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domingo, 22 de janeiro de 2017

Poemas


Caminho   
Caminho e atrás de mim caminham as estrelas  
até seu próximo amanhã  
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço  
amortecem meus passos, avivam meu sangue.  

Não iniciei a trilha, ainda  
não vejo nenhum jazigo  
caminho até mim mesmo, até  
meu próximo amanhã  

caminho e atrás de mim caminham as estrelas.

SPOILER FREE

Mais um livro de poesia! Dessa vez do poeta sírio Adonis (ou Adunis - أدونيس ), que é o pseudônimo de Ali Ahmed Said Esber (علي أحمد سعيد إسبر), considerado o poeta árabe mais influente e importante da segunda metade do século XX. Detalhe: nascido nos anos 30, ele ainda está vivo (e produtivo) e depois de morar por anos no Líbano (inclusive durante a guerra civil que tanto marcou o país) se refugiou em Paris.

Sua obra é bastante vasta e variada, mas infelizmente só existe esse volume traduzido para o português (que eu saiba, se alguém tiver indicações estou aceitando), que é uma coletânea de diversas fases da produção do autor. Como eu não conhecia nada dele antes desse livro, só o conhecia de nome, não sei julgar se a seleção é realmente boa ou representativa.

Mas Adonis não é exatamente uma leitura fácil. Sua poesia pode parecer muito despropositada e árida em alguns poemas e extremamente lírica ou representativa, e até mesmo política, em outros, o que o torna um poeta muito versátil, mas ao mesmo tempo não é tudo dele que me agrada. Confesso que gostei particularmente das suas poesias longas e mais políticas, como "Tumba para Nova Iorque", que tem umas 20 páginas e é dividida em diversas seções. Mas outras, como a sua série de poemas nominados Árvore (são vários com esse título) simplesmente me deram sono.

Talvez seja uma questão de tradução do árabe, visto que ele revolucionou a estrutura da poesia árabe e o uso da língua nessa arte, quem sabe um dia eu conseguirei lê-lo no original e talvez o aprecie mais do que foi possível nesse volume. Já estou com alguns de seus poemas em versão bilíngue em coletâneas que andei comprando na Amazon, mas a tradução está no inglês e em um dos volumes o árabe está como se fosse escrito à mão, o que dificulta a leitura no original. Vamos ver. Como tenho lido muita poesia, fiquem de olho, que mais cedo ou mais tarde voltaremos a esse autor tão importante para a literatura árabe.

Nota 8.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Kabir Cem Poemas



Por que me procuras tão longe, amigo,
Se estou sempre contigo?  

Não no templo ou na mesquita,
Não no Kailasa ou na Kaaba.   

Não no ritual ou na cerimônia,
Não no ioga ou na renúncia.  

Busca-me e me encontrarás.
Tua procura só durará um instante.  

Kabir diz: Escuta, meu irmão! 
Ele é a respiração da respiração.

SPOILER FREE

Mais um livro de poesia (estão todos acabando! Mas tenho outros para começar!), dessa vez um poeta de nome sugestivamente árabe, mas na verdade indiano, que mistura o misticismo hindu com o sufi. Coisas que a Índia nos traz...

Esse livro em particular, publicado por uma editora voltada para assuntos mais esotéricos, traz uma versão para o português do livro traduzido pelo escritor indiano Rabindranath Tagore, de uma seleção de cem poemas do poeta-místico Kabir, para o inglês em 1915 (este é domínio público e se encontra na internet). A versão, criada com direito a inúmeras notas de rodapé riquíssimas, é do José Tadeu Arantes, que me pareceu fazer um bom trabalho, visto que meu livro terminou lotado de marcações de poesias maravilhosas.

