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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

O teste do casamento - The bride test


SPOILER FREE

E finalmente chegamos no último tema do Desafio Literário Popoca 2022! Em dezembro, o tema livros com protagonistas com deficiência entrou em campo, e resolvi escolher um livro da nossa lista de sugestões: O teste do casamento, da norte americana descendente de vietnamitas Helen Hoang.

Atenção, na nossa lista de sugestões, o livro está com o título Noiva à Experiência, que é da tradução portuguesa da obra! No Brasil, saiu com o título O teste do casamento.

A autora Helen Hoang foi diagnosticada como autista em 2016, já adulta, e escreveu sobre a experiência dessa descoberta no seu primeiro livro, Os números do amor, que fez um enorme sucesso, e, por isso, ela escreveu uma nova obra sobre pessoas com autismo. 

Em O teste do casamento, temos Khai Diep, um jovem filho de vietnamitas que foi diagnosticado com autismo, mas que a família nunca realmente tratou, então, ele acha que não tem sentimentos. Seguindo a linha de famílias asiáticas que se metem nas vidas dos seus integrantes, a mãe de Khai viaja ao Vietnã para encontrar uma noiva para ele, e retorna com Esme Tran, uma jovem mestiça que nunca conheceu o próprio pai.

O interessante de autores como Helen Hoang é que eles podem descrever pessoas com deficiência de uma forma mais profunda de quem apenas pesquisa sobre o assunto, e, para mim, isso foi muito marcante no livro. O foco da narrativa não é a estranheza que Khai provoca, e sim, como ele se sente ao perceber que é diferente, e como aqueles que o amam procuram entender essas diferenças e se adaptar.

Fora toda essa questão do autismo de Khai, o livro é uma histórica romântica como muitas outras, seguindo inclusive fórmulas conhecidas do gênero. O que mostra que essas narrativas, assim como todas as outras, podem e devem ser universais e incluir todo tipo de pessoa. 

Fazia muito tempo que eu não lia nada desse gênero, que, confesso, adoro, então, foi muito difícil parar de ler, trabalhar, comer e dormir. Fiquei totalmente viciada, e o livro não durou nada na minha mão. Agora terei que ler o primeiro livro da autora, porque gostei da sua escrita.

Recomendo muitíssimo, não só porque é uma boa história e bem escrito, mas porque de quebra você ainda sai entendendo melhor uma questão que atinge mais pessoas do que se imagina.

Nota 9,5.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

A Rede de Alice - The Alice Network


SPOILER FREE

Depois da rasgação de seda do nosso editor chefe no Popoca sobre A Rede de Alice, eu não resisti e peguei o livro para o Desafio Literário Popoca 2022 de novembro, com o tema ficção ou fantasia que se passem em guerras. Vou lembrar que, apesar de toda a pesquisa histórica incrível da autora norte americana Kate Quinn, o livro ainda é um romance histórico, portanto, ficcional.

Adoro pegar livros indicados, pois sei melhor onde estou me metendo. E apesar de não ter ficado tão entusiasmada com a história de Rose e Eve quanto o Tiago ficou, preciso tirar o chapéu para a autora. Gostei o suficiente para já ter incluído outros livros dela na minha lista de desejos interminável na Amazon.

A parte histórica e as descrições do período da primeira guerra estão um primor. Dá um prazer enorme ler romances históricos assim, que delícia! A divisão da narrativa entre o período da primeira guerra, com Eve como narradora, e o pós segunda guerra, com Rose como narradora, dá um dinamismo muito interessante para a leitura, o que realmente faz o livro parecer passar mais rápido.

Entretanto, confesso que passei a primeira metade do livro com vontade de pular todos os capítulos da Rose, porque os da Eve eram muito melhores e mais divertidos. Demorei muito para entrar no ritmo da história da Rose, e só realmente passei a curtir os seus capítulos já no final do livro. 

Se alguém sentir isso, vai na fé, eu prometo que o livro melhora.

Fora esse pequeno porém, faço coro com o nosso editor sobre a maravilhosa escrita da Kate Quinn, que conseguiu a proeza de aparecer duas vezes num único ano com o mesmo livro no Popoca!

Nota 8,5.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Caçadora (A Última Caça-Vampiros #1) - Slayer (Slayer #1)


SPOILER FREE

“Em cada geração nasce uma garota: apenas uma garota em todo o mundo, uma escolhida. Ela sozinha terá a força e habilidade para lutar contra os vampiros, demônios e as forças do mal. Ela é a Caça-Vampiros.”

Se você assistia TV no final dos anos 90, é provável que tenha escutado essa chamada no início de cada episódio de Buffy, A Caça-Vampiros. O show, criado pelo então desconhecido Joss Whedon, pré-reconhecimento com Vingadores e pré-queda com Liga da Justiça, fez um sucesso enorme e angariou fãs, muitos fiéis até hoje. Depois de 7 temporadas (1997-2003), uma série spin-off (Angel, com 5 temporadas, 1999-2004) e diversos quadrinhos continuando a saga de Buffy (com os primeiros escritos ainda pelo criador Joss Whedon), e sem mencionar o filme original de 92, o Buffyverso volta a dar frutos.

A autora estadunidense Kiersten White assumiu a missão de criar um novo spin-off literário no universo de Buffy. A história se passa num mundo pós a série de TV, mas, não tenho certeza sobre ser após os quadrinhos, pois os quadrinhos são confusos, e é muito difícil de saber o que é considerado cânone e o que não é, dado o troca troca de direitos autorais entre diversas editoras. De qualquer forma, olha o spoiler para quem não viu a série, pule para o próximo parágrafo agora, já não há uma única caça-vampiros no mundo, o conselho dos guardiões foi pro saco, e Buffy agora age sozinha, liderando um grupo de caçadoras.

Mas o livro A Caçadora, como ficou a tradução para o português é sobre Nina, filha do primeiro guardião de Buffy (apenas mencionado na série, é preciso ver o filme pra saber quem ele é, assista com cautela), que tem uma irmã gêmea, Ártemis. Numa ode ao estilo da série, Nina se torna uma caça-vampiros no apagar das luzes da existência da magia no mundo, o que a torna a última, e, claro, ela parece estar conectada com uma profecia sobre o fim do mundo. Só que Nina, por ter perdido o seu pai por causa de Buffy, detesta as caçadoras, e passou sua vida trabalhando como uma espécie de enfermeira do conselho dos guardiões, e ela não aceita muito bem sua nova categoria.

