercy Thompson #4)


 

SPOILER FREE

Continuando o meu atual vício com a série Mercy Thompson, não resisti e já terminei de ler o quarto volume, Cruz de Ossos, como ficou a tradução em Portugal pela editora Saída de Emergência. Depois de um livro voltado para cada um dos três grupos importantes do mundo criado pela americana Patricia Briggs, não tinha como não fazer um repeteco no livro número quatro.

Dessa forma, em Cruz de Ossos, temos quase que uma continuação do segundo livro, onde foi iniciada uma trama com os vampiros. Mas, dessa vez, Mercy precisa lidar não só com a rainha do clã local de vampiros, Marsilia, uma vampira muito antiga, mas acaba se metendo sem saber com um vampiro solitário de uma cidade próxima. 

Apesar dos momentos bem cheios de aventura, a questão aqui tem cores mais fortes de politicagem, não só pela relação entre os vampiros e os lobisomens, mas porque finalmente Mercy começa a fazer parte do grupo de lobisomens, como parceira do alfa Adam. Tinham me avisado que finalmente rolava uma ação interessante por conta disso, mas, fica o aviso de que não é bem o que eu esperava no quesito caliente. Melhor não esperar grandes coisas. Apesar das capas sugestivas, os livros de Patricia Briggs não têm esse tipo de cena. Não faz falta, porque a ação e o enredo seguram bem a leitura, mas, para quem curte, fica o aviso.

Estando no quarto livro, é interessante reparar que os volumes de Mercy Thompson são bem redondos. Cada um tem uma história com início, meio e fim, nada daqueles ganchos no final que levam os autores para um lugar especial do inferno, o que acho muito positivo. Patricia Briggs, ao invés de usar esse subterfúgio fácil, consegue criar sempre situações diferentes para cada livro, mas com temas e enredos mais longos, porém menos cheios de adrenalina, para compor o fundo e a conexão entre os volumes. Então, é importante ler na ordem, mas você não fica com ódio no coração por não saber o que vai acontecer em seguida.

O problema crônico da falta de personagens femininas que sejam amigas da protagonista continua, infelizmente. Entretanto, o texto também continua altamente viciante. Já peguei o livro seguinte. Não sei ainda se acho bom ou ruim a série ser tão longa... o décimo terceiro volume vai ser lançado em agosto de 2022 ainda! Vamos ver até onde a autora consegue levar essa fórmula e manter interessante e legal de ler.

Nota 9.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Iron Kissed - Beijo do Ferro (Mercy Thompson #3)


SPOILER FREE

Como boa leitora compulsiva que sou, mal terminei o segundo livro da série Mercy Thompson, da autora americana Patricia Briggs, e já entrei de cara no terceiro, Beijo do Ferro, como saiu na editora portuguesa Saída de Emergência.

Se no primeiro volume, O Apelo da Lua, conhecemos melhor como funcionam os lobisomens no mundo criado pela autora, no segundo volume, Vínculo de Sangue, conhecemos os vampiros, no livro seguinte era esperado sermos melhor apresentados aos fae. Os fae não são uma novidade, o mentor de mecânica de Mercy, Zee, que aparece logo no primeiro livro, é apresentado como um tipo de fae, um gremlin, um dos poucos tipos de fae que consegue lidar bem com ferro.

Então, dessa vez, é Zee que pede ajuda a Mercedes, e quando ela se envolve na investigação de assassinatos na reserva de faes da região onde ela mora, ela acaba sendo também a única interessada em ajudar Zee quando ele é preso injustamente. Novamente, temos a nossa protagonista, a menos poderosa entre todos os envolvidos, tentando fazer o que ela acha certo e, claro, ela se dá sempre mal, de uma forma ou de outra.

Além do drama do mentor preso, o clima na matilha local de lobisomens está estranho. Para tentar proteger Mercy, o alfa do grupo, Adam, decretou que ela era a sua parceira, mas, ela nunca aceitou a posição. Para piorar a situação, ela está morando com um ex-namorado, Samuel, que depois de abandonar a matilha mais importante do país, resolveu ir morar com ela, numa tentativa de reconquista-la, o que deixa tudo mais confuso.

O terceiro volume da série é mais um mistério do que um livro de ação, com Mercy tentando investigar os assassinatos para limpar o nome de Zee, mas outras tramas, que começaram nos livros anteriores, tem um peso interessante que torna o enredo mais complexo. Mesmo assim, o clímax do livro é pura adrenalina, com uma reviravolta que eu confesso que não esperava. Não sei o quão necessário era ter alguns acontecimentos, que podem gerar gatilho em alguns leitores, mas, deixa a personagem ainda mais interessante, e leva a algumas discussões importantes. O resultado no final das contas me agradou.

