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domingo, 24 de dezembro de 2017

Poemas do Brasil

 Uma Arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! e nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudades deles. Mas não é nada sério.

-Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (
Escreve!) muito sério.

SPOILER FREE

Esse é um livro que eu já tinha há muitos anos, mas só fui descobrir mais sobre a autora quando saiu o filme brasileiro "Flores Raras", o qual eu não vi, mas li sobre. Vai entender.

Mas como rearrumei minhas estantes de livros há um certo tempo e meus livros de poesia voltaram a ficar num local mais acessível, não demorou muito para Elizabeth Bishop entrar na lista de leituras. O que foi muito bem vindo.

O interessante sobre essa edição específica, é que além de ser bilíngue (muitos pontos positivos), ela tem uma biografia rápida da autora, com direito a correlação da sua vida com a sua obra e porque os poemas que estão no livro foram classificados como "poemas do Brasil". Vale a leitura.

Algumas questões de preconceitos à parte, o mais interessante da poetiza americana Bishop, é que ela realmente captou o Brasil, em especial o Rio de Janeiro e o interior do país. É meio doido, mas fantástico, ler em inglês algo que poderia ter sido escrito em português por uma brasileira.

Nem sempre as traduções ficaram à altura, o que é compreensível, e ao mesmo tempo estranho, porque o texto é muito brasileiro, mas não foi feito para o português, fora os casos em que Elizabeth decidiu fazer misturas, o que ficou muito interessante, e na tradução essa miscigenação se perde, infelizmente.

Nota 9,5

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Petrobras: Uma história de orgulho e vergonha

Quando aceitei a tarefa de escrever este livro, em maio de 2014, ninguém - nem os policiais federais que iniciaram a Operação Lava Jato, nem os funcionários mais desconfiados da Petrobras, nem os mais ferrenhos críticos das gestões petistas - tinha ideia da extensão da corrupção que havia se instalado na estatal. Àquela altura, a Lava Jato estava em seu estágio inicial. Na verdade, estava em ponto morto. Nenhum acordo de delação premiada havia sido fechado. O investigado que jogara a estatal no radar da operação, o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, havia sido preso pela primeira vez, mas já estava solto. O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, tinha suspendido as investigações e quase libertado todos os presos a pedido dos advogados de Costa.
 
SPOILER FREE

Esse é um livro que resolvi ler por motivos profissionais, trabalhando na Petrobras é meio que leitura obrigatória, mas, tem a vantagem de se encaixar perfeitamente no tema do Desafio Literário desse mês, um livro sobre ou baseado em uma história real.

A minha amiga que me emprestou havia me avisado que o livro era ruim, no sentido de ser muito tendencioso, mas, eu precisava ler e ver com meus próprios olhos.

Ela estava certa.

Escrito por uma jornalista, e definitivamente não por alguém especializado em corrupção, história e outros assuntos necessários para realmente compreender tudo o que está envolvido na história da maior companhia do país e as corrupções que a sangram desde sempre, o livro tem informações interessantes (e fofocas de corredor quentes e divertidas), mas a forma como elas são apresentadas é risível de tão tendenciosa. Mas tenho certeza que muita gente achou o máximo só porque mostra corrupção ocorrendo durante os governos petistas. Como se isso fosse alguma novidade na história do Brasil. Só rindo.

Com uma análise bem básica dos números apresentados e a diferença em como a jornalista tratou os períodos históricos que precisavam ser analisados para justificar as afirmações grandiosas que ela faz sobre a operação lava jato, já dá pra ver que o livro foi escrito para ser sensacionalista, e não mais do que isso. Além disso, tem o problema do livro ter sido escrito antes de toda a confusão realmente acabar, o que o torna um conjunto de informações e """"análise"""" (precisa de muitas aspas sim) incompleta.

Então, é uma pena. Alguém que se deu o trabalho de ver tantas fontes e simplesmente não aproveitou para fazer um bom trabalho. Podia ter também esperado mais um pouco e fazer a coisa direito, até o fim, ao invés de escrever esse peso de papel.

Nota 3.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Os Sete



SPOILER FREE

Mais um livro emprestado, pois estou em campanha para dar uma diminuída na quantidade de livros na minha estante que não sejam meus, aproveitando o tema do Desafio Literário da Coruja.

Esse volume tem uma história meio confusa, porque na verdade ele foi emprestado pela Andreia (uma amiga da ginástica laboral do meu trabalho) ao Claudio (fornecedor dos outros livros emprestados desse mês), mas o Claudio não queria porque não queria ler, mas a Andreia cismou que ele devia ler e o forçou a ficar com o livro. Claro que ele não leu, mas empurrou o livro para mim, que também não estava muito animada com a perspectiva de ler literatura nacional sobre vampiros (algo me dizia - preconceito - que ele não podia ser bom).

Muito a contragosto resolvi que era melhor me livrar logo do "problema" e peguei o maldito para ler. E me surpreendi muito positivamente, porque apesar de todo o meu preconceito o livro é bom! Primeiro ponto positivo: o autor não tenta reinventar a roda recriando a mitologia dos vampiros, não, os vampiros são vampiros mesmo, e bem clássicos, seguindo a linha de Bram Stoker (pontos extras com isso). Segundo ponto positivo: nada de inventar algo que não se encaixe na realidade brasileira, a história só tem personagens bem brasileiros e se passa no Rio Grande do Sul, de uma forma que achei bem plausível (lembrando que é uma fantasia sobre vampiros). Talvez os militares estejam um pouco bem equipados demais, mas também pode ser apenas preconceito meu também, não conheço bem a situação dos militares brasileiros para emitir uma opinião razoável, então vou me abster e aceitar o que o autor descreveu.

Então, somando tudo, o saldo é extremamente positivo, e me peguei pensando seriamente em ler a continuação (e já consegui, emprestado também). Espero que siga a mesma linha e mantenha o padrão de qualidade...

Nota 8,5.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A hora da estrela


SPOILER FREE

E finalmente o ciclo de livros ruins se quebrou! AMEI A Hora da Estrela! Que livro lindo! Bom, a história não é linda, mas o livro é. Parece poesia em forma de prosa! Delícia de ler. E olha que ele vai fundo na ferida. Realmente... isso é literatura de verdade. Chico Buarque tem muito a aprender.

Confesso que eu tinha um preconceito com esse livro. Não sei explicar o porquê, mas nunca quis pega-lo para ler. Decidi superar isso por conta mesmo do Desafio Literário (talvez ranço da época de escola em que ler autores brasileiros era sinônimo de tortura?). E valeu a pena!

E sabe de mais? Ainda bem que demorei tanto tempo para lê-lo, se eu o tivesse lido na época em que ganhei o livro certamente teria detestado (não é livro para adolescente). É tão bom quando as coisas acontecem no tempo certo! Talvez eu até venha a ler novamente os autores que assombraram a minha infância/adolescência, pode ser que eu não estivesse pronta para eles (mas pode ser que fosse chato mesmo rsrsrsrs). Um dia soluciono esse mistério. Por enquanto vou curtir o gostinho pós-leitura de Clarice Lispector.

Nota 10

Em tempo, como pediram lá nos comentários uma breve descrição do livro (é tão difícil falar de história tão curta e simples que eu acho que a orelha do livro tem spoiler!): A Hora da Estrela narra parte da vida de Macabéa, uma alagoana pobre, feia, malnutrida e sem educação, que vem morar no Rio de Janeiro com a sua tia. Mas a sua morre e ela fica sozinha na cidade, tendo apenas o emprego que a sua tia arranjou para ela antes de morrer. Não vou dizer mais nada, porque acho que é spoiler mesmo :-)