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sábado, 26 de fevereiro de 2022

Broken (in the best possible way)

 


SPOILER FREE 

Para o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022 o tema é livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita. Esse caso é uma mistura de motivos. Particularmente, amo a capa de Broken pintada pelo artista Omar Rayyan, e teria pensado em comprar esse livro só por causa dela. Só que eu adoro o trabalho da autora Jenny Lawson, e teria comprado o livro independente da capa. Mas, claro, uma capa com a autora pintada segurando um monstro fofo é simplesmente irresistível e um bônus.

Jenny Lawson é uma figura interessante, seu blog me proporciona bons momentos semanais, e eu já li os dois outros livros dela, Alucinadamente Feliz e Vamos fingir que isso nunca aconteceu, e amei os dois. Não havia a menor chance de eu deixar Broken passar sem ler. 

A autora sofre de diversos distúrbios mentais e problemas de saúde, incluindo depressão, ansiedade e uma doença autoimune. Mas, ela consegue escrever sobre isso com uma honestidade bem humorada e sarcástica que não só torna a leitura agradável, mas também ajuda a entender melhor as suas questões e tornar o leitor mais empático com outras pessoas que possam ter problemas parecidos. Melhor tipo de literatura, né?

Entretanto, Broken foi escrito durante a pandemia, e eu confesso que acompanhei o processo no blog da Jenny, e não foi fácil. Atribuo a isso a minha sensação ao ler Broken, que foi diferente dos livros anteriores dela. Minha percepção é que a autora não estava nos seus melhores momentos, e, bem, por questões de prazo e da vida, ela fez o que dava para terminar o livro, mas, o resultado final não é o seu melhor trabalho. 

O livro tem bons momentos, assim como os volumes anteriores, é quase que uma coleção de causos e pensamentos da autora, e alguns dos capítulos são brilhantes. Porém, na média, Broken não é tão bom. Vale a leitura, claro, mas se você nunca leu nada dela eu indicaria os dois outros livros.

Mas, esse tem a capa mais bonita, sem a menor dúvida. Pena que como foi lançado em 2021, ainda não tem tradução para o português.

Nota 8.

domingo, 30 de maio de 2021

Sapiens: A Brief History of Humankind - Uma breve história da humanidade


 

SPOILER FREE

Esse livro já estava na minha lista de "para ler ontem" há alguns anos, preciso confessar. Daí me inscrevi num curso online, salvação da sanidade mental durante a pandemia, sobre a obra do autor e historiador israelense Yuval Noah Harari, e me vi numa correria para tentar ler pelo menos esse livro para aproveitar melhor as aulas.

Não consegui ler toda a ementa do curso, entretanto, consegui ler essa obra-prima de não ficção. Aparentemente Yuval, por ser um professor novato na universidade onde ele trabalha em Israel, foi selecionado, sem poder negar, para dar um dos cursos introdutórios de história, com o tema "uma breve história da humanidade". E ele, como uma pessoa absolutamente brilhante e super dotado (sim, isso é fato, ele é mesmo super dotado), deu o tal curso de forma tão original e envolvente que sua aula introdutória ficou famosa entre os estudantes, e todos queriam fazer suas aulas. A coisa tomou uma proporção tão grande, que ele foi chamado para transformar seu curso num livro, e foi aí que surgiu Sapiens.

Sapiens, continuando a fama do curso, se tornou um best-seller mundial, traduzido em dezenas de idiomas e vendendo muito bem em todos os continentes. Desde então, Yuval já publicou mais uns três livros, todos bem vendidos, mas não tão bem quanto esse primeiro, se tornou palestrante habitual no Ted Talk, foi chamado para falar em diversos locais ao redor do mundo, incluindo debates com grandes políticos e pensadores, se tornou o professor carro-chefe da sua universidade e uma figura respeitadíssima em Israel, apesar de ser homossexual e contra o atual governo israelense.

Sentiu o peso do homem? Pois bem, eu não sabia de nada disso quando parei para ler Sapiens. E tenho que dizer que o livro é realmente arrebatador. A grande novidade dessa obra é a habilidade do autor de pensar fora da caixa e dos padrões. Ele consegue dar uma roupagem absolutamente original e contemporânea para um assunto que poderia ser terrivelmente chato e árido, e o é em incontáveis livros, vamos ser sinceros. Além disso, por conseguir trazer um novo ângulo para o tema, Yuval consegue tirar novas conclusões e lições que são muito relevantes para entender os dias de hoje. Não é pouca coisa.

O livro não é exatamente pequeno, tem mais de 400 páginas, mas a leitura passa rápido, é leve, em termos, e dinâmica. Em outras palavras, é uma beleza e um feito para um texto de origem acadêmica. E não se engane, apesar da linguagem aparentemente simples, o texto é acadêmico, com uma quantidade impressionante de fontes, mas com a qualidade incomum de ser acessível para quem não é do meio.

Para deixar a coisa ainda melhor, talvez por ele ser do Oriente Médio, ele consegue contar uma versão de uma breve história da humanidade que não é centrada na Europa. Uma quantidade grande, se não a maioria, dos eventos e exemplos que ele dá ao longo do seu texto não são eurocêntricos, e mesmo quando são, não são relatados do ponto de vista Europeu. Isso é fantástico, e infelizmente, bastante raro.

Como não historiadora, não posso julgar a parte técnica do seu trabalho, mas, pelo o que vi de historiadores, esse livro é bastante elogiado. Os que reclamam, costumam reclamar das partes em que Yuval se arrisca a dizer o que ele acha que vai acontecer, o que é um certo tabu no meio, ou então reclamam do fato de que ele não é especialista no ramo, o que, pra mim, é um elogio. 

Mas no fundo, isso não importa, porque o livro é uma delícia de ler, e você se sente mais inteligente no final. Tem leitura melhor?

Nota 10.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Regras de isolamento


 

SPOILER FREE

E o tema do Desafio Literário Popoca para fevereiro é livros que falem de quarentena! O que faz todo sentido, considerando que continuamos, em teoria, tendo que cumprir distanciamento social durante a pandemia em 2021... e foi assim que decidi pegar um livro lançado em maio de 2020 em Portugal, falando sobre a quarentena de 2020 em Lisboa. 

Regras de isolamento é um livro de textos curtos e com fotografias feito pelo casal Djaimilia Pereira de Almeida e Humberto Brito. A escritora Djaimilia começou a ser conhecida no Brasil por conta do livro Luanda, Lisboa, paraíso, e, apesar de ter vivido a maior parte da sua vida em Portugal, é nascida em Angola. Ela é casada com o fotógrafo português Humberto Brito, e juntos, eles fizeram essa coletânea de escritos (a maioria de Djaimilia, mas alguns de Humberto) e de fotos que ambos produziram no primeiro lockdown de Lisboa.

