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sábado, 26 de fevereiro de 2022

The Apocalypse of Elena Mendoza



SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022, com o tema livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita, escolhi um livro que não só tem uma capa lindona (tanto a versão original dela quanto a nova), como tem um título super interessante, O apocalipse de Elena Mendoza (em tradução minha, porque nada do autor Shaun David Hutchinson foi traduzido até hoje para o português).

Dessa vez, o autor nos traz a história de Elena Mendoza, nascida de uma mãe virgem (e cientificamente comprovado como único caso de partenogênese da história), e que certo dia, colocada diante de uma situação inesperada, descobre que tem o poder da cura. Porém, cada vez que ela usa esse poder coisas terríveis acontecem.

Eu já conhecia o trabalho de Shaun David Hutchinson do livro The five stages of Andrew Brawley, e como amei, fui com convicção de que esse também seria bom. Adoro estar certa. O apocalipse de Elena Mendoza tem momentos tensos e de ação, mas a história não é sobre isso, é sobre o que cada um acredita estar certo, o poder de escolha individual, também conhecido como livre arbítrio, e ter empatia pela humanidade de todas as pessoas, independentemente de escolhas ruins ou más mesmo.

Por ser um livro sobre escolhas, e com uma protagonista com a escolha mais difícil a ser feita, o enredo é um tanto quanto lento, porque todo o drama gira entorno de como Elena vai escolher, e ela no fundo não quer fazer uma escolha. Mas, no caminho temos situações muito interessantes e um dos poucos livros que a maioria dos personagens não são héteros e onde isso não é o tema central da história que eu já li, o que é muito bom para variar. 

Shaun escreve muito bem, e sua voz para Elena convence e engaja o leitor no problema em questão, escolher quem deve ser salvo e como num apocalipse. E apesar do tema pesado e complexo em termos de como lidar com a fé das pessoas, Shaun não só faz escolhas interessantes e fora do padrão (inclusive em termos religiosos), como ele consegue trazer humor para a narrativa.

É um livro que vale tanto pela capa quanto pelo conteúdo.

Nota 9.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Coffee will make you black

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2021 de novembro, com o tema protagonista negro, escolhi um já quase clássico da autora norte americana April Sinclair, Coffee will make you black. Apesar do livro ter sido lançado em 1994, até hoje não foi traduzido para o português, então, traduzo eu mesma o título: Café vai fazer você ficar preto

Pode parecer estranho, mas o título se refere a um dito popular dos EUA, especialmente nos séculos XIX e XX, que se dizia para as crianças não quererem beber café, para que ficassem com medo de escurecer sua pele. Em outras palavras, o título desse livro sozinho já diz muita coisa e a quê ele se propõe.

April Sinclair, criada em Chicago durante o movimento dos direitos civis dos negros americanos, traz a história de Stevie, uma jovem negra que começa o livro com 12 anos, e que vive durante os anos 60, bem no meio do movimento Black Power. A narrativa é toda centrada no ponto de vista de Stevie, que mesmo sendo uma leitora voraz e boa aluna, quer muito ser considerada cool

Apesar do pano de fundo político forte e do tema constante do racismo institucional dos EUA, a história de Stevie é de uma jovem se descobrindo, brigando com sua mãe, tentando fazer e manter amizades e conseguir um namorado. Talvez hoje seja meio clichê já, mas esse é o livro mais antigo que já li com esse tema onde praticamente todos os personagens são negros e que não é uma autobiografia.

Dentro do tema criança virando adolescente e se descobrindo, Coffee will make you black é um volume bem dentro do esperado, bem escrito, com questões típicas, mas muito abrangente, porque a autora não fica só no basicão. Ela inclui por exemplo, questões de descoberta da sexualidade que não eram muito comuns em livros publicados nos anos 90. 

Entretanto, o pano de fundo do movimento dos direitos civis e a questão do racismo trazem um peso para a trama que o leitor precisa estar disposto a enfrentar. Além disso, mesmo em inglês a leitura não é das mais simples, porque April caprichou nas gírias da época, o que, pessoalmente, eu gosto, porque data a história sendo contada, o que é mesmo o objetivo, mas, por outro lado pode deixar a leitura mais lenta.

No geral, é um excelente livro, e estou animada para pegar o volume seguinte, pois é uma duologia. Mal posso esperar para ver para onde vai a história de Stevie em Ain't gona be the same fool twice!

Nota 9,5.


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Tunnel of Bones - Cassidy Blake #2


 

SPOILER FREE

Depois de me apaixonar pelos personagens de A cidade dos fantasmas, dei sorte, e o livro seguinte da série da autora americana Victoria Schwab entrou em promoção e eu comprei e comecei a ler. O que posso fazer? A ansiedade falou mais alto.