Antes de esbarrar com esse livro durante as compras para o Natal eu confesso que desconhecia o poeta, que me lembrou muito, mas muito mesmo, o maravilhoso Rumi. Logo, não havia como não gostar de sua poesia, que é realmente tocante para quem curte o poeta sufi persa. Com o extra de trazer diversas referências a linhas hinduístas, das quais tenho um pouco mais de conhecimento após a leitura desse livro. As notas de rodapé ajudaram muito nesse sentido, fora o prefácio e o pósfácio, que também são muito enriquecedores.

Pena que são apenas cem poemas, e não existem outras obras de Kabir em português (que eu tenha encontrado). Espero que estudiosos como Arantes remediem esse problema.

Nota 10.

Um amor feliz





Nada duas vezes

Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.

Mesmo sendo os piores alunos
na escola desse mundão,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.

Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tais quais.

Ontem quando alguém me falou
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.

Hoje que estamos juntos
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?

Por que você tem, má hora,
que trazer consigo a incerteza?
Você vem - mas vai passar.
Você passa - eis a beleza.

Sorridentes, abraçados
Tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d'água.

 
SPOILER FREE

Mais um livro de poesia! Nada como ler um pouquinho todos os dias... hábito que estou chegando à conclusão de ser absolutamente maravilhoso! Ainda mais quanto se tem disponível uma poetisa ganhadora do Nobel do calibre da polonesa Wislawa Szymborska.

Esse volume em específico foi lançado em 2016 e conta com uma seleção vasta de poemas da obra da autora numa edição bilíngue. Com direito também a um pequeno prefácio escrito pela tradutora do polonês que fala um pouco sobre o estilo e a obra de Wislawa. O livro conta também com o discurso da autora para o Nobel de 1996, que também vale a leitura.

Confesso que fiquei apaixonada pela autora, tanto que já comprei outro livro dela para continuar a ler seus poemas, e se eu não encontrar outro volume, certamente irei voltar a ler novamente este, porque ela é simplesmente incrível. Seu poder de observação e de tratar de temas aparentemente banais é algo de tirar o fôlego. Cheguei a tirar fotos de poemas de temas que lembraram alguns amigos para mandar pelo celular. Quem mais escreveria poemas sobre o número Pi ou sobre o microscópio? Pior, escreveria sobre ambos?

Meu exemplar já está cheio de marcações de seleção de poemas que achei especialmente tocantes, uma prova do quanto gostei da autora. Um deles é o que está acima neste post.

Nota 10! Mas bem que poderia ser 11, 12...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Bicycles: love poems



MY MUSE
I am my own
Muse

I delight me
With my words
Of both wisdom
And wit

I teach myself
So much
Such insight
Into the human
Soul
Such compassion
For the weak and weary
Such utter contempt
For the self-satisfied

I think
What a wonderful world
It would be
If only people
Would listen
To me

I look at the full moon
And bay
Come
Come
Come to me
Let's explore
A new world

SPOILER FREE

Durante essas férias acabei usando o Kindle do celular para manter o hábito de ler poesias diariamente, e acabei lendo todo o livro da americana Nikki Giovanni.

A autora negra (foto na capa do livro) é uma das grandes influências atuais da poesia norte-americana, vencedora de diversos prêmios e professora universitária. O livro "Bicycles" é uma coletânea apenas de poemas de tema amoroso, o que achei que torna o volume um tanto quanto repetitivo e açucarado demais para o meu gosto atual (já tive uma fase em que eu curtia exatamente esse tipo de livro). Infelizmente ela ainda não foi traduzida para o português.

O seu estilo de poesia é simples, o que torna a leitura muito leve e tranquila, onde a graça está no jogo de palavras escolhidas pela autora. Ela também trabalha com temas bem autobiográficos e do dia a dia. E alguns dos poemas dessa seleção foram criados para situações bem específicas, como para uma universidade que passou por um momento difícil ou time universitário, e se eu soubesse mais sobre a razão de ser deles acho que teria apreciado mais o trabalho, mas como estava viajando e a internet não era a melhor coisa do mundo, acabei não fazendo a pesquisa.

