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terça-feira, 5 de abril de 2022

O Céu Não Sabe Dançar Sozinho


 

SPOILER FREE

Quem me acompanha sabe que eu tenho uma listinha de autores favoritos que eu tento ler algo com alguma frequência, Ondjaki é um deles. O autor angolano é uma preciosidade capaz de escrever em diversos estilos literários, incluindo poesia, livro infantil, livro adulto, contos e romances. E ele não só escreve de tudo, mas escreve tudo muito bem.

Esse livro já estava fora da estante, rodando por aí na minha bolsa de praia, mas só essa semana eu consegui sentar na areia e lê-lo, de uma vez só, diga-se de passagem. Ainda bem que estava debaixo de uma barraca e com protetor solar, porque só consegui fechar o livro quando terminei.

O céu não sabe dançar sozinho é uma coletânea de contos, com um quê de realismo fantástico, que parecem relatos do autor em suas estadias ao redor do mundo. Cada conto se passa numa cidade diferente, num continente diferente, mas todos tem aquele quê característico de Ondjaki.

Apesar do livro se passar por diversos cantos do mundo, não espere um relato de viagens ou descrições de diversas cidades. Isso talvez seja comum demais para o autor. Seja na África, na Ásia ou na Europa, o autor traz pequenos retratos do que é um ser humano num lugar onde não pertence, onde se sente um tanto quanto inseguro e incerto das regras, mas que mesmo assim tem uma razão para estar ali. Nem que essa razão seja estar aberto para o improvável e para novas experiências.

Assim como outros livros supostamente autobiográficos do autor, não é claro o quão real ou fantasioso ou uma mistura dos dois os contos são. E no fundo, esse é um dos trunfos de Ondjaki, ele consegue capturar o humano em situações por vezes estranhas, mas não necessariamente impossíveis. E com isso ele transmite uma beleza única em coisas que podem parecer banais ou simplesmente surreais.

Mais um livro do autor que entra na lista de mais uma razão para ler Ondjaki.

Nota 10.

domingo, 30 de maio de 2021

Os da minha rua


SPOILER FREE

E quase no apagar das luzes do mês, aproveitei para tirar da estante o escolhido para o tema do Desafio Literário Popoca de maio: livros escritos originalmente em português! Dessa vez optei pelo premiadíssimo angolano Ondjaki com o seu vencedor do Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco de 2007: Os da minha rua.

Para quem nunca ouviu falar de Ondjaki, alcunha do angolano Ndalu de Almeida, ele é um poeta e escritor nascido em Luanda, Angola, em 1977, formado em sociologia, estudos africanos e teatro. Ele escreve de tudo, poesia, contos, romances, livros infantis, infantojuvenis e adultos. Já ganhou diversos prêmios, como o Jabuti (AvóDezanove e o segredo do soviético, 2010) e o José Saramago (Os transparentes, 2013), para dizer só dois. Seus livros já foram traduzidos para diversos idiomas, e boa parte da sua obra já foi publicada no Brasil, o que é uma maravilha.

No Brasil, você vai encontrar suas obras editadas pela Companhia das Letras, pela Pallas e pela Língua Geral. É um autor africano bastante disputado, como se pode notar, o que não é comum.

Pessoalmente sou muito fã do seu trabalho, tudo o que já li dele é de uma beleza ímpar, não importa o gênero literário, e sou afortunada, já li diversas de suas obras. Os da minha rua não foge à regra de que Ondjaki escreve admiravelmente bem.

Nesse livro de contos, todos bem curtinhos, o autor caminha por suas memórias de infância em Luanda, nos anos 80. Vale mencionar que nessa época o país passava por uma guerra civil, entre um partido comunista e um partido anticomunista, de forma que Angola era um terreno de guerra por procuração entre os EUA e a URSS. Não tenho certeza de quão autobiográficos os contos realmente são, mas as histórias soam sinceras, e apesar de não entrarem na questão política que marcava o país, a presença soviete está lá em quase todos os momentos, de pano de fundo. O que é interessante, pois, como numa visão infantil, o autor não julga aquilo, eles simplesmente estão lá. E essa presença é marcante em diversas obras de Ondjaki.

Em Os da minha rua, o autor usa os contos não exatamente para contar uma história, ou várias, mas sim, como num álbum de fotografias, para construir um conjunto de imagens de uma época, que apesar de serem suas memórias pessoais, são capazes de dar um panorama do que era ser criança em Luanda nesses anos. E, quem foi criança nos anos 80 no Brasil, vai ver diversas similaridades no mínimo curiosas. E quem não foi, sentirá aquele gosto nostálgico de ser criança, porque no fundo, são histórias e momentos muito humanos que o autor descreve.