Aviso importante, o primeiro livro da série só foi publicado no Brasil pela Galera Record em maio de 2021, então, o Túnel de Ossos (tradução livre minha) ainda não tem data prevista de lançamento em português.

Mas, temos uma boa notícia! Os direitos dos livros foram comprados pela emissora ABC para se tornar uma série, e a autora vai participar como produtora executiva! Tomara que as aventuras de Cass cheguem logo às telas!

Voltando ao livro, a continuação da saga de Cassidy Blake acompanha nossa heroína em Paris, a segunda parada dos seus pais na gravação de uma série de televisão sobre cidades mal assombradas. Em meio a vistas em locais turísticos, mas às vezes de turistas mais corajosos, Cass e seu melhor amigo fantasma Jacob acabam despertando um espírito um tanto quanto forte, e eles precisam desvendar um mistério antes que a assombração se torne forte demais.

Como todo livro de série de aventura, Tunnel of Bones segue uma certa fórmula, claro, temos o vilão da semana, um novo obstáculo para nossa protagonista superar, coisas novas para aprender etc. Mas, o interessante do trabalho da autora Victoria Schwab é como ela consegue seguir essa receita de forma interessante e sem cair nos clichês de sempre dos livros young adult. Eu gosto particularmente do fato que Cass e Jacob são apenas amigos, e amigos de verdade, com um relacionamento com problemas que amigos têm mesmo.

Outra coisa que sai do clichê crianças nunca são levadas a sério é que Cass, mesmo sendo adolescente, não deixa de ser levada a sério por isso. A questão é que o quê ela tem para contar é um pouco difícil de acreditar, e é por isso que ela escapa dos pais. Outros adultos que têm experiências paranormais não deixam de acreditar nela.

Além disso, gente, a história se passa em Paris, como não amar? A descrição das catacumbas está excelente, e eu visitei, posso atestar. Temos alguns clichês sobre Paris? Temos, mas são clichês por razões de serem bem verdadeiros, como a comida excelente, o metrô um tanto quanto complicado, o jeitão fechado dos franceses. Garanto que ficou melhor do que os clichês de Emily in Paris.

Outro ponto positivo é que finalmente temos uma aparição de um vilão maior e mais interessante para os próximos livros da série! E não direi mais nada sobre isso...

Enfim, um excelente livro de ação e aventura, com uma pitada de mistério, de personagens interessantes, que foge dos maiores clichês do gênero e, de quebra, de uma autora LGBTQ+. Recomendo!

Nota 9.

domingo, 13 de junho de 2021

A cidade dos fantasmas - City of Ghosts


 

SPOILER FREE

Estamos no mês do orgulho LGBTQ+! E de forma apropriada, o tema do Desafio Literário Popoca de junho é um autor LGBTQ+. Dessa vez resolvi escolher uma autora recém saída do armário e cuja obra young adult não é conhecida por ser, digamos, desse tema em específico, Victoria Schwab.

Victoria, que também escreve com o nome V.E. Schwab, ficou conhecida pela série Villains e Shades of Magic, mas desde então escreveu várias outras obras de sucesso. E após anos de sucesso ela finalmente conseguiu sair do armário ano passado, num belíssimo texto que foi publicado na OprahMagazine (recomendo clicar no link e ler). Apesar de ter alguns livros dela esperando há anos na lista de leituras, e gostar de diversas entrevistas e palestras que ela já deu por aí sobre literatura e a importância dos livros de fantasia, A cidade dos fantasmas foi meu primeiro contato direto com sua escrita.

Nesse livro, o primeiro de uma série com a protagonista Cassidy Blake, somos apresentados a Cass, uma jovem adolescente que sobreviveu a um encontro próximo com a morte e desde então é capaz de ver fantasmas. Cass é um tanto quanto antissocial, tanto que seu melhor amigo é o espírito Jacob. Por ironia, seus pais escrevem sobre fenômenos paranormais, mas não têm ideia do que a filha é capaz, e acham que Jacob é uma espécie de amigo imaginário. E nessas férias, que Cass mal pode esperar para aproveitar e ficar longe dos mortos, seus pais são convidados para fazer uma série de TV sobre assombrações, e o primeiro episódio vai ser filmado numa das cidades mais cheias de tipo de histórias, Edimburgo na Escócia.