Não me identifiquei muito com o estilo, mas a qualidade do trabalho transparece no livro.

Nota 8.

Le sabotage amoureux


Au grand galop de mon cheval, je paradais parmi les ventilateurs.
J'avais sept ans. Rien n'étais plus agréable que d'avoir trop d'air dans le cerveau. Plus la vitesse sifflait, plus d'oxygène entrait et vidait les meubles.

SPOILER FREE

Mais um livro de um autor favorito! A belga Amélie Nothomb simplesmente me fascina, especialmente quando o livro é uma das suas autobiografias infantis. Suas histórias de infância, sendo filha de um embaixador, são sensacionais, sempre com coisas peculiares para contar sobre onde ela estava morando na época.

Dessa vez, a história se passa na China, entre os cinco e oito anos da autora, quando ela morava num gueto de embaixadores (isso mesmo) nos anos 70. O título se refere a uma das partes do enredo, porque a história inclui mais de um aspecto da sua vivência infantil, por isso o pequeno trecho acima não parece ter nada a ver com o título, mas ela chega lá, eu só não quero dar spoiler!

O livro é muito curtinho, com umas 120 páginas na versão de bolso, e infelizmente não foi traduzido para o português (pouca coisa da autora foi, uma tristeza), e vale muito a pena a leitura! O senso de humor de Amélie é algo ímpar, e está transbordando nesse volume! Um prato cheio para os fãs!

Nota 10!

Uma questão de loucura



1.MEU TIO MAIS NOVO QUER SE MATAR
 Senti que alguma coisa estava errada assim que entrei no jardim. A espreguiçadeira estava no lugar de costume, mas vovô não. Por terra estavam o livro arroxeado, a bolsa de tabaco e o cachimbo que havia tempo esfriara.

SPOILER FREE

Para quem ainda não sabe, sou fã do escritor albanês Ismail Kadaré, e aproveitando as minhas férias peguei para ler mais um livro muito curtinho dele. Apesar de não ter lido muitos exemplares dele ultimamente, ele está no meu panteão de autores favoritos.

"Uma questão de loucura" é uma espécie de auto-biografia do autor, onde ele conta lembranças de sua infância na época em que o seu avô estava vivo, numa Albânia em transição para o comunismo. Em certo aspecto lembra os livros de auto-biografia infantil da Amélie Nothomb, que eu adoro, logo, também amei esse livro!

A história é contada na visão de Ismail criança, o que torna a leitura muito divertida!

Nota 10!


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sonhando a Palestina



SPOILER FREE

Mais um livro desse Natal! Dessa vez foi uma troca que fiz na livraria, e como a loja estava em promoção, fiquei doidinha quando vi esse livro por 10 reais! Por mais que fosse escrito por uma adolescente de 15 anos (o que é inacreditável quando se lê o livro) que na verdade nasceu na Itália (mas o nome entrega a sua origem árabe), era um livro sobre a guerra na Palestina e pra mim valia o risco.

E sim, valeu demais o risco, porque Randa Ghazy é um fenômeno. O livro é simplesmente divino quando se pensa que foi escrito por uma menina de 15 anos, por mais que ela hoje tenha mais de 30 (aparentemente o livro demorou a ser lançado, e claro, demorou mais ainda pra ser traduzido). Num misto de prosa e poesia, a italiana traz um relato comovente de diversos amigos palestinos ao meio de um conflito em que eles já nasceram e que provavelmente irá continuar pelas gerações seguintes.

A história é realmente de partir o coração, e a forma sem meias palavras que Randa trata os momentos mais violentos é simplesmente sensacional! Vale muito a leitura, mesmo que ela não trate de forma histórica o conflito, é um jeito de entender um pouco o que acontece na Palestina e a sensação de abandono desse povo tão sofrido, e, também, o porque de toda a raiva que assola os dois povos que vivem nessa região.

Nota 9,5!