Num enredo que faz inúmeras referências à série original (incluindo a diversos personagens mais obscuros), Kiersten White consegue recriar o clima da primeira temporada de Buffy, o que é uma mistura de profecias, questões adolescentes, relacionamentos amorosos e de amizade e a descoberta da sua identidade. Se você não curte alguma dessas coisas, pode deixar A Caçadora de lado.

Agora, você gosta de Buffy e tolera bem uma história muito young-adult com direito a parte do enredo só acontecer porque todos mantêm diversos segredos (o que era comum em Buffy, e faz parte da natureza dos guardiões, vamos ser sinceros), então, A Caçadora é o livro pra você ler no Desafio Literário Popoca 2022 de outubro, com o tema vampiros e criaturas afins, ou um livro da Anne Rice. Essa pelo menos foi a minha escolha.

Foi uma escolha extremamente dentro do tema, é verdade, e se por um lado, curti demais toda a nostalgia que a leitura me trouxe de Buffy (estou até pensando em rever pela enésima vez a série), além de ter adorado os novos personagens, por outro, acho que minha paciência com histórias adolescentes não anda das maiores. Todo o diálogo interno e as dúvidas foram um pouco demais para mim depois de um certo percentual do livro.

O fato do livro terminar num quase gancho não ajudou muito, mas, eu entendo o que a autora fez. A história principal desse primeiro volume termina, mas, ela deixa uma armadilha no final para você querer ler o volume seguinte, o que funciona, pois apesar de eu não ter terminado o livro apaixonada, já estou com o livro seguinte na minha lista de desejos da Amazon.

O que eu posso fazer? Tenho um fraco com histórias de vampiros.

Nota 7, isto é, Buffy passando de ano por pouco porque passa as noites patrulhando.

domingo, 25 de setembro de 2022

Incêndio Oculto


SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de setembro, com o tema fantasia, ficção científica ou realismo fantástico brasileiro, resolvi pegar o livro recém lançado de uma autora que adoro, e pela primeira vez vi lançando um livro em português (ela normalmente escreve em inglês), a Vivian Wolkoff. Dessa vez, ela lançou em conjunto com outra autora, Giselle Almeida, que também é uma ilustradora de mão cheia.

Nessa colaboração, as autoras trazem uma história que mistura magia com tráfico de drogas e crime organizado. Somos apresentados a Katma, uma poderosa bruxa, que está disposta a enormes sacrifícios para tentar ajudar sua irmã, Emily, a superar a trágica morte dos seus pais. O problema é que as duas acabam parando na cidade de Woràk, na Polônia, onde há uma guerra entre a gangue local, os Spust, e a irmandade bruxa da cidade, pelo controle de uma droga alucinógena chamada ferrugem.

Num enredo cheio de adrenalina, magia, romance (com direito a boas cenas picantes) e questões complicadíssimas de família, as duas trazem à tona personagens excelentes, que não só ficaram ótimos no papel, mas que, sinceramente, dariam um banho em muita série de fantasia e ação que andei vendo por aí. O trio principal dos Spust, Lilend, Aaron e Pixie, são um show à parte, e eu gostaria de ver mais coisas com eles.


Não sei muito como foi a divisão do trabalho entre as duas autoras, esse é um tema que sempre me deixa curiosa, mas o resultado ficou extremamente divertido, tanto que li o livro muito rápido. A leitura é tão leve que nem me incomodei com os typos da edição em Kindle que comprei no dia do lançamento, e que, bem, até onde já pude perceber, são muito comuns em produções de baixo custo tanto brasileiras quanto gringas.

Para quem quer ler algo bem diferente, produzido no Rio de Janeiro, fica a dica!

Nota 9.

domingo, 31 de julho de 2022

Redemption in Indigo

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de julho, com o tema fantasia ou ficção científica escrita por autores africanos, escolhi um dos livros da escritora Karen Lord, de Barbados.

E gente, que escolha mais acertada. Redemption in Indigo, infelizmente ainda sem tradução em português, é um livro que ganhou diversos prêmios quando foi lançado em 2011. E certamente merecia ainda mais, mas, como foi o primeiro livro da autora e ela é negra... sabe como são essas coisas.

A história parece se passar em algum lugar não determinado no continente africano (eu confesso que não tenho ideia de que país poderia ser), e é cheia de referências a diversas culturas e mitologias africanas, que eu gostaria de conhecer mais para ter apreciado melhor suas aparições. No livro acompanhamos Paama, uma mulher casada que abandonou a casa do seu marido porque ele era um glutão sem noção. Por ter tomado essa decisão, ela chama atenção de seres imortais do mundo espiritual, os djombi, que resolvem dar a ela um artefato mágico, o cajado do caos.

Só que nem todos os djombis ficam satisfeitos com a escolha de Paama para receber um poder tão grande. E o Indigo Lord, um poderoso djombi, resolve ir atrás dela para tentar convencê-la a entregar para ele o cajado do caos.

Numa história que parece saída diretamente dos mitos, mas com uma pegada mais atual, a saga da luta entre Paama e o Indigo Lord é de uma delícia ímpar de se ler. Não só temos elementos pouco comuns nas narrativas de escritores mais famosos no Brasil, diga-se europeus e americanos, mas temos também uma personagem feminina forte e decidida, que está cercada de outras personagens femininas muito incríveis. Para coroar, Karen escreve absurdamente bem.

Terminei Redemption in Indigo procurando por outros livros da Karen Lord, porque se o primeiro foi assim, imagine os seguintes? Quero ler tudo dessa mulher.

Nota 10.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Os noivos do inverno - Les Fiancés de l'hiver (La Passe-Miroir - A Passa-Espelhos #1)


 

SPOILER FREE

Para o mês de junho do Desafio Literário Popoca 2022, com o tema um livro com inverno no título ou que se passe no inverno, consegui escolher um que se encaixa nas duas características, Os noivos do inverno da escritora francesa Christelle Dabos.

Aviso que li o livro em francês e por isso posso usar nomes ou termos diferentes do que se encontra na tradução para o português da editora Morro Branco. 

A escritora Christelle Dabos é de uma família de músicos, e se formou em biblioteconomia, e começou a escrever a série A Passa-Espelhos quando descobriu que estava com câncer. Ao receber boas respostas de uma comunidade de escritores na internet, ela finalmente publicou Os noivos do inverno em 2013, aos 33 anos de idade, e ganhou logo de cara um prêmio pela obra, que depois veio a ganhar outros prêmios, inclusive o mais importante de ficção especulativa da França, o Grand prix de l’Imaginaire. Desde então, já foram 4 volumes publicados e ela agora se dedica unicamente a escrever fantasia.