A única coisa que realmente me deixa insatisfeita com a série da Patricia Briggs é a falta de personagens femininas que não odeiem a protagonista. É um detalhe que acho triste, e que não vejo nenhum objetivo para ser assim, é só chato e deixa algumas situações bem mais machistas do que o necessário, considerando que Mercy sabe que vive em construções sociais machistas e reclama disso com alguma frequência.

Para quem curte séries de fantasia, recomendo muito Mercy Thompson, com apenas o aviso de gatilho de violência sexual nesse volume.

Nota 9.


quarta-feira, 13 de abril de 2022

Vínculo de Sangue - Blood Bound (Mercy Thompson #2)


 

SPOILER FREE

Depois de ler O apelo da lua, confesso que fiquei um tanto vidrada na personagem Mercy Thompson e no texto da americana Patricia Briggs. Nem respirei entre fechar o primeiro volume e abrir o seguinte, o que me deixou feliz por ter deixado para ler a série depois de ter conseguido a maioria dos livros.

Apesar das capas sugestivas, Patricia Briggs não segue a linha mais comum de fantasia com uma protagonista feminina que seja recheada de cenas picantes, apesar do triângulo amoroso e de certa importância dos relacionamentos amorosos no enredo. Por um lado isso é interessante, porque sobra mais espaço para ação e adrenalina, por outro, eu gosto de cenas picantes, mas não acho que faça falta em Vínculo de Sangue, como ficou o título em português de Portugal.

Dessa vez, Mercedes, a mecânica de Volkswagen, por conta de estar devendo um favor para um amigo vampiro no primeiro volume, aceita ir com Stefan atrás de um outro vampiro. O que era para ser um encontro tranquilo, se revela um problema porque o tal vampiro controla um demônio, e coloca todos, inclusive os seres sobrenaturais da região em risco.

A partir daí, Mercy, que entre todos os tipos de seres sobrenaturais descritos no mundo criado por Patricia Briggs, é um dos mais fracos e frágeis, acaba sendo colocada numa posição complicada onde ela precisa caçar o tal vampiro ultra poderoso. E essa é uma das características interessantes da walker, apesar de se considerar sempre menos poderosa que todos ao seu redor, ela nunca se recusa a ajudar os amigos, e mesmo com os riscos ela sempre tenta fazer o que ela considera a coisa certa.

É um tanto quanto fascinante acompanhar uma personagem heroica como Mercy, mas que não é super poderosa. Ela acaba conseguindo vencer os obstáculos de forma inesperada, e mais por pensar e se comportar fora da caixa, do que por força ou magia ou poder. Diferente de um grande número de séries por aí, ela não é a escolhida, ela não é a mais poderosa e ela não tem um grande objetivo a cumprir.

Mercy é a heroína de ocasião, que só estava no lugar errado e na hora errada, e que, por um senso de obrigação doido resolve se meter na briga de cachorro grande. E claro ela não sai ilesa, o que torna a coisa interessante, porque ela sabe que tem coisas a perder e não vai sair inteira, mas ela vai mesmo assim.

Então, além de ter uma protagonista interessante, personagens secundários interessantes, e um mundo muito bem construído e pensado, Patricia Briggs escreve bem, e consegue entregar um enredo cheio de adrenalina e que termina com gosto de quero mais. Ainda bem que eu já tenho o próximo livro para ler. É simplesmente viciante.

Nota 9.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Um de nós está mentindo - One of us is lying


 

SPOILER FREE

Fazia muito tempo que esse livro estava na minha lista de leituras, mas com pandemia e desafios literários, não havia surgido ainda o momento dele. Quando vi que iria sair a série no Netflix de One of us is lying, não teve jeito, precisei tirar o livro da estante virtual e lê-lo o mais rápido possível para poder assistir à série.

Confesso que não li o livro inteiro primeiro, quando cheguei na metade comecei a ver os episódios, o que foi uma experiência interessante, pois deu para saber bem direitinho todas as alterações que fizeram do livro para a TV. Claro que terminei o livro antes da série, porque prefiro assim, e ainda bem que fiz isso.

Esse foi o primeiro livro publicado da Karen M. McManus, e fez um enorme sucesso na época, o que nem faz muito tempo, ele é de 2017, e desde então sua carreira deslanchou, com mais uns 5 livros publicados, incluindo uma continuação (que sim, eu já tenho). O lance de best-sellers é que nem sempre a gente entende como eles chegaram lá. Mas Um de nós está mentindo, como ficou o título em português pela editora Galera, faz jus a todo o bafafá e ter virado série.


