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domingo, 31 de julho de 2022

Redemption in Indigo

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de julho, com o tema fantasia ou ficção científica escrita por autores africanos, escolhi um dos livros da escritora Karen Lord, de Barbados.

E gente, que escolha mais acertada. Redemption in Indigo, infelizmente ainda sem tradução em português, é um livro que ganhou diversos prêmios quando foi lançado em 2011. E certamente merecia ainda mais, mas, como foi o primeiro livro da autora e ela é negra... sabe como são essas coisas.

A história parece se passar em algum lugar não determinado no continente africano (eu confesso que não tenho ideia de que país poderia ser), e é cheia de referências a diversas culturas e mitologias africanas, que eu gostaria de conhecer mais para ter apreciado melhor suas aparições. No livro acompanhamos Paama, uma mulher casada que abandonou a casa do seu marido porque ele era um glutão sem noção. Por ter tomado essa decisão, ela chama atenção de seres imortais do mundo espiritual, os djombi, que resolvem dar a ela um artefato mágico, o cajado do caos.

Só que nem todos os djombis ficam satisfeitos com a escolha de Paama para receber um poder tão grande. E o Indigo Lord, um poderoso djombi, resolve ir atrás dela para tentar convencê-la a entregar para ele o cajado do caos.

Numa história que parece saída diretamente dos mitos, mas com uma pegada mais atual, a saga da luta entre Paama e o Indigo Lord é de uma delícia ímpar de se ler. Não só temos elementos pouco comuns nas narrativas de escritores mais famosos no Brasil, diga-se europeus e americanos, mas temos também uma personagem feminina forte e decidida, que está cercada de outras personagens femininas muito incríveis. Para coroar, Karen escreve absurdamente bem.

Terminei Redemption in Indigo procurando por outros livros da Karen Lord, porque se o primeiro foi assim, imagine os seguintes? Quero ler tudo dessa mulher.

Nota 10.

terça-feira, 11 de junho de 2019

Red Moon - Lua Vermelha



SPOILER FREE

Quem segue o meu blog com afinco já percebeu que eu tenho uma tendência de ler coisas sobre o feminino e sobre religiões menos comuns, por assim dizer. Lua Vermelha estava na minha lista de leituras há tempos. Como o livro Mulheres que dançam com os lobos (que ainda não li, está na lista também), ele está meio que na moda no meio dos círculos de mulheres.

O livro trata de um assunto bastante tabu mesmo entre mulheres: a menstruação. A questão abordada é a natureza cíclica dos hormônios femininos, que, como os primeiros calendários do mundo, em qualquer parte do mundo, não me deixam mentir, é diretamente conectada com a lua. 

Antes de mais nada, preciso de uma salva de palmas para Miranda Gray, que poderia ter escrito um livro muito bonito e bastante vazio sobre as fases da lua e as fases do ciclo menstrual. Mas ela foi muito, mas muito além disso. O livro tem lá as suas partes mais, digamos, esotéricas, mas ele foi muito bem pesquisado e bem fundamentado, em especial nas questões ligadas à mitologia e aos contos de fadas. Sim, as personagens femininas dos contos de fadas.

Foi aí que a autora me ganhou. Depois de todo o trabalho de coleta, estudo e ressignificação que ela fez com esse material, não dá para ignorar as conclusões e as sugestões que ela faz. Um trabalho realmente muito bom, profundo e de grande beleza e importância no mundo machista e misógino que vivemos. Kudos. 

Agora só preciso ler tudo o mais que essa mulher publicou, algo me diz que vai valer muito a pena.

Nota 10.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Men Explain Things to Me - Os Homens Explicam Tudo Para Mim

 

SPOILER FREE


Composto por sete ensaios sobre o feminismo escritos pela americana Rebecca Solnit,e lançado originalmente em 2014, o livro Os Homens Explicam Tudo Para Mim foi publicado no Brasil apenas em maio de 2017.

O livro é considerado um dos marcos do feminismo contemporâneo, e o seu estilo é bastante acessível e pouco acadêmico. Nada pesado de sociologia ou filosofia, tanto que os textos poderiam estar facilmente na internet num site ou blog comum.

Aliás, a autora, Rebecca Solnit, está bastante presente na web, com participações em diversos sites americanos considerados de esquerda, como o TomDispatch, tratando especialmente da situação feminina na sociedade. E isso aparece nos seus ensaios, que sim, são mais a esquerda do que se esperaria de uma americana.

Independentemente de direita ou esquerda, a leitura dos seus textos é muito válida e necessária. Para os menos conectados com o jargão atual do feminismo, a leitura é bastante didática, porque a coleção de ensaios se inicia em 2008, com um ensaio que se tornou viral da época e que é considerado a origem da palavra mensplaning (ato de homens que explicam automaticamente coisas para mulheres como se elas fossem incapazes de possuir conhecimento próprio ou anterior à conversa), e vai até 2014, quando se popularizou as marchas das vadias pelo mundo (manifestações de mulheres sobre o direito de vestirem o que quiserem e não sofrer assédio).

Rebecca Solnit também apresenta em cada um dos ensaios um tema de forma cronológica, mostrando a evolução do assunto desde o século XX até os dias de hoje. Algumas coisas já avançaram desde a publicação do livro, outras melhorias, infelizmente, estão limitadas aos Estados Unidos, mas servem de exemplo e inspiração para o resto do mundo.

Pessoalmente, eu amei todos os ensaios, são todos maravilhosos. Mas o último tem um lugar especial no meu coração. Nele Rebecca traz uma visão de esperança para o futuro que eu pretendo levar para sempre comigo: as ideias do feminismo são como a Caixa de Pandora, depois que as ideias saem da Caixa, ninguém mais pode guardá-las de volta. Ideias movem o mundo e são a semente de todas as mudanças sociais. Então vamos plantar um futuro melhor!

Nota 10.

sábado, 15 de setembro de 2018

Broad Strokes: 15 Women Who Made Art and Made History (in That Order)



SPOILER FREE

Nos últimos anos tenho tentado dar preferência a autoras mulheres nas minhas leituras, pois acho que as neglenciamos muito no dia a dia (Harry Potter e 50 tons não contam!). Mas isso acontece também ao longo de toda a nossa história ocidental em todas as artes.

Publicado em 2017, Broad Strokes é um livro escrito por uma mulher, Bridget Quinn, sobre mulheres das artes plásticas, especialmente da pintura. Não que todas as 15 mulheres retratadas aqui sejam exclusivamente pintoras, mas em sua maioria são. 