Os livros já foram traduzidos para diversos idiomas, e ela fez bastante sucesso com a série, sendo até mesmo comparada a JK Rowling e Philip Pullman. Depois de ler seu primeiro livro, posso dizer que a comparação não é descabida.

Os noivos do inverno introduz a história de Ophélie, que vive no arche Anima, uma espécie de pedaço que sobrou do planeta terra depois de uma tragédia, a Déchirure. Nesse mundo, existem vários desses arches, que são espécies de ilhas flutuantes. Cada ilha possui um "espírito de família", que é um ser ancestral imortal de quem descende todos os seus habitantes. Em Anima, os habitantes possuem poderes de controle dos objetos, e Ophélie é capaz de ler a história dos objetos que toca, além de conseguir se transportar através de espelhos.

Apesar de viver uma vida bastante pacata em Anima, sendo rebelde apenas no ponto de não querer casar com os pretendentes escolhidos pela família e só querer ficar trabalhando no museu junto com o seu tio avô, Ophélie acaba sendo escolhida pelas matriarcas para um casamento quase que diplomático. Ela se torna noiva de Thorn, uma figura importante de outra ilha, o Polo Norte. Amparada dos parcos conhecimentos desse lugar que ela conseguiu obter no museu e acompanhada de uma tia distante, ela parte com Thorn para o Polo Norte, um lugar onde os poderes de seus habitantes são bem diferentes, e onde o inverno é brutal.

A história por um lado é muito aventuresca, com momentos de muita adrenalina, com o extra do mundo maravilhoso criado pela autora, que é bastante complexo e muito diferente de tudo que já li de fantasia, por outro, é uma aventura regada a política de corte e artimanhas, que Ophélie precisa navegar para conseguir sobreviver ao inverno até a data do casamento.

O ritmo do texto de Christelle Dabos é tão delicioso, que eu precisei emendar o primeiro volume com o segundo, de tanto que gostei. O mundo que ela criou é muito redondo (mesmo estando em pedaços) até onde fui na narrativa, e conforme a protagonista vai descobrindo mais sobre sua nova casa, mais as coisas ficam interessantes. Apesar do livro ser grande, com cerca de 600 páginas, não dá pra sentir e eu terminei o livro bastante rápido, ainda que estivesse enferrujada no francês.

Recomendo muitíssimo para quem gosta de fantasia e para quem gosta de livros young adult. Vale a pena carregar esse calhamaço por aí, mas, podendo, recomendo a versão kindle que é mais leve.

Nota 10.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Os cinco porquinhos - Five little pigs


SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de maio, com o tema um livro com o número cinco no título, me deparei com o problema de ter poucos livros (ou quase nenhum) ainda não lidos que se encaixavam nessa categoria. Ao mesmo tempo, me encontrei com uma oportunidade de ler um livro que eu confesso que tinha um certo preconceito somente por causa do título. 

Os cinco porquinhos, um mistério da grande rainha Agatha Christie, do seu famoso detetive Poirot, recebe esse título por conta de uma rima infantil, que em inglês tem até mais de uma versão. Toda a questão ocorre em torno de cinco personagens principais, que foram testemunhas de um caso antigo e já considerado encerrado, a morte do pintor Crale, cuja esposa, Caroline, foi declarada culpada do seu assassinato. Entretanto, a filha do casal, uma criança de colo na época do ocorrido, às vésperas de seu casamento, contrata Poirot para provar que sua mãe era inocente.

Uma das coisas mais interessantes desse volume, é que é um dos poucos que vi da Agatha (se não o único que li até agora dela assim) onde é possível encontrar a história sendo contada de diversos pontos de vista diferentes. E não apenas porque Poirot vai conversar com cada um dos cinco envolvidos: Philip Blake (amigo de Crale), seu irmão Meredith Blake, Elsa Greer (a amante), Cecilia Williams (a governanta) e Angela Warren (irmã de Caroline). Além das entrevistas, cada um deles escreve uma espécie de carta, relatando tudo o que lembra do fatídico dia do assassinato.

O mistério, dessa forma, nos é apresentado em diversas camadas e ângulos distintos, o que é imprescindível por se tratar de um crime de arquivo morto, isto é, muito antigo e considerado já resolvido. E além das questões tradicionais dos livros de mistério da Agatha, esse ainda traz uma discussão bastante interessante sobre a memória.

De forma geral, a leitura, como na maioria dos livros da Rainha do Crime, é uma delícia, fluida e gostosa. E preciso dizer que Os cinco porquinhos me impressionou muito, e consigo dizer sem medo que, dos livros que já li dela, é simplesmente dos melhores, se não o melhor. Vale muito a pena.

Nota 10.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A pirâmide


 

SPOILER FREE

O Desafio Literário Popoca 2022 de abril tem como tema um romance histórico, e eu resolvi pegar um que se encaixa duplamente nesse quesito. O autor Ismail Kadaré é mais conhecido no Brasil por conta do filme Abril Despedaçado do que por conta de seus livros, mas, não é difícil encontrar traduções dele em português, o que mostra que o autor albanês é um tanto quanto fora da curva.

Apesar da Albânia ficar no que hoje chamamos Europa, a maioria da população do país é muçulmana, e a região ficou sob alguns séculos sob domínio do império otomano, do qual só saiu no século XX. De certa forma, isso transparece nos temas e nas narrativas de Ismail Kadaré, inclusive no texto original de Abril Despedaçado. Então, não é totalmente disparatado o autor, que não é egiptólogo, resolver escrever em A Pirâmide sobre a construção da maior pirâmide do Egito Antigo, chamada de pirâmide de Queóps, por conta do faraó que ordenou a sua construção.

Embora o enredo se passe totalmente dentro do período histórico da construção da pirâmide, o autor conseguiu fazer um retrato do que poderia ter ocorrido em qualquer época onde há uma ditadura. Numa narrativa concisa, mas poderosa, Ismail Kadaré traz à vida não apenas o Egito Antigo e diversas figuras históricas, mas também todo o clima do que poderia ser viver sob um regime e uma a figura tão dura quanto um faraó.

