Pesquisar este blog

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Poemas

As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.


SPOILER FREE

Depois de devorar o meu primeiro livro de Wislawa Szymborska eu juro que tentei me controlar para o segundo durar mais, mas não deu. A poetisa polonesa é tão maravilhosa que não dá para ler um poema só, e quando vi o livro já tinha acabado.

Entre as duas seleções de poemas confesso que gostei mais da primeira, mas o fato dela ser maior pode ter uma alta correlação com isso. Afinal, quanto mais poemas, maior a quantidade de marcadores de poemas de que gostei.

Wislawa é uma poetisa extremamente moderna, no sentido de que foge dos temas tradicionais da poesia e incorpora elementos da vida contemporânea de forma muito original e até mesmo inusitada. Como uma polonesa que viveu durante a segunda guerra mundial, as problemáticas da violência e especificamente das ocorridas nessa época, o que inclui a questão do racismo/xenofobia, surgem com frequência em sua poesia, o que gera algumas obras um tanto quanto pesadas ou sombrias. Mas extremamente necessárias, e por que não dizer, importantes nos dias de Trump.

Como acabaram as suas obras traduzidas para o português, agora estou apelando para as lançadas em inglês. Virei fã.

Nota 10.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Ariel

Kindness

Kindness glides about my house.
Dame Kindness, she is so nice!
The blue and red jewels of her ring smoke
In the windows, the mirrors
Are filling with smiles.

What is so real as the cry of a child?
A rabbit's cry may be wilder
But it has no soul.
Sugar can cure everything, so Kindness says.
Sugar is a necessary fluid,

Its crystals a little poultice.
A kindness, kindness
Sweetly picking up pieces!
My Japanese silks, desperate butterflies,
May be pinned any minute, anaesthetized.

And here you come, with a cup of tea
Wreathed in steam.
The blood jet is poetry,
There is no stopping it.
You hand me two children, two roses.


SPOILER FREE


Nesse último final de semana terminei vários livros de poesia que fui lendo no esquema de uma poesia por dia (mais nos finais de semana, claro). Depois de Ondjaki terminei meu primeiro (e provavelmente último) livro da poeta americana Sylvia Plath.

"Ariel" foi publicado postumamente ao suicídio da autora e é um dos marcos da sua obra relativamente pequena, além de ser um marco da poesia moderna norte-americana. Como é de se suspeitar, Sylvia sofria de depressão crônica e há documentação de pelo menos mais uma tentativa de suicídio dela quando mais nova, e isso se reflete fortemente na sua obra.

O seu estilo, que é extremamente pessoal e autobiográfico (ou assim é classificado), é marcado pela depressão e pelas visitas constantes a médicos e clínicas psiquiátricas, o que torna o texto extremamente pesado e com uma quantidade de termos médicos um tanto quanto incomum na poesia. Sua obra foi muito utilizada para tratar também de abusos à mulher, e muitos fizeram uso do que ela escreveu para acusar o seu marido de violência doméstica. A questão da veracidade disso não me incomoda, visto que ninguém conseguiu provar nada e que não necessariamente o que está na arte fazia parte de forma literal na vida do artista. Acho a questão dos problemas psiquiátricos muito mais relevante nesse caso.

Independentemente disso, a poesia de Sylvia é daquelas que saem rasgando tudo, com um peso que eu não esperava e que, na verdade, não me agradou. Entendo quem curta, a qualidade do texto mesclado com o inédito do tema e, de certa forma, do formato, realmente a marcam como uma autora singular e importante. Mas definitivamente não é pra mim.

Nota 5.

Há Prendisajens com o Xão


CHÃO
         
palavras para manoel de barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão. muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.


SPOILER FREE

Ondjaki já apareceu algumas vezes aqui no blog, mas com prosa, esse foi meu primeiro livro de poesias dele.  E novamente ele me surpreendeu positivamente.

O autor angolano tem um poder incrível de ressignificar palavras e recria-las de forma que às vezes parece que estamos lendo uma outra língua, própria dele, mas que é não só compreensível como absolutamente linda e poética (não consegui evitar esse adjetivo).

"Há Prendisajens com o Xão" é, infelizmente, curtinho, o que dá uma certa tristeza quando chegamos no final, e ainda não temos à disposição uma seleção tão completa de suas obras aqui no Brasil. Mas ainda tenho uns romances dele na minha estante me aguardando (estou de olho grande neles, mas a lista de leituras é extensa), e agora tenho motivos para buscar seu nome nas prateleiras de poesia também. Angola está muito bem representada com ele, e a nossa língua também.