Esse primeiro volume é uma história de aventura de Cass numa cidade cheia de fantasmas, e Victoria aproveita para expor sua paixão por Harry Potter e quadrinhos, o que dá um gosto especial ao texto. A escrita é fluida, cheia de ação e muito gostosa de ler. E apesar de ter todo o espaço do mundo, especialmente num livro young adult, Schwab consegue escrever um enredo onde não há romance. Fiquei impressionada, é algo muito raro ver livros assim. Ela resiste ao clichê do melhor amigo com interesses românticos, que seria o amor proibido ainda por cima, e resiste ao clichê da descoberta de uma sexualidade lésbica com relação a uma outra personagem importante na trama. E o resultado é um volume extremamente divertido, despretensioso, com adrenalina e sem os maiores clichês do estilo. Merece aplausos.

Fiquei muito satisfeita em saber que a série já tem outros livros, pois certamente quero ler mais aventuras de Cass e Jacob. E fiquei mais animada em ler as outras séries da autora. Ela certamente merece o reconhecimento e o sucesso que tem.

Nota 9.

domingo, 14 de março de 2021

Laura Dean Keeps Breaking Up with Me - Laura Dean vive terminando comigo


 

SPOILER FREE

E estamos no mês das mulheres, então, nada melhor que uma Graphic Novel escrita e ilustrada por mulheres, e de quebra dentro do tema do Desafio Literário Popoca! E que escolha, Laura Dean keeps breaking up with me foi um achado para mim, e começou me dando tapa da cara.

Pelo título, que pode saiu em português como Laura Dean vive terminando comigo (Editora Intrínseca, 2020), é óbvio do que se trata a história, mas eu confesso que comprei de impulso, e não me dei conta que o título é LGBTI+, e caí bonito em todos os estereótipos dos quais tento fugir olhando essa capa. Tapa na cara.

Aí comecei a ler e percebi que não era uma história sobre sair do armário ou se descobrir, que, claro, é o que se espera num romance LGBTI+, e sim sobre relacionamento tóxico, que não tem gênero. Tapa na cara.

Com uma autora de ascendência japonesa e uma protagonista nos mesmo moldes podia ter alguma menção a cultura japonesa ou imigração. Não tem. Tapa na cara.

Não que eu goste de tapas na cara literais, mas desse tipo? Volta e meia a gente precisa deles.

Laura Dean keeps breaking up with me é uma Graphic Novel simplesmente maravilhosa, e não é maravilhosa só pelos tapas na cara. Se não fosse LGBTI+, não tivesse personagens filhos de imigrantes e fosse bem tradicional nesse sentido, ainda assim seria uma excelente história sobre um tema extremamente relevante. Só que de quebra ela faz isso tudo com uma coleção absurdamente diversa de personagens. Como não se apaixonar?

A autora, Mariko Tamaki, é canadense e já escreveu para Marvel e DC, com alguns volumes de She-Hulk e Supergirl nas costas. E aqui ela conta com a colaboração da ilustradora americana Rosemary Valero-O'Connell. E as duas tiveram o seu trabalho reconhecido em Laura Dean keeps breaking up with me, que ganhou o Harvey Awards (2019), três Eisner (2019), melhor escritora, melhor desenho e melhor publicação para adolescentes, e o Ignatz Awards (2019).

Fora isso, o trabalho foi muitíssimo elogiado pela crítica e terminou o ano de lançamento em diversas listas de melhores publicações do ano de 2019. Não é pouca coisa!

Eu juro que não sabia de nada disso quando comecei a rasgar seda nessa resenha. Laura Dean keeps breaking up with me simplesmente me arrebatou. Dificilmente eu acharia algo mais adequado para o mês das mulheres. Maravilhoso do início ao fim, recomendo muitíssimo. Ainda bem que já saiu no Brasil, fica a dica!

Nota 10!

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O Príncipe e a Costureira - The Prince and the Dressmaker


 

 SPOILER FREE

Peguei essa Graphic Novel para ler por motivos de pandemia, e o fato de que é uma unanimidade em termos de agradar os leitores. Pensa num conto de fadas, em que a princesa é Drag Queen, e você tem o maravilhoso e premiado O Príncipe e a Costureira

Publicado no Brasil pela Darkside, numa edição de capa dura com direito a adesivos fofos, o livro ganhou diversos prêmios internacionais em 2018, 2019 e 2020. A autora e ilustradora Jen Wang, é americana, filha de imigrantes de Taiwan, e esse foi o seu primeiro trabalho solo. Mas que trabalho! A Universal Studios adquiriu os direitos de O Príncipe e a Costureira ainda em 2018, e no início de 2020 foi anunciado que Kristen Anderson-Lopez e Bobby Lopez, a dupla por trás das trilhas sonoras de Frozen, Coco e Frozen 2, se juntarão à dramaturga Amy Herzog e ao produtor Marc Platt para fazer o filme.