O melhor é que ele não escolhe o tema à toa, pouco antes dele escrever A Pirâmide, o secretário do partido comunista da Albânia, Enver Hoxha, que ficou em diversas posições no poder por cerca de 40 anos, havia mandado construir uma pirâmide na capital do país, Tirania. A pirâmide depois virou um museu, e durante a guerra de Kosovo foi uma base da OTAN, e durante muito tempo foi chamada de mausoléu de Enver Hoxha, porque ele faleceu na época da sua conclusão, apesar de não ter sido enterrado lá.

A pirâmide de Tirania

Por conta desse livro (e provavelmente de outros também), que só foi editado mesmo depois da queda do comunismo na Albânia, Ismail Kadaré se exilou na França, o que mostra o quão certeiro é o seu texto. Que, no final, é duplamente romance histórico, é um retrato do Egito Antigo e um retrato da Albânia dos anos 80. O autor é bom assim, vale a pena ler qualquer coisa dele, mas A Pirâmide é realmente especial.

Nota 10.

Vínculo de Sangue - Blood Bound (Mercy Thompson #2)


 

SPOILER FREE

Depois de ler O apelo da lua, confesso que fiquei um tanto vidrada na personagem Mercy Thompson e no texto da americana Patricia Briggs. Nem respirei entre fechar o primeiro volume e abrir o seguinte, o que me deixou feliz por ter deixado para ler a série depois de ter conseguido a maioria dos livros.

Apesar das capas sugestivas, Patricia Briggs não segue a linha mais comum de fantasia com uma protagonista feminina que seja recheada de cenas picantes, apesar do triângulo amoroso e de certa importância dos relacionamentos amorosos no enredo. Por um lado isso é interessante, porque sobra mais espaço para ação e adrenalina, por outro, eu gosto de cenas picantes, mas não acho que faça falta em Vínculo de Sangue, como ficou o título em português de Portugal.

Dessa vez, Mercedes, a mecânica de Volkswagen, por conta de estar devendo um favor para um amigo vampiro no primeiro volume, aceita ir com Stefan atrás de um outro vampiro. O que era para ser um encontro tranquilo, se revela um problema porque o tal vampiro controla um demônio, e coloca todos, inclusive os seres sobrenaturais da região em risco.

A partir daí, Mercy, que entre todos os tipos de seres sobrenaturais descritos no mundo criado por Patricia Briggs, é um dos mais fracos e frágeis, acaba sendo colocada numa posição complicada onde ela precisa caçar o tal vampiro ultra poderoso. E essa é uma das características interessantes da walker, apesar de se considerar sempre menos poderosa que todos ao seu redor, ela nunca se recusa a ajudar os amigos, e mesmo com os riscos ela sempre tenta fazer o que ela considera a coisa certa.

É um tanto quanto fascinante acompanhar uma personagem heroica como Mercy, mas que não é super poderosa. Ela acaba conseguindo vencer os obstáculos de forma inesperada, e mais por pensar e se comportar fora da caixa, do que por força ou magia ou poder. Diferente de um grande número de séries por aí, ela não é a escolhida, ela não é a mais poderosa e ela não tem um grande objetivo a cumprir.

Mercy é a heroína de ocasião, que só estava no lugar errado e na hora errada, e que, por um senso de obrigação doido resolve se meter na briga de cachorro grande. E claro ela não sai ilesa, o que torna a coisa interessante, porque ela sabe que tem coisas a perder e não vai sair inteira, mas ela vai mesmo assim.

Então, além de ter uma protagonista interessante, personagens secundários interessantes, e um mundo muito bem construído e pensado, Patricia Briggs escreve bem, e consegue entregar um enredo cheio de adrenalina e que termina com gosto de quero mais. Ainda bem que eu já tenho o próximo livro para ler. É simplesmente viciante.

Nota 9.

quinta-feira, 31 de março de 2022

O Apelo da Lua - Moon Called - Mercy Thompson #1


 

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de março, com o tema escritora de fantasia ou ficção científica, resolvi tirar da estante uma indicação antiga, Patricia Briggs. A autora estado-unidense ficou famosa com sua série Mercy Thompson, e vai lançar agora em agosto de 2022 seu livro nº 13! Mas eu não tinha lido nada dela ainda, por motivos de saber que era uma série longa, e eu não tinha conseguido comprar o livro nº 2, e, conhecendo o estilo literário, gostar do primeiro sem ter o segundo seria um problema. Que foi resolvido ainda em março, quando consegui o volume faltante numa promoção. 

E assim peguei para ler O Apelo da Lua, como ficou a tradução pela editora portuguesa Saída de Emergência, que já publicou os 6 primeiros volumes de Mercy Thompson em português na terrinha. Não sei como ficou a tradução, mas, é a mesma editora portuguesa da Charlaine Harris, então imagino que façam um bom trabalho.

A série traz como protagonista Mercy Thompson, uma walker, que é um mito nativo dos EUA, onde uma espécie de bruxa seria capaz de se transformar ou disfarçar de animais (ver skin-walker). No caso do livro, Mercy é filha de um indígena, e é capaz de se transformar em coiote. Sua mãe, que não chegou a conhecer bem o seu pai, morto durante a gravidez num acidente, quando vê um filhote de coiote no berço da filha vai atrás da família do cara, e Mercy acaba sendo criada numa matilha de lobisomens.

Se você não achou nada de muito original até agora, some o fato de que Mercy, ou Mercedes, se formou em história na universidade, e na impossibilidade de conseguir um emprego no seu ramo, virou mecânica de carros da Volkswagen (sim, é uma piada proposital), tendo aprendido o ofício com um gremlin. O mundo onde se passa a história ainda é povoado de vampiros, bruxas e outros seres mágicos.

O livro tem um jeito que lembra o estilo da Charlaine Harris na série Sookie Stackhouse, que deu origem a True Blood, mas o mundo de Patricia Briggs me parece mais complexo e interessante, pra ser sincera. Fora que todo o romance não é o tema central do enredo, o que dá um certo alívio, e mais espaço para ação e adrenalina. Mas, não se engane, tem romance, tem triângulo amoroso, afinal ainda é uma fantasia urbana que tem lá seu público específico.

Tem umas questões estranhas nos relacionamentos também, mas, justiça seja feita, a autora deixa claro que são coisas estranhas e não romantiza. Ponto pra ela. No quesito problemas femininos do livro, o que acho mais complicado é a ausência de amigas mulheres da Mercy, mas, tudo bem, ela tem amigos homens que são só amigos mesmo, e não é como se o livro não tivesse outras personagens femininas ou que a Mercy só falasse com mulheres sobre seus interesses românticos. Meio ponto, podia ser melhor.