E como ele descreve... Ondjaki tem um talento para palavras, seu texto tem uma beleza simples, que no fundo esconde uma sofisticação e erudição interessantes. Sua prosa tem um quê de poético e cria imagens belíssimas e cheias de sinestesia que são características do autor. Não é à toa que ele ganhou tantos prêmios, e que tudo o que ele escreve acaba sendo bonito e gostoso de ler.

Recomendo realmente qualquer coisa dele. Mas, se você quiser começar por Os da minha rua, será uma belíssima porta de entrada.

Nota 10.

terça-feira, 30 de março de 2021

Olhos d'água


 

SPOILER FREE

Para fechar o Desafio Literário Popoca de março, com o tema escritoras, resolvi fazer uma escolha sem chance de errar: Conceição Evaristo.

Para quem não conhece ainda, Conceição Evaristo é uma escritora negra brasileira nascida em Minas Gerais, numa família pobre. Tanto que ela foi a primeira da sua casa a conseguir um diploma universitário, sendo que hoje ela é doutora. Uma das suas obras mais famosas é Becos da Memória, lançado 20 anos depois de ter sido escrito por motivos de preconceito.

Dessa vez, em Olhos d'água, a autora nos traz um livro de contos que, talvez se não fosse por ela, jamais seriam impressos. Conceição dá voz a personagens que não têm vez, que não saem em jornal com nome próprio, isso, se saírem, mesmo que a seja por motivo de morte trágica. São os favelados, os em situação de rua e desvalidos. Suas histórias, mesmo com a poética que a autora é capaz de imprimir, são muito mais denúncias do que enredo de livro comercial.

E por isso mesmo essa leitura é importante, por mais que seja dura.

Nesse sentido, a poética de Conceição Evaristo ajuda: é a camada de açúcar num remédio muito amargo, que não cura nada, só faz abrir os olhos. O que pode ser, em alguns casos, terapêutico. É bastante sintomático que histórias como as de Olhos d'água, que são muito mais comuns do que deveriam ser, sejam tão incomuns de serem contadas.

Por isso mesmo, por mais duro que seja, que precisamos delas. Precisamos delas para conhecer, para dar espaço e voz, e, principalmente, para nos mantermos empáticos em meio à situação calamitosa que, infelizmente, nos acostumamos a viver.

Ler Conceição Evaristo, nesse sentido, é ato de resistência. Vale cada lágrima.

Nota 10.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

For He Can Creep by Siobhan Carroll


 

SPOILER FREE

Para fechar o ano de 2020 com um tom mais alegre, peguei um livro, um conto quase de tão curtinho, com gatos. Gatos fazem tudo ficar mais divertido.

Não lembro muito bem como comprei For he can creep, desconfio que foi uma promoção da Amazon que eu não resisti ao ler a descrição: O poeta do século dezenove, Christopher Smart, foi internado no Hospital para Lunáticos de São Lucas, acreditando que Deus o encarregou de escrever O Poema Divino. Mas anos antes, ele havia feito uma barganha com Satanás e o diabo veio para cobrar o que lhe era devido - um poema que trará o apocalipse. Salvar a alma de Smart, e do resto do mundo, é uma tarefa para Jeoffry, o gato lutador de demônios do poeta e uma astuta criatura que Satanás seria um tolo de subestimar.

E o conto da autora americana Siobhan Carroll entrega tudo o que promete nessa descrição. Eu adoro livros com gatos, mas livros bem escritos com gatos eu simplesmente amo. Contado do ponto de vista de Jeoffry, For he can creep é uma pequena joia de leitura. Tem adrenalina, tem poesia, tem misticismo e tem gatos sendo gatos. Não tem como não gostar.

De cerejinha, é bom saber que Christopher Smart existiu, foi um poeta inglês do século XVIII que realmente foi internado num hospício, onde suas poesias passaram a ter um tom religioso. E esse conto em particular é baseado num dos poemas que ele realmente escreveu durante sua estadia no Hospital para Lunáticos de São Lucas, no qual ele fala sobre como o seu gato Jeoffry o protege dos demônios.

Fiquei com o maior gosto de quero mais. Recomendadíssimo, especialmente para amantes de gatos.

Nota 10.

sábado, 7 de março de 2020

Contemporary Iraqi Fiction: An Anthology



SPOILER FREE

Seguindo o tema autores orientais do Desafio Literário Popoca de março, resolvi pegar um livro raro. Sem tradução para o português, Contemporary Iraqi Fiction é uma lindíssima coletânea de contos de autores iraquianos, traduzida e editada por Shakir Mustafa. Não o ator Mustafa Shakir, favor não confundir, apesar dele ser um colírio.