O livro é um mistério, daqueles em que você tem um assassinato e vários suspeitos e todo o enredo gira em torno de quem matou quem. Nesse caso, temos Simon, um garoto pouco social que criou um app de fofoca da sua escola, onde ele posta as histórias mais escabrosas (e sempre verdadeiras) de seus colegas. Claro, ele que foi assassinado. Na lista de suspeitos temos quatro estereótipos personagens muito diferentes entre si, a cdf Bronwyn, o atleta Cooper, a patricinha Addy e o encrenqueiro Nate.

A história é narrada trocando a voz entre esses quatro suspeitos, sendo que todos, claro, assim como o resto a escola, tinham motivo para se livrar de Simon. Misturando o dia a dia da escola, com o circo midiático que não poderia deixar de acontecer nos EUA, o enredo é cheio de reviravoltas e surpresas. Não só com relação ao conteúdo dos quatro de Bayview High no app de Simon, mas com relação a outros aspectos da vida de cada um dos personagens principais, que dá todo um sabor extra e complexidade para cada um deles.

Particularmente, amei demais o livro. Achei bem escrito, com boas reviravoltas, um final que me surpreendeu e bons personagens não só principais, mas secundários também. Incluindo aí a irmã da Addy, que amei de coração e fiquei danada de não ter aparecido na série, assim como outros bons personagens, como o advogado Eli. O relacionamento entre eles também foi muito bem explorado pela autora. Gostei tanto que estou animada de ler outros dos seus trabalhos.

E aí chegamos à série de TV, que aqui no Brasil está disponível no Netflix... por um lado, a adaptação é muito interessante, porque me parece que eles fizeram um esforço de deixar os personagens mais diversos do que no livro, o que é sempre bom. Outro ponto positivo é que eles capricharam na realidade online da juventude atual, que está no livro, mas é diferente quando você usa uma mídia visual para contar a história. 

Por outro lado, eles mudaram bastante coisa do texto original. Isso por si só não é um problema, adaptações precisam disso. Não me considero uma purista nesse sentido. Inclusive eu já esperava que eles fossem mudar o final da história, só pra não ficar exatamente como no livro. O meu problema com as alterações é que eu acho que elas deixaram a história mais boba e os personagens menos profundos. Se tiraram bons personagens secundários porque não ia dar tempo, eu entendo, faz parte, fico triste claro, mas entendo. Entretanto, colocaram no lugar toda uma história muito complicada com uma das professoras. E o desfecho dessa história foi péssimo em diversos sentidos na minha opinião.

Mais um caso de o livro era melhor.

Nota 10 para o livro.

A série foi renovada, mas sinceramente, não pretendo assistir outra temporada, vou ficar só nos livros, obrigada.

quinta-feira, 31 de março de 2022

O Apelo da Lua - Moon Called - Mercy Thompson #1


 

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de março, com o tema escritora de fantasia ou ficção científica, resolvi tirar da estante uma indicação antiga, Patricia Briggs. A autora estado-unidense ficou famosa com sua série Mercy Thompson, e vai lançar agora em agosto de 2022 seu livro nº 13! Mas eu não tinha lido nada dela ainda, por motivos de saber que era uma série longa, e eu não tinha conseguido comprar o livro nº 2, e, conhecendo o estilo literário, gostar do primeiro sem ter o segundo seria um problema. Que foi resolvido ainda em março, quando consegui o volume faltante numa promoção. 

E assim peguei para ler O Apelo da Lua, como ficou a tradução pela editora portuguesa Saída de Emergência, que já publicou os 6 primeiros volumes de Mercy Thompson em português na terrinha. Não sei como ficou a tradução, mas, é a mesma editora portuguesa da Charlaine Harris, então imagino que façam um bom trabalho.

A série traz como protagonista Mercy Thompson, uma walker, que é um mito nativo dos EUA, onde uma espécie de bruxa seria capaz de se transformar ou disfarçar de animais (ver skin-walker). No caso do livro, Mercy é filha de um indígena, e é capaz de se transformar em coiote. Sua mãe, que não chegou a conhecer bem o seu pai, morto durante a gravidez num acidente, quando vê um filhote de coiote no berço da filha vai atrás da família do cara, e Mercy acaba sendo criada numa matilha de lobisomens.