Agora no quesito ação e aventura, acho que é aí que está o trunfo da Patricia Briggs. A ação e o mistério do enredo, que envolve uma conspiração contra as matilhas de lobisomens que nossa protagonista conhece, é de tirar o chapéu. Me deixou ligada na leitura até o fim, e nem respirei e já comecei o livro seguinte, como eu sabia que corria o risco.

É um bom livro de abertura de série, tem toda uma ambientação no início, explicando como algumas coisas funcionam e em que ponto o mundo se encontra (os seres mágicos são parcialmente conhecidos dos humanos porque é difícil de se esconder com a tecnologia e ciência atuais), mas sem perder o fio da meada. Quando você vê já está envolvido no enredo. Confesso que fazia tempo que eu não pegava um livro que me deixasse tão viciada.

Estou animada para os volumes seguintes.

Nota 9.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

The Apocalypse of Elena Mendoza



SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022, com o tema livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita, escolhi um livro que não só tem uma capa lindona (tanto a versão original dela quanto a nova), como tem um título super interessante, O apocalipse de Elena Mendoza (em tradução minha, porque nada do autor Shaun David Hutchinson foi traduzido até hoje para o português).

Dessa vez, o autor nos traz a história de Elena Mendoza, nascida de uma mãe virgem (e cientificamente comprovado como único caso de partenogênese da história), e que certo dia, colocada diante de uma situação inesperada, descobre que tem o poder da cura. Porém, cada vez que ela usa esse poder coisas terríveis acontecem.

Eu já conhecia o trabalho de Shaun David Hutchinson do livro The five stages of Andrew Brawley, e como amei, fui com convicção de que esse também seria bom. Adoro estar certa. O apocalipse de Elena Mendoza tem momentos tensos e de ação, mas a história não é sobre isso, é sobre o que cada um acredita estar certo, o poder de escolha individual, também conhecido como livre arbítrio, e ter empatia pela humanidade de todas as pessoas, independentemente de escolhas ruins ou más mesmo.

Por ser um livro sobre escolhas, e com uma protagonista com a escolha mais difícil a ser feita, o enredo é um tanto quanto lento, porque todo o drama gira entorno de como Elena vai escolher, e ela no fundo não quer fazer uma escolha. Mas, no caminho temos situações muito interessantes e um dos poucos livros que a maioria dos personagens não são héteros e onde isso não é o tema central da história que eu já li, o que é muito bom para variar. 

Shaun escreve muito bem, e sua voz para Elena convence e engaja o leitor no problema em questão, escolher quem deve ser salvo e como num apocalipse. E apesar do tema pesado e complexo em termos de como lidar com a fé das pessoas, Shaun não só faz escolhas interessantes e fora do padrão (inclusive em termos religiosos), como ele consegue trazer humor para a narrativa.

É um livro que vale tanto pela capa quanto pelo conteúdo.

Nota 9.

Broken (in the best possible way)

 


SPOILER FREE 

Para o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022 o tema é livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita. Esse caso é uma mistura de motivos. Particularmente, amo a capa de Broken pintada pelo artista Omar Rayyan, e teria pensado em comprar esse livro só por causa dela. Só que eu adoro o trabalho da autora Jenny Lawson, e teria comprado o livro independente da capa. Mas, claro, uma capa com a autora pintada segurando um monstro fofo é simplesmente irresistível e um bônus.

Jenny Lawson é uma figura interessante, seu blog me proporciona bons momentos semanais, e eu já li os dois outros livros dela, Alucinadamente Feliz e Vamos fingir que isso nunca aconteceu, e amei os dois. Não havia a menor chance de eu deixar Broken passar sem ler. 

A autora sofre de diversos distúrbios mentais e problemas de saúde, incluindo depressão, ansiedade e uma doença autoimune. Mas, ela consegue escrever sobre isso com uma honestidade bem humorada e sarcástica que não só torna a leitura agradável, mas também ajuda a entender melhor as suas questões e tornar o leitor mais empático com outras pessoas que possam ter problemas parecidos. Melhor tipo de literatura, né?

Entretanto, Broken foi escrito durante a pandemia, e eu confesso que acompanhei o processo no blog da Jenny, e não foi fácil. Atribuo a isso a minha sensação ao ler Broken, que foi diferente dos livros anteriores dela. Minha percepção é que a autora não estava nos seus melhores momentos, e, bem, por questões de prazo e da vida, ela fez o que dava para terminar o livro, mas, o resultado final não é o seu melhor trabalho. 

O livro tem bons momentos, assim como os volumes anteriores, é quase que uma coleção de causos e pensamentos da autora, e alguns dos capítulos são brilhantes. Porém, na média, Broken não é tão bom. Vale a leitura, claro, mas se você nunca leu nada dela eu indicaria os dois outros livros.

Mas, esse tem a capa mais bonita, sem a menor dúvida. Pena que como foi lançado em 2021, ainda não tem tradução para o português.

Nota 8.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Beirute Noir


 

SPOILER FREE

Para abrir o ano, e o Desafio Literário Popoca 2022, que tem o tema de janeiro livro de contos, escolhi um exemplar da série Noir da editora liberal e alternativa Akashic Books. A editora se especializa em autores que são ignorados ou não querem trabalhar no mainstream editorial dos EUA, e a série Noir tem ainda um viés internacional, pois foca em autores de diversos países.

A série Noir hoje já conta com mais de 70 cidades espalhadas por todos os continentes, com contos de autores locais e histórias inéditas que se passam na cidade título do livro. Beirute Noir, a minha escolha da vez, pode ser encontrado também em português, pois foi publicado no Brasil pela Editora Tabla, especializada em literatura árabe.

Para a capital libanesa, a seleção de contos foi organizada pela autora Iman Humaydan, também libanesa, e contem 15 contos de 14 autores libaneses e um palestino criado no Líbano. Os contos foram originalmente escritos em três idiomas, árabe, francês e inglês, o que já uma traz uma característica bastante interessante do Líbano, onde não só é comum encontrar pessoas bilíngues, mas o país também possui uma diáspora considerável espalhada pelo mundo inteiro.

Uma característica da série Noir é que os contos acontecem por diversos bairros da cidade título, e no caso específico de Beirute, os contos ainda se passam durante a guerra civil libanesa, que ocorreu entre 1974 e 1990, acontecimento que marcou profundamente o país. Por ainda por cima ser um livro de temática noir e com contos passados durante uma guerra civil... já dá pra sentir que as histórias não são exatamente leves.