Aqui estamos falando do PHD e professor de árabe Shakir Mustafa, que se deu ao trabalho de levantar uma lista extremamente variada de autores iraquianos com pouca ou nenhuma tradução para qualquer outra língua. E põe variada, a lista inclui homens, mulheres, muçulmanos, judeus e cristãos de variadas épocas do século XX, com ênfase na produção literária do Iraque a partir dos anos 80. Com direito a diversas histórias sobre as diversas guerras no Iraque, guerra com o Irã, guerra do golfo (aquela do Kuwait), embargos e a invasão americana. Sem deixar de lado as questões do governo Saddam Hussein.

Como não achei a lista de autores de forma clara em nenhum site sobre esse livro, então segue para futura consulta e referência de todos: Mohammad Khodayyir, Lutfiyya al-Dulaimi, Mahdi Isa al-Saqr, Mayselun Hadi, Abdul Rahman Majeed al-Rubaie, Samira al-Mana, Abdul Sattar Nasir, Samir Naqqash, Salima Salih, Samuel Shimon, Mahmoud Saeed, Nasrat Mardan, Jalil al-Qaisi,Ibtisam Abdullah, Ibrahim Ahmed e Shmuel Moreh.

Não sei o que me deixou mais triste, as histórias mais pesadas da coletânea ou o fato de que não consegui achar mais quase nada desses autores para ler depois. Porque, conforme prometido pelo editor, esses são autores pouco traduzidos, o que me pareceu um grande desperdício quando li o livro, que é simplesmente maravilhoso.

Me sinto revoltada quando leio livros assim tão maravilhosos que, por conta de barreiras linguísticas e sociais, acabam tendo um alcance tão limitado. O mundo perde muito com esse tipo de situação.

Os contos escolhidos para compor Contemporary Iraqi Fiction são de altíssima qualidade, e o trabalho de tradução está primoroso, mesmo nos casos em que o editor escolheu romances para traduzir e montou contos com pequenos pedaços deles. Sim, tem essa heresia no livro, mas como está bem feita eu perdoo.

Meu amor pela literatura árabe só aumenta quando encontro obras assim. Indico para todos que possam ter acesso e ler.

Nota 10.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

My True Love Gave To Me: Twelve Holiday Stories - O Presente do Meu Grande Amor: Doze Histórias de Natal

SPOILER FREE

Nessa época de fim de ano sempre gosto de ler livros temáticos! Dessa vez escolhi essa coletânea de contos (nem tão curtos assim) natalinos de diversos autores que estão na moda. Entre eles a Gayle Forman, que escreveu Se eu ficar, Jenny Han, autora de Para todos os garotos que já amei e Rainbow Rowel, autora de diversos livros de sucesso, como Eleanor & Park.

Apesar de eu ler esse tipo de coletânea com alguma frequência, tenho consciência de que elas funcionam como uma loteria literária, às vezes a gente se dá bem, às vezes se dá mal. E normalmente o resultado final é uma salada mista com altos e baixos.

Dessa vez, ganhei o grande prêmio. My true love gave to me é uma das coletâneas mais consistentes e de melhor qualidade que já li. Entre os seus doze contos não tem nenhum que eu possa dizer que achei ruim ou que não gostei. Uma raridade incrível.

Mas não posso garantir que todos irão concordar comigo. É preciso apontar que todos os autores dessa coletânea escrevem livros do gênero young adult e nem todos curtem, então, é preciso deixar clara a proposta desse volume.

E todas as histórias estão relacionadas ao Natal de alguma forma, algumas de forma mais literal e clássica, outras de forma tangencial ou até mesmo pagã. Mas todas as histórias são boas e divertidas de ler.

Para quem gosta do tema e do gênero, é um prato cheio que indico muitíssimo.

Nota 10.

sábado, 10 de novembro de 2018

Histoires et d'autres histoires by Jacques Prévert



SPOILER FREE

Preciso começar dizendo que adoro Jacques Prévert. Eles faz parte do meu caso de amor com o idioma francês, e isso me torna um tanto enviesada com tudo o que ele escreve. Em compensação, ele é um dos autores mais lidos na França, reconhecido como um dos grandes da literatura francesa. Assim, eu posso dizer que sou enviesada mas tenho alguma razão para isso.

Como já contei em mais de um post por aqui, desenvolvi nos últimos anos o costume de ler poesias de manhã, o que torna a vida mais leve e feliz. Depende do livro e da poesia, ok, mas no geral funciona bem. E esse é um dos motivos pelos quais acabei acumulando uma coleção razoável de livros do autor. Aguardem mais Jacques Prévert no futuro.