A escolha das mulheres para compor o livro é da própria autora, e ela segue uma ordem cronológica que se inicia no renascimento e vai até depois dos anos 2000, incluindo:
  • Artemisia Gentileschi - pintora renascentista que por acaso eu conheço e amo de paixão, vale a pesquisa no Google
  • Judith Leyster - não conhecia, mas é uma pintora holandesa do século XVII confundida com um grande mestre holandês por conta da alta qualidade do seu trabalho
  • Adélaïde Labille-Guiard - pintora da corte francesa do século XVIII, eu também não conhecia, mas a mulher é tão maravilhosa que sobreviveu à revolução francesa, apesar das suas conexões com a monarquia
  • Marie Denise Villers - pintora francesa do século XIX que tem como obra-prima o melhor retrato pintado por uma mulher, eu também não conhecia
  • Rosa Bonheur - mais uma pintora francesa do século XIX, mais famosa nos EUA do que na França por conta do seu tema favorito: cavalos e outros animais, o que a tornou a pintora favorita do famoso Buffalo Bill. Eu também não conhecia, esta lista está triste nesse quesito, né? Mas é provável que eu já tenha visto pessoalmente alguma obra dela em Oklahoma e não tenha me ligado nisso
  • Edmonia Lewis - escultora negra norte americana do século XIX. Só essa descrição já quer dizer muita coisa. Também não conhecia...
  • Paula Modersohn-Becker - pintora alemã do início do século XX, um dos primeiros pintores da escola modernista! Autora do primeiro auto-retrato de uma grávida, nua. Eu não conhecia, pois não curto muito essa escola, mas é preciso tirar o chapéu para a coragem dessa mulher
  • Vanessa Bell - pintora inglesa do século XX, irmã de outra mulher famosa, Virginia Woolf, que, por sinal, desenhou diversas capas das primeiras edições dos livros da irmã
  • Alice Neel - pintora norte americana do século XX, autora de diversos auto-retratos onde ela aparece velhinha e nua. Amei essa mulher, que eu também não conhecia!
  • Lee Krasner - pintora judia norte americana do século XX. Infelizmente ela é mais famosa por ter sido casada com Pollock do que pela sua própria obra. E nem assim eu a conhecia porque não sou fã desse pintor
  • Louise Bourgeois - artista francesa do século XX que sobreviveu à primeira Guerra Mundial e no entre guerras se mudou para Nova Iorque. Eu também não conhecia, essa lista é uma vergonha para a minha pessoa
  • Ruth Asawa - artista norte americana filha de imigrantes japoneses que passou a infância num campo de concentração nos EUA (coloque no Google campos de detenção para japoneses nos EUA durante a segunda guerra e você levará um susto). Eu também não a conhecia, mas sua história é tão linda que virei fã
  • Ana Mendieta - artista de origem cubana do século XX cuja história pessoal é tão marcante nas lutas feministas que eu não sei explicar como eu não a conhecia
  • Kara Walker - artista negra norte americana do final do século XX e que fez sucesso no século XXI. Impossível ser mais contemporânea do que ela nas discussões atuais sobre racismo nos EUA, amei o que vi do seu trabalho, mas eu também não a conhecia
  • Susan O'Malley - artista norte americana do século XXI, com um estilo tão atual que se ainda estivesse viva (tristezas da vida) certamente estaria bombando na internet. Essa eu conhecia, porque tenho um livro dela, que ainda não li, mas isso será resolvido em breve
Imagino a dificuldade da autora para limitar essa lista para apenas 15 mulheres. É tanta artista maravilhosa que eu sei que é difícil escolher. E nesse sentido, Bridget fez questão de tirar das sombras justamente artistas pouco conhecidas e que também merecem a fama de Frida Kahlo e Camille Claudel (se você não conhece, coloque no Google pelamor!).

Para coroar o livro, preciso dizer que adorei o texto de Bridget Quinn, uma mistura deliciosa de jornalismo, literatura e conhecimento de artes plásticas. A leitura é fácil e gostosa, dá muito gosto de ler e aprender mais sobre mulheres fantásticas como essas. Espero que a autora faça sucesso o suficiente para fazer mais livros como esse.

Infelizmente o livro ainda não saiu em português, mas esperança é a última que morre!

Nota 9,5.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Girls of Riyadh


SPOILER FREE

Depois de ler literatura feminina árabe de alguns países mais abertos, como Egito e o Líbano, finalmente consegui um exemplar de literatura feminina da Arábia Saudita! Artigo raro no mundo inteiro, inclusive dentro da Arábia Saudita, onde o livro foi devidamente banido, claro.

Rajaa Alsanea traz uma história escrita através de emails semanais, enviados para um grupo onde qualquer um pode se inscrever (gente, eu lembro desses grupos de emails! faziam o maior sucesso), onde a história de quatro jovens sauditas é contada em capítulos quase novelescos. A história é toda apresentada como sendo real, apenas com os nomes e alguns lugares trocados para manter a anonimidade e portanto a honra das quatro moças.

A parte mais interessante e maravilhosa do livro é que sim, tudo do que é apresentado no livro pode ser real, extremamente real. E a autora aproveita disso para fazer críticas nada discretas à forma como o governo saudita e a estrutura de clérigos wahabitas fazem o controle da sociedade. Dizer que a crítica é ferrenha é até pouco.

O livro está envolvido numa problemática de ter sido banido em árabe no Reino Saudita, apesar de poder ser encontrada a tradução para o inglês na terra do petróleo, além de vir com uma explicação com ar de desculpas pelas adaptações que foram necessárias na tradução. Isso porque não é possível reproduzir a quantidade de variedade de dialetos do árabe que a autora precisou utilizar para contar a história, apesar disso, o livro é recheado de notas de rodapé muito ilustrativas e bem feitas.

Questões de censura e linguística à parte, a história em si é maravilhosa, além de bem escrita, e de quebra faz um retrato muito realista da sociedade saudita, não só internamente, mas, se você prestar atenção, com relação aos seus vizinhos e com uma questão xenofóbica interessante também. Para aqueles que gostam de ler sobre a cultura árabe é um prato cheio, com a vantagem de ser não só uma visão originalmente saudita, mas também leve de ler. Em termos, se você considerar o conteúdo de algumas passagens da história. Apesar de que não tem nada explícito, claro.

A única coisa que me deixou triste é que a autora nunca mais escreveu nenhum livro literário depois desse (pelas minhas pesquisas ela só publicou um livro técnico sobre odontologia - informação interessante de você guardar quando for ler a história), o que é uma pena.