E como descrever a beleza que é a história imaginada por Jen Wang? A costureira Frances tem como sonho trabalhar apenas com suas próprias criações e ter seu talento reconhecido em Paris. E numa tentativa de satisfazer uma cliente complicada, acaba chamando atenção do Príncipe Sebastian, da Bélgica, que tem como segredo o fato de que gosta de usar vestidos. Os dois se unem e nasce a fabulosa Lady Crystallia que causa alvoroço nas festas de Paris.


É uma Graphic Novel ousada para young adult, feita para quebrar diversos paradigmas, e lindamente ilustrada! Eu não sabia que precisava dela, mas todos precisam de uma história como essa. Fiquei muito feliz de saber que vai virar filme. Quero ir na estreia! E se for animação, torço para que mantenham o traço da Jen Wang, que acertou em cheio.

Nota 10!


terça-feira, 23 de junho de 2020

Freshwater - Água doce



SPOILER FREE

Para fechar o mês de junho com chave de ouro, com o tema LGBT do Desafio Literário Popoca, resolvi me aventurar na literatura africana. E o livro de nigeriane Akwaeke Emezi é um campeão da crítica literária, especialmente por ser a primeira obra, uma autobiografia ficcionalizada, de autore trans não binária.

Freshwater, ou Água doce na tradução para o português, é um dos livros mais interessantes que já li, e dos mais difíceis de falar sobre. O texto tem uma questão cultural fortíssima envolvida na história de protagonista Ada, que é meio que possuída por diversos espíritos chamados Ogbanje no idioma Igbo, o que a torna uma personagem muito especial e única. Se você procurar no Google, vai encontrar que Ogbanje é um espírito que persegue uma determinada família, nascendo em crianças que morrem cedo e são muito diferentes, ao longo de gerações. Mas essa concepção não abrange o que acontece em Água doce, onde os Ogbanje levam Ada a ser uma pessoa que não é nem mulher (apesar de ter nascido com corpo feminino), e nem homem.

O livro é narrado em diversas vozes dentro de Ada, sendo que poucos são os capítulos narrados por si mesme. Na maioria das vezes quem está no comando é Asugara, um dos espíritos que habita Ada, e que nasceu por conta de uma experiência extremamente traumática. Muitos dos capítulos são narrados pelo coletivo dos Ogbanje, o que traz um distanciamento muito interessante e uma oportunidade a autore de tratar de temas diferentes, como consciência e questões psicológicas e espirituais profundas. 

A narração pelos Ogbanje também é uma oportunidade de se ver escrito um texto não binário. Em inglês isso é feito com o uso dos plurais "we" e "they", em português não sei como ficou na tradução, mas varia. Essa resenha, por exemplo, foi escrita usando-se uma forma de se fazer isso (minha primeira vez, tenham paciência comigo). Foi uma experiência interessante porque apesar de já ter encontrado personagens não binários em outros livros, essa é a primeira vez que vejo uma protagonista não binárie. E ainda por cima o livro nos conta sobre a descoberta dessa identidade e da sua sexualidade. 

O texto de Akwaeke Emezi é belíssimo, ainda que eu entenda as passagens em Igbo, e fácil de se tirar lindas citações. Mesmo com todas as mudanças de ponto de vista, o enredo é claro, ainda que extremamente complexo. Uma imperdível viagem pela cultura africana, com excelentes questionamentos sobre imigração, coletivo e identidade.

Nota 10.

domingo, 21 de junho de 2020

Pulp



SPOILER FREE

Mantendo o tema de junho do Desafio Literário Popoca, segui lendo livros de temática LGBT, e tentei dar preferência pelos young adults, para ver o que tem sido publicado para esse público. Acabei por escolher Pulp, que conta duas histórias em épocas diferentes sobre mulheres jovens lésbicas, lançado em 2018 e ainda sem tradução para o português.

A autora Robin Talley se dispôs a retratar uma jovem em 2017 (durante o governo Trump) descobrindo a literatura lésbica dos anos 60, conhecida hoje por Pulp. E para isso ela conta não só a história atual de Abby, que decide fazer seu projeto final da escola sobre esse estilo literário, mas também de Janet Jones, uma jovem que em 1955 descobre que é lésbica ao ler um livro proibido.

Confesso que posterguei muito escrever essa resenha porque a premissa do livro é muito legal, e eu aprendi muito sobre a história do movimento LGBT nos EUA e sobre literatura Pulp. Tudo o que envolve essa parte do enredo no livro de Robin Talley é simplesmente sensacional.