Histórias pessoais à parte, essa edição de Histoires é uma coletânea de textos do autor francês, que variam entre poemas e histórias curtas, algo como contos, mas não exatamente isso, porque o que Jacques escreve não são exatamente contos, nem histórias. Confesso que tenho dificuldade de definir.

Prévert tem um pé no surrealismo, e isso é bastante notável em diversos dos seus trabalhos, o que não agrada todos os tipos de leitores. Mas ao mesmo tempo é essa qualidade que torna as suas críticas ao mundo que ele viveu (o que inclui as grandes guerras) tão interessante e ao mesmo tempo leves. Veja bem, seus textos são lidos por crianças na França por causa disso.

Ao mesmo tempo, por ele ser muito apegado a essas críticas, é preciso conhecer um tanto de história francesa e da política francesa para entender boa parte delas. Eu não sou nenhuma expert no assunto, apesar de não ser totalmente leiga, e preciso dizer que senti muita falta de algumas notas de rodapé. Talvez eu tenha dado azar com a edição francesa que consegui, talvez eu precisasse de uma edição bilíngue. Independentemente disso, o resultado é que me senti perdida em diversos textos. Estava claro que eu não estava captando tudo o que ele queria dizer.

Apesar disso, Jacques é maravilhoso, e não é necessário entender cada crítica escondida que ele coloca nos seus textos para apreciar seu trabalho. A leitura ainda assim é extremamente agradável, leve e divertida. Na maioria das vezes, pois de vez em quando ele traz temas bastante pesados.

Então, como boa fã que sou:

Nota 9. Pela falta dos rodapés. Pura preguiça dos editores!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

The Djinn Falls in Love and Other Stories



SPOILER FREE

Essa é uma das coletâneas de contos mais interessante, diversificada e específica ao mesmo tempo que eu já encontrei.

É um livro que tem diversos contos centrados em gênios (do tipo árabe, daquele tipicamente da lâmpada na imaginação ocidental). Os autores são absurdamente variados, tem diversos árabes, claro, mas tem autores ocidentais e de outras etnias orientais também.

Isso significa que a variação da compreensão do que são gênios e o que eles são capazes de fazer também varia enormemente! Tem histórias mais realistas, outras bem estilo fantasia, tem poesia, tem romance, mistério e questões sociais. Nesse sentido, a quantidade de contos em mundos pós-apocalípticos me deixou extremamente surpresa. De onde esse monte de autor tirou a mesma ideia? Claro que as formas são diferentes, mas mesmo assim! Não é a toa que moda existe em tudo quanto é lugar. Está aí uma prova!

De forma geral, a média da qualidade dos contos é muito boa. Eu fiquei positivamente surpresa, porque normalmente um livro desse gênero é a maior montanha russa entre contos maravilhosos e coisas difíceis de chegar até o final. Mas "The Djinn Falls in Love" é uma coletânea muito bem escolhida, com todos os contos minimamente bons e outros simplesmente maravilhosos. Diversos autores me chamaram a atenção e eu ainda vou dar uma pesquisada para descobrir outros trabalhos deles, porque acho que vai valer a pena.

Claro que o fato de que todas as histórias têm gênios foi positivo para mim também, a louca da cultura árabe que sou, não tinha como não gostar. Certamente o tema traz uma pegada minimamente oriental para todas as histórias, independentemente do autor ser ou não árabe. Inclusive, muitos dos autores árabes me surpreenderam por trazerem propostas fora do que poderia ser considerado clássico ou esperado. De forma geral, o trabalho deles é simplesmente contemporâneo com uma pitada árabe.

Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o português, mas é possível encontrar versões eletrônicas em inglês (mesmo em lojas brasileiras) por um preço acessível.

Também é preciso apontar que muito da propaganda do livro fica em cima do nome do Neil Gaiman, mas fiquem avisados, o conto dele que aparece aqui é só um pedaço do livro American Gods (Deuses Americanos), inclusive o pedaço em questão já apareceu também na série de TV. Não comprem o livro só por isso.

Nota 9.

domingo, 20 de maio de 2018

Madinah: City Stories from the Middle East



SPOILER FREE

Entrei numa fase meio oriental, então resolvi continuar lendo sobre o oriente médio. Para as minhas leituras noturnas, eu gosto de dar preferência para livros de contos ou livros de não ficção, que é o tipo de leitura que dá para parar no meio (ou no final do conto). Para minha sorte, fazia pouco tempo que eu tinha conseguido essa coletânea de contos de autores árabes numa promoção.

Primeiro preciso dizer que nem sempre gosto do trabalho da organizadora dessa coleção, a libanesa Joumana Haddad, mas ela é uma figura importante no cenário literário e feminista do Líbano, então eu sigo de perto o que ela produz. E dessa vez fiquei muito satisfeita.