Super recomendo a leitura para todos!

Informação importante: o livro foi traduzido para o português com o título "Vida dupla"!

Nota 10!

domingo, 10 de junho de 2018

Letter to My Daughter



SPOILER FREE

Esse é o primeiro livro que li da autora americana Maya Angelou. Famosa por sua poesia, Maya também escreve coisas um tanto quanto diferentes, um misto de autobiografia com texto motivacional.

Até ler esse livro, eu conhecia algumas poesias da autora, o suficiente para ser sua fã e querer ler mais dela (o que explica a compra desse livro). Depois desse volume sou mais fã ainda.

Aqui os textos são quase que pequenos contos autobiográficos da autora, com o objetivo de ilustrar aprendizados que ela teve ao longo da sua vida e que ela espera que possam servir de lição para a geração seguinte de mulheres, especialmente mulheres negras americanas.

Confesso que fiquei embasbacada com as suas histórias, e também com a sua sensibilidade ao contá-las. Maya Angelou merece um pedestal ainda maior do que ela já tem, que mulher incrível!

A boa notícia é que se encontram alguns de seus livros traduzidos para o português, a má notícia é que eles são poucos e não incluem este aqui.

Nota 10!


Ten Women - Dez Mulheres


SPOILER FREE

Eu comprei esse livro num impulso porque ele estava numa mega promoção da Amazon de literatura mundial, e eu nunca tinha ouvido falar da escritora chilena. Achei que seria uma ótima oportunidade de conhecer, mesmo com o texto traduzido para o inglês.

Posso dizer com convicção que valeu muito a pena. Marcela Serrano é uma escritora de mão cheia, e com inúmeros prêmios nas costas! Todos eles provavelmente merecidos pelo o que que pude ver em Dez Mulheres.

O livro traz relatos feitos numa espécie de sessão especial de terapia em grupo, de dez mulheres que frequentam a mesma psiquiatra. Para tornar a coisa mais interessante, a psiquiatra, Natasha, faz atendimentos gratuitos também, então a história de cada mulher é muito diferente e vai desde uma senhora que aqui viveria numa favela no Brasil, até uma estrela de televisão, e com as idades mais diversas, desde uma moça recém saída da adolescência até uma senhora de oitenta anos.

Todas as histórias são extremamente femininas, e todas me tocaram profundamente, algumas conseguiram até mesmo encher os meus olhos de lágrimas, o que é um grande feito para um livro (ou filme). O interessante é que mesmo com apenas a psiquiatra em comum, os relatos das mulheres fazem uma colcha de retalhos extremamente equilibrada e coesa, além de mostrar um lindo retrato do Chile.

Marcela se mostrou uma mestra na criação de personagens e de vozes, pois todas são distintas e realistas, ao ponto de você ficar pensando que pelo menos alguma coisa dali é baseada em fatos reais.

Fiquei tão apaixonada que já estou à caça de outros livros da autora. Virei fã.

Nota 10.

domingo, 27 de maio de 2018

Belly Dance Around the World



SPOILER FREE

Esse livro foi um achado que eu consegui para kindle na Amazon. Com uma coleção de 12 artigos sobre como as pessoas vivenciam diversos aspectos da dança do ventre ao redor do mundo, e relativamente novo, foi lançado em junho de 2013, o que o torna bastante atual.

A ideia é passear por diversas comunidades ao redor do mundo que praticam a dança do ventre, começando pelo Egito. Os dois primeiros artigos do livro tratam principalmente de como os egípcios enxergam essa dança. Em "What is baladi about al-raqs al-baladi?" a autora faz pesquisa de campo, notando como hoje em dia a sociedade egípcia enxerga e pratica o que chamamos de dança do ventre, além de entrevistar diversos egípcios sobre o que eles consideram que é "baladi".

No segundo artigo, "Finding the feeling: Oriental dance, musiqa al-gadid and tarab", a autora traz uma análise juntamente com entrevistas, de como as bailarinas profissionais de dança do ventre no Egito montam os seus shows (que são coisas épicas de mais de uma hora, com apenas uma bailarina solista) de forma a capturar o público e causar o que os árabes chamam de tarab (êxtase).

O terceiro artigo, "Performing identity" foca na comunidade canadense de bailarinas e praticantes de dança do ventre, e faz uma análise de como essa comunidade se enxerga com relação a sua prática, como ela foi influenciada por movimentos orientalistas e como descendentes árabes que fazem parte dessa comunidade percebem a representação da sua cultura inserida na cultura canadense.

O quarto artigo foi um dos meus favoritos em termos de análise. Em "1970s Belly Dance and the how-to phenomenon: feminism, fitness and orientalism", a autora apresenta uma análise do conteúdo de livros que começaram a surgir nos anos 70 nos EUA com o objetivo de ensinar dança do ventre. A autora faz uma análise riquíssima desse conteúdo com relação a outros movimentos da época, como o feminismo, o feminismo ecológico e o surgimento do movimento fitness, além do lançamento do icônico "Orientalism" do Edward Said.

 O artigo seguinte, "Dancing with inspiration in New Zealand and Australian dance communities", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia e da Austrália fazem uso da dança do ventre de forma a atingir formas diferenciadas de consciência, de forma que a dança passa a deixar de ser algo se uma cultura externa e passa a ser uma forma pessoal de expressão. Confesso que super me identifiquei.

 O próximo artigo trata especialmente de um novo estilo de dança que surge a partir de influências da dança do ventre, junto com outras danças étnicas, o ATS (American Tribal Style). Em "Local performance/Global Connection: American Tribal Style and its imagined community", a autora analisa como se dá a construção do que as praticantes de ATS entendem como uma comunidade global de bailarinas. Leitura obrigatória para praticantes de ATS.

Em "The use of nostalgia in tribal fusion dance", a autora ultrapassa a questão das influências orientalistas na cena atual da dança tribal fusion para entender o uso de movimentos culturais que ela categoriza como nostálgicos (como o valdeville), de forma a tornar a dança mais ocidental.
 
O artigo seguinte, "Belly Dance and  transculturation in New Zealand", o foco deixa de ser tanto a questão das influências orientalistas em comunidades fora do mundo árabe e passa a ser a forma específica como comunidades de dança do ventre na Nova Zelândia acabam por fazer uso da dança do ventre como forma de criar uma expressão própria para mulheres que não fazem parte da comunidade indígena local, além das misturas que são criadas incorporando itens da dança maori, o que leva a toda uma discussão interna de apropriação cultural. Dá para fazer alguns paralelos interessantes com algumas fusões que diversas bailarinas têm feito pelo Brasil.

