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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

The Hidden Palace (The Golem and the Jinni #2)


SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de agosto, com o tema folclore, aproveitei para pegar The Hidden Palace, uma continuação inesperada de O Golem e o Gênio, que foi o primeiro livro da americana Helene Wecker. Infelizmente The Hidden Palace, lançado no ano passado, ainda não foi traduzido para o português, mas O Golem e o Gênio está disponível numa linda edição da Darkside.

Depois de rasgar seda até não poder mais para esse primeiro volume, como vocês podem ver aqui, peguei o segundo com muito gosto. Por conta do tempo entre a leitura entre um livro e outro, confesso que recorri à internet para encontrar um resumo de O Golem e o Gênio, o que me deixou mais confortável, apesar de depois de ter lido Hidden Palace eu poder afirmar que não teria sido necessário.

Novamente Helene Wecker traz suas belíssimas personagens baseadas nas culturas árabe e judaica, com o enredo se passando nas comunidades imigrantes de Nova Iorque do pré-guerra no início do século XX. A história é centrada em Chava, uma golem criada por um rabino, e Ahmad, um gênio preso em forma humana por um feiticeiro, e entorno dos dois temos diversos personagens das comunidades judaicas e árabes locais.

Entretanto, serei sincera, O Golem e o Gênio não precisava de uma continuação, a história é muito redonda. Infelizmente, The Hidden Palace ficou com cara de continuação lançada para ganhar dinheiro, e não porque era uma história que a autoria precisava contar. Tudo bem que a escrita bonita e agradável continua presente, assim como um esmero fantástico na pesquisa histórica, tanto na parte do enredo que se passa em Nova Iorque, quanto a parte que se passa no Oriente Médio.

O problema é que parece que não tem muita história para contar. A trama é lenta e se arrasta por boa parte do livro, só pegando um ritmo mais interessante bem no final. Diferente do primeiro volume, aqui não há um vilão claro, o que poderia ser interessante, mas o resultado foi uma linha narrativa dispersa demais. Tanto que o livro parece bem mais longo do que realmente é.

Quer dizer que não vale a pena ler? Também não é assim, acho que foi uma questão de expectativa. Como minha lembrança do livro anterior é tão maravilhosa, eu esperava algo nesse nível, e não foi bem o que encontrei. Mas, The Hidden Palace tem suas qualidades, como já comentei, e se Helene Wecker lançar mais obras, certamente vou parar para ler.

Nota 7,5.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Kings and Presidents: Saudi Arabia and the United States since FDR (Geopolitics in the 21st Century)




SPOILER FREE

Na minha onda de estudos sobre Oriente Médio acabei por comprar na promoção esse livro. Escrito por um ex-agente da CIA e que trabalhou diretamente com diversos presidentes norte-americanos, o livro se propõe a contar a história da relação entre todos os reis sauditas desde a fundação da Arábia Saudita moderna (o que ocorreu entre a primeira e a segunda guerra mundial) e os respectivos presidentes norte-americanos.

Considerando que o escritor trabalhou na CIA, o livro tem um viés norte-americano bastante nítido, e totalmente esperado. As partes que envolveram pesquisas históricas e entrevistas por parte do autor para a realização do livro me surpreenderam muito positivamente pela qualidade do material. Em compensação, a parte mais atual da história, onde o autor teve um papel muito próximo de todos os contatos e políticas desenvolvidas deixaram a desejar.

Isso acontece primeiro porque tem uma questão de confidencialidade de diversos dados, e ele, como ex-funcionário, solicitou que a CIA fizesse uma revisão no texto final para retirada de quaisquer dados considerados ainda confidenciais. Segundo, o autor mostrou dificuldade em se distanciar da história que está contando. Talvez por conta de uma possível briga e posterior saída da CIA por conta da posse do presidente Trump, o que ele transparece em diversos momentos como algo muito problemático pessoalmente. Talvez porque ele se sinta mesmo muito próximo de toda a situação, porque passou a vida inteira trabalhando com isso e tendo contato direto com diversos personagens importantes que ainda são relevantes na política externa saudita.

Independentemente da causa, o resultado não é satisfatório, especialmente em comparação com a primeira parte do livro.

Questões de conteúdo e, após certo ponto, também de forma, à parte, o livro é uma leitura extremamente interessante e informativa, especialmente na história até o final do século XX. Essa é a data de corte da qualidade da informação e da narrativa bem escrita. Mas ao mesmo tempo, por ser um livro muito recente, e que se dispõe a tratar do assunto até a data da sua publicação, a sua contemporaneidade o torna extremamente interessante e valioso, pois muitos dos assuntos tratados ao final do livro eram, e ainda são, tão recentes que a análise que o autor se dispõe a fazer precisa ser superficial, mas não menos válida e necessária no atual cenário do Oriente Médio.