Meu problema está com as personagens atuais, Abby e seu grupo super mega diverso. Gente, que personagens insuportáveis. Especialmente a narradora Abby, que está numa fase complicada porque se recusa a lidar com o iminente e óbvio divórcio dos pais, e para não ter que lidar com isso desenvolve uma fixação nada saudável, extremamente chata e repetitiva, com o livro escrito por Janet Jones. Quando eu digo repetitiva quero dizer que há literalmente diversos parágrafos e frases idênticas ao longo do livro.

Se o livro não contasse duas histórias ao mesmo tempo talvez o drama de Abby fosse mais emocionante ou pelo menos mais fácil de se simpatizar. Mas ao comparar com o que Janet Jones e outras lésbicas passaram nos anos 50 e 60, como Pulp acaba fazendo, o enredo de 2017 simplesmente perde o brilho e parece uma grande tempestade em copo d'água. Abby e seus amigos parecem grandes privilegiados que reclamam de coisas que não fazem muito sentido. Rola um desequilíbrio muito grande no livro nesse sentido.

O resultado é que metade do livro é muito bom e metade do livro é muito ruim, eu fiquei com vontade de pular metade dos capítulos.

Na média, nota 5.

sábado, 13 de junho de 2020

Get It Together, Delilah!



SPOILER FREE

Como junho é Pride Month e eu já li um livro de temática gay, resolvi ir para outra letra do arco-íris e ler algo com personagens lésbicas para o Desafio Literário Popoca. Acabei decidindo por outro young adult, infelizmente sem tradução para o português, da autora australiana Erin Gough.

Get it together, Delilah! é sobre uma jovem lésbica, com nome óbvio pelo título do livro, cujos maiores problemas são: bullying na escola, a separação dos pais e o fato que por um capricho do destino, misturado com uma dose de culpa, Delilah está gerenciando sozinha o café da família.

O interessante do livro é que não é sobre a descoberta da sexualidade de Delilah, ela sabe muito bem quem ela é. A questão é como os outros lidam com isso, e como ela lida com essas reações. O enredo tem questões de amizade muito interessantes também, que confesso que me surpreenderam, pois a autora conseguiu fugir de determinados clichês e trabalhar muito bem outros, que, considerando o mundo em que vivemos, são de alguma forma inevitáveis.

Além disso, os dramas não são exclusivos da sexualidade de Delilah, o que torna o enredo bem mais interessante e abrangente. A protagonista é uma adolescente com problemas de adolescente, por acaso ela é lésbica. Considerando a enorme quantidade de livros cujos protagonistas LGBT lidam apenas com problemas LGBT, é muito positivo começar a surgir volumes que falam de outras coisas também, afinal adolescente nenhum está livre dos seus tradicionais dilemas e problemas.

Por esses pontos, e pela qualidade da escrita, Get it together, Delilah é um livro excelente, e acima da média dos young adults que estão por aí, independentemente da sexualidade dos personagens. Porém, boa parte do drama do livro também se baseia na falta de comunicação, que é um clichê que eu detesto. E foi isso que me deixou dividida por boa parte da leitura.

Por um lado, amei ler sobre Delilah, seus problemas na escola, no café e na família, além do drama amoroso que eu achei particularmente interessante. Por outro lado, algumas decisões simplesmente me irritaram, apesar delas serem condizentes até certo ponto com a faixa etária da personagem.

De qualquer forma o resultado é muito divertido, com risadas garantidas em algumas passagens, suspiros em outras e alguns olhos revirados inevitáveis em livros adolescentes. Uma excelente leitura para o tema, precisamos de mais livros assim.

Nota 9.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Red, White & Royal Blue - Vermelho, Branco e Sangue Azul



SPOILER FREE

E começamos o tema de junho do Desafio Literário Popoca! Junho é mês do orgulho LGBTQ, então claro que o tema tinha quer ser esse. Resolvi entrar de cabeça com um dos maiores sucessos da literatura young adult de 2019 do tema: Vermelho, Branco e Sangue Azul.

Vencedor do prêmio Goodreads de 2019, o livro de Casey McQuiston traz a história de Alex, filho de uma fictícia presidenta norte americana, que ganhou as eleições de 2016 nos EUA (sim, é uma realidade alternativa). Alex é texano, filho de dois políticos, a presidenta, que é uma americana loirinha típica, e um senador/deputado/não-lembro-em-detalhes de origem mexicana. Alex é carismático, tem uma personalidade forte e é estilo galã, o que o torna um novo queridinho da América quando se torna um dos primeiros filhos do país.