Em "Quintessencially English Belly Dance: in search of an English tradition", a autora traz todo um levantamento histórico de duas bailarinas do cenário inglês da dança do ventre que ela julga que moldaram o que hoje existe de dança na Inglaterra. O que achei interessante foi encontrar aqui a famosa Wendy Buenaventura, conhecida especialmente pelo livro "Serpent of the Nile", que apesar de muito orientalista e sem grandes fontes, é considerado quase uma bíblia da dança do ventre.

O artigo seguinte é o único que foca especialmente em uma única bailarina e a sua forma de trabalho, o que está bastante explícito no seu título "Delilah: dancing the earth".

O penúltimo artigo do livro foca especialmente em questões femininas na Índia e como isso afeta a visão local sobre a dança do ventre. Em "Negotiating female sexuality: bollywood belly dance, "item girls" and dance classes", a parte mais interessante para mim foi toda a análise de tipos de mulheres retratadas no cinema indiano, e o como é feito o uso de fusões com a dança do ventre para intensificar esses retratos.

O último artigo para mim foi o único que eu classificaria como bizarro. Em "Digitalizing raqs sharqi: belly dance in second life", a autora faz todo um levantamento do uso da dança do ventre no "jogo" second life, com direito a um estudo sobre uma comunidade (?!?!?!?) de bailarinas dentro do jogo e uma comparação com comunidades no mundo real. Para mim soa tão bizarro que até essa descrição parece estranha. Eu não entendo o second life.

Preciso dizer que apesar de alguns temas um tanto quanto específicos ou distantes da minha realidade, o livro em si é muito bom. Todos os artigos são bem escritos e com direito a uma bibliografia que dá vontade de ler inteira. Já recomendei especificamente para uma amiga minha que estava a procura de livros sobre dança do ventre. Super recomendado.

Nota 10.

sábado, 26 de maio de 2018

Omnipresent: The Sacred Feminine Balance



SPOILER FREE

Esse é o tipo de livro que eu gosto de manter no meu celular. Diversos textos curtos e bens escritos, perfeito para ler antes de dormir. Mas, li ele inteiro fora desse objetivo por motivos que prefiro não mencionar aqui... o que foi uma pena no sentido que ele realmente é perfeito para isso.

 O livro consiste em pequenos textos escritos por mulheres acerca do que cada uma pensa sobre o sagrado feminino. Alguns eu gostei pessoalmente porque me identifiquei com diversos dos pensamentos expostos, outros me deram um certo nervoso, mas isso meio que já é normal para mim. Tenho uma visão muito particular e um tanto chata do que seria o sagrado feminino, visto a nossa necessidade como sociedade de um feminismo forte e militante, que esse feminismo não tem como não moldar a minha forma de pensar.

Dito isso, a maior parte dos textos é muito interessante, e eu leria outras obras de algumas autoras que estão nesse volume, como a Joss Burnel , Jacqueline L. Robinson, Britanny N. Selle, Beth Shekinah (que é de origem judia!) e a Melissa Rae Thompson.

Mas não sei dizer exatamente qual é o objetivo desse livro ou qual seria o seu público alvo principal. Os textos não são exatamente profundos e nem explanatórios sobre nada em particular. Eles são exatamente o que o subtítulo do livro indica: "contemplações sobre o divino na terra". Alguns textos tem um teor mais biográfico, outros um jeitão mais poético, outros são reminiscências. O que mantém a coesão do livro é fato de que todos os textos apresentam um ponto de vista mais pagão do que seria o sagrado feminino e todos as autoras são mulheres.

É uma leitura interessante, mas eu não diria imprescindível, sobre o assunto.

Nota 8,5.


domingo, 20 de maio de 2018

Nine Parts of Desire: The Hidden World of Islamic Women - Nove Partes do Desejo - O Mundo Secreto das Mulheres Islâmicas



SPOILER FREE

Virei fã da Geraldine Brooks quando li As Memórias do Livro, um livro indicado pela minha sogra. E como eu gostei muito, ela ainda me deu de presente essa preciosidade. Como esse seria um livro que eu precisaria fazer diversas anotações e apontamentos, e somando a minha campanha de trocar meus livros físicos por livros digitais (campanha ainda em andamento e de sucesso limitado por questões de amor por livros), acabei por conseguir uma versão em kindle com o texto original em inglês (vide a capa original acima).

Logo, percebe-se que esse foi um livro que já estava na minha lista de leituras há algum tempo, o que é muito normal, mas eu leio tentando diminuir a lista, que só aumenta (novamente a questão de amor por livros). De qualquer forma, finalmente ele entrou em pauta, e novamente não me arrependi de ler Geraldine Brooks.

Além de autora de romances, Geraldine foi durante muitos anos uma repórter que trabalhou exclusivamente com Oriente Médio, morando em diversos países árabes com seu marido, um judeu. Nove partes do desejo é um grande levantamento de tudo o que ela viveu e experienciou durante os anos de estadia em países como Irã, Marrocos, Iraque, Arábia Saudita e Egito.

Levando em consideração que ela é judia (por conversão por conta do casamento), eu confesso que fiquei positivamente surpresa com suas leituras e posicionamentos relativamente sem preconceito (não são 100% livres de preconceito não, preciso apontar). Por questões culturais locais, ela acabou por se relacionar muito mais com as mulheres nesses lugares, e a vida feminina no mundo árabe acabou por se tornar o seu tema principal de trabalho, o que a torna uma das poucas jornalistas que tratam especificamente desse assunto.

Dessa forma, o livro é maravilhosamente rico em informação sobre como as mulheres árabes vivem, sem fantasias orientalistas. Sendo necessário lembrar apenas que esse livro foi lançado no meio da década de 90, e alguma coisa certamente já mudou desde então, enquanto outros temas do livro parecem absolutamente contemporâneos, como a questão da permissão para mulheres sauditas dirigirem.

Fora a questão puramente jornalística, que é muito boa no livro, Geraldine inclui no seu texto diversas críticas relacionadas à questão das mulheres no mundo islâmico. Na maior parte das vezes suas críticas são feitas de forma muito construtiva e até justa. Mas infelizmente é aí que de vez em quando seu posicionamento pode se tornar um tanto quanto preconceituoso, e é necessário que o leitor exerça um certo grau de cuidado na leitura, para acabar não repetindo alguns exageros.