A questão passa a ser o quão bem o livro vai envelhecer. Acredito que a primeira parte vai continuar sendo interessante e válida por muito tempo. Em compensação, a segunda parte corre grave risco de envelhecer mal e ser considerada no futuro um texto com informações imprecisas e incompletas. Só o tempo dirá.

Nota 8.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

The Golem and the Jinni



SPOILER FREE


Esse foi um livro que ouvi falar bem no Goodreads, daí entrou na minha wishlist, depois uma amiga leu e confirmou que era bom e me deu um ultimato para ler logo. Soma-se a isso o fato de que o tema do desafio literário do mês de abril era uma história oriental...

Deixe-me explicar, realmente, a autora não é oriental, ela é norte-americana. Porém, toda a mitologia que ela pesquisou para escrever Golem e o Gênio (título do livro em português) é, sim, oriental. E ela fez escolhas felizes nesse sentido, um Golem é um ser animado feito a partir de argila que existe na mitologia/simbologia/cabala judaica, enquanto um gênio é um ser feito de fogo que existe na mitologia árabe. Tem coisa mais simbólica do que misturar mitologia árabe e judaica? Ficou tão lindo que a autora até ganhou o prêmio Nebula com esse livro.

Mas ela mereceu o prêmio não só pelo enredo tão simbólico nos dias de hoje, mas também pela sua qualidade narrativa. O livro é tão bem escrito que eu quase chorei quando procurei e não encontrei outros livros publicados da autora. É triste demais isso. Pessoas que escrevem bem assim precisam publicar muito!!!

Mas eu entendo que um livro dessa qualidade e quantidade de pesquisa demore para ser escrito.

Porque veja bem, Helene não só pesquisou as mitologias necessárias, mas como a história se passa em diferentes comunidades de imigrantes em Nova Iorque no final do século XIX, foi necessário toda uma pesquisa sobre como eram essas comunidades, que tipos de pessoas migravam e como era a cidade na época. E, do que eu conheço do assunto (o que não é muito, mas também não é zero), posso dizer que a pesquisa dela foi um primor.

As suas descrições de Nova Iorque são uma beleza, assim como as descrições de diversas cidades e lugares do Oriente Médio, de onde vem quase todos os personagens do livro. E que personagens! São todos maravilhosos, não quero dizer que sejam todos bonzinhos, eles são todos bons personagens, com complexidade, críveis.

Se me deixarem vou escrever páginas e páginas de louvores a esse livro, então, vamos fechar:

Nota 10.

sábado, 5 de novembro de 2016

Soufflé


SPOILER FREE

Mais um livro para o tema do Desafio Literário de outubro, livros com títulos de apenas uma palavra! Dessa vez, escolhi uma autora turca, Asli Perker, com o seu único livro (por enquanto) traduzido em outros países, inclusive no Brasil (o título ficou o mesmo, claro).

Apesar da autora ser turca, o romance Soufflé não só é universal, em termos de tratar de problemas, situações e sentimentos comuns a humanidade como um todo, mas também é globalizado, porque trata de três histórias distintas que se passam na Turquia, França e EUA. O que as liga é um livro de receitas de Soufflé, o que explica o título.

Na Turquia seguimos a história de uma dona de casa cujos filhos já cresceram e se mudaram (sendo que a filha migrou para a França), mas que precisa cuidar da mãe doente, e a cozinha é o restou em sua vida que ainda faz sentido e lhe dá esperança. Na França, seguimos a história de um rapaz recém viúvo, que para se sentir mais perto da esposa falecida e como exercício para começar uma nova vida, resolve aprender a cozinhar. Nos EUA seguimos a história de uma imigrante das Filipinas que passou a vida se anulando frente aqueles que ela ama enquanto tenta manter a sanidade mental cozinhando pratos do mundo inteiro.

Enfim, é um livro bastante dramático, e eu aconselho a leitura com uma caixa de lenços de papel à disposição, você vai precisar.

Fiquei  apaixonada pelo estilo da autora, e me surpreendeu demais a sua capacidade de ilustrar dramas tão humanos. Gostei tanto que estou  triste que ainda nenhuma outra de suas obras tenham sido traduzidas do Turco, o que eu espero que seja uma injustiça a ser revista muito em breve.

A literatura turca tem me surpreendido muito ultimamente, e para quem curte bons livros e gostaria de ampliar os horizontes das suas leituras, que, normalmente, se restringe à literatura brasileira, americana e europeia (basicamente ingleses e franceses), é uma ótima sugestão para começar.