O livro tem como proposta trazer histórias passadas em diversas cidades de países árabes, através de contos de diferentes autores que nem sempre são impressos fora dos seus países. São 10 autores, em 10 cidades, e oito contos traduzidos do árabe e do hebraico.

Como todo livro de contos, tem os seus altos e baixos, mas dessa vez a média foi acima do que eu esperava, e aproveitei para conhecer diversos autores novos que já entraram na minha lista para futuras leituras. E como os autores selecionados são todos contemporâneos, achei interessante, afinal estava na hora de eu atualizar um pouco a minha leitura de escritores árabes para uma época mais moderna. Não que eu vá deixar de ler os autores mais antigos, claro, Naguib Mahfouz continua sendo maravilhoso.

Recomendo a leitura para quem gostaria de ler algo diferente, passado no mundo árabe moderno, e com boa qualidade.

Nota 9.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Once Upon A Curse: 17 Dark Faerie Tales



SPOILER FREE

Nas minhas leituras noturnas diárias eu tenho dado preferência por livros de contos ou que não me mantenham acordada a noite inteira, e como no mês passado o tema era livros que lembrassem o Halloween (essa resenha está atrasada, claro), achei que uma coletânea de contos de fada um pouco mais dark seria bastante apropriado. E a capa, a capa desse livro é linda, totalmente irresistível na hora de comprar, levando em consideração que eu gosto do tema, claro.

Infelizmente, a coletânea não foi tão interessante quanto eu esperava. Nem muito porque os contos eram ruins (apesar de que alguns realmente caíram nessa classificação, o que acontece em coletâneas, mas eram minoria), mas porque muitos tinham mais jeito de amostra grátis para alguma obra do autor do que de contos mesmo. Muito desagradável você chegar no final de um suposto conto e ter um link para comprar a continuação. E isso aconteceu algumas vezes nesse livro.

Em contraste com isso, alguns contos, uns dois em especial, eu realmente gostei, e o fato de ler lido o livro no aplicativo do celular facilitou muito, pois, como mencionei, no final dos contos sempre tinha links para as páginas dos autores, e eu confesso que aproveitei e comprei alguns livros no processo. Compradores compulsivos de livros, fiquem avisados. Leiam sem wi-fi ou em papel.

Na média, infelizmente, o seleção do livro não ficou tão boa, apesar das minhas compras, e por isso, a nota: 6.5.

domingo, 22 de outubro de 2017

Tails of Wonder and Imagination

     What is it about cats? Why do they lend themselves to fiction so easily? There have been numerous anthologies of cat stories, several of them multi-volume series. There is no other animal about which writers from all genres seem to be obsessed. Mystery, horror, science fiction, and fantasy stories have been written about cats.
     It's possible that felines, thought to be domesticated by happenstance rather them intent, are considered more mysterious, and thus more interesting to write about than other animals. Canines are pretty up front about their feelings - they're considered to be loyal, obedient, and cheerful. Dogs, the oldest domesticated animal, have anthropomorphized themselves - become more like people. Cats have done very little of that. They are still strangers in the house. The cat does what it wants and goes its own way, which conjures up the darker images of willfulness, self-interest, and mystery.

SPOILER FREE

Então, esse foi o livro que escolhi para o desafio literário de agosto, que consistia em ler um conto por dia. Só que por ser um livro comprado no kindle, eu não tinha a menor ideia de que ele tinha mais de 600 páginas!Resultado: demorei muito mais do que o esperado para ler, ainda mais porque li no esquema um conto por dia antes de dormir. O que também não foi lá muito certinho, porque alguns contos na verdade eram mais novelas ou romances do que contos, de tão grandes.

Fora o pequeno problema de organização, a seleção de obras de histórias relacionadas a felinos de Ellen Datlow é de tirar o chapéu. Entre autores maravilhosos e famosos, como Neil Gaiman, Stephen King, Susanna Clarke e outros, as histórias são em sua maioria fabulosas, com poucas ficando como medianas. Além disso, o livro é exatamente o que a organizadora promete: extremamente variado. Tem ficção científica, terror, fantasia, história de detetive, contos sobre o dia a dia (tem até um que realmente é baseado em fatos reais), mitologia... enfim, variedade é que não falta.

Portanto, é um livro que não se cansa de ler, e como a média de qualidade dos trabalhos é muito alta, também não dá vontade de pular nada no caminho. São 39 histórias que realmente valem a pena ler. Ficarei de olho para outros livros organizados pela Ellen, ela tem bom gosto!