Nota 10.

The Natural Year

If we, too, regulated our lives by our natural clock we would find a much easier ride. Our bodies would be healthier, our emotions more balanced, our hopes and aspirations might stand a better chance of becoming reality. Living by the seasons, learning through the seasons, we could get back into balance with the natural scheme of life. Losing weight can become easy when you pick the right time to do it, with the right preparation. Relationships become less fraught when you understand that our emotions equally have cycles - that there are times to be close and loving but equally times to get away from each other and venture into the wider world. Choose the right time to change your job and your whole careerpath could transform overnight. And your soul will rejoice if you give it back its rightful sojourn of solitude and contemplation.


SPOILER FREE

Esse foi um livro que eu comecei a ler no ano passado, mas por motivo de férias e de tamanho do bichinho, só terminei de ler na semana passada. A ideia é bem objetiva, a autora apresenta um trabalho na linha do jornalismo sobre o que grandes linhas da filosofias orientais (especialmente a ayurveda e a medicina chinesa) sobre as formas mais adequadas de ajustar o nosso dia a dia com as estações do ano.

Com uma pitada sobre os festivais celtas presentes no paganismo moderno que marcam as estações do ano, Jane Alexander apresenta as principais características de cada uma e como elas influenciam nossos corpos e mentes, e como tirar proveito de cada estação para maximizar suas possibilidades, além, é claro, de formas de prevenir os males mais comuns de cada época. Isso inclui descrições com graus variados de detalhes de inúmeras terapias, sugestões de dietas, exercícios físicos e explicações básicas sobre os tipos físicos que são usados na medicina indiana e na chinesa.

Tudo isso é muito interessante e o livro é realmente muito informativo. Mas ao mesmo tempo torna a leitura um tanto quanto lenta, e às vezes um pouco repetitiva, pois depois da 20ª terapia você não lembra mais da primeira e elas se misturam na sua cabeça. Talvez se a seleção fosse menos extensa a leitura ficasse mais dinâmica.

Para um livro que se propõe informativo e de uso consultivo, senti falta de algumas tabelas de correspondência, resumos ou que, de forma geral, fosse mais fácil encontrar as informações ao longo do texto. Mas o pior nesse sentido é a falta de uma bibliografia ou sugestão de livros no final (ou no início), até porque ao longo do texto a autora cita diversas obras, e eu estava crente que encontraria uma listinha em algum lugar com todas elas e não precisaria ficar anotando ao longo da leitura. Ledo engano.

No final das contas a ideia é muito boa, as informações são interessantes e bem completas, mas a organização e realização do trabalho deixam a desejar.

Nota 7.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

More Weird Things Customers Say in Bookshops


CHILD: Mummy, who was Hitler?
MOTHER: Hitler?
CHILD: Yeah. Who was he?
MOTHER: Erm, he was a very bad man from a long time ago.
CHILD: Oh. How bad?
MOTHER: He was like ... he was like Voldemort.
CHILD: Oh! That's really, really bad.
MOTHER: Yes.
CHILD:
(pause) So, did Harry Potter kill Hitler, too?

SPOILER FREE

E novamente estou atrasada nas resenhas. Tudo bem, voltar ao trabalho dá nessas coisas.

Como é bem óbvio, esse é o volume que segue "Weird things customers say in bookshops", com nada mais do que mais do mesmo. É divertido? Certamente. Tem coisas novas? Não exatamente.

Esse volume sofre de repetições de coisas já feitas no volume anterior. Claro que cada caso é um caso e não tem nenhuma história repetida, mas ele me pareceu se apoiar demais nas histórias de "ignorância do consumidor, que cisma num nome errado (título, autor, tem de tudo, e alguns são realmente engraçados pois lembram a personagem da Velha Surda) ou faz afirmações incorretas sobre autores famosos, o que pode ser engraçado se você entende do assunto, mas pessoalmente acho esse tipo de humor fraco (exceto o da Velha Surda, pois adoro), porque não acho ignorância algo engraçado e sim triste". Sim, isso é um pedaço da resenha do volume anterior (achei apropriado).

Em compensação, ele também me pareceu ter mais causos com crianças, o que é sempre uma delícia de ler. Levando em consideração que a leitura é leve e o livro é curtinho, se você curtiu o primeiro volume, certamente vai gostar também do segundo.

Mesmo com os problemas, fiquei com vontade de ler outros livros da autora, que já lançou outros volumes sobre livrarias, bibliotecas e livros em geral.