Nota 10.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

P.S. I still love you



SPOILER FREE

Então, depois de ler sobre terrorismo eu precisava de algo leve para distrair, e resolvi pegar a continuação de "To all the boys I've loved before". Aliás, o primeiro livro já saiu em português, com o título "Para todos os garotos que já amei".

Então... confesso que a continuação pareceu muito mais um repeteco do primeiro livro do que uma continuação. Eu poderia simplesmente repetir exatamente o que coloquei na resenha de "Para todos os garotos que já amei". Sério. Tudo, palavra por palavra. Exceto a parte das gargalhadas. O segundo volume não é tão engraçado quanto o primeiro.

E, na verdade, esse é o maior defeito desse livro, porque apesar da história continuar, os personagens continuam exatamente os mesmos, ninguém aprendeu nada (a não ser novas fofocas). Tudo bem que se passa pouco tempo entre um livro e outro, mas mesmo assim, eu esperava mais.

Talvez seja realmente uma questão de expectativas, porque além de esperar algo melhor, ou pelo menos diferente, eu me lembrava do primeiro livro como sendo melhor do que ele é.

Enfim, achei uma pena, pois o livro não atinge todo o seu potencial.

Nota 7,5.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

The rise of Islamic State



Como vocês já devem ter reparado, eu curto muito o assunto Oriente Médio, por razões dançantes meio óbvias, e de vez em quando preciso ler algo mais "mundo real". E como, no momento, estou estudando particularmente o que está acontecendo na Síria (apesar de não sair notícia nenhuma sobre isso aqui no Brasil), peguei esse livro que já estava no meu Kindle desde o ano passado. Até porque o Kindle lotou de novo e agora preciso correr atrás do prejuízo.

Esse livro em particular é uma coletânea de artigos do jornalista irlandês Patrick Cockburn, que é muito conhecido pelo seu jornalismo de guerra, especialmente no Oriente Médio e na África. Apesar de eu achar a visão de Patrick um tanto quanto inocente com relação aos Estados Unidos e suas verdadeiras táticas e intenções no Iraque e na Síria, os seus artigos pelo menos mostram alguns fatos e conexões que não se encontram tão facilmente na imprensa tradicional, o que o torna uma fonte bastante interessante e muito indicada.

Porém, apesar do livro ser bastante informativo acerca do surgimento e crescimento do Estado Islâmico no Iraque, a sua leitura é meio morosa e um tanto repetitiva, certamente pelo fato de ser uma coletânea de artigos. Também senti falta de imagens ao longo do livro, que certamente ajudariam muito a localizar e até ilustrar os acontecimentos, pois o mapa está apenas no início e dá uma certa preguiça de ficar indo e voltando, mesmo no Kindle.

Apesar desses problemas, o livro é bom, e recomendo muito para quem gostaria de entender pelo menos um pouco o que está acontecendo por lá. A tradução para o português foi lançada no ano passado e recebeu o nome "A Origem do Estado Islâmico - o fracasso da "guerra ao terror" e a ascensão jihadista". Fica a dica!

Nota 9.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A invenção das asas


SPOILER FREE

Esse livro tem história :-) eu o ganhei no Desafio Literário, o primeiro que segui, e que segui por dois anos, até o seu triste término. Confesso que fiquei satisfeita dele ter ficado menos de um ano na minha lista de livros para ler (tem alguns já de saco cheio de tanto esperar que estão morrendo de inveja), e mais satisfeita ainda por tê-lo lido, pois o livro é lindo.

"A invenção das asas" é um romance histórico baseado na história das irmãs Grimké, duas irmãs abolicionistas e sufragistas/feministas que viveram nos EUA no início do século XIX. As diferenças entre ficção e realidade estão lindamente explicadas pela autora no final do livro. Sue nos conta a história do relacionamento entre Sarah Grimké e uma escrava, Encrenca, durante toda a vida, desde que uma ganhou a outra no seu aniversário de 11 anos.

O livro é composto de capítulos curtos, alternando o narrador entre Sarah e Encrenca, e os capítulos são agrupados de acordo com a época retratada, como se fossem fotografias de cada fase da vida das duas mulheres (o que é uma forma literária de representar a colcha de retalhos da mãe da Encrenca, achei lindo quando reparei nisso).

