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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O tempo entre costuras



SPOILER FREE

E dando prosseguimento ao Desafio Literário, com o tema histórias de superação, resolvi tirar da estante um livro que ganhei de aniversário no ano passado. E vou adiantando que o meu sogro (que me deu o livro) tem realmente bom gosto para livros (ou ele ou a namorada dele, dependendo de quem escolheu esse título rsrsrs). Dessa forma posso concluir que a família do meu marido tem bom gosto literário (minha sogra também é ótima escolhendo livros).

Divagando um pouco, vou sentir falta dessas histórias dos livros quando eu começar a ler apenas e-books... comprar livros pela internet não é tão divertido ou marcante quanto comprar numa livraria, e ganhar livros também é legal, não sei se vou lembrar tão bem de quem me deu cada livro se começar a receber notificações de presentes por email.

Reminiscências à parte, o livro conta a história de uma costureira de origem humilde de Madri, que se apaixona perdidamente por um cafajeste. Eles fogem juntos para o Marrocos e lá ela é abandonada por ele sem um tostão. Enquanto isso é deflagrada a guerra civil espanhola, e depois a Segunda Guerra Mundial, e por isso ela não pode voltar para a sua casa na Espanha.

A partir daí o livro trata de como essa mulher tão machucada emocionalmente se reergue até o ponto de se tornar uma famosa costureira de alta costura durante a Segunda Guerra Mundial. E apesar de parecer algo extremamente improvável, a história é convincente! E eletrizante! Nunca imaginei que uma história cheia de detalhes sobre costura pudesse ser tão interessante.

A autora, María Dueñas, é uma iniciante, e esse é seu primeiro romance publicado, mas sua escrita não transparece isso, talvez por ela ser historiadora. O enredo é muito bem elaborado, extremamente realista, e bem fundamentado historicamente falando (até porque muitos personagens são reais e há toda uma bibliografia no final do livro para fundamentar o que foi usado). A construção psicológica dos personagens também é muito boa, e é um dos pontos altos da obra, que é escrita na primeira pessoa pela personagem principal, como se fossem memórias.

O livro me surpreendeu muito positivamente, pois confesso que fiquei com receio dele escambar para o típico água com açúcar, ainda mais com uma escritora iniciante, mas definitivamente não foi o caso. A superação da protagonista é linda e emocionante de acompanhar (emocionante no sentido de ter muita adrenalina, por incrível que pareça), e a qualidade do texto é surpreendente. Gostei muito, apesar do final não ter me deixado satisfeita, pois eu queria mais, muito mais! Talvez umas 100 páginas a mais teria sido bom, mas entendo que a autora ficasse com receio ou de ficar longo demais ou de começar uma série (respeito muito o autor que evita fazer séries numa época em que isso é quase uma norma e uma forma de ganhar mais dinheiro).

Nota 9.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Shalimar, o equilibrista


SPOILER FREE

Depois de ler mais uma história horripilante sobre a pobreza extrema (que gera medidas extremas) no interior do Egito, resolvi continuar pelo Oriente Médio e ler o fabuloso escritor Salman Rushdie. E se eu tinha achado que "God dies by the Nile" não era vingativo o suficiente, Shalimar o Equilibrista supriu a cota necessária de vingança, com direito a tramas de longo prazo para se chegar a ela, justificando plenamente o ditado do prato frio e se encaixando perfeitamente no tema do Desafio Literário desse mês.

Bem ao estilo do seu autor, que é um cidadão do mundo, a história se passa em diversos países, desde a Europa da Segunda Guerra Mundial, passando pela luta entre Paquistão e Índia pela Caxemira e chegando até aos Estados Unidos nos anos 80, 90. E para ilustrar bem o caminho que levou Shalimar e India a se cruzarem, o autor desfia a história de 3 gerações de suas respectivas famílias, onde todos os personagens são absolutamente fascinantes, desde a espiã que conseguiu fugir diversas vezes dos nazistas até o chefe de uma aldeia perdida no alto das montanhas da Caxemira.

Os personagens são tão bem montados e tão realistas que em diversos momentos eu perdi completamente a noção do que poderia ser ficção ou realidade nos fatos históricos narrados pelo autor. E se alguém me perguntar sobre a guerra pela Caxemira confesso que só saberei falar sobre o que li nesse livro, com direito a todos os seus personagens fictícios.

E no meio de toda essas guerras e lutas por poder que atravessam os mares e os séculos, o amor surge apenas para causar mais conflitos (claro), incidentes internacionais (para temperar) e a ilusão de que um dia as coisas podem melhorar, quando na verdade as grandes traições nunca serão perdoadas, e serão motivadoras de vinganças horríveis.

Dito isso tudo, posso completar dizendo que o livro é absolutamente eletrizante, e quando ele não é deliciosamente romântico é cruelmente macabro (e realista, o que pode ser pior se você parar para pensar muito). A leitura é dinâmica e as viagens pelo tempo, através da narrativa sobre cada personagem, tão estimulante que você nem liga quando uma história é interrompida para ser retomada apenas mais à frente.

Mas o final... pois é, ainda não decidi se gostei ou odiei o final do livro. Ele é genial, e ao mesmo tempo horrível para o leitor que não gosta de ambiguidades, e estou me sentindo muito dividida com relação a isso. O que de certa forma é bom, pois não consigo tirar o livro, o final e toda a sua história da cabeça, mesmo depois de ter lido e já ter começado outro livro.

Nota 10, apesar do final, para você ver como é boa literatura.