Se você não achou nada de muito original até agora, some o fato de que Mercy, ou Mercedes, se formou em história na universidade, e na impossibilidade de conseguir um emprego no seu ramo, virou mecânica de carros da Volkswagen (sim, é uma piada proposital), tendo aprendido o ofício com um gremlin. O mundo onde se passa a história ainda é povoado de vampiros, bruxas e outros seres mágicos.

O livro tem um jeito que lembra o estilo da Charlaine Harris na série Sookie Stackhouse, que deu origem a True Blood, mas o mundo de Patricia Briggs me parece mais complexo e interessante, pra ser sincera. Fora que todo o romance não é o tema central do enredo, o que dá um certo alívio, e mais espaço para ação e adrenalina. Mas, não se engane, tem romance, tem triângulo amoroso, afinal ainda é uma fantasia urbana que tem lá seu público específico.

Tem umas questões estranhas nos relacionamentos também, mas, justiça seja feita, a autora deixa claro que são coisas estranhas e não romantiza. Ponto pra ela. No quesito problemas femininos do livro, o que acho mais complicado é a ausência de amigas mulheres da Mercy, mas, tudo bem, ela tem amigos homens que são só amigos mesmo, e não é como se o livro não tivesse outras personagens femininas ou que a Mercy só falasse com mulheres sobre seus interesses românticos. Meio ponto, podia ser melhor.

Agora no quesito ação e aventura, acho que é aí que está o trunfo da Patricia Briggs. A ação e o mistério do enredo, que envolve uma conspiração contra as matilhas de lobisomens que nossa protagonista conhece, é de tirar o chapéu. Me deixou ligada na leitura até o fim, e nem respirei e já comecei o livro seguinte, como eu sabia que corria o risco.

É um bom livro de abertura de série, tem toda uma ambientação no início, explicando como algumas coisas funcionam e em que ponto o mundo se encontra (os seres mágicos são parcialmente conhecidos dos humanos porque é difícil de se esconder com a tecnologia e ciência atuais), mas sem perder o fio da meada. Quando você vê já está envolvido no enredo. Confesso que fazia tempo que eu não pegava um livro que me deixasse tão viciada.

Estou animada para os volumes seguintes.

Nota 9.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

The Apocalypse of Elena Mendoza



SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022, com o tema livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita, escolhi um livro que não só tem uma capa lindona (tanto a versão original dela quanto a nova), como tem um título super interessante, O apocalipse de Elena Mendoza (em tradução minha, porque nada do autor Shaun David Hutchinson foi traduzido até hoje para o português).

Dessa vez, o autor nos traz a história de Elena Mendoza, nascida de uma mãe virgem (e cientificamente comprovado como único caso de partenogênese da história), e que certo dia, colocada diante de uma situação inesperada, descobre que tem o poder da cura. Porém, cada vez que ela usa esse poder coisas terríveis acontecem.

Eu já conhecia o trabalho de Shaun David Hutchinson do livro The five stages of Andrew Brawley, e como amei, fui com convicção de que esse também seria bom. Adoro estar certa. O apocalipse de Elena Mendoza tem momentos tensos e de ação, mas a história não é sobre isso, é sobre o que cada um acredita estar certo, o poder de escolha individual, também conhecido como livre arbítrio, e ter empatia pela humanidade de todas as pessoas, independentemente de escolhas ruins ou más mesmo.

Por ser um livro sobre escolhas, e com uma protagonista com a escolha mais difícil a ser feita, o enredo é um tanto quanto lento, porque todo o drama gira entorno de como Elena vai escolher, e ela no fundo não quer fazer uma escolha. Mas, no caminho temos situações muito interessantes e um dos poucos livros que a maioria dos personagens não são héteros e onde isso não é o tema central da história que eu já li, o que é muito bom para variar. 

Shaun escreve muito bem, e sua voz para Elena convence e engaja o leitor no problema em questão, escolher quem deve ser salvo e como num apocalipse. E apesar do tema pesado e complexo em termos de como lidar com a fé das pessoas, Shaun não só faz escolhas interessantes e fora do padrão (inclusive em termos religiosos), como ele consegue trazer humor para a narrativa.

É um livro que vale tanto pela capa quanto pelo conteúdo.

Nota 9.

Broken (in the best possible way)

 


SPOILER FREE 

Para o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022 o tema é livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita. Esse caso é uma mistura de motivos. Particularmente, amo a capa de Broken pintada pelo artista Omar Rayyan, e teria pensado em comprar esse livro só por causa dela. Só que eu adoro o trabalho da autora Jenny Lawson, e teria comprado o livro independente da capa. Mas, claro, uma capa com a autora pintada segurando um monstro fofo é simplesmente irresistível e um bônus.