Além de bem escrito e bem pesquisado historicamente, o livro é bonito! A história é emocionante e envolvente, a forma como mulheres e escravos são tratados é simplesmente assustadora, e o pior, na verdade, é perceber o quanto ainda precisamos caminhar com relação a esse tratamento, porque dá para perceber o ranço que ainda carregamos. Mesmo que a história se passe nos EUA, aqui não era muito diferente, e é duro olhar para o passado e comparar com o presente.

Recomendo para todos.

Nota 10.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

To all the boys I've loved before


SPOILER FREE

Então... julho, além de ler um livro grande (estou lutando com Os Miseráveis, aguardem), eu precisava ler um chick lit. Como vocês já devem saber, eu sou uma ratinha da Amazon, sempre à caça de um livro a um bom preço, e no começo desse ano me deparei com esse título aí, que me deixou curiosa por conta da premissa: jovem adolescente de 16 anos tem como costume escrever cartas para os meninos de quem ela gosta para desabafar e "superar" o seu amor, depois ela guarda as cartas e segue com a vida. Tudo vai bem até que um dia alguém encontra essas cartas e as envia pelo correio.

Pois é... achei a ideia extremamente instigante! O que você faria quando algum antigo namorico seu resolvesse te abordar porque recebeu uma carta dessas? Olha a situação! E curiosa do jeito que eu sou não resisti e comprei o livro, estava barato mesmo...

E confesso que me surpreendi! É bem draminha adolescente? É. Tem momentos extremamente constrangedores? Claro, com essa premissa não tinha como não ter. É divertido? Muito, mas muito mesmo, em um momento o meu marido veio ver se eu estava passando bem de tanto que eu ria. Sério.

Mas o livro é mais do que isso, porque para deixar as coisas mais interessantes, ele foi escrito por uma americana que é descendente de coreanos, e claro que a personagem principal e sua família tem essa mesma característica, então temos um retrato muito interessante do que é ser uma adolescente com o "estigma oriental", que, por exemplo, não pode se fantasiar de qualquer personagem da Disney no Halloween porque é confundida com personagens de mangá, e que mantem o contato com sua cultura ancestral através da comida. É muito bacana ver esse tipo de coisa sendo retratada num livro para adolescentes, por mais que a autora não ofereça nenhum tipo de reflexão sobre o assunto, é importante e interessante ver isso sendo mostrado.

Seguindo o mesmo tipo de raciocínio, o livro também acaba abordando (ainda que sem refletir, mas pelo menos apontando e deixando bem claro) situações de machismo e de bullying pelas quais as meninas adolescentes passam nas escolas americanas, o que também achei muito válido, ainda mais em conjunto com a questão étnica. Por isso que é um livro muito legal para adolescentes lerem, afinal não vem "cheio de lição de moral", mas como tem as situações explícitas tem como tratar desses assuntos por fora da leitura, o que pode ser muito enriquecedor.

Agora, o livro não é perfeito. O problema maior, na minha opinião, está na falta de consistência da personagem principal, que na verdade mesmo não sabe muito bem o que está sente pelos meninos para os quais escreve. Se você acha que adolescentes são assim mesmo, não é um problema, mas sei lá, achei meio superficial nesse sentido.

O resultado final é um livro muito divertido e com grande potencial de agradar.

Nota 9.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tessa Masterson Will Go to Prom


SPOILER FREE

Então... eu topei com esse livro na Amazon num dia desses de promoções e não resisti em comprar e ver qual é a do livro quando descobri que era sobre dois amigos, Tessa e Lucas, que passaram a infância toda juntos, mas acabam se desentendendo quando Lucas chama Tessa para ir para o Prom (ainda bem que não temos esse evento nas nossas escolas) e ele descobre que sua melhor amiga é lésbica.

Fiquei extremamente feliz ao ver que já há livros disponíveis para adolescentes que lidam com essas situações, e fiquei satisfeita ao ver que trata de uma lésbica (já que as lésbicas costumam ser esquecidas nessas horas, a não ser para fazer casais para os homens verem, o que definitivamente não é o caso).Afinal, esse é um tema ainda considerado muito complicado por parte da população e ainda mais pelos pais.

Apesar do livro tratar do tema de uma forma que me pareceu convincente no que concerne a reação da cidade pequena onde os dois amigos vivem, achei que ele se prende muito a clichês do que é esperado de uma lésbica. Apesar de eu achar legal Tessa querer ir para o Prom usando um terno, ela mesma encara suas características "pouco femininas" como um sinal claro de sua opção sexual, e isso pode ser problemático, ainda mais quando estamos falando de um público leitor potencial de adolescentes (já imagino as adolescentes super femininas e lésbicas se perguntando se estão certas aiaiaiai). Outras características de Tessa que seriam "sinais claros": ela não sai com garotos (e as meninas que ainda não chegaram nessa fase ou são muito tímidas serão taxadas de quê com isso? socorro), usa calça jeans e camiseta o tempo todo (juro que revirei os olhos toda vez que vi isso no livro, e, sério, se isso fosse um tipo de sinal mais da metade das minhas amigas seriam lésbicas), gosta de correr (como assim????) e, o único sinal que realmente importa, ela gosta de garotas.