No geral, é um livro absolutamente maravilhoso e uma excelente fonte de informação e até mesmo de quebra de alguns paradigmas. Recomendo. E pretendo ler mais da autora.

Nota 9.

domingo, 8 de abril de 2018

Extraordinary Women from the Muslim World



SPOILER FREE

Esse é um dos livros que escolhi para o desafio literário de abril, que tem como tema "Uma História Oriental", e como ando num clima de ler mulheres falando sobre mulheres (a resenha do último livro da trilogia da Guinevere já vem, aguardem), nada melhor do que escolher um livro escrito por uma mulher, ilustrado por outra mulher e que fale sobre mulheres muçulmanas.

O livro em si é bem simples, consiste em capítulos pequenos onde cada um fala sobre uma mulher importante na história do mundo muçulmano (que é muito maior do que as pessoas costumam imaginar). As mulheres estão ordenadas de forma histórica, das mais antigas para as mais modernas, e todo capítulo possui uma ilustração belíssima da mulher em questão.

Uma das coisas interessantes é que todos os envolvidos nesse livro também são muçulmanos e de diversos lugares diferentes! E as mulheres retratadas são tão diversas quanto os autores! Coisa linda de ver! Tem mulher santa, poetisa, guerreira, educadora, advogada, intelectual... e de lugares absurdamente diferentes: Egito, Irã, Turquia, Iêmen, Índia, Nigéria e Arábia Saudita. Todas as mulheres retratas tem histórias incríveis e a leitura é rápida e uma delícia. O único porém é que são rápidas demais, eu gostaria de saber mais sobre cada uma delas, de tão incríveis que elas são. É o único defeito do livro.

As mulheres retratadas são: Khadija bint Khuwaylid, da Arábia, primeira esposa do profeta Maomé; Aisha bint Abi Bakr, da Arábia, esposa favorita do profeta e intelectual (a maior parte dos Hadith são de sua autoria); Al-Khansa, da Arábia, poetisa pré-islâmica que se converteu ao Islã e se tornou uma dos primeiros poetas muçulmanos; Rabia al-Adawiyya, do Iraque, santa sufi, um dos santos mais proeminentes do sufismo; Arwa bint Ahmed al-Sulayhiyya, rainha do Iêmen, mulher de história sensacional; Sultão Razia, da Índia, Rainha guerreira de Delhi, recebeu o título de Sultão ao invés de Sultana; Nana Asmau, da Nigéria, intelectual, poetisa e educadora do século XIX; Tjut Njak Dien, da Indonésia, intelectual e líder guerrilheira; Halide Edib Adivar , da Turquia, autora da única autobiografia feminina que se passa durante a primeira guerra mundial na Turquia, ativista dos direitos das mulheres; Umm Kulthum, do Egito, cantora célebre em todo o mundo árabe e uma das minhas ídolas da música árabe; Sabiha Gokcen, da Turquia, piloto militar, filha adotada do fundador da Turquia moderna, Ataturk, um dos aeroportos de Istambul leva o seu nome; Chaibia Tallal, do Marrocos, pintora do século XX; Shirin Ebadi, do Irã, advogada, juíza e ganhadora do Prêmio Nobel da Paz.

Como eu disse, só histórias incríveis.

Nota 9.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Before they were belly dancers


      In 1896, my paternal great-grandmother and her only child, my grandmother, set out from Peoria, Illinois, on their Grand Tour of Europe, an extended vacation that eventually included a Cook's Cruise of Egypt's Nile. At the dock at Asyût, under a bright February sun, my great-grandmother wrote on her diary:
     Boats were drawn up along the shore; camels with huge loads went by and altogether it was a strangeand lively scene. Today just before the steamer started it was still more so. Many freight dahabehs [boats] were unloaded onto the camels and men with pig- and goat-skin water bagswere filling them from the river. A great gaunt, pink-legged ostrich strode by. A dancing girl with her face tattoed danced on the sand to the music of a coconut fiddle.

SPOILER FREE

Esse é um livro que fiquei muito feliz quando descobri que existia, dada a escassez de material acadêmico sobre a história da dança do ventre produzido por amantes da dança. Em consequência, fiquei meses namorando ele antes de comprar, até que não resisti. Acho inclusive que não o comprei em promoção, o que é algo muito raro.

E não me arrependi, pois o trabalho da Kathllen é excelente. Através de uma extensa pesquisa em textos de viajantes que visitaram o Egito entre 1770 e 1870, se não me engano, ela faz um levantamento bastante completo do que foi escrito sobre o mundo da dança no país, organizando a informação em diversos temas, de forma a melhor organizar os dados disponíveis.

Como boa pesquisadora, a autora ainda leva em consideração a questão do preconceito dos viajantes, em sua maioria ingleses e franceses, em seus relatos para tentar extrair o máximo de dados não corrompidos por uma visão eurocêntrica ou desmerecedora da cultura egípcia, especialmente no quesito de perceber a dança como excessivamente sexualizada ou animalesca.

Dessa forma, ela consegue apontar diversos fatos interessantes nos escritos de viagens, tais como a história das roupas utilizadas pelas bailarinas, a questão dos tipos de bailarinas que existiam na época, inclusive bailarinos homens que se apresentavam em tudo quanto é tipo de espaço. Ela consegue apontar alguns estilos de dança que já não existem mais, alguns acessórios que eram comuns, e até um pouco da biografia de algumas bailarinas e um bailarino da época.

De quebra ela ainda trata de alguns mitos comuns na comunidade da dança do ventre, apontando o que deles pode ser considerado apenas rumor e o que é de fato invenção. Levando em consideração a fonte de pesquisa, ela toma bastante cuidado ao não afirmar como verdade absoluta o que é contado pelos viajantes, o que é um ponto positivo. A única questão que eu acho que ela não trata muito bem é a questão dos europeus entenderem os bailarinos homens como travestis, pois pessoalmente eu tenho minhas dúvidas do quanto dessas afirmações são válidas e o quanto é julgamento europeu em cima de homens que dançavam "de saia ou vestido", usando maquiagem e mexendo o quadril.

A excelente qualidade do trabalho a parte, é preciso dizer que o livro é extremamente acadêmico, o que torna a leitura um tanto pesada e maçante em alguns pontos. Não que todos os textos acadêmicos sejam assim, mas não é o foco da autora fazer um texto leve ou agradável.

Fiquei tão feliz com essa leitura que já comprei mais um livro desse tipo, dessa vez do Anthony Shay (que eu já e gosto do trabalho) para ler no próximo ano.