Jenny Lawson é uma figura interessante, seu blog me proporciona bons momentos semanais, e eu já li os dois outros livros dela, Alucinadamente Feliz e Vamos fingir que isso nunca aconteceu, e amei os dois. Não havia a menor chance de eu deixar Broken passar sem ler. 

A autora sofre de diversos distúrbios mentais e problemas de saúde, incluindo depressão, ansiedade e uma doença autoimune. Mas, ela consegue escrever sobre isso com uma honestidade bem humorada e sarcástica que não só torna a leitura agradável, mas também ajuda a entender melhor as suas questões e tornar o leitor mais empático com outras pessoas que possam ter problemas parecidos. Melhor tipo de literatura, né?

Entretanto, Broken foi escrito durante a pandemia, e eu confesso que acompanhei o processo no blog da Jenny, e não foi fácil. Atribuo a isso a minha sensação ao ler Broken, que foi diferente dos livros anteriores dela. Minha percepção é que a autora não estava nos seus melhores momentos, e, bem, por questões de prazo e da vida, ela fez o que dava para terminar o livro, mas, o resultado final não é o seu melhor trabalho. 

O livro tem bons momentos, assim como os volumes anteriores, é quase que uma coleção de causos e pensamentos da autora, e alguns dos capítulos são brilhantes. Porém, na média, Broken não é tão bom. Vale a leitura, claro, mas se você nunca leu nada dela eu indicaria os dois outros livros.

Mas, esse tem a capa mais bonita, sem a menor dúvida. Pena que como foi lançado em 2021, ainda não tem tradução para o português.

Nota 8.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Coffee will make you black

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2021 de novembro, com o tema protagonista negro, escolhi um já quase clássico da autora norte americana April Sinclair, Coffee will make you black. Apesar do livro ter sido lançado em 1994, até hoje não foi traduzido para o português, então, traduzo eu mesma o título: Café vai fazer você ficar preto. 

Pode parecer estranho, mas o título se refere a um dito popular dos EUA, especialmente nos séculos XIX e XX, que se dizia para as crianças não quererem beber café, para que ficassem com medo de escurecer sua pele. Em outras palavras, o título desse livro sozinho já diz muita coisa e a quê ele se propõe.

April Sinclair, criada em Chicago durante o movimento dos direitos civis dos negros americanos, traz a história de Stevie, uma jovem negra que começa o livro com 12 anos, e que vive durante os anos 60, bem no meio do movimento Black Power. A narrativa é toda centrada no ponto de vista de Stevie, que mesmo sendo uma leitora voraz e boa aluna, quer muito ser considerada cool. 

Apesar do pano de fundo político forte e do tema constante do racismo institucional dos EUA, a história de Stevie é de uma jovem se descobrindo, brigando com sua mãe, tentando fazer e manter amizades e conseguir um namorado. Talvez hoje seja meio clichê já, mas esse é o livro mais antigo que já li com esse tema onde praticamente todos os personagens são negros e que não é uma autobiografia.

Dentro do tema criança virando adolescente e se descobrindo, Coffee will make you black é um volume bem dentro do esperado, bem escrito, com questões típicas, mas muito abrangente, porque a autora não fica só no basicão. Ela inclui por exemplo, questões de descoberta da sexualidade que não eram muito comuns em livros publicados nos anos 90. 

Entretanto, o pano de fundo do movimento dos direitos civis e a questão do racismo trazem um peso para a trama que o leitor precisa estar disposto a enfrentar. Além disso, mesmo em inglês a leitura não é das mais simples, porque April caprichou nas gírias da época, o que, pessoalmente, eu gosto, porque data a história sendo contada, o que é mesmo o objetivo, mas, por outro lado pode deixar a leitura mais lenta.

No geral, é um excelente livro, e estou animada para pegar o volume seguinte, pois é uma duologia. Mal posso esperar para ver para onde vai a história de Stevie em Ain't gona be the same fool twice!

Nota 9,5.


domingo, 31 de outubro de 2021

Confissões de uma Irmã da Cinderela - Confessions of an Ugly Stepsister

 

SPOILER FREE

Para fechar o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema contos de fadas, resolvi finalmente pegar um outro livro do Gregory Maguire, famoso por Wicked, que ficou tão conhecido que transformaram num dos musicais de maior sucesso da Broadway. Tanto que quase virou filme, mas produziram aquele espanto que é Cats no lugar (pense numa aposta ruim!).