Como todo livro de contos, é claro que Beirute Noir tem seus altos e baixos, mas de forma geral os autores trazem um retrato bastante interessante da cidade dividida pela guerra, com personagens pertencentes às diversas etnias e religiões que dividem o país. Achei especialmente interessante ver os armênios (com direito a citação à fuga do que hoje é a Turquia e o genocídio armênio), os muçulmanos, os cristãos, com direito as suas variações... o Líbano é um país muito mais diverso do que se costuma imaginar.

Mas é preciso estar preparado para a brutalidade da guerra, que muitas vezes é retratada de forma corriqueira, e o fato de que nenhuma história vai ter um final feliz. Eu confesso que gostei particularmente das histórias cujos protagonistas são mulheres, e algumas com protagonistas homens foram especialmente marcantes também. Com exceção de um ou outro conto que não me caiu bem, a leitura foi bem rápida e surpreendente agradável, considerando o tema.

Recomendo muitíssimo para ter contato com autores que dificilmente temos acesso, especialmente em português. É uma oportunidade imperdível.

Nota 9.


domingo, 31 de outubro de 2021

Confissões de uma Irmã da Cinderela - Confessions of an Ugly Stepsister

 

SPOILER FREE

Para fechar o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema contos de fadas, resolvi finalmente pegar um outro livro do Gregory Maguire, famoso por Wicked, que ficou tão conhecido que transformaram num dos musicais de maior sucesso da Broadway. Tanto que quase virou filme, mas produziram aquele espanto que é Cats no lugar (pense numa aposta ruim!).

Wicked - versão original da Broadway

O lance do autor é reconstruir outras histórias clássicas, como ele fez tão brilhantemente com O Mágico de Oz em Wicked, mas ele tem uma preferência por contos de fadas. Caso você procure por sua bibliografia, vai perceber que ele já escreveu diversas adaptações dos mais variados contos supostamente infantis, mas, suas versões costumam ser bem mais, como dizer, adultas.

Lançado em português pela José Olympio, Confissões de uma Irmã da Cinderela traz uma versão um tanto quanto diferente da história tradicional, mas mantendo todos os principais traços do enredo original. Contada do ponto de vista da filha mais nova da madrasta, Gregory nos apresenta personagens bem mais humanos e, portanto, imperfeitos do que estamos acostumados. Iris é uma jovem que se considera totalmente sem graça, mas, fugindo com o resto da família da Inglaterra, se encontra numa cidade da Holanda onde oportunidades novas surgem. Sua mãe, Margareth, recém viúva, consegue um emprego no atelier de um famoso pintor da região, e ela e sua irmã Ruth se veem atraídas por uma das pessoas mais misteriosas da cidade, Clara, uma jovem de beleza tão incrível que seus pais a mantém presa em casa.

Com maestria, Gregory consegue criar uma história que leva essa situação até a do conto original, onde Clara se torna Cinderela, mas não exatamente a mesma que conhecemos, mas sim uma bem mais complexa e interessante, assim como suas meias-irmãs e madrasta. Sem fazer uso de realismo fantástico, o autor fia um enredo crível não só de acontecer, mas também de explicar porque o conto terminou contado da forma como é. E isso mantendo o leitor entretido e curioso ao mesmo tempo.

Considerando que Cinderela é um dos contos de fadas mais insossos que tem e com personagens tão preto e branco, o que o autor consegue fazer é quase um milagre, porque o resultado é uma história sensacional e cheia de personagens interessantes.

Assim como Wicked fez a passagem para outra mídia, Confissões de uma Irmã da Cinderela chegou a virar um filme da Disney, lançado direto para TV em 2002. Infelizmente o programa que ele fez parte é tão obscuro que hoje não está disponível em quase lugar nenhum, o que me impediu de assistir. O que é uma pena, adoraria ter visto Stockard Channing (uma das dias do filme Da Magia à Sedução) no papel de madrasta, tenho certeza que ela acertou em cheio na personagem.

Versão Disney do livro

Com toda a qualidade de Gregory Maguire, não entendo porque tão pouco de sua obra saiu em português, vale a pena ler o que tem disponível.

Nota 9.

domingo, 24 de outubro de 2021

Geekerela


SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de outubro com o tema contos de fadas, resolvi ler algo mais leve, e acabei optando pela comédia romântica Geekerela, que saiu com o mesmo título em português pela editora Intrínseca.

Como o título já deixa claro, a autora americana Ashley Poston traz uma releitura moderna de Cinderela, com uma boa dose de nerdice, o que achei uma premissa interessante. Então somos apresentados a Elle, uma órfã que vive com a madrasta e duas irmãs, e que é fã de uma série de televisão chamada Starfield, que ela assistia quando criança com o seu pai, um nerd de carteirinha que é um dos criadores de uma Comicon na região onde ela mora.

A tal série agora vai virar filme, e para estrelar a nova versão da saga, escolhem um ator famoso de uma série adolescente, Darien, que Elle acredita que não tem conhecimento suficiente do fandom para interpretar o Príncipe Carmindor, sem saber que ele frequentava cons antes de ficar famoso.

A história de Elle e Darien é muito fofa, e a autora caprichou em detalhes como o food-truck abóbora mágica, onde Elle trabalha, toda a disputa de cosplay, o fandom... realmente o enredo é cheio de referências nerds, e os elementos de Cinderela estão todos lá.

Por outro lado, o enredo tem furos complicados. Todo o drama de Darien com o pai e com os fãs da série adolescente que ele estrelou e com Starfield não faz muito sentido. As decisões dos personagens que deveriam ter sido racionais são totalmente ilógicas, o que, confesso, me deu muita raiva ao ler.

Outra questão que me incomodou é que toda a relação de Elle com a madrasta e as irmãs é muito exagerada. Tudo bem que Cinderela é um conto de fadas exagerado, mas, numa versão moderna, que se passa no século XXI num lugar como os EUA, para mim, ficou um tanto quanto forçado. O enredo teria ganhado com um pouco mais de sutileza.

Enfim, o resultado é uma leitura mediana, que ajuda a passar o tempo, com uma ideia interessante e fofa, mas que poderia ter sido mais bem trabalhada.

Nota 7.