Foi meu primeiro livro de Djaimilia, e posso dizer que apreciei muito seus textos, que apesar de serem sobre a quarentena, acabam sempre evocando outros temas profundos e humanos, como família e ancestralidade. Os textos de Humberto, apesar de terem um estilo bem diferente do da esposa, me surpreenderam, pois tratam da filosofia por trás da fotografia.

De todos os textos de Regras de isolamento, só teve um que não curti, justamente o que me pareceu mais desconexo com a temática do livro. Todos os demais foram uma delícia de ler, apesar da carga do tema, e do fato que, pelo menos eu, continuo cumprindo quarentena. As fotos são bônus, pois são muito bonitas e complementam bem os escritos.

Fiquei surpresa com a velocidade que conseguiram publicar um livro desses. Mal entramos em 2021 e o livro já foi lançado há quase um ano! Quando eu digo que o home office faz as pessoas serem mais produtivas é desse tipo de coisa que estou falando. A rapidez para esse lançamento me surpreende, por mais que, originalmente, a maioria dos textos de Regras de isolamento terem sido publicados em revistas e outras publicações no início de 2020, ainda é um grande feito ele ter sido lançado em maio. É um tanto quanto assustador na verdade.

Certamente o livro serve como um belo cartão de visitas para Djaimilia, eu já comecei a caçar suas obras, se ela conseguiu produzir essas belezas tão rápido e num período tão conturbado, fiquei imaginando a qualidade da sua prosa "normal". Preciso ler mais dela, fato. E se eu encontrar algum artigo do Humberto por aí, certamente pararei para ler também.

Nota 9,5 por causa do único texto no meio que não curti.

sábado, 14 de novembro de 2020

Nascido do crime - Born a crime


 

SPOILER FREE

Nesse mês de novembro, o tema do Desafio Literário Popoca é autores africanos, então resolvi ler o que eu acho que foi meu primeiro livro de um autor sul africano, Trevor Noah, com sua autobiografia com toque de comédia Nascido do crime.

Trevor Noah é mais conhecido por seu trabalho como comediante do que como autor, tendo muitos anos de sucesso na África antes de ser convidado para o programa The Daily Show, que passa diariamente nos EUA, onde notícias são dadas com um toque de comédia satírica. Ele é o primeiro apresentador estrangeiro do programa, apesar de ter sido no Daily Show que John Oliver começou sua carreira nos EUA, porém, ele nunca chegou a apresentador.

 

Antes de ir para os EUA em 2016, onde já ganhou diversos prêmios por Daily Show, Trevor Noah fez uma carreira importante na África do Sul, com stand-ups, programas de rádio e telenovelas, e ele ainda não tem nem 40 anos. No Netflix você encontra alguns especiais dele, incluindo stand-ups e um documentário sobre a sua vida, que tem spoilers de Nascido do crime.

Um dos fatores importantes sobre sua história que permeia todo o seu trabalho como comediante está justamente no porquê do título do seu livro. Quando Trevor Noah nasceu, era proibido pelo Apartheid sul africano que brancos e negros tivessem relações, e, bem, Trevor Noah é mestiço, obviamente. Sua mãe, Patricia, é uma mulher negra xhosa, enquanto seu pai é suíço. Toda a ilegalidade do seu status de mestiço o marcou profundamente, e boa parte do seu trabalho trata de questões de racismo, nacionalidade e colonialismo.

E que trabalho! Trevor Noah é daqueles comediantes que te fazem rir e ao mesmo tempo repensar em várias coisas. E seu humor às vezes é tão direto na ferida que você fica na dúvida se deveria realmente achar engraçado, enquanto ri mesmo assim. Não é a toa que ele fez aquela piada maravilhosa na apresentação do Oscar, que ele participou porque, sim, ele fez uma ponta em Pantera Negra (a voz do sistema de IA da Shuri):


"Crescendo como um menino em Wakanda, eu via T'Challa voando sobre nossa aldeia, e ele me lembrava uma grande frase xhosa, 'abelungu abazi uba ndiyaxoka', que significa, 'Em tempos como este, somos mais fortes quando lutamos juntos do que quando tentamos lutar separados.'" - Mas quem fala xhosa deu uma boa risada, porque o que Noah realmente disse é: "Os brancos não sabem que estou mentindo."

Seu livro, seguindo o exemplo de tudo o mais que ele faz, foi muito bem recebido pela crítica, tanto que já foi traduzido aqui no Brasil, o que nos dá a oportunidade de apreciar o seu trabalho. O livro fez tanto sucesso que Lupita Nyong'o vai produzir e estrelar uma adaptação para o cinema. Mal posso esperar para ver esse livro em live action!

E a leitura de Nascido do crime foi uma das minhas preferidas de 2020. Nada como se divertir e aprender ao mesmo tempo, porque eu, particularmente, não sabia um monte das coisas que ele explica sobre a África do Sul no livro. Recomendadíssimo!

Nota 10!

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Casa de Alvenaria: Diário de uma ex-favelada


 

SPOILER FREE

E chegou a primavera! Nada como comemorar com uma resenha para o Desafio Literário Popoca de setembro, cujo tema é uma obra que se passe na sua cidade ou país!

Já faz algum tempo que a importante autora negra brasileira Carolina Maria de Jesus ronda minhas listas de leituras a fazer, porém, sua obra não é fácil de encontrar em livro digital. Esse ano finalmente consegui comprar seu segundo livro estilo autobiografia, Casa de Alvenaria.

Carolina não deveria precisar de apresentações, mas sabemos como essas coisas são no Brasil. Nascida em 1914 no interior de Minas Gerais, de pais analfabetos, Carolina foi ainda jovem para São Paulo em busca de melhores condições de vida, e acabou morando numa favela, que hoje já não existe mais. Para sobreviver, a autora trabalhou como empregada doméstica e catadora de papel, sustentando sozinha seus três filhos. Ela mesma construiu o seu barraco na favela, e nas horas vagas escrevia um diário sobre como vivia na miséria. Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas em 58, seu primeiro livro, Quarto de Despejo, foi lançado em 1960 e desde o seu lançamento vendeu mais de um milhão de exemplares no Brasil e no exterior, sendo traduzido para 13 idiomas em mais de 40 países.