Wicked - versão original da Broadway

O lance do autor é reconstruir outras histórias clássicas, como ele fez tão brilhantemente com O Mágico de Oz em Wicked, mas ele tem uma preferência por contos de fadas. Caso você procure por sua bibliografia, vai perceber que ele já escreveu diversas adaptações dos mais variados contos supostamente infantis, mas, suas versões costumam ser bem mais, como dizer, adultas.

Lançado em português pela José Olympio, Confissões de uma Irmã da Cinderela traz uma versão um tanto quanto diferente da história tradicional, mas mantendo todos os principais traços do enredo original. Contada do ponto de vista da filha mais nova da madrasta, Gregory nos apresenta personagens bem mais humanos e, portanto, imperfeitos do que estamos acostumados. Iris é uma jovem que se considera totalmente sem graça, mas, fugindo com o resto da família da Inglaterra, se encontra numa cidade da Holanda onde oportunidades novas surgem. Sua mãe, Margareth, recém viúva, consegue um emprego no atelier de um famoso pintor da região, e ela e sua irmã Ruth se veem atraídas por uma das pessoas mais misteriosas da cidade, Clara, uma jovem de beleza tão incrível que seus pais a mantém presa em casa.

Com maestria, Gregory consegue criar uma história que leva essa situação até a do conto original, onde Clara se torna Cinderela, mas não exatamente a mesma que conhecemos, mas sim uma bem mais complexa e interessante, assim como suas meias-irmãs e madrasta. Sem fazer uso de realismo fantástico, o autor fia um enredo crível não só de acontecer, mas também de explicar porque o conto terminou contado da forma como é. E isso mantendo o leitor entretido e curioso ao mesmo tempo.

Considerando que Cinderela é um dos contos de fadas mais insossos que tem e com personagens tão preto e branco, o que o autor consegue fazer é quase um milagre, porque o resultado é uma história sensacional e cheia de personagens interessantes.

Assim como Wicked fez a passagem para outra mídia, Confissões de uma Irmã da Cinderela chegou a virar um filme da Disney, lançado direto para TV em 2002. Infelizmente o programa que ele fez parte é tão obscuro que hoje não está disponível em quase lugar nenhum, o que me impediu de assistir. O que é uma pena, adoraria ter visto Stockard Channing (uma das dias do filme Da Magia à Sedução) no papel de madrasta, tenho certeza que ela acertou em cheio na personagem.

Versão Disney do livro

Com toda a qualidade de Gregory Maguire, não entendo porque tão pouco de sua obra saiu em português, vale a pena ler o que tem disponível.

Nota 9.

domingo, 24 de outubro de 2021

Geekerela


SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de outubro com o tema contos de fadas, resolvi ler algo mais leve, e acabei optando pela comédia romântica Geekerela, que saiu com o mesmo título em português pela editora Intrínseca.

Como o título já deixa claro, a autora americana Ashley Poston traz uma releitura moderna de Cinderela, com uma boa dose de nerdice, o que achei uma premissa interessante. Então somos apresentados a Elle, uma órfã que vive com a madrasta e duas irmãs, e que é fã de uma série de televisão chamada Starfield, que ela assistia quando criança com o seu pai, um nerd de carteirinha que é um dos criadores de uma Comicon na região onde ela mora.

A tal série agora vai virar filme, e para estrelar a nova versão da saga, escolhem um ator famoso de uma série adolescente, Darien, que Elle acredita que não tem conhecimento suficiente do fandom para interpretar o Príncipe Carmindor, sem saber que ele frequentava cons antes de ficar famoso.

A história de Elle e Darien é muito fofa, e a autora caprichou em detalhes como o food-truck abóbora mágica, onde Elle trabalha, toda a disputa de cosplay, o fandom... realmente o enredo é cheio de referências nerds, e os elementos de Cinderela estão todos lá.

Por outro lado, o enredo tem furos complicados. Todo o drama de Darien com o pai e com os fãs da série adolescente que ele estrelou e com Starfield não faz muito sentido. As decisões dos personagens que deveriam ter sido racionais são totalmente ilógicas, o que, confesso, me deu muita raiva ao ler.

Outra questão que me incomodou é que toda a relação de Elle com a madrasta e as irmãs é muito exagerada. Tudo bem que Cinderela é um conto de fadas exagerado, mas, numa versão moderna, que se passa no século XXI num lugar como os EUA, para mim, ficou um tanto quanto forçado. O enredo teria ganhado com um pouco mais de sutileza.