Snow, Glass, Apples


 

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema contos de fadas, resolvi pegar um autor que adoro, mas que faz um certo tempo que não leio, Neil Gaiman. Dessa vez, escolhi uma graphic novel lançada em 2019, Snow, Glass, Apples, que ainda não foi traduzida para o português, e que é baseada num conto do autor publicado em 1994.

Para a graphic novel, Gaiman se juntou à ilustradora Colleen Doran, com quem ele já havia trabalhado em Sandman e na adaptação de Deuses Americanos para quadrinhos, e que tem um histórico extenso de trabalhos com a Marvel e a DC. Com Snow, Glass, Apples eles ainda ganharam o prêmio Eisner de melhor adaptação, o Bram Stoker Superior Achievement in a Graphic Novel e o Ringo Award for Best Graphic Novel. E as razões deles terem ganhado os prêmios são bem visíveis.

Não só temos uma excelente releitura da Branca de Neve, no estilo sombrio de Neil Gaiman, com um jeito até mais adulto do que eu esperava para uma versão de um conto de fadas, mas Colleen fez um trabalho gráfico absolutamente brilhante. As ilustrações são de uma beleza ímpar, com uma pesquisa sobre o ilustrador irlandês Harry Clarke, que tem um estilo tipo Art Nouveau, o que deu à graphic novel um ar meio antigo que combinou muito bem com a narrativa.

Em Snow, Glass, Apples, Gaiman traz uma inversão de papeis para Branca de Neve, o que em 1994 não era comum, com um quê de sobrenatural. E a forma como ele vilaniza a protagonista é original, mas de uma forma que depois que você enxerga com os olhos dele, não tem mais como desver. Nunca mais vou conseguir olhar para Branca de Neve do mesmo jeito. E apesar da violência e das questões sexuais do enredo, Colleen conseguiu criar uma estética que valoriza o conjunto do enredo, ao invés de fazer um show de horrores, e mesmo assim o resultado não é infantil, o que me parece que era uma preocupação bastante justificada. Definitivamente o livro não é para crianças.

O resultado final é uma leitura belíssima, dinâmica e que deixa com um gostinho de quero mais, justamente porque ela é curtinha. Nem sempre curto as adaptações dos textos de Gaiman, porque muitas me parecem caça-níquel, mas Snow, Glass, Apples é tão bem feito que definitivamente é uma obra à parte e que se sustenta sozinha.

Nota 10.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Espada de Vidro - Glass Sword (Red Queen #2)


 

SPOILER FREE

Depois de sofrer com o primeiro livro da série Rainha Vermelha, resolvi ler o volume seguinte num misto de força do ódio com esperança de que poderia melhorar. Além de que, ainda estamos em setembro, e o Desafio Literário Popoca 2021 ainda está rolando com o tema de líderes autoritários.

A boa notícia é que consegui terminar de ler Espada de Vidro, como ficou a tradução em português pela Editora Seguinte. A má notícia é que não melhora.

A cabeça da protagonista, Mare Barrow, que é onde a história realmente se passa, é uma bagunça. Ela continua tão perdida quanto no primeiro volume, não só no que está ocorrendo a sua volta, mas também sobre os seus próprios sentimentos. Personagens contraditórios podem ser interessantes, mas existe limite.

A ambientação da história fica mais interessante e complexa, mas ainda falta coesão e coerência. Fico sempre triste quando vejo uma boa ambientação sendo desperdiçada com um enredo fraco.

O enredo dessa continuação é basicamente Mare fugindo do agora rei Maven, junto com o herdeiro do trono em desgraça, Cal. Eles se aliam à organização Red Dawn, incluindo Kilorn, pra completar o quadrado amoroso da série, enquanto eles procuram por mais pessoas de sangue vermelho com poderes. 

Parece algo cheio de aventura e adrenalina, né? Na realidade nem é. A narrativa é lenta e repetitiva, seguindo os moldes do primeiro livro. Um número grande de personagens acaba sendo apresentado nessa busca, mas nenhum deles é realmente interessante ou marcante. Os poderes são... algo que lembra super heróis de quadrinhos no sentido ruim da coisa.

Achei a leitura tão arrastada que precisei ler dois outros livros no meio de Espada de Vidro para conseguir chegar até o final. Que sim, teve adrenalina e um gancho, como eu esperava, mas ainda assim era previsível. É preciso dizer que a previsibilidade do enredo não anima.

Mas a série Rainha Vermelha fez muito sucesso, o que não entendo como aconteceu, então, farei um esforço pra chegar no final. Vai que melhora? E, se não melhorar, poderei falar mal com propriedade.

Nota 5.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Rainha Vermelha - Red Queen (Red Queen #1)


SPOILER FREE

Para abrir o Desafio Literário Popoca 2021 de setembro, com o tema ditadores e governadores autoritários ou insanos, decidi apostar na famosa série Rainha Vermelha, da autora americana Victoria Aveyard. Porque nada com um young adult para relaxar...

Só que não.

A Rainha Vermelha não é relaxante, não porque o enredo se passa num mundo dividido em duas castas separadas por sangue, sangue vermelho e sangue prateado, onde os prateados dominam os vermelhos por serem mutantes benders magos terem poderes que podem aniquilar os vermelhos num piscar de olhos e por serem a elite econômica, não. A Rainha Vermelha também não é relaxante, não por causa da violência, da guerra ou das mortes, não. 

A Rainha Vermelha não é relaxante porque os personagens são irritantes ao extremo.

Explico. Imagina um enredo com uma personagem principal chamada Mare Barrow (prometo não sacanear o nome, apesar da vontade) que é uma ladra, excelente nisso, daquelas que saca tudo do que está acontecendo ao redor e saber ler as pessoas. Agora, ela praticamente ganha numa loteria, vira uma princesa, e do nada ela não saca mais nada.

Dos que não curtiram a série, muitos reclamam do triângulo, digo, quadrado amoroso de Mare, Cal, Maven e Kilorn (porque sim, ela precisava não de dois, mas três interesses românticos), especialmente pelo fato de terem dois irmãos nesse polígono. Mas, sinceramente, isso não me incomodou, achei até interessante, e um tanto quanto corajoso da autora. O que incomoda é saber logo de cara quem é bonzinho e quem é malzinho na história e ter que esperar a protagonista perceber o que está explícito desde o início.

Pior ainda é ter que esperar isso acontecer dentro da cabeça da protagonista, que não sabe o que sente, não sabe o que quer e não sabe o que fazer ou esperar. Angústia adolescente é um tempero praticamente obrigatório em young adult, mas o leitor de qualquer idade precisa de mais do que isso num livro.