Mas, se você conseguir fazer vista grossa a esses "detalhes", o livro é divertido. A transformação pela qual Lucas passa é interessante, pois ele precisa aprender a lidar não só com o fora que ele leva da melhor amiga, mas com o fato de que ela não é exatamente do jeito que ele achava que ela era. Confesso que a primeira parte do livro é um pouco dramática demais para o meu gosto, e pessoalmente achei a reação do Lucas exagerada e extremamente egoísta, mas, também precisamos lembrar que ele é um adolescente, e nessa fase (que às vezes nem passa) nós temos a tendência de sermos exagerados e egoístas. É o tipo de reação que se desculpa num adolescente, então dá para engolir.

A forma como Lucas se redime é no mínimo fofa (e combina com a construção do personagem), e o final tem aquele quê de final feliz de filme estilo comédia romântica.

O livro não é uma denúncia do que pode acontecer com jovens gays (apesar de flertar com o tema), e sim uma história água com açúcar com um tema considerado ousado atualmente. Podia ser melhor, sem dúvida, mas para um tema tão pouco trabalhado, é válido. Afinal, precisamos de todos os tipos de histórias para todos os tipos de personagens, não é mesmo? Espero ver o dia em que esse tipo de livro não chame atenção pelo tema, e sim pela história contada mesmo.

Nota 8.

PS: agora a coisa mais legal sobre esse livro: é o 60° do ano!!!!!! Uhuuuuuuuu!!!! Será que passo disso até dia 31? Aguarde e confira :-)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Shalimar, o equilibrista


SPOILER FREE

Depois de ler mais uma história horripilante sobre a pobreza extrema (que gera medidas extremas) no interior do Egito, resolvi continuar pelo Oriente Médio e ler o fabuloso escritor Salman Rushdie. E se eu tinha achado que "God dies by the Nile" não era vingativo o suficiente, Shalimar o Equilibrista supriu a cota necessária de vingança, com direito a tramas de longo prazo para se chegar a ela, justificando plenamente o ditado do prato frio e se encaixando perfeitamente no tema do Desafio Literário desse mês.

Bem ao estilo do seu autor, que é um cidadão do mundo, a história se passa em diversos países, desde a Europa da Segunda Guerra Mundial, passando pela luta entre Paquistão e Índia pela Caxemira e chegando até aos Estados Unidos nos anos 80, 90. E para ilustrar bem o caminho que levou Shalimar e India a se cruzarem, o autor desfia a história de 3 gerações de suas respectivas famílias, onde todos os personagens são absolutamente fascinantes, desde a espiã que conseguiu fugir diversas vezes dos nazistas até o chefe de uma aldeia perdida no alto das montanhas da Caxemira.

Os personagens são tão bem montados e tão realistas que em diversos momentos eu perdi completamente a noção do que poderia ser ficção ou realidade nos fatos históricos narrados pelo autor. E se alguém me perguntar sobre a guerra pela Caxemira confesso que só saberei falar sobre o que li nesse livro, com direito a todos os seus personagens fictícios.

E no meio de toda essas guerras e lutas por poder que atravessam os mares e os séculos, o amor surge apenas para causar mais conflitos (claro), incidentes internacionais (para temperar) e a ilusão de que um dia as coisas podem melhorar, quando na verdade as grandes traições nunca serão perdoadas, e serão motivadoras de vinganças horríveis.

Dito isso tudo, posso completar dizendo que o livro é absolutamente eletrizante, e quando ele não é deliciosamente romântico é cruelmente macabro (e realista, o que pode ser pior se você parar para pensar muito). A leitura é dinâmica e as viagens pelo tempo, através da narrativa sobre cada personagem, tão estimulante que você nem liga quando uma história é interrompida para ser retomada apenas mais à frente.

Mas o final... pois é, ainda não decidi se gostei ou odiei o final do livro. Ele é genial, e ao mesmo tempo horrível para o leitor que não gosta de ambiguidades, e estou me sentindo muito dividida com relação a isso. O que de certa forma é bom, pois não consigo tirar o livro, o final e toda a sua história da cabeça, mesmo depois de ter lido e já ter começado outro livro.

Nota 10, apesar do final, para você ver como é boa literatura.