Para completar o par gay do livro, Casey escolheu um dos príncipes da família real britânica, uma também numa realidade alternativa, com nomes diferentes, mas com o mesmo espírito, o príncipe Henry. Como é uma história romântica, a autora seguiu a receita de inimigos a amantes, que sendo bem feita, costuma gerar excelentes resultados, especialmente no quesito humor.

E como o grande sucesso do livro já mostra, a autora certamente acertou no ponto.

A história de Alex e Henry não só é muito fofa e engraçada, mas toca em diversos problemas reais que um casal desse tipo pode enfrentar. Não só o preconceito nos dois países, mas também a perseguição da mídia e as tramas da política norte americana quando as eleições seguintes se aproximam. São esses pontos que tornam o livro interessante dentro do universo literário LGBTQ, que muitas vezes trata de pessoas comuns ou artistas, esse é o primeiro que vi onde seus protagonistas são pessoas da política mundial.

O tom do livro é extremamente contemporâneo, e a história é narrada apenas pelo ponto de vista de Alex, o que o torna uma leitura leve, recheado de mensagens de celular e de emails deliciosos de ler. E a auto descoberta de Alex como um membro da comunidade LGBTQ é satisfatória, mesmo que um tanto quanto clichê. A autora se redime com o humor entranhado por todo o enredo e uma excelente coletânea de citações de cartas de personagens famosos da história americana e britânica.

Como livro de história romântica young adult, Vermelho, Branco e Sangue Azul é uma excelente leitura, com a vantagem de ser LGBTQ.

Nota 9.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Didn't Stay in Vegas



SPOILER FREE

Quem frequenta o blog sabe que eu curto uma literatura erótica para dar aquela desconectada na realidade. Afinal, estamos num período muito complicado, e às vezes tudo o que precisamos é nos distrair.

Ultimamente tenho pensado em dar uma variada dentro do estilo. Andei lendo uns reverse harens, por exemplo. Mas, mesmo esses são bem hétero normativos, então resolvi experimentar literatura erótica lésbica. Comprei alguns livros, e comecei por Didn't Stay in Vegas.

A autora, Chelsea M. Cameron, traz a história de duas melhores amigas, que acordam depois de uma noitada em Vegas casadas uma com a outra. E a partir daí se desenrola um drama muito muito muito chato.

Meu problema com Didn't Stay in Vegas é que a premissa não combina com o desenrolar do enredo. As duas melhores amigas são lésbicas, mas o seu relacionamento e a forma como a história anda não parece em nada com isso. Parece muito mais a história de uma hétero que se descobre lésbica ou bi. Simplesmente não faz sentido. As cenas de sexo então mais parecem adolescentes fazendo pela primeira vez e não duas mulheres experientes que pensam em fazer uma segunda faculdade.

Não sei se a autora é lésbica, mas se fosse para adivinhar eu diria que não é. 

E o final? Gente, que coisa terrível de mal escrita. Parece que a autora não sabia mais para onde levar a história, perdeu a paciência e resolveu escrever qualquer coisa às pressas.

Não recomendo.

Nota 4.

domingo, 29 de setembro de 2019

Zami: A New Spelling of My Name



SPOILER FREE

O tema do Desafio Literário Popoca de setembro é um livro que tenha sido lançado no ano que você nasceu, e eu posso dizer que fui bastante feliz com esse tema. 

Um dos livros lançados em 1982 é a autobiografia da ativista negra, lésbica, poetiza, filha de imigrantes caribenhos e uma das pioneiras nas definições que criariam o feminismo intersecional Audre Lorde. A autora americana têm diversos livros lançados, entre livros de poesia, livros de textos militantes e autobiografias, mas Zami é o primeiro que tive o privilégio de ler.

Infelizmente a autora é muito difícil de encontrar traduzida para o português, o que é uma pena, e mostra o quão atrasados estamos em algumas coisas, afinal, a autora nasceu em 1934 e começou a publicar ainda na década de 60.

Em Zami, Audre Lorde narra como foi a sua infância com seus pais imigrantes, e como era ser considerada cega, porque Audre tinha uma miopia tão forte que ela era considerada legalmente cega e mesmo com óculos tinha muita dificuldade de ver. Sua mãe conseguia passar por branca, mas seu pai, ela e suas irmãs, não. O racismo vivenciado em sua infância por sua família é algo que marca muito a sua escrita de forma geral, e em especial a primeira parte de Zami.

Mais tarde, além de negra, a autora se descobre lésbica, o que causa uma outra gama totalmente diferente de problemas e preconceitos. Como a cena lésbica na sua adolescência e início da fase adulta não era lá muito abrangente, Audre se envolve com diversas mulheres com muitas histórias diferentes, e muitas delas são brancas, o que a faz começar a pensar nas diferenças de preconceitos que ela e suas amantes brancas sofrem.