Durante muito tempo ela foi uma das autoras brasileiras mais famosas fora do país, e hoje é considerada uma das autoras mais importantes da literatura brasileira, em especial da literatura negra.Depois de Quarto de Despejo, Carolina começou a escrever outro diário, onde registrou os problemas pelos quais passou quando se tornou famosa. Esse livro é Casa de Alvenaria. E que livro!

Sendo meu primeiro volume da autora não tenho como comparar com sua obra mais famosa, mas posso dizer que Casa de Alvenaria é um dos melhores livros que li esse ano. O estilo de Carolina Maria de Jesus é singular, considerando que apesar dela ter estudado por apenas dois anos quando criança, quando aprendeu a ler e a escrever, ela sempre foi apaixonada por livros e leu de tudo que conseguiu colocar as mãos. Soma-se a isso uma forma de pensar e de analisar a vida e o cotidiano com uma singeleza ímpar, porém muito realista e sem papas na língua, e você tem esse resultado único e absolutamente incrível.

Casa de Alvenaria é um diário muito interessante, que tem um retrato impressionante do início dos anos 60 de São Paulo, com direito às anedotas fantásticas da vida da autora, incluindo aos lançamentos, autógrafos, jantares em sua homenagem e a adaptação do seu livro em peça de teatro. Além disso, a autora incluiu seus pensamentos sobre política, economia, pessoas famosas que teve oportunidade de encontrar (e são muitas), racismo e também sobre os inúmeros pedidos de ajuda financeira que passou a receber.

Os dois últimos itens foram os que mais me fascinaram no texto de Carolina. Seu retrato da forma como o tratamento que recebia mudou de uma hora para a outra, como a olhavam como se fosse um animal exótico e como seus filhos eram tratados faz um contraste imenso com sua afirmação de que não existe racismo no Brasil, o que ela repete inúmeras vezes ao longo do texto. A maneira como seus antigos vizinhos de favela passaram a tratá-la, além de como ela passou a ser recebida em lugares que jamais imaginaria poder entrar também atestam sobre a luta de classes e a natureza humana.

Seu diário é fascinante não apenas por seu estilo maravilhoso, mas porque Carolina Maria de Jesus tem uma mente afiada para observar o que a cerca e tirar conclusões. Seu lugar no panteão da literatura brasileira é muito mais que merecido. Estou doida para conseguir outros livros dela. 

Nota 10!

domingo, 28 de junho de 2020

An Illustrated Book of Bad Arguments - O livro ilustrado dos maus argumentos



SPOILER FREE

Você está cansado de ler coisas bizarras na internet? Argumentos que não fazem sentido? Ideias sem pé nem cabeça? O que você precisa ler e fazer os doidos por aí lerem é esse livro: O livro ilustrado dos maus argumentos.

Cheio de desenhos fofos e explicações bem simples e básicas de falácias argumentativas, o livro do Ali Almossawi é uma leitura necessária em tempos de fake news e bolsonarismo. E o melhor? Se você não tem dinheiro por motivos de pandemia e quarentena para comprar a versão oficial, ele pode ser lido gratuitamente online, em mais de 10 idiomas nesse site. E não é pirata.

Aviso logo que não é uma leitura compreensiva sobre lógica. É uma leitura introdutória e bastante básica. Mas, considerando o atual estado das coisas e a falta de paciência e talvez até de capacidade para leituras mais complexas, digamos que o livro tem o tamanho certo.

Fica a dica!

Nota 10 pelos exemplos e ilustrações.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Dance was her Religion

 
 
SPOILER FREE

Como uma apaixonada por dança que é também uma leitora compulsiva, volta e meia eu pego um livro bem teórico sobre o assunto. Dessa vez, uma análise sobre o aspecto místico e religioso das bailarinas que iniciaram o que hoje chamamos de dança moderna Isadora Duncan, Ruth St. Denis e Martha Graham.

Como os seguidores fieis do blog devem lembrar, não é a primeira vez que li sobre essas bailarinas em especial. Aqui você vai encontrar a autobiografia da Isadora, aqui uma Graphic Novel sobre sua vida, aqui uma coletânea de textos e poesias da St Denis e aqui um romance histórico sobre a vida da Martha Graham.

Isso é só para mostrar que não sou uma leiga completa no assunto e poder reclamar do livro Dance was her religion com alguma autoridade. Se você não está acostumado com livros acadêmicos ou não sabe nada sobre essas três bailarinas, Dance was her religion é uma leitura interessante e muito válida. Agora, se você espera algum tipo de tratado ou novidade sobre o assunto, melhor não perder o seu tempo.

As análises da Janet Lynn Roseman contidas no livro são bastante rasas, e estão mais no campo do achismo, apesar das fontes serem bastante diversificadas, interessantes e por vezes até difíceis de acessar, o que torna o texto cheio de excelentes citações de outras obras. Em termos de informações novas ou inéditas, também não adianta procurar aqui. A parte interessante nesse sentido é que a autora acertadamente critica outras obras sobre as três bailarinas que possuem informações equivocadas, e isso pode te poupar a leitura de outros livros que certamente não vão levar a nada.

Outro ponto positivo é a coletânea de imagens, a maioria pouco comuns em obras sobre essas três bailarinas, o que torna o livro bonito. E nesse sentido, dê preferência para a versão impressa dele, o livro digital não é bem diagramado e não tem todas as imagens do livro físico. Fala a pessoa que tem os dois, claro.

Só para esclarecer que eu não sou completamente doida: estou numa campanha de substituir meus livros físicos por versões digitais, para tentar liberar espaço nas minhas estantes de casa e diminuir o acúmulo de poeira. A ideia é linda, mas a realização tem deixado um pouco a desejar, infelizmente. Esse caso ilustra bem um problema, em algumas ocasiões o livro físico vale mais a pena do que o digital e aí eu não consigo me livrar do papel.

No geral, a leitura é agradável e fácil de ler. Dance was her religion é bem organizado e o texto flui, mesmo com a enorme quantidade de citações e notas de rodapé (que na maioria das vezes indica as fontes, o que adoro, nada melhor que um livro cheio de fontes). Mas é sintomático que eu tenha tido muito mais vontade de sublinhar as citações do que o texto em si da Janet Lynn Roseman.

No fundo, o problema é que é um livro mais voltado para leigos no assunto. Então, pessoalmente, eu não aproveitei tudo o que eu esperava.