Nota 10!

domingo, 13 de agosto de 2017

Trigger warning - alerta de risco


 Making a chair

Today I intended to begin to write.
Stories are waiting like distant thunderstorms
grumbling and flickering on the gray horizon
and there are emails and introductions
and a book, a whole damn book
about a country and a journey and belief
I'm here to write.

I made a chair.
I opened a cardboard box with a blade
(I assembled the blade)
removed the parts, carried them, carefully, up the stairs.

"Functional seating for today's workplace"
I pressed five casters into the base,
learned that they press in with a most satisfying pop.
Attached the armrests with the screws,
puzzling over the left and the right of it,
the screws not being what they should be
as described in the instructions. And then the base
beneath the seat,
which attached with six 40mm screws (that were
puzzlingly six 45mm screws).

The the headpiece to the chairback,
the cairback to the seat, which is where the problems start
as the middle screw on either side declines
to penetrate and thread.

This all takes time. Orson Welles is Harry Lime
on the old radio as I assemble my chair. Orson meets a dame
and a crooked fortune-teller, and a fat man,
and a New York gang boss in exile,
and has slept with the dame, solved the mystery,
read the script
and pocketed the money
before I have assembled my chair.

SPOILER FREE

Nunca imaginei que eu fosse ficar tão atrasada com minhas resenhas, ainda mais quando o próximo livro na lista fosse do Neil Gaiman.

Como comentei em outros posts, adquiri como novo hábito ler no celular antes de dormir, o que significa que agora eu tenho lido pelo menos 2 livros ao mesmo tempo, um no kindle e outro no celular. E no celular eu tenho dado preferência por livros que não tirem o meu sono, em outras palavras, livros de contos são ótimos para isso e os meus agora tem voado da estante virtual.

"Trigger warning", ou "Alerta de risco" em sua tradução para o português, é um livro de contos do autor inglês Neil Gaiman, famoso por aqui no blog por eu ser uma grande fã. Gaiman é um autor que eu gosto especialmente pelo seu lado sombrio, inclusive quando escreve histórias supostamente infantis. Outros livros de contos que já li dele você pode encontrar aqui e aqui.

Como todo livro de contos, é claro que tem os seus altos e baixos, mas sendo Neil Gaiman os baixos são mais para altos. Além disso, nem tudo são exatamente contos, alguns são novelas (um termo usado pelos americanos para um conto muito grande ou um romance curto), outros são poemas, como o que está ilustrando essa resenha. E para os fãs de carteirinha, esse livro inclui o texto original de "The Sleeper and The Spindle" e um conto com o personagem principal de "American Gods" (que agora virou uma excelente série de TV) Shadow Moon, que é o ponto alto desse volume, na minha opinião.

De forma geral, é um dos livros de contos do Gaiman mais eclético que já li, o que o torna uma excelente opção para quem quer conhecer o autor. Com exceção do último conto, do Shadow Moon, que se aprecia melhor já tendo lido American Gods (ter visto a série não conta, ainda, quem sabe depois da segunda temporada).

Nota 9.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Fountain and tomb


I enjoy playing in the small square between the archway and the takiya [monastery] where the Sufis live. Like all the other children, I admire the mulberry trees in the takiya garden, the only bit of green in the whole neighborhood. Our tender hearts yearn for their dark berries. But it stands like a fortress, this takiya, circled by its garden wall. Its stern gate is broken and always, like the windows, shut. Aloof isolation drenches the whole compound. Our hands stretch toward this wall - reaching for the moon.

SPOILER FREE

Mais um livro de um dos meus autores favoritos, o egípcio ganhador do Nobel Naguib Mahfouz. Infelizmente, pra variar, é mais um volume que não foi traduzido para o português, o que pra mim simplesmente não faz sentido, pois o trabalho do autor é simplesmente maravilhoso e muito vasto para termos apenas uma meia dúzia de traduções.

Dessa vez, o livro traz diversos contos bem curtinhos que retratam a infância do autor num bairro na periferia do Cairo. O quão autobiográfico as histórias realmente são (ou quantas) é um mistério, mas a qualidade da escrita não deixa dúvida sobre a grandiosidade de Mahfouz. Esse volume que consegui, em específico, ainda tem diversas ilustrações belíssimas, que para mim, como aficionada pelo mundo árabe, é de um deleite incrível.