Nota 9,5.

Superman is an arab


     Once upon a time, there was a little girl who loved to read more than anything else in the whole world. She read everything seh could get her hands on: her father's newspapers, her mother's glossy magazines, and all the books that were stuffed in their house's big library. She even read the tiny information leaflets that come inside drug boxes, notifying users about dosage, administration and side effects. That's how she learnet, by age eight, that antacids and alcohol were not a good mix, and that 'Ranitidine may decrease the absorption of diazepam and reduce its plasma concentration': warnings which proved not to be useful later in her life.

SPOILER FREE

Joumana Haddad é uma autora libanesa conhecida no Brasil pelo livro "eu matei Sherazade". No Líbano ela é uma das vozes mais proeminentes do feminismo, e seu trabalho e seus textos são muito importantes para o movimento feminista no Oriente Médio.

Dito isso, é preciso dizer que Superman is an Arab não é um bom livro. Infelizmente ele sofre de um problema estrutural sério, que é o excesso de assuntos envolvidos em menos de 300 páginas. O segundo problema é mais complicado, que é a forma como os assuntos são abordados. A sensação que tive é que Joumana fez desse livro uma oportunidade de gritar aos quatro ventos toda a sua raiva e frustração. O que é válido, claro, mas enfraquece o livro em termos de argumentos. Até porque todo esse sentimento acabou por tornar o texto bem mais genérico do que a autora diz pretender.

Por ser um livro muito baseado em opiniões da própria autora, e por conta da sua visão que muitas vezes glorifica a situação feminina na Europa e nos Estados Unidos (que na verdade está longe de ser ideal, mas vamos relevar por conta do ponto de vista da libanesa), a sensação que eu tive ao ler o volume foi de estar lendo um texto feminista de uns 10 anos atrás.

Isso certamente não invalida a importância de Joumana no seu país, no Oriente Médio e no Mundo Árabe em geral, acho que o seu trabalho é muito pertinente e espero que gere muitos frutos. Mas, para leitores fora de lá o livro pode dar uma visão equivocada de algumas realidades.

Por exemplo, uma das coisas que ela reclama no livro (com absolutamente toda razão) é a questão do casamento infantil, o que dá a sensação de que o mundo árabe é o campeão nessa prática execrável. O que não é exatamente verdade, as estatísticas da Índia são muito piores do que dos países do Oriente Médio e, podem deixar o queixo cair, o Brasil não é tão melhor assim. Segundo a UNICEF nossa estatística é pior do que a do Afeganistão. É sério. Olhem aqui. E aqui.  Segundo as estatísticas comparadas mundiais, os piores países são os Africanos, não os do Oriente Médio. Não que uma coisa justifique a outra, é só uma questão do tamanho do problema não ser da forma como ela pinta.

Então, o que quero apontar especificamente é que o livro é muito voltado para o público árabe, sendo pouco aproveitado por pessoas de fora que não consigam contextualizar o seu conteúdo. O que pode ser um desserviço nesses tempos de islamofobia. Não que ela só ataque o Islã, não mesmo, ela ataca tudo quanto é religião, sendo muito igualitária nesse sentido.

Mas o livro tem coisas positivas. Todos os seus capítulos são divididos em três partes, uma poesia, uma espécie de caso pessoal e um texto mais completo. As poesias me agradaram muito, se não me engano só teve uma que eu não curti. Portanto, na média é um livro mediano.

Nota 7.

um útero é do tamanho de um punho


porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
a mulher braba e suja
braba e suja e ladrava

porque uma mulher braba
não é uma mulher boa
e uma mulher boa
é uma mulher limpa

há milhões, milhões de anos
pôs-se sobre duas patas
não ladra mais, é mansa
é mansa e boa e limpa
SPOILER FREE

Mais um livro de uma autora brasileira, meio que só pra dizer que eu li algo de literatura nacional esse ano. Mas, ao mesmo tempo preciso dizer que estava namorando esse livro desde a Bienal que aconteceu em setembro desse ano, e onde acabei não comprando o bendito porque o estande da editora estava cheio demais e eu já estava sem paciência.

Mas depois eu o vi novamente na Livraria Cultura e não resisti. Comecei a ler agora no final do ano, e como o livro é muito curtinho e as poesias dele funcionam quase que em bloco, ele foi devidamente lido rapidinho, mesmo no esquema de ler de manhã.

Angélica Freitas, autora do sul do país, caprichou na sua temática feminina, o livro é quase que um manifesto sobre o que se fala e pensa da mulher, com foco mais voltado para a parte complicada disso na sociedade brasileira e, por que não, mundial. Diversos textos não funcionam bem sozinhos, pois a obra foi feita meio em pedaços e em cada sessão as poesias são correlacionadas, funcionando muito melhor quando lidas seguidinhas.

De forma geral eu gostei muito do livro, mas como ele tem essa questão do conjunto da obra e não de cada poema em si, confesso que não marquei nenhum deles como excelente. Talvez isso também tenha acontecido por conta do incômodo que me pareceu proposital nos textos. Ou talvez eu tenha exagerado um pouco na temática feminista esse ano e o assunto esteja temporariamente carregado demais para mim. Afinal, tive um problema parecido com outro livro nesse final de ano, a resenha sairá daqui a pouco, aguardem.

Fora isso, é um livro importante dentro do cenário poético nacional e eu recomendo bastante.

Nota 7,5.

sexta-feira, 3 de março de 2017

The Illustrious Jade Egg



SPOILER FREE

Esse é um livro tão curtinho que é quase um folheto sobre o uso do Jade Egg, mas extremamente informativo e tranquilo de ler. Imagine um guia rápido com as informações mais importantes que você precisa manter em mãos, é isso.

Para os curiosos (todos, imagino), o Jade Egg é uma prática milenar oriental ligada ao Taoísmo, que consiste no uso de uma gema feita de Jade no formato de um ovo (muito óbvia essa parte) para exercícios e meditações femininas para a saúde do sistema reprodutor feminino. Vale ressaltar que a autora, Saida, foi muito cuidadosa na linguagem que ela utiliza, de forma que o texto é amigável aos LGBTs, o que me surpreendeu positivamente, pois já cansei de ler textos de linhagens espirituais que poderiam não ser preconceituosas, mas que são até o último fio de cabelo.

Eu curti tanto o livro/folheto que fui catar mais livros escritos pela autora e já estou lendo outro, bem mais abrangente no assunto, que consegui encontrar na Amazon.