Nota 7.

domingo, 14 de outubro de 2018

I'm Judging You: The Do-Better Manual



SPOILER FREE

Conheci esse livro através de uma amiga cujo humor eu amo de paixão, não é à toa que somos amigas. E ela teceu louvores ao livro, cuja descrição é uma coletânea de ensaios de humor da autora, Luvvie Ajayi, uma nigeriana que ainda criança se mudou para os Estados Unidos.

Ajayi é também uma blogueira de sucesso (veja o blog aqui), e seu livro foi lançado com grande estardalhaço pela crítica norte americana em 2016. Infelizmente I'm Judging You: the do-better manual (Estou te julgando: o manual para fazer melhor) ainda não foi lançado no Brasil, mas espero que esse equívoco seja corrigido em breve. Depois do lançamento do seu livro, ela ainda fez uma belíssima palestra TEDTALK em 2017. Vídeo abaixo para todos ouvirem suas palavras de louvor:



Palavras de louvor porque Luvvie é católica e hétero, mas é uma mulher, negra, imigrante, feminista e ativista. E ela faz uso das suas palavras e sucesso na internet para atingir as pessoas que podem ser melhores na vida. Todo o seu livro é construído com esse propósito, usar o humor como ferramenta para apontar para as pessoas o que elas tem feito de errado e que fazem do nosso planeta um lugar pior para se viver.

Nesse sentido o livro acaba sendo uma grande mistura de humor com sentimento de culpa e socos no estômago. Ela trata desde atitudes mesquinhas entre amigos até os grandes problemas da humanidade: racismo, misoginia, não aceitar a religião e diferenças entre as pessoas, passando também pela falta de educação na internet, que culmina na criação e disseminação de fake news. Tudo recheado de bom humor e gírias nigerianas.

O resultado é que o livro é fenomenal, e em tempos atuais é mais do que necessário. Precisamos ser mais como Luvvie, ter mais empatia pelos outros e tentar ter um pouco mais de lógica na nossa vida. Apaixonei pela nigeriana boca suja. Se todos fôssemos como ela seríamos mais felizes e não teríamos Trumps e Bolsonaros com essa força toda andando por aí e ameaçando pessoas simplesmente porque elas fogem do que julgamos ser a norma, o que no fundo não faz o menor sentido.

Lógica e empatia. Dois atributos em falta no mercado. E Luvvie vem nos mostrar direitinho o quanto devemos ser julgados por isso.

Nota 10.

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Men Explain Things to Me - Os Homens Explicam Tudo Para Mim

 

SPOILER FREE


Composto por sete ensaios sobre o feminismo escritos pela americana Rebecca Solnit,e lançado originalmente em 2014, o livro Os Homens Explicam Tudo Para Mim foi publicado no Brasil apenas em maio de 2017.

O livro é considerado um dos marcos do feminismo contemporâneo, e o seu estilo é bastante acessível e pouco acadêmico. Nada pesado de sociologia ou filosofia, tanto que os textos poderiam estar facilmente na internet num site ou blog comum.

Aliás, a autora, Rebecca Solnit, está bastante presente na web, com participações em diversos sites americanos considerados de esquerda, como o TomDispatch, tratando especialmente da situação feminina na sociedade. E isso aparece nos seus ensaios, que sim, são mais a esquerda do que se esperaria de uma americana.

Independentemente de direita ou esquerda, a leitura dos seus textos é muito válida e necessária. Para os menos conectados com o jargão atual do feminismo, a leitura é bastante didática, porque a coleção de ensaios se inicia em 2008, com um ensaio que se tornou viral da época e que é considerado a origem da palavra mensplaning (ato de homens que explicam automaticamente coisas para mulheres como se elas fossem incapazes de possuir conhecimento próprio ou anterior à conversa), e vai até 2014, quando se popularizou as marchas das vadias pelo mundo (manifestações de mulheres sobre o direito de vestirem o que quiserem e não sofrer assédio).

Rebecca Solnit também apresenta em cada um dos ensaios um tema de forma cronológica, mostrando a evolução do assunto desde o século XX até os dias de hoje. Algumas coisas já avançaram desde a publicação do livro, outras melhorias, infelizmente, estão limitadas aos Estados Unidos, mas servem de exemplo e inspiração para o resto do mundo.

Pessoalmente, eu amei todos os ensaios, são todos maravilhosos. Mas o último tem um lugar especial no meu coração. Nele Rebecca traz uma visão de esperança para o futuro que eu pretendo levar para sempre comigo: as ideias do feminismo são como a Caixa de Pandora, depois que as ideias saem da Caixa, ninguém mais pode guardá-las de volta. Ideias movem o mundo e são a semente de todas as mudanças sociais. Então vamos plantar um futuro melhor!

Nota 10.

sábado, 15 de setembro de 2018

Broad Strokes: 15 Women Who Made Art and Made History (in That Order)



SPOILER FREE

Nos últimos anos tenho tentado dar preferência a autoras mulheres nas minhas leituras, pois acho que as neglenciamos muito no dia a dia (Harry Potter e 50 tons não contam!). Mas isso acontece também ao longo de toda a nossa história ocidental em todas as artes.

Publicado em 2017, Broad Strokes é um livro escrito por uma mulher, Bridget Quinn, sobre mulheres das artes plásticas, especialmente da pintura. Não que todas as 15 mulheres retratadas aqui sejam exclusivamente pintoras, mas em sua maioria são. 