Enfim, o resultado é uma leitura mediana, que ajuda a passar o tempo, com uma ideia interessante e fofa, mas que poderia ter sido mais bem trabalhada.

Nota 7.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Espada de Vidro - Glass Sword (Red Queen #2)


 

SPOILER FREE

Depois de sofrer com o primeiro livro da série Rainha Vermelha, resolvi ler o volume seguinte num misto de força do ódio com esperança de que poderia melhorar. Além de que, ainda estamos em setembro, e o Desafio Literário Popoca 2021 ainda está rolando com o tema de líderes autoritários.

A boa notícia é que consegui terminar de ler Espada de Vidro, como ficou a tradução em português pela Editora Seguinte. A má notícia é que não melhora.

A cabeça da protagonista, Mare Barrow, que é onde a história realmente se passa, é uma bagunça. Ela continua tão perdida quanto no primeiro volume, não só no que está ocorrendo a sua volta, mas também sobre os seus próprios sentimentos. Personagens contraditórios podem ser interessantes, mas existe limite.

A ambientação da história fica mais interessante e complexa, mas ainda falta coesão e coerência. Fico sempre triste quando vejo uma boa ambientação sendo desperdiçada com um enredo fraco.

O enredo dessa continuação é basicamente Mare fugindo do agora rei Maven, junto com o herdeiro do trono em desgraça, Cal. Eles se aliam à organização Red Dawn, incluindo Kilorn, pra completar o quadrado amoroso da série, enquanto eles procuram por mais pessoas de sangue vermelho com poderes. 

Parece algo cheio de aventura e adrenalina, né? Na realidade nem é. A narrativa é lenta e repetitiva, seguindo os moldes do primeiro livro. Um número grande de personagens acaba sendo apresentado nessa busca, mas nenhum deles é realmente interessante ou marcante. Os poderes são... algo que lembra super heróis de quadrinhos no sentido ruim da coisa.

Achei a leitura tão arrastada que precisei ler dois outros livros no meio de Espada de Vidro para conseguir chegar até o final. Que sim, teve adrenalina e um gancho, como eu esperava, mas ainda assim era previsível. É preciso dizer que a previsibilidade do enredo não anima.

Mas a série Rainha Vermelha fez muito sucesso, o que não entendo como aconteceu, então, farei um esforço pra chegar no final. Vai que melhora? E, se não melhorar, poderei falar mal com propriedade.

Nota 5.

domingo, 5 de setembro de 2021

Anton (Chicago Blaze #1)


 

SPOILER FREE

Em tempos sombrios precisamos de coisas para nos distrair e quem me segue sabe que eu faço uso de literatura erótica pra isso. Então, foi procurando puro escapismo que peguei meu primeiro livro da autora americana Brenda Rothert, que tinha boas resenhas e um interesse romântico de Hockey, só porque meu marido joga.

O enredo me chamou atenção, porque traz algo incomum para histórias desse tipo envolvendo esportistas, nosso personagem principal, Anton, é celibatário ao invés do clichê pegador, e isso porque ele é apaixonado pela esposa de um colega de equipe, a bela e recatada do lar Mia. Fiquei curiosa para saber como a autora iria pegar essa premissa e transformar num romance que não tinha resenhas negativas por questões de traição. (sim, livros com traição costumam gerar resenhas negativas, quem diria?)

Apesar da premissa não seguir o clichê mais comum, para fazer essa história funcionar, Brenda acaba fazendo uso de todos os demais clichês que você puder imaginar. Com direito a personagens unidimensionais bem básicos. O malvado do enredo é feito para ser odiado sem a menor dúvida, e nada dele se redime, o que tem lá os seus problemas internos na história. A mocinha, coitada, é daquelas que por mais que a autora tente justificar sua apatia, é tratada como capacho e vira um joguete entre os machos alfa.

Menos mal que o machismo óbvio presente no enredo não é apontado como romântico, o que já é muito melhor que muita coisa por aí. Alguns temas mais sensíveis não são tratados de qualquer jeito, e nem possuem solução mágica, o que achei positivo.

Mas, é aquilo, isso é suficiente para o livro ser mediano, e não o torna particularmente bom.

Apesar disso, a leitura é tranquila e não me fez revirar os olhos, tendo até mesmo algumas passagens particularmente gostosas de ler. O interessante é que a maioria dessas passagens não tinha a ver com o romance em si, o que torna o livro um pouco mais complexo do que a média do estilo.