Outro ponto que gostei foram as descrições sobre as brigas de rua, que descrevem o uso dos bastões pelos egípcios como forma de arte marcial que hoje, aqui no ocidente, só vemos de forma bem distorcida através da dança do bastão retratada na dança do ventre. Quanto a isso eu tenho uma lembrança particularmente especial, certa vez vi num show um cantor egípcio e um bailarino profissional (egípcio também) que mora na Alemanha fazerem essa luta, mas numa versão mais suave, dançada (pense em capoeira), e precisei me conter para não rir, pois o pobre bailarino quase apanhou de verdade, mal podia se defender dos movimentos do egípcio, que apesar de parecerem suaves certamente tinham uma potência de quem fazia isso nas ruas, de "brincadeira", como descrito nesse livro do Mahfouz. Literatura é fonte de conhecimento!

Eu não tenho palavras suficientes para descrever o quão maravilhoso é o trabalho de Naguib quando ele acerta na mão. É realmente sensacional e de tirar o fôlego.

Nota 10.

domingo, 8 de janeiro de 2017

E se amanhã o medo



SPOILER FREE

E tudo porque estou de férias e me recuperando de uma sinusite muito braba, estou lendo tudo o que tem de bom em livros físicos! Porque estando em casa, estou aproveitando que não preciso carrega-los comigo no metrô.

Dessa vez, peguei um livro do angolano Ondjaki, autor que tenho cada vez mais livros para ler em casa e cada vez que pego um gosto mais do seu trabalho. Esse livro em particular, é bem curtinho, e consiste em diversos contos sobre os temas mais variados. Alguns são mais poéticos, outros mais simples. O meu favorito foi um conto dedicado a Exupéry (autor do Pequeno Príncipe, para os desavisados), que quase copiei inteiro aqui, porque coisas bonitas assim dão vontade de compartilhar.

Mas aí como pequenas editoras como essa teriam incentivo para continuar publicando, não é mesmo?

Comprem Ondjaki e descubram mais sobre a literatura africana, nossos irmãos de língua portuguesa sabem o que fazem!

Nota 10.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Friendly Fire



SPOILER FREE

E novamente estou com o problema do Kindle lotado. Talvez agora a situação esteja ainda mais crítica, tem uma lista de uns 20 ou 30 livros que estão aguardando espaço para serem baixados. Uma vergonha completa. Então, voltei a correr atrás da meta esvaziar o kindle!

Pensando nisso, resolvi pegar mais um livro do autor egípcio mais famoso da atualidade Alaa Al Aswany, que escreveu o aclamado "Edifício Yacoubian". Dessa vez peguei um livro de contos que por um acaso tem uma novela no início. "Friendly Fire", que saiu em português com o título "E nós cobrimos os seus olhos", começa com uma explicação do autor sobre como ele nunca conseguiu publicar a tal novela no Egito por problemas de censura, o que também te prepara para a história, que é realmente sensacional apesar de um tanto dura, e pelo ponto de vista de um censor faz todo sentido que ela nunca tenha sido publicada.

Além dessa novela, que é quase um livro por si só, "Friendly Fire" tem uma quantidade grande de contos do autor, todos eles com o mesmo clima de querer mostrar a realidade nua, crua e dolorosa do Egito. Como todo livro de contos, nem tudo ali é digno de ser chamado de obra-prima, tendo os seus altos e baixos, mas no geral o livro é muito bom. A qualidade média dos contos é excelente.

Alaa Al Aswany é um escritor de mão cheia, do que eu já li dele até agora achei tudo maravilhoso, mas ele é aquele tipo de autor de um país pobre que gosta de falar dos problemas da sua terra natal (ya baladi!), o que não é um tópico sempre agradável e não é todo o mundo que curte ler. Para quem curte o mundo árabe (o meu caso, claro) acaba sendo sempre proveitoso, mesmo que não goste do estilo.

Para os fãs do finado prêmio Nobel Naguib Mahfouz, Aswany é uma ótima sugestão, pois ele segue numa linha um pouco mais contemporânea de literatura realista, com a vantagem de ainda estar escrevendo, o que traz a possibilidade de novas leituras!

Nota 10!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Dragons at Crumbling Castle: And Other Tales



SPOILER FREE

Desde a triste morte do autor Terry Pretchet no ano passado que eu estava pensando em pegar algo dele para ler. Terry é um autor com cuja obra eu tenho uma relação meio estranha, porque eu adoro os livros dele, adoro o humor dele, mas não consigo ler em sequência. Pode parecer até mesmo herético para os seus fãs, mas eu acho o estilo dele cansativo depois de um tempo.

Por isso fiquei tão animada com esse livro em específico, pois sendo composto apenas de contos curtos, imaginei que seria bem mais fácil de ler sem cansar. E quanto a isso eu estava certa!

"Dragons at crumbling castle" é um livro leve e divertido, com um jeitão típico do inglês de chapéu, e tem como interesse especial para os seus fãz o fato de ser uma coletânea de contos que ele escreveu ainda jovem, antes de se tornar conhecido, e que ainda saíam em jornais e revistas.