Talvez tudo ficasse mais interessante se os demais personagens fossem espertos, e Mare ficasse perdida justamente porque cada um tenta usá-la de uma forma diferente. Mas, para uma corte supostamente tão perigosa e cheia de intrigas, os prateados são extremamente simplórios e pouco percebem as artimanhas uns dos outros. Uma coisa é a menina que veio de fora não sacar o que está acontecendo, por mais sagaz que ela seja descrita no início da história, outra coisa é o Rei e outros chefes das famílias importantes não sacarem o que está acontecendo. Gente, eles nem desconfiam. Como assim?

Inclui aí um grupo revolucionário que por um lado é super ultra mega organizado, e por outro lado parece saber pouco do sistema ou contra quem eles estão lutando.

O resultado de tudo isso é um livro com boas ideias, mas mal montado, desconjuntado e com uma coerência interna que deixa a desejar. Para disfarçar, a autora faz uso de repetir as coisas, pra ver se convence o leitor do que deveria estar acontecendo martelando na nossa cabeça.

Definitivamente não é uma leitura relaxante.

Mas, pelo sucesso de público a gente fica curiosa, né? E não tem nada melhor do que reclamar com propriedade nesses casos.

Nota 5.

Severance

SPOILER FREE

Para fechar o Desafio Literário Popoca 2021 de agosto, com o tema pandemias e doenças, decidi me aventurar no romance da chinesa Ling Ma, publicado em 2018, mas ainda sem tradução para o português, apesar de estar disponível em outros idiomas, como espanhol e francês.

O romance, escrito originalmente em inglês, traz a história de Candace Chen, uma millennial, nascida na China, mas que cresceu nos EUA (como a autora). Alternando entre passado e presente, acompanhamos a fuga de Candace de Nova Iorque, após uma pandemia mundial que praticamente dizimou a humanidade.

Apesar de ter sido lançado em 2018, o livro tem coincidências absurdas com a atual pandemia de Covid-19, como o local onde ela se inicia e a falta de importância que as pessoas dão inicialmente para a doença. Só que a febre (em tradução livre minha) de Severance é bem mais fatal, não tem cura, e não deixa de ser uma forma da autora criticar traços da sociedade moderna. Falar mais sobre isso é spoiler.

Mesmo com a febre sendo uma doença bem diferentona, o enredo de Ling Ma é extremamente realista. Talvez se eu tivesse lido em 2018 ou 2019, eu não achasse isso, mas hoje, acho. E essa, para mim, é a característica mais marcante do livro, tanto para o bem, e que explica os inúmeros prêmios que a obra ganhou, quanto para o mal, e que torna a leitura bem deprimente nos tempos atuais.

No fundo, Severance tem algo de Ensaio sobre a cegueira, com uma pitada de Sweet Tooth, no sentido que a pandemia é uma forma de explorar questões da natureza humana. Só que sob o ponto de vista da geração nascida entre 1980 e 1995, com foco naqueles dessa época que migraram quando crianças e por isso muitas vezes se sentem sozinhos. E a autora não nega suas origens na estrutura do enredo ou na forma como Candace se comporta.

A escrita de Ling Ma prende e nos faz sentir coisas, como a boa literatura deve fazer, mas isso não torna a leitura fácil. Severance foi um livro que demorei para terminar porque eu precisava respirar no meio para me recuperar.

Mas, certamente que vale o esforço, e espero que ele seja traduzido logo. Existem coisas que precisamos discutir e pensar que a autora traz a tona, especialmente nos dias de hoje, e recomendo muitíssimo a leitura, mesmo que acompanhado de chocolate ou outro livro mais leve para ajudar a digestão.

Nota 9,5.

domingo, 1 de agosto de 2021

A Menina Mais Fria de Coldtown - The Coldest Girl in Coldtown


SPOILER FREE

Quando peguei esse livro da autora americana Holly Black eu só estava procurando por um bom livro de vampiros, mas logo percebi que ele seria perfeito para o Desafio Literário Popoca de agosto, com o tema pandemias e doenças. Hein? Vampiros para o tema pandemia e doenças?

Se você já viu o filme Army of the dead (disponível no Netflix, é divertido, recomendo pela Tig Notaro que está impagável), você vai entender. A receita é: pegue um ser sobrenatural, nesse caso vampiros, não os zumbis do filme, considere que a transformação de uma pessoa normal nesse ser é na verdade uma doença sem cura, o que leva as autoridades a criarem zonas de quarentena nas cidades mais atingidas pela pandemia, as tais Coldtowns do livro, e você tem o pano de fundo de A menina mais fria de Coldtown, no título traduzido no Brasil pela editora Novo Conceito.

Mas essa é só a ambientação, Holly Black traz a história de Tana, uma jovem que já viu de perto os horrores de pessoas contaminadas pelo Cold (não sei como ficou em português) que é a doença que leva alguém a se tornar um vampiro, e que por conta disso não entende a fascinação de muita gente pelos seres da noite. Entretanto, logo no primeiro capítulo, ela acorda numa festa que deu muito errado, e no meio de todo o horror causado pelos vampiros ela se vê numa jornada justamente para uma Coldtown, na presença de um ex-namorado, dois jovens aspirantes a vampiros e um vampiro em carne e osso.

Fazia muito tempo que eu não lia algo tão bom de vampiros, não só porque a autora faz referências maravilhosas aos grandes autores do gênero (Anne Rice deve ter ficado orgulhosa), mas porque ela consegue trazer uma história nova, bastante atual, mas sem abandonar o que é um vampiro clássico. Os vampiros de Holly Black são assustadores, violentos e charmosos, a combinação perfeita do gênero, e que é muito difícil de fazer de forma crível. E ela consegue isso na história de Tana, que é uma personagem muito interessante e complexa.

A autora conseguiu criar um enredo não só instigante e cheio de adrenalina, mas onde nenhum dos personagens é simples, ninguém é totalmente bom ou mau, estão todos numa escala de cinza. Fiquei impressionada, não esperava isso num livro young adult. Aliás, o nível de violência também não é muito comum, mas considerando que se trata de vampiros, é inevitável.

Acredito que o final não seja do agrado de todos, mas, pessoalmente, eu gostei. E fiquei tão impressionada com a autora, que já comecei a catar outros livros dela, não é a toa que ela anda fazendo sucesso. Virei fã também.

Nota 9,5.