Nota 7,5.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Fountain and tomb


I enjoy playing in the small square between the archway and the takiya [monastery] where the Sufis live. Like all the other children, I admire the mulberry trees in the takiya garden, the only bit of green in the whole neighborhood. Our tender hearts yearn for their dark berries. But it stands like a fortress, this takiya, circled by its garden wall. Its stern gate is broken and always, like the windows, shut. Aloof isolation drenches the whole compound. Our hands stretch toward this wall - reaching for the moon.

SPOILER FREE

Mais um livro de um dos meus autores favoritos, o egípcio ganhador do Nobel Naguib Mahfouz. Infelizmente, pra variar, é mais um volume que não foi traduzido para o português, o que pra mim simplesmente não faz sentido, pois o trabalho do autor é simplesmente maravilhoso e muito vasto para termos apenas uma meia dúzia de traduções.

Dessa vez, o livro traz diversos contos bem curtinhos que retratam a infância do autor num bairro na periferia do Cairo. O quão autobiográfico as histórias realmente são (ou quantas) é um mistério, mas a qualidade da escrita não deixa dúvida sobre a grandiosidade de Mahfouz. Esse volume que consegui, em específico, ainda tem diversas ilustrações belíssimas, que para mim, como aficionada pelo mundo árabe, é de um deleite incrível.

Outro ponto que gostei foram as descrições sobre as brigas de rua, que descrevem o uso dos bastões pelos egípcios como forma de arte marcial que hoje, aqui no ocidente, só vemos de forma bem distorcida através da dança do bastão retratada na dança do ventre. Quanto a isso eu tenho uma lembrança particularmente especial, certa vez vi num show um cantor egípcio e um bailarino profissional (egípcio também) que mora na Alemanha fazerem essa luta, mas numa versão mais suave, dançada (pense em capoeira), e precisei me conter para não rir, pois o pobre bailarino quase apanhou de verdade, mal podia se defender dos movimentos do egípcio, que apesar de parecerem suaves certamente tinham uma potência de quem fazia isso nas ruas, de "brincadeira", como descrito nesse livro do Mahfouz. Literatura é fonte de conhecimento!

Eu não tenho palavras suficientes para descrever o quão maravilhoso é o trabalho de Naguib quando ele acerta na mão. É realmente sensacional e de tirar o fôlego.

Nota 10.

Weird Things Customers Say in Bookshops

CUSTOMER: I read a book in the sixties. I don't remember the author, or the title. But it was green, and it made me laugh. Do you know which one I mean?

SPOILER FREE

Como o meu kindle continua cheio, e, na verdade, ele é um pouco pesado para ler deitada na cama (deitada mesmo, não recostada), então estou fazendo mais uso do meu aplicativo kindle para celular, e como antes de dormir gosto de ler coisas bem leves e sem compromisso, e ainda por cima recebi o livro de uma amiga (isto é, saiu de graça), resolvi ler "Weird things customers say in bookshops" ("Coisas esquisitas que as pessoas dizem em livrarias").

Eu já conhecia a autora, pois segui o seu blog (que deu origem a esse livro e a uma continuação que já estou terminando) durante muito tempo, e já adorava os causos que ela contava (para deixar registrado: parei de seguir por outros motivos que não a qualidade do blog). E o livro tem realmente histórias muito cômicas. O ser humano pode ser muito engraçado. Pessoas sem noção existem em maior percentual na população do que nós imaginamos. Quem lida com público sabe do que estou falando, e talvez até reconheça situações parecidas.

O livro é uma coleção de conversas esquisitas de pessoas em livrarias, podendo envolver ou não um vendedor ou um telefone. Tem coisas do arco da velha, outras que você duvida que podem ser reais (esse é o princípio do livro, tudo é relato de acontecimentos reais), e outras que simplesmente não fazem sentido, porque as pessoas podem ser muito confusas também. E as crianças gente, são as melhores histórias!

Agora, parte das piadas muitas vezes se baseia na ignorância do consumidor, que cisma num nome errado (título, autor, tem de tudo, e alguns são realmente engraçados pois lembram a personagem da Velha Surda) ou faz afirmações incorretas sobre autores famosos, o que pode ser engraçado se você entende do assunto, mas pessoalmente acho esse tipo de humor fraco (exceto o da Velha Surda, pois adoro), porque não acho ignorância algo engraçado e sim triste. Tanto que me identifico com a descrição do Neil Gaiman na capa acima: "Tão engraçado. Tão triste... Leia e suspire." É exatamente assim, mesmo.

Indicado para fãs de livros e livrarias em geral.

Nota 8.