A escolha das mulheres para compor o livro é da própria autora, e ela segue uma ordem cronológica que se inicia no renascimento e vai até depois dos anos 2000, incluindo:
  • Artemisia Gentileschi - pintora renascentista que por acaso eu conheço e amo de paixão, vale a pesquisa no Google
  • Judith Leyster - não conhecia, mas é uma pintora holandesa do século XVII confundida com um grande mestre holandês por conta da alta qualidade do seu trabalho
  • Adélaïde Labille-Guiard - pintora da corte francesa do século XVIII, eu também não conhecia, mas a mulher é tão maravilhosa que sobreviveu à revolução francesa, apesar das suas conexões com a monarquia
  • Marie Denise Villers - pintora francesa do século XIX que tem como obra-prima o melhor retrato pintado por uma mulher, eu também não conhecia
  • Rosa Bonheur - mais uma pintora francesa do século XIX, mais famosa nos EUA do que na França por conta do seu tema favorito: cavalos e outros animais, o que a tornou a pintora favorita do famoso Buffalo Bill. Eu também não conhecia, esta lista está triste nesse quesito, né? Mas é provável que eu já tenha visto pessoalmente alguma obra dela em Oklahoma e não tenha me ligado nisso
  • Edmonia Lewis - escultora negra norte americana do século XIX. Só essa descrição já quer dizer muita coisa. Também não conhecia...
  • Paula Modersohn-Becker - pintora alemã do início do século XX, um dos primeiros pintores da escola modernista! Autora do primeiro auto-retrato de uma grávida, nua. Eu não conhecia, pois não curto muito essa escola, mas é preciso tirar o chapéu para a coragem dessa mulher
  • Vanessa Bell - pintora inglesa do século XX, irmã de outra mulher famosa, Virginia Woolf, que, por sinal, desenhou diversas capas das primeiras edições dos livros da irmã
  • Alice Neel - pintora norte americana do século XX, autora de diversos auto-retratos onde ela aparece velhinha e nua. Amei essa mulher, que eu também não conhecia!
  • Lee Krasner - pintora judia norte americana do século XX. Infelizmente ela é mais famosa por ter sido casada com Pollock do que pela sua própria obra. E nem assim eu a conhecia porque não sou fã desse pintor
  • Louise Bourgeois - artista francesa do século XX que sobreviveu à primeira Guerra Mundial e no entre guerras se mudou para Nova Iorque. Eu também não conhecia, essa lista é uma vergonha para a minha pessoa
  • Ruth Asawa - artista norte americana filha de imigrantes japoneses que passou a infância num campo de concentração nos EUA (coloque no Google campos de detenção para japoneses nos EUA durante a segunda guerra e você levará um susto). Eu também não a conhecia, mas sua história é tão linda que virei fã
  • Ana Mendieta - artista de origem cubana do século XX cuja história pessoal é tão marcante nas lutas feministas que eu não sei explicar como eu não a conhecia
  • Kara Walker - artista negra norte americana do final do século XX e que fez sucesso no século XXI. Impossível ser mais contemporânea do que ela nas discussões atuais sobre racismo nos EUA, amei o que vi do seu trabalho, mas eu também não a conhecia
  • Susan O'Malley - artista norte americana do século XXI, com um estilo tão atual que se ainda estivesse viva (tristezas da vida) certamente estaria bombando na internet. Essa eu conhecia, porque tenho um livro dela, que ainda não li, mas isso será resolvido em breve
Imagino a dificuldade da autora para limitar essa lista para apenas 15 mulheres. É tanta artista maravilhosa que eu sei que é difícil escolher. E nesse sentido, Bridget fez questão de tirar das sombras justamente artistas pouco conhecidas e que também merecem a fama de Frida Kahlo e Camille Claudel (se você não conhece, coloque no Google pelamor!).

Para coroar o livro, preciso dizer que adorei o texto de Bridget Quinn, uma mistura deliciosa de jornalismo, literatura e conhecimento de artes plásticas. A leitura é fácil e gostosa, dá muito gosto de ler e aprender mais sobre mulheres fantásticas como essas. Espero que a autora faça sucesso o suficiente para fazer mais livros como esse.

Infelizmente o livro ainda não saiu em português, mas esperança é a última que morre!

Nota 9,5.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

A Belly Dance Journal



SPOILER FREE

Como os visitantes frequentes aqui sabem, eu adoro o mundo árabe e a dança do ventre, tanto que de vez em quando esse assunto surge aqui.

Esse livro em específico eu encontrei na Amazon por um preço em conta e resolvi comprar para ver se tinha alguma dica interessante. Só descobri que ele era uma adaptação digital para uma espécie de diário de prática quando peguei para ler.

Por ser uma adaptação, achei o trabalho muito bem feito. A autora e os editores precisaram fazer diversos ajustes consideráveis para publicar de forma digital, e o resultado ficou muito bom. Para os leitores que quiserem escrever como sugerido na publicação original em papel, eles chegaram a disponibilizar imagens das páginas originais para servir como guia. Muito simpático!

A questão para mim é que como eu não sabia que a ideia era ser um diário de prática de dança do ventre, eu esperava que o livro fosse um pouco maior e mais recheado de ideias. Não que o conteúdo em si seja ruim, de jeito nenhum, achei todos os conselhos e as sugestões pertinentes e muito bons. O problema é que tem pouco deles.

Os assuntos cobertos também são interessantes, e até bastante originais, fugindo do lugar comum desse tipo de livro. Mas poderiam ser mais desenvolvidos e não apenas em formato de bullets.

Em outras palavras é um excelente livro para iniciantes, mas meio sem graça para alunos avançados ou com muito tempo de estudo.

Nota 8.

Robert Fisk on Afghanistan: Osama bin Laden: 9/11 to Death in Pakistan



SPOILER FREE

Há dois anos atrás eu li o meu primeiro livro do jornalista inglês, Robert Fisk, sobre a guerra civil na Argélia. E gostei tanto do trabalho dele que resolvi comprar outros livros. Como o tema do desafio literário de agosto (sim, estou atrasada na resenha para variar um pouquinho) era uma história em tempo de guerra, achei o livro com a coletânea do jornalista de guerra sobre o Afeganistão (que, por sinal, continua em guerra) uma escolha bastante apropriada.

Robert Fisk é um bom jornalista, e especializado no Oriente Médio (ele fala árabe fluente, o que é uma raridade no ocidente e ainda mais entre jornalistas), mas é preciso ressaltar que esse livro é uma coletânea, não uma narrativa arrumada bonitinho para ser um livro. Isso quer dizer que, separadamente, todos os textos de Fisk são bons e interessantes, porém, no conjunto eles são um tanto repetitivos e, convenhamos, ele não morou esse tempo todo no Afeganistão, logo, tem pedaços da história que ficaram sem muito registro.

Outro ponto importante, é que Robert Fisk é um jornalista, não um acadêmico ou historiador, então seus relatos são isso, relatos, as análises em si por vezes deixam a desejar e, por vezes, são tendenciosas.

Independentemente dos defeitos inerentes ao formato do livro e da natureza do autor, temos que tirar o chapéu para Fisk. Uma das coisas que mais me surpreendeu no livro é justamente o seu início, quando ele relata e critica o que estava acontecendo na cena política norte americana logo após o atentado do 11 de setembro. Os primeiros textos do autor são proféticos, é bizarro. Ele faz uma previsão absurdamente certeira do que vai acontecer no Afeganistão e com a coligação EUA/Inglaterra. E ao longo do livro ainda profetiza o que vai acontecer no Iraque, que é invadido pouco depois, e entre os possíveis futuros para a Síria ele acerta mais uma vez. Além de profetizar a recém aprovada lei estilo apartheid de Israel.

O cara é bom.