O livro cobre a vida de Audre Lorde até meados dos anos 50, antes dela começar a publicar suas poesias, e, a própria autora adverte que se trata de uma biomitografia, o que pode dar certas liberdades à autora com relação a veracidade daquilo que ela nos apresenta.

Mas o importante no texto de Audre definitivamente não é a veracidade dos acontecimentos, mas sim o retrato que ela nos mostra de uma época, além das reflexões e pensamentos que mais tarde iriam fomentar todo o seu ativismo. E nisso, Zami é um prato cheio, delicioso de ler. Apesar de ser um livro obviamente pesado, vale a pena cada palavra.

Nota 10.

domingo, 1 de setembro de 2019

The Brightsiders



SPOILER FREE

Esse é um dos livros mais pop de 2018 e finalmente ele saiu da estante! A autora australiana Jen Wilde tem feito sucesso com suas personagens jovens e abertamente LGBT, e The Brightsiders é só mais um exemplo do que ela tem feito.

Um dos pontos altos desse livro em particular, é que ele não tem nenhum personagem relevante que não faça parte da sigla LGBT, e só isso é incrível. E não, as personagens não são estereótipos ou clichês de nenhuma das letrinhas.

Em Brightsiders, Jen traz a história de Emmy King, uma adolescente prestes a completar 18 anos que precisa lidar não só com a fama (ela é baterista de uma banda famosa que chegou ao estrelado há pouco tempo), mas com os seus pais abusivos (fica o alerta para quem tem problemas com o tema), e com a sua bissexualidade.

Se você acha que isso já é problema demais para colocar num livro só, respira fundo, porque Jen Wilde ainda trabalha transfobia, bifobia, relacionamento abusivo (de pais e de namoradxs), empoderamento feminino e vício em drogas. É um prato cheio, beeeeeeem cheio.

Se por um lado o livro é de uma grande beleza, justamente pela forma com que a autora consegue lidar com todos esses temas tudo junto e misturado sem deixar a peteca cair no campo do preconceito. Por outro lado, Jen Wilde consegue a façanha de ser didática demais. O livro é explicadinho demais, e isso é o seu maior defeito.

Não há o menor espaço para reflexão do leitor, que é carregado o tempo inteiro para as conclusões que a autora quer que ele entenda. Em compensação, a escrita é bastante fluida e recheada de pequenos poemas que são as canções do grupo. 

E os personagens principais são fofos. 

Com pontos positivos e negativos que de alguma forma acabam por se equilibrar, e considerando a importância desse tipo de livro hoje em dia:

Nota 8,5.

domingo, 6 de novembro de 2016

Azul é a cor mais quente



SPOILER FREE

Novembro está sendo um mês feliz para a minha meta anual de leitura, porque o tema do desafio literário desse mês é livros que você lê de uma "sentada" só. Em outras palavras, estou aproveitando para ler vários Graphic Novels e de quebra estou aumentando minha meta de livros do ano!

A primeira Graphic Novel que resolvi pegar para ler foi "Azul é a cor mais quente", uma leitura linda, dramática e pesada sobre ser homossexual e não aceitar por conta de preconceitos entre família e amigos. É também um livro que foi transformado em filme por um diretor francês que deu o maior bafafá entre cenas quentes para os espectadores e denúncias de abuso por parte das atrizes.

Mas o livro é lindo, tanto na história, que é de partir o coração, quanto nas escolhas estéticas, visto que a única cor que sobressai em todos os quadros é o azul que conquista o amor da protagonista. Uma coisa linda de ver e de ler.

é ou não é uma lindeza?

Super recomendado para todos.

Nota 10!

quarta-feira, 2 de março de 2016

The five stages of Andrew Brawley


SPOILER FREE

Então, estou numa situação meio bizarra. O meu kindle não tem mais espaço para livros. E como eu não quero deletar livros que ainda não li (senão eu sei que ficarão eternamente esquecidos na nuvem), comecei um projeto de tentar ler o maior número possível de livros no kindle, para tentar esvazia-lo e conseguir colocar nele o que ainda pretendo ler esse ano (nem que seja um livro só de cada tema, porque a situação é crítica).

Explicada a situação, esse livro eu comprei numa promoção (óbvio, eu quase não compro mais livros sem ser assim) e estava dando sopa no kindle, além de parecer curto (a pressa é inimiga dos livros grandes). Então, ele magicamente furou a fila e comecei a lê-lo. E não me arrependo nem de uma vírgula.