Somando tudo, é um livro okay. Para quem quer ler cenas picantes, não é o melhor que tem por aí, mas se você quer apenas escapismo, e um vilão pra xingar por diversas gerações, é uma boa indicação.

Nota 7.

Time of Uncertainty: Poems for Domestic Isolation


SPOILER FREE

Com um dos temas do Desafio Literário Popoca sendo poesia, consegui retomar em parte minhas leituras poéticas, e depois de mais de um ano de pandemia, confesso que comprei esse livro por causa do título.

Eu estava animada para ler mais poemas sobre a quarentena, depois de uma linda experiência com Regresso a casa, do português José Luís Peixoto. Infelizmente a poetisa norte americana Stephanie Van Hassel não tem a mesma grandeza.

Primeiro, o título do livro engana, apesar de Time of Uncertainty: Poems for Domestic Isolation trazer um ou dois poemas sobre quarentena, a maior parte dos textos é sobre família e maternidade, sem o contexto de pandemia. Segundo, os poemas são interessantes, mas não exatamente brilhantes.

Com exceção de uma ou outra poesia realmente incrível, o trabalho de Stephanie Van Hassel é mediano. Vale a leitura para quem curte ler poesias de forma geral, e para quem gosta dos temas tratados pela autora, mas não chama atenção por si só. 

Nota 7.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Rainha Vermelha - Red Queen (Red Queen #1)


SPOILER FREE

Para abrir o Desafio Literário Popoca 2021 de setembro, com o tema ditadores e governadores autoritários ou insanos, decidi apostar na famosa série Rainha Vermelha, da autora americana Victoria Aveyard. Porque nada com um young adult para relaxar...

Só que não.

A Rainha Vermelha não é relaxante, não porque o enredo se passa num mundo dividido em duas castas separadas por sangue, sangue vermelho e sangue prateado, onde os prateados dominam os vermelhos por serem mutantes benders magos terem poderes que podem aniquilar os vermelhos num piscar de olhos e por serem a elite econômica, não. A Rainha Vermelha também não é relaxante, não por causa da violência, da guerra ou das mortes, não. 

A Rainha Vermelha não é relaxante porque os personagens são irritantes ao extremo.

Explico. Imagina um enredo com uma personagem principal chamada Mare Barrow (prometo não sacanear o nome, apesar da vontade) que é uma ladra, excelente nisso, daquelas que saca tudo do que está acontecendo ao redor e saber ler as pessoas. Agora, ela praticamente ganha numa loteria, vira uma princesa, e do nada ela não saca mais nada.

Dos que não curtiram a série, muitos reclamam do triângulo, digo, quadrado amoroso de Mare, Cal, Maven e Kilorn (porque sim, ela precisava não de dois, mas três interesses românticos), especialmente pelo fato de terem dois irmãos nesse polígono. Mas, sinceramente, isso não me incomodou, achei até interessante, e um tanto quanto corajoso da autora. O que incomoda é saber logo de cara quem é bonzinho e quem é malzinho na história e ter que esperar a protagonista perceber o que está explícito desde o início.

Pior ainda é ter que esperar isso acontecer dentro da cabeça da protagonista, que não sabe o que sente, não sabe o que quer e não sabe o que fazer ou esperar. Angústia adolescente é um tempero praticamente obrigatório em young adult, mas o leitor de qualquer idade precisa de mais do que isso num livro.

Talvez tudo ficasse mais interessante se os demais personagens fossem espertos, e Mare ficasse perdida justamente porque cada um tenta usá-la de uma forma diferente. Mas, para uma corte supostamente tão perigosa e cheia de intrigas, os prateados são extremamente simplórios e pouco percebem as artimanhas uns dos outros. Uma coisa é a menina que veio de fora não sacar o que está acontecendo, por mais sagaz que ela seja descrita no início da história, outra coisa é o Rei e outros chefes das famílias importantes não sacarem o que está acontecendo. Gente, eles nem desconfiam. Como assim?

Inclui aí um grupo revolucionário que por um lado é super ultra mega organizado, e por outro lado parece saber pouco do sistema ou contra quem eles estão lutando.

O resultado de tudo isso é um livro com boas ideias, mas mal montado, desconjuntado e com uma coerência interna que deixa a desejar. Para disfarçar, a autora faz uso de repetir as coisas, pra ver se convence o leitor do que deveria estar acontecendo martelando na nossa cabeça.

Definitivamente não é uma leitura relaxante.

Mas, pelo sucesso de público a gente fica curiosa, né? E não tem nada melhor do que reclamar com propriedade nesses casos.

Nota 5.