O resultado é que não me arrependo de ter comprado mais livros dele e pretendo continuar lendo o seu trabalho.

Infelizmente a maior parte dos seus livros, este inclusive, não foi publicado em português.

Nota 8.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Kings and Presidents: Saudi Arabia and the United States since FDR (Geopolitics in the 21st Century)




SPOILER FREE

Na minha onda de estudos sobre Oriente Médio acabei por comprar na promoção esse livro. Escrito por um ex-agente da CIA e que trabalhou diretamente com diversos presidentes norte-americanos, o livro se propõe a contar a história da relação entre todos os reis sauditas desde a fundação da Arábia Saudita moderna (o que ocorreu entre a primeira e a segunda guerra mundial) e os respectivos presidentes norte-americanos.

Considerando que o escritor trabalhou na CIA, o livro tem um viés norte-americano bastante nítido, e totalmente esperado. As partes que envolveram pesquisas históricas e entrevistas por parte do autor para a realização do livro me surpreenderam muito positivamente pela qualidade do material. Em compensação, a parte mais atual da história, onde o autor teve um papel muito próximo de todos os contatos e políticas desenvolvidas deixaram a desejar.

Isso acontece primeiro porque tem uma questão de confidencialidade de diversos dados, e ele, como ex-funcionário, solicitou que a CIA fizesse uma revisão no texto final para retirada de quaisquer dados considerados ainda confidenciais. Segundo, o autor mostrou dificuldade em se distanciar da história que está contando. Talvez por conta de uma possível briga e posterior saída da CIA por conta da posse do presidente Trump, o que ele transparece em diversos momentos como algo muito problemático pessoalmente. Talvez porque ele se sinta mesmo muito próximo de toda a situação, porque passou a vida inteira trabalhando com isso e tendo contato direto com diversos personagens importantes que ainda são relevantes na política externa saudita.

Independentemente da causa, o resultado não é satisfatório, especialmente em comparação com a primeira parte do livro.

Questões de conteúdo e, após certo ponto, também de forma, à parte, o livro é uma leitura extremamente interessante e informativa, especialmente na história até o final do século XX. Essa é a data de corte da qualidade da informação e da narrativa bem escrita. Mas ao mesmo tempo, por ser um livro muito recente, e que se dispõe a tratar do assunto até a data da sua publicação, a sua contemporaneidade o torna extremamente interessante e valioso, pois muitos dos assuntos tratados ao final do livro eram, e ainda são, tão recentes que a análise que o autor se dispõe a fazer precisa ser superficial, mas não menos válida e necessária no atual cenário do Oriente Médio.

A questão passa a ser o quão bem o livro vai envelhecer. Acredito que a primeira parte vai continuar sendo interessante e válida por muito tempo. Em compensação, a segunda parte corre grave risco de envelhecer mal e ser considerada no futuro um texto com informações imprecisas e incompletas. Só o tempo dirá.

Nota 8.

sábado, 23 de junho de 2018

A Mystic Guide to Cleansing & Clearing



SPOILER FREE

Quando comprei esse livro eu já imaginava que ele não seria tão completo, mas confesso que esperava algo um pouco menos genérico.

Eu também esperava que ele fosse mais voltado para limpeza de espaços físicos, ao invés de se concentrar tanto em limpeza espiritual pessoal. Mas, nesse ponto foi uma surpresa até positiva, pois achei muito interessante o material voltado para esse fim.

Os maiores problemas do livro, na verdade, são o seu excesso de generalismo, uma mistura um tanto exagerada de linhas espirituais, e o fato imperdoável da leitura dar sono. Não, ele não dava sono só antes de dormir por falta de adrenalina causada pela leitura, deu sono em todas as horas do dia em que peguei o livro para ler.

Cheguei à conclusão de que é um livro muito mais voltado para consulta de receitas do que para ler de cabo a rabo como eu fiz. As receitas em si são até bastante interessantes, em especial as de limpeza espiritual pessoal (estou doida para testar os banhos sugeridos), e na sua maioria simples, o que facilita muito a vida.

Mas no geral deixou muito a desejar para mim. Recomendo para iniciantes apenas.

Nota 7.


sábado, 16 de junho de 2018

The Collaborative Habit: Life Lessons for Working Together

 
 
SPOILER FREE

Twyla Tharp é uma bailarina e coreógrafa de muito sucesso. Seu currículo inclui musicais da Broadway (exemplo: Hair), filmes de Hollywood (exemplos: Hair e Sol da Meia Noite) e trabalhos com grandes companhias de dança. Sem esquecer mais de um trabalho com a lenda Mikhail Baryshnikov.

Essa não é a primeira publicação da Twyla (sempre com a participação de algum escritor profissional) em temas adjacentes à dança que podem servir para qualquer pessoa (em outras palavras, autoajuda). Mas, essa é a primeira que eu leio.

Como alguém que já leu diversos textos que falam de administração, trabalho em equipe e organização, eu confesso que eu esperava algo mais do texto da Twyla. Talvez algo diferente que ela, por ter uma vivência muito específica no meio da dança, pudesse trazer e que tivesse pelo menos cara de novidade.

Nada disso. Não há nada de novo nesse livro.

O que valeu a pena então? As histórias. Com uma bagagem invejável na história da dança contemporânea norte-americana e uma variedade incrível de parcerias em tudo quanto é tipo de área artística, a melhor parte do livro são justamente essas histórias.

Caso você queira ler um livro sobre trabalho em equipe que não seja chato e repletos de exemplos corporativos, este é uma boa opção.

Caso você espere algo revolucionário, deixe para lá. Esse não é o livro para você.

Caso você goste de anedotas do mundo artístico, especialmente da dança, esse livro vai te agradar, apesar das inúmeras passagens marcadas, bem estilo autoajuda, que em tese servem para você se lembrar do resumo do que a autora quer passar.

Nota 7.

domingo, 10 de junho de 2018

No God But God: The Origins, Evolution and Future of Islam


SPOILER FREE

O autor Reza Aslan é mais conhecido no Brasil por conta do livro Zelota, que trata da história de Jesus. Mas nos EUA ele é mais conhecido por suas obras sobre história geral das religiões, e em especial o Islã, visto que ele é iraniano e muçulmano.

Resolvi ler esse livro como uma espécie de complemento ao livro da Karen Armstrong, e nesse sentido posso dizer que consegui o meu objetivo. O livro da Karen é mais completo historicamente falando, pois cobre com uma quantidade razoavelmente constante de detalhes os quase 13 séculos de história do islamismo, enquanto o livro do Reza Aslan é mais profundo em suas explicações teológicas, enquanto não trata de toda a história da religião.