É perceptível em suas histórias de "Dragons" algumas ideias e construções que mais tarde viriam a se desenvolver em suas grandes sagas, como Discworld, e mesmo com um quê de inocência, Terry já era uma grande promessa literária para a fantasia.

É um livro genial? Não. Leitura obrigatória? Não. Mas vale o esforço? Certamente. Especialmente para os fãs do autor, fãs de fantasia e de contos. Um prato bem servido.

Nota 8,5.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Dear Life

SPOILER FREE

Alice Munro é uma escritora canadense vencedora do Nobel de Literatura em 2013, sua especialidade são contos, que normalmente se passam no interior do Canadá e cujos personagens costumam ser pessoas simples, mas que ilustram a complexidade da natureza humana.

Eu, como grande fã de literatura de fantasia, não costumo ler muita coisa nesse estilo, e foi uma surpresa extremamente agradável ver histórias tão "mundanas" serem tão interessantes e tão bem escritas. A parte do bem escrita eu já esperava, afinal, Alice ganhou o Nobel por algum motivo, mas daí a ser tão envolvente e me deixar genuinamente interessada foi algo que me pegou desprevenida.

Também foge das minhas leituras comuns as "short stories", e novamente fiquei maravilhada com a forma como Munro trabalha com elas. Como ela consegue tratar de personagens tão complexos em histórias curtas, de forma que o leitor não fica com a sensação de que ficou faltando algo, é simplesmente lindo de ver.

Fiquei tão encantada que já coloquei mais alguns livros dela na minha wishlist da Amazon e já pretendo procurar alguns títulos em português para dar de presente.

Essa é uma das coisas que me fazem continuar ano após ano em desafios literários, é muito bom sair da nossa zona de conforto e encontrar joias da literatura que nos agradam. Agora eu tenho mais uma autora para a minha lista de autores para acompanhar!

Nota 10.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Coisas Frágeis 2



SPOILER FREE

Então, nesse final de ano resolvi aumentar minha meta para 2014 de 52 livros (já ultrapassada no mês passado) para 70, e agora estou sofrendo as consequencias de tentar chegar lá, em outras palavras estou um pouco desesperada. No desespero resolvi pegar livros menores para ler, e como já tinha lido Coisas Frágeis no final do mês passado, resolvi pegar o volume 2.

"Coisas Frágeis 2" infelizmente não é tão bom quanto o primeiro volume, mas ainda é Neil Gaiman, o que significa que é diversão com qualidade garantida. Novamente, o livro é composto de diversos contos, mas dessa vez eles são misturados com algumas poesias. E poesia pelo visto não é o forte do autor, confesso que só gostei de uma delas, e mesmo assim ela não é lá grandes coisas. Os contos são melhores, mas os melhores mesmo estão no primeiro volume.

A lista de contos e poesias no livro:


A Dança das Fadas
A Câmara Secreta

Noivas Proibidas dos Escravos sem Rosto na Casa Secreta da Noite do Temível Desejo
O Cascalho da Ladeira da Memória   
Hora de Fechar 
Virando Wodwo   
Pó Amargo
Os Outros
Garotos Bonzinhos Merecem Favores  
Meninas Estranhas
O Dia dos Namorados de Arlequim
Cachinhos
Instruções
Como Você Acha que Me Sinto?
Minha Vida
Quinze Cartas Pintadas de um Tarô de Vampiro
Quem Alimenta e Quem Come
O Crupe do Criador de Doenças 
No Final

Páginas de um Diário Encontrado numa Caixa de Sapatos Abandonada num Ônibus da Greyhound em Algum Lugar entre Tulsa, Oklahoma, e Louisville, Kentucky
O Dia em que os Discos Voadores Chegaram   
Inventando Aladim 

É só um pouco maior do que a lista de 9 contos do primeiro volume... o que significa que tem muitos contos e poesias extremamente curtos. Sem contar no prefácio! Ah... o prefácio é parecido com o do primeiro volume, o texto introdutório é exatamente o mesmo, mas tem a descrição de cada conto e poesia, que achei, mais uma vez, sensacional! Aliás, tenho acompanhado o blog do autor, e estou ficando com vontade de ler mais coisas dele que não sejam ficção (mais especificamente o livro que ele escreveu sobre o escritor Douglas Adams e a sua obra-prima "O Guia do Mochileiro das Galáxias").

Então, "Coisas Frágeis 2" é um livro para quem curte o autor e o seu estilo, mas tem cara de raspa do tacho, então para quem ainda não é fã ou conhece pouco Neil Gaiman eu recomendaria ler um dos seus romances ou então ficar só no volume 1.

Nota 7,5.