"The five stages od Andrew Brawley" é uma história lindíssima sobre um adolescente que mora escondido dentro de um hospital depois de perder toda a família. Claro, o livro tem o seu lado "armadilha", afinal é uma história de um garoto num processo de luto, e que fez amizades com pacientes e funcionários do hospital, o que é uma receita infalível para deixar os olhos marejados.

Mas sem levar o lado dramático de uma narrativa como essa em consideração, já que nada disso é levado ao exagero, o texto é realmente muito bem escrito, a voz de Andrew como narrador em primeira pessoa é tão bem feita que você simplesmente mergulha na sua história. E para colocar a cerejinha no bolo, o livro tem intercalado entre os seus capítulos os quadrinhos que o Andrew criou sobre um personagem muito interessante, chamado Paciente F. Como não amar uma coisa dessas?

E para melhorar ainda mais o meu conceito sobre esse livro, ele foge dos padrões ao colocar Andrew como um adolescente homossexual, e bem resolvido com isso. Em outras palavras, a única coisa que é influenciada por isso na história é o sexo do seu interesse romântico. É muito amor num livro só.

Super recomendado!

Nota 10.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tessa Masterson Will Go to Prom


SPOILER FREE

Então... eu topei com esse livro na Amazon num dia desses de promoções e não resisti em comprar e ver qual é a do livro quando descobri que era sobre dois amigos, Tessa e Lucas, que passaram a infância toda juntos, mas acabam se desentendendo quando Lucas chama Tessa para ir para o Prom (ainda bem que não temos esse evento nas nossas escolas) e ele descobre que sua melhor amiga é lésbica.

Fiquei extremamente feliz ao ver que já há livros disponíveis para adolescentes que lidam com essas situações, e fiquei satisfeita ao ver que trata de uma lésbica (já que as lésbicas costumam ser esquecidas nessas horas, a não ser para fazer casais para os homens verem, o que definitivamente não é o caso).Afinal, esse é um tema ainda considerado muito complicado por parte da população e ainda mais pelos pais.

Apesar do livro tratar do tema de uma forma que me pareceu convincente no que concerne a reação da cidade pequena onde os dois amigos vivem, achei que ele se prende muito a clichês do que é esperado de uma lésbica. Apesar de eu achar legal Tessa querer ir para o Prom usando um terno, ela mesma encara suas características "pouco femininas" como um sinal claro de sua opção sexual, e isso pode ser problemático, ainda mais quando estamos falando de um público leitor potencial de adolescentes (já imagino as adolescentes super femininas e lésbicas se perguntando se estão certas aiaiaiai). Outras características de Tessa que seriam "sinais claros": ela não sai com garotos (e as meninas que ainda não chegaram nessa fase ou são muito tímidas serão taxadas de quê com isso? socorro), usa calça jeans e camiseta o tempo todo (juro que revirei os olhos toda vez que vi isso no livro, e, sério, se isso fosse um tipo de sinal mais da metade das minhas amigas seriam lésbicas), gosta de correr (como assim????) e, o único sinal que realmente importa, ela gosta de garotas.

Mas, se você conseguir fazer vista grossa a esses "detalhes", o livro é divertido. A transformação pela qual Lucas passa é interessante, pois ele precisa aprender a lidar não só com o fora que ele leva da melhor amiga, mas com o fato de que ela não é exatamente do jeito que ele achava que ela era. Confesso que a primeira parte do livro é um pouco dramática demais para o meu gosto, e pessoalmente achei a reação do Lucas exagerada e extremamente egoísta, mas, também precisamos lembrar que ele é um adolescente, e nessa fase (que às vezes nem passa) nós temos a tendência de sermos exagerados e egoístas. É o tipo de reação que se desculpa num adolescente, então dá para engolir.

A forma como Lucas se redime é no mínimo fofa (e combina com a construção do personagem), e o final tem aquele quê de final feliz de filme estilo comédia romântica.

O livro não é uma denúncia do que pode acontecer com jovens gays (apesar de flertar com o tema), e sim uma história água com açúcar com um tema considerado ousado atualmente. Podia ser melhor, sem dúvida, mas para um tema tão pouco trabalhado, é válido. Afinal, precisamos de todos os tipos de histórias para todos os tipos de personagens, não é mesmo? Espero ver o dia em que esse tipo de livro não chame atenção pelo tema, e sim pela história contada mesmo.

Nota 8.

PS: agora a coisa mais legal sobre esse livro: é o 60° do ano!!!!!! Uhuuuuuuuu!!!! Será que passo disso até dia 31? Aguarde e confira :-)