Nota 10

Leitores interessados no assunto, favor tratar inbox comigo, pois tenho indicações de contatos para esse trabalho no Brasil.

domingo, 6 de novembro de 2016

Azul é a cor mais quente



SPOILER FREE

Novembro está sendo um mês feliz para a minha meta anual de leitura, porque o tema do desafio literário desse mês é livros que você lê de uma "sentada" só. Em outras palavras, estou aproveitando para ler vários Graphic Novels e de quebra estou aumentando minha meta de livros do ano!

A primeira Graphic Novel que resolvi pegar para ler foi "Azul é a cor mais quente", uma leitura linda, dramática e pesada sobre ser homossexual e não aceitar por conta de preconceitos entre família e amigos. É também um livro que foi transformado em filme por um diretor francês que deu o maior bafafá entre cenas quentes para os espectadores e denúncias de abuso por parte das atrizes.

Mas o livro é lindo, tanto na história, que é de partir o coração, quanto nas escolhas estéticas, visto que a única cor que sobressai em todos os quadros é o azul que conquista o amor da protagonista. Uma coisa linda de ver e de ler.

é ou não é uma lindeza?

Super recomendado para todos.

Nota 10!

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Kindred



SPOILER FREE

Então, o segundo livro que escolhi para ler em setembro, mas que só terminei de ler em outubro, foi selecionado por conta da autora negra (tema de um dos desafios literários desse mês), Octavia E. Butler, que é não só uma autora fabulosa (que descobri lendo Bloodchild), mas por conta da sua importância como uma das primeiras mulheres a escrever ficção científica. E a primeira mulher negra!

"Kindred" é considerada uma das suas obras mais importantes, e, gente, que leitura! Na verdade o livro é tão forte que é mais uma surra do que uma leitura. Num misto interessante de auto-biografia e de ficção científica, o livro narra a história de Dana, uma mulher negra que vive nos EUA nos anos 70, mas que inexplicavelmente começa a viajar no tempo para a Louisiana escravagista por conta de um dos seus antepassados.

O livro então é narrado pela própria protagonista, que tenta se moldar à época em que se encontra mas sem perder os seus valores, o que não é uma tarefa nem um pouco fácil. Levando em consideração que nos anos 70 ela é casada com um homem branco, e que há uma onda forte do movimento negro nos EUA, viver na época da escravatura norte-americana pode ser não só extremamente complicado, mas ela também corre o risco de mudar totalmente as suas crenças e sua forma de ver o mundo e as pessoas.

"Kindred"  é um livro extremamente centrado na questão dos negros, especialmente das mulheres, da forma inumana que a escravatura funcionava e como o ser humano é capaz das coisas mais abjetas. Uma das características únicas desse livro é o choque de realidade, porque quando se lê um romance histórico dessa época ou um relato de um ex-escravo é como se nos distanciássemos de alguma forma daquela narrativa, mas "Kindred" trabalha o contato com o passado de uma forma diferente, a distância simplesmente some e tudo o que o leitor vê é a ferida aberta. É um livro chocante nesse sentido.

Levando isso tudo em consideração, a leitura é obrigatória para quem quer entender um pouco mais as raízes do racismo (que aqui no Brasil é igualzinho...), porém aviso que o livro pode te deixar deprimido. Foi o que aconteceu comigo, achei o livro fantástico, mas confesso que foi um exercício de força de vontade, porque é uma pancada emocional. Muito necessária, mas não menos pancada.

Leitura recomendada para todos que querem se tornar seres humanos melhores.

Nota 10.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

The Dating Detox



SPOILER FREE

Depois de alguns livros meio deprês para essa época do ano, resolvi chutar o balde e investir em algo bem leve, tranquilo e divertido. "The dating detox" foi a escolha perfeita.

Ainda sem tradução para o português, "the dating detox" (algo como "desintoxicação de encontros", mas que soaria melhor como "dieta de namoro") é uma leitura tranquila, leve e extremamente divertida. Seguindo a linha de humor inglês que você encontra em Bridget Jones (só que muito muito muito muito muito melhor), Sass é uma inglesa de vinte e muitos anos com uma coleção de namoros fracassados, mais especificamente de namorados que terminaram com ela. Chegando a conclusão que sair com homens e namorar é algo que definitivamente ela não faz bem, Sass resolve fazer uma desintoxicação, com direito a uma lista de regras a tudo mais a seguir nas noitadas para evitar novos fracassos. Afinal, relacionamentos que não começam não terminam, não é mesmo?

A autora fez uma escolha interessante nesse livro: o fluxo de consciência, o que não só torna a leitura mais dinâmica (a sensação é que a personagem está conversando com o leitor), como deixa a personagem principal irresistível. É impossível não gostar dela. Em alguns poucos momentos você pode até ficar com raiva da sua estupidez, mas ela é tão engraçada, tão irreverente e tão fã dos anos 80, que você desculpa qualquer besteira que ela venha a fazer.

Em outras palavras, "the dating detox" é um chick-lit com um humor inglês e uma qualidade bem acima da média desse estilo de literatura. Com uma grande vantagem: não tem os costumeiros defeitos machistas desse tipo de livro. A personagem principal não encontra um príncipe encantado, e não está (mais) à procura de um, sua jornada pela "desintoxicação" é uma jornada de auto conhecimento e aceitação, que finalmente termina quando ela se permite ser ela mesma. O mundo seria um lugar muito melhor se mais chick-lits fossem assim.

Nota 9,5!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

We should all be feminists



SPOILER FREE

Gente, final de ano é uma confusão mesmo, estou super atrasada nas resenhas... mas vamos tentar colocar em dia!

Chimananda Ngozi Adichie é uma autora africana (nigeriana para ser mais exata) de sucesso internacional, e em 2012 ela sua terceira palestra no famoso evento TED, dessa vez sobre feminismo, que depois virou esse livro super pequenininho, que obviamente eu comprei na promoção (sempre!). Eu já tinha ouvido falar super bem da palestra e do mini-livro, então achei que valia os 0,99 de dólar que paguei. E sim, realmente valeu cada centavo.

"Todos nós deveríamos ser feministas" é realmente bem curtinho e o formato é de palestra, com pequenos causos da vida da autora ilustrando a sua opinião sobre a necessidade do feminismo no mundo atual. Uma leitura rápida, leve (dentro do possível pelo tema) e agradável. Por conta do formato, não é um livro que se aprofunda em nenhuma questão específica do feminismo e nem da luta das mulheres negras ou africanas (o que achei uma pena, tomara que vire outra palestra no futuro), mas funciona de forma interessante para sensibilizar aqueles que não conhecem o feminismo "de verdade", e como a luta pelos direitos das mulheres ainda é muito atual e necessária.