Os estilos também são bem diferentes, a Karen é mais acadêmica, seu texto pode ser bem distante e frio, enquanto o Reza gosta de incluir os seus sentimentos e experiências para ilustrar o que ele quer dizer, o que torna a leitura um tanto quanto diferente.

Pesa bastante o fato do autor ser muçulmano e falar árabe, isso faz com que a sua tradução de trechos do Corão e de outros livros árabes tenha uma maior probabilidade de estar mais corretas do que se vê por aí (existem umas traduções do árabe que só Allah salva), além do torná-lo mais simpático ao assunto e com muito mais propriedade para falar sobre ele. As suas dicas de melhores traduções de textos clássicos são valiosas!
O que foi negativo para mim no livro é que um: o autor realmente não trata toda a história do Islã como eu esperava; dois: eu entendo que ele queira fazer diversos paralelos entre diferentes momentos históricos, mas a forma como ele escolheu fazer isso muitas vezes é um tanto quanto confusa, poderia ter ficado melhor; e três: na edição para kindle que eu comprei não aparecem links para as notas que existem no final do livro, quando cheguei no final e as descobri lá foi difícil de conectar os seus conteúdos com o que eu já havia lido.

Minhas questões à parte, o livro é muito bom e esclarecedor. É uma pena que ainda não tenha sido traduzido para o português, porque é uma excelente fonte de informação. Sinto que faltam muitos livros a serem traduzidos no Brasil sobre o Islã, não é a toa que as pessoas por aqui ficam perdidas no assunto.

Nota 8,5.

domingo, 27 de maio de 2018

Belly Dance Around the World



SPOILER FREE

Esse livro foi um achado que eu consegui para kindle na Amazon. Com uma coleção de 12 artigos sobre como as pessoas vivenciam diversos aspectos da dança do ventre ao redor do mundo, e relativamente novo, foi lançado em junho de 2013, o que o torna bastante atual.

A ideia é passear por diversas comunidades ao redor do mundo que praticam a dança do ventre, começando pelo Egito. Os dois primeiros artigos do livro tratam principalmente de como os egípcios enxergam essa dança. Em "What is baladi about al-raqs al-baladi?" a autora faz pesquisa de campo, notando como hoje em dia a sociedade egípcia enxerga e pratica o que chamamos de dança do ventre, além de entrevistar diversos egípcios sobre o que eles consideram que é "baladi".

No segundo artigo, "Finding the feeling: Oriental dance, musiqa al-gadid and tarab", a autora traz uma análise juntamente com entrevistas, de como as bailarinas profissionais de dança do ventre no Egito montam os seus shows (que são coisas épicas de mais de uma hora, com apenas uma bailarina solista) de forma a capturar o público e causar o que os árabes chamam de tarab (êxtase).

O terceiro artigo, "Performing identity" foca na comunidade canadense de bailarinas e praticantes de dança do ventre, e faz uma análise de como essa comunidade se enxerga com relação a sua prática, como ela foi influenciada por movimentos orientalistas e como descendentes árabes que fazem parte dessa comunidade percebem a representação da sua cultura inserida na cultura canadense.

O quarto artigo foi um dos meus favoritos em termos de análise. Em "1970s Belly Dance and the how-to phenomenon: feminism, fitness and orientalism", a autora apresenta uma análise do conteúdo de livros que começaram a surgir nos anos 70 nos EUA com o objetivo de ensinar dança do ventre. A autora faz uma análise riquíssima desse conteúdo com relação a outros movimentos da época, como o feminismo, o feminismo ecológico e o surgimento do movimento fitness, além do lançamento do icônico "Orientalism" do Edward Said.

 O artigo seguinte, "Dancing with inspiration in New Zealand and Australian dance communities", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia e da Austrália fazem uso da dança do ventre de forma a atingir formas diferenciadas de consciência, de forma que a dança passa a deixar de ser algo se uma cultura externa e passa a ser uma forma pessoal de expressão. Confesso que super me identifiquei.

 O próximo artigo trata especialmente de um novo estilo de dança que surge a partir de influências da dança do ventre, junto com outras danças étnicas, o ATS (American Tribal Style). Em "Local performance/Global Connection: American Tribal Style and its imagined community", a autora analisa como se dá a construção do que as praticantes de ATS entendem como uma comunidade global de bailarinas. Leitura obrigatória para praticantes de ATS.

Em "The use of nostalgia in tribal fusion dance", a autora ultrapassa a questão das influências orientalistas na cena atual da dança tribal fusion para entender o uso de movimentos culturais que ela categoriza como nostálgicos (como o valdeville), de forma a tornar a dança mais ocidental.
 
O artigo seguinte, "Belly Dance and  transculturation in New Zealand", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia acabam por fazer uso da dança do ventre como forma de criar uma expressão própria para mulheres que não fazem parte da comunidade indígena local, além das misturas que são criadas incorporando itens da dança maori, o que leva a toda uma discussão interna de apropriação cultural. Dá para fazer alguns paralelos interessantes com algumas fusões que diversas bailarinas têm feito pelo Brasil.

Em "Quintessencially English Belly Dance: in search of an English tradition", a autora traz todo um levantamento histórico de duas bailarinas do cenário inglês da dança do ventre que ela julga que moldaram o que hoje existe de dança na Inglaterra. O que achei interessante foi encontrar aqui a famosa Wendy Buenaventura, conhecida especialmente pelo livro "Serpent of the Nile", que apesar de muito orientalista e sem grandes fontes, é considerado quase uma bíblia da dança do ventre.

O artigo seguinte é o único que foca especialmente em uma única bailarina e a sua forma de trabalho, o que está bastante explícito no seu título "Delilah: dancing the earth".

O penúltimo artigo do livro foca especialmente em questões femininas na Índia e como isso afeta a visão local sobre a dança do ventre. Em "Negotiating female sexuality: bollywood belly dance, "item girls" and dance classes", a parte mais interessante para mim foi toda a análise de tipos de mulheres retratadas no cinema indiano, e o como é feito o uso de fusões com a dança do ventre para intensificar esses retratos.

O último artigo para mim foi o único que eu classificaria como bizarro. Em "Digitalizing raqs sharqi: belly dance in second life", a autora faz todo um levantamento do uso da dança do ventre no "jogo" second life, com direito a um estudo sobre uma comunidade (?!?!?!?) de bailarinas dentro do jogo e uma comparação com comunidades no mundo real. Para mim soa tão bizarro que até essa descrição parece estranha. Eu não entendo o second life.