Para quem já lê sobre o feminismo pode achar o conteúdo meio "mais do mesmo", mas é sempre interessante conhecer novos materiais de boa qualidade para indicar para os "iniciantes", então recomendo para todos.

Nota 9.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Unveiling - the inner journey


SPOILER FREE

Enquanto esperava chegar outros livros de autores portugueses contemporâneos resolvi retomar essa leitura específica para bailarinas de dança do ventre e para mulheres interessadas em um caminho espiritual específico para mulheres.

Esse é um tema que hoje em dia me divide internamente, pois ao mesmo tempo em que vejo a necessidade específica para mulheres desse tipo de trabalho, atualmente tenho uma visão mais aberta do que seria feminino/masculino e do que isso significa para homens e mulheres, e essa forma mais abrangente de ver o problema me deixa desconfortável com algo feito exclusivamente para um sexo, ainda mais quando se trata apenas do sexo com o qual a pessoa nasce (isso quando ela nasce com um sexo bem definido, mas enfim).

O que hoje em dia eu acho que falta não é nem mais algo específico para mulheres, o que eu acho que falta é valorizar tudo o que é feminino, estando presente em quem quer ou o que quer que seja. Claro que esse processo pode e deve incluir algo voltado especificamente para o público feminino, mas voltado especificamente não significa, no meu ponto de vista, excludente ao público masculino. Até porque não são só as mulheres que precisam voltar a valorizar o que há de feminino nelas, os homens também precisam voltar a enxergar que eles também possuem traços femininos em si e voltar a ver isso com bons olhos, e não como falhas de caráter.

Feita essa introdução sobre o meu ponto de vista, vamos ao livro! A autora Alay'nya é uma bailarina de dança do ventre e cientista e PHD (no início do livro ela menciona o seu caminho acadêmico nesse sentido mas eu sinceramente não lembro mais dos detalhes), que durante anos praticou artes marciais antes de entrar em contato com a dança. A sua ideia com o livro é mostrar como a dança do ventre pode ser utilizado como um caminho espiritual para mulheres numa comparação quase que direta com outras formas mais conhecidas (e consideradas masculinas) como as artes marciais e a yôga.

Nesse quesito, de mostrar como a dança do ventre pode ser usada energeticamente, como ela trabalha o corpo físico e como isso pode ser transposto para o campo energético, além de como ela pode ser usada para o auto-conhecimento, a autora acertou lindamente. As passagens sobre os exercícios que a dança pode propor, tanto físicos quanto emocionais e espirituais são ótimas. A comparação que a autora faz dos caminhos que a dança pode proporcionar para trabalhar a jornada arquetípica contida nos arcanos maiores do tarô chegou a me deixar emocionada (e com vontade de estudar mais o assunto).

Porém, nos momentos em que a autora se propõe a falar sobre a psique feminina versus a psique masculina... achei um osso duro de roer. Não que fosse muito complexo, pelo contrário, nunca vi tantos clichês em toda a minha vida. Acho que ela colecionou todos os clichês de filmes estilo comédia romântica possíveis e resolveu colocar no livro como verdade universal amparado por pesquisas pseudo-científicas. Tem momentos que realmente dói ler as bobagens da autora.

O pior, na minha opinião, é que são os clichês mais machistas possíveis, daqueles que reduzem o homem a um ser simples que só quer saber de sexo, dinheiro e poder, e a mulher num ser "complexo" que ninguém entende porque ela quer ser dona de si mesma (afinal já passamos pela primeira revolução feminista, senão certamente esse pedaço não estaria no livro), dominar os homens, ser mãe e manter uma espécie de juventude eterna. A típica visão machista do mundo. Isso vindo de uma mulher que se acha feminista em alguns momentos e acha que "superou" o feminismo em outros. Enfim, a autora é uma mulher confusa, que, por consequência, acha que todas as mulheres são confusas.

Um dos problemas da visão apresentada pela autora, é que ela se baseia nos arquétipos da forma como são usados pela psicologia junguiana, e que ela infelizmente não entendeu bem. Veja só, só porque existem arquétipos femininos e masculinos isso não significa que homens só possuam arquétipos masculinos e mulheres só possuam arquétipos femininos. O que acontece é que na nossa sociedade nós ensinamos aos homens desde que eles nascem a reprimir os seus arquétipos femininos (aquela história de sempre: homem não chora, não brinca de casinha nem pode demonstrar sentimentos, né?) e enquanto isso ensinamos às mulheres que elas só podem demonstrar alguns arquétipos femininos (afinal, nem todo arquétipo feminino é considerado bom, ainda mais se for sobre liberdade sexual), a mulher ainda pode demonstrar alguns traços masculinos (claro, senão ela não sobrevive no mercado de trabalho masculinizado, né?) mas ai dela se se tornar masculina demais nesse processo. Em outras palavras, vivemos em uma sociedade em que tanto homens quanto mulheres se sentem incompletos e tolhidos de alguma forma (apesar deles demonstrarem isso de formas diferentes e, claro, as mulheres sofrerem mais por serem consideradas sempre inferiores).

E aí a autora perdeu uma oportunidade de ouro. Ao invés de falar do processo de "unveiling" como uma integração do ser como um todo, tanto dos arquétipos masculinos quanto femininos, podendo ser usado por qualquer pessoa, ela resolveu se ater ao caso da integração apenas dos arquétipos femininos nas mulheres. Sendo que o arquétipo da amazona é uma pseudo exceção que ela trata como sendo um traço masculino que as mulheres podem ter, e até devem cultivar nos dias de hoje, mas que deve ser domado para não tornar a mulher masculina demais. Veja bem, eu sou super a favor do equilíbrio das coisas, dos arquétipos e tudo o mais, o problema, no meu ponto de vista, é que o equilíbrio é diferente para cada um, então não existe isso de mulher masculina/feminina demais nem de homem masculino/feminino demais.

Enfim, sei que nem todos vêem as coisas assim (vide os posicionamentos da autora), mas espero que a humanidade esteja evoluindo nesse sentido. O que me entristeceu foi esperar algo mais interessante e progressista de uma bailarina de dança do ventre com tanta experiência em outros caminhos espirituais, ao invés da confirmação de um monte de preconceitos e clichês.

Nota 6.