Preciso dizer que apesar de alguns temas um tanto quanto específicos ou distantes da minha realidade, o livro em si é muito bom. Todos os artigos são bem escritos e com direito a uma bibliografia que dá vontade de ler inteira. Já recomendei especificamente para uma amiga minha que estava a procura de livros sobre dança do ventre. Super recomendado.

Nota 10.

sábado, 26 de maio de 2018

Omnipresent: The Sacred Feminine Balance



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Esse é o tipo de livro que eu gosto de manter no meu celular. Diversos textos curtos e bens escritos, perfeito para ler antes de dormir. Mas, li ele inteiro fora desse objetivo por motivos que prefiro não mencionar aqui... o que foi uma pena no sentido que ele realmente é perfeito para isso.

 O livro consiste em pequenos textos escritos por mulheres acerca do que cada uma pensa sobre o sagrado feminino. Alguns eu gostei pessoalmente porque me identifiquei com diversos dos pensamentos expostos, outros me deram um certo nervoso, mas isso meio que já é normal para mim. Tenho uma visão muito particular e um tanto chata do que seria o sagrado feminino, visto a nossa necessidade como sociedade de um feminismo forte e militante, que esse feminismo não tem como não moldar a minha forma de pensar.

Dito isso, a maior parte dos textos é muito interessante, e eu leria outras obras de algumas autoras que estão nesse volume, como a Joss Burnel , Jacqueline L. Robinson, Britanny N. Selle, Beth Shekinah (que é de origem judia!) e a Melissa Rae Thompson.

Mas não sei dizer exatamente qual é o objetivo desse livro ou qual seria o seu público alvo principal. Os textos não são exatamente profundos e nem explanatórios sobre nada em particular. Eles são exatamente o que o subtítulo do livro indica: "contemplações sobre o divino na terra". Alguns textos tem um teor mais biográfico, outros um jeitão mais poético, outros são reminiscências. O que mantém a coesão do livro é fato de que todos os textos apresentam um ponto de vista mais pagão do que seria o sagrado feminino e todos as autoras são mulheres.

É uma leitura interessante, mas eu não diria imprescindível, sobre o assunto.

Nota 8,5.


domingo, 20 de maio de 2018

The Life-Changing Magic of Not Giving a F*ck - A Mágica Transformadora do F*



SPOILER FREE

Resolvi ler esse livro porque uma amiga minha gostou muito e eu achei o título e a paródia absolutamente irresistíveis. Para quem não percebeu, a paródia é do livro da Marie Kondo "The Life-Changing Magic of Tidying" (ou "A mágica da arrumação" em português).

Não é preciso ter lido Marie Kondo para apreciar "A mágica transformadora do F*", mas a leitura fica muito mais engraçada se você tiver lido. Sarah Knight consegue escrever um livro estilo autoajuda que, enquanto você chora de rir, você não tem absoluta certeza se ela está falando sério ou só te sacaneando. Provavelmente os dois. Preciso dizer que adorei esse estilo de humor.

A leitura é especialmente leve e gostosa, apesar da abundância do f* (sei que tem pessoas que não gostam de leituras com esse tipo de vocabulário, mesmo em comédia, então fiquem avisados). Chega a ser libertador, e certamente esse era um dos objetivos da autora. E comédia ou não, você fica realmente pensando em aplicar diversas ideias na sua vida, o que certamente vai deixar seu dia a dia mais leve e feliz. E considerando que vivemos num mundo com excesso de informações e obrigações, talvez seja realmente necessário para ninguém enlouquecer e ter um dia de fúria. Ou sair xingando meio mundo no whatsapp ou no facebook.

Leitura recomendada.

Nota 10.


Nine Parts of Desire: The Hidden World of Islamic Women - Nove Partes do Desejo - O Mundo Secreto das Mulheres Islâmicas



SPOILER FREE

Virei fã da Geraldine Brooks quando li As Memórias do Livro, um livro indicado pela minha sogra. E como eu gostei muito, ela ainda me deu de presente essa preciosidade. Como esse seria um livro que eu precisaria fazer diversas anotações e apontamentos, e somando a minha campanha de trocar meus livros físicos por livros digitais (campanha ainda em andamento e de sucesso limitado por questões de amor por livros), acabei por conseguir uma versão em kindle com o texto original em inglês (vide a capa original acima).

Logo, percebe-se que esse foi um livro que já estava na minha lista de leituras há algum tempo, o que é muito normal, mas eu leio tentando diminuir a lista, que só aumenta (novamente a questão de amor por livros). De qualquer forma, finalmente ele entrou em pauta, e novamente não me arrependi de ler Geraldine Brooks.

Além de autora de romances, Geraldine foi durante muitos anos uma repórter que trabalhou exclusivamente com Oriente Médio, morando em diversos países árabes com seu marido, um judeu. Nove partes do desejo é um grande levantamento de tudo o que ela viveu e experienciou durante os anos de estadia em países como Irã, Marrocos, Iraque, Arábia Saudita e Egito.

Levando em consideração que ela é judia (por conversão por conta do casamento), eu confesso que fiquei positivamente surpresa com suas leituras e posicionamentos relativamente sem preconceito (não são 100% livres de preconceito não, preciso apontar). Por questões culturais locais, ela acabou por se relacionar muito mais com as mulheres nesses lugares, e a vida feminina no mundo árabe acabou por se tornar o seu tema principal de trabalho, o que a torna uma das poucas jornalistas que tratam especificamente desse assunto.

Dessa forma, o livro é maravilhosamente rico em informação sobre como as mulheres árabes vivem, sem fantasias orientalistas. Sendo necessário lembrar apenas que esse livro foi lançado no meio da década de 90, e alguma coisa certamente já mudou desde então, enquanto outros temas do livro parecem absolutamente contemporâneos, como a questão da permissão para mulheres sauditas dirigirem.

Fora a questão puramente jornalística, que é muito boa no livro, Geraldine inclui no seu texto diversas críticas relacionadas à questão das mulheres no mundo islâmico. Na maior parte das vezes suas críticas são feitas de forma muito construtiva e até justa. Mas infelizmente é aí que de vez em quando seu posicionamento pode se tornar um tanto quanto preconceituoso, e é necessário que o leitor exerça um certo grau de cuidado na leitura, para acabar não repetindo alguns exageros.

No geral, é um livro absolutamente maravilhoso e uma excelente fonte de informação e até mesmo de quebra de alguns paradigmas. Recomendo. E pretendo ler mais da autora.

Nota 9.