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domingo, 1 de março de 2020

A Girl Like That



SPOILER FREE

O Desafio Literário Popoca de março, que tem como tema autores orientais, começou muito bem e de forma muito multicultural para mim. Escolhi como primeiro livro o aclamado A girl like that, da indiana criada na Arábia Saudita e no Canadá Tanaz Bathena. O livro ainda não foi traduzido para o português, mas, para quem prefere, tem em espanhol.

A autora tira um grande proveito da sua própria história multicultural e traz um enredo fascinante, apesar de absurdamente triste. Em A girl like that o leitor acompanha de forma não cronológica a história de Zarin Wadia, uma jovem de 16 anos que vive em Jeddah na Arábia Saudita. Como a autora, Zarin nasceu na Índia, de mãe zoroastra e pai indiano, o que a marca como alguém que não se encaixa nem numa cultura e nem na outra. Órfã desde pequena, ela é criada pelos tios zoroastras, que arranjam emprego no país árabe.

Como a Arábia Saudita é um dos países mais bizarros em termos de regras sociais do mundo, dizer que Zarin tem dificuldades para se encaixar nessa sociedade é no mínimo redundante. Ela não só sofre com as questões da sua própria família, que tem dificuldade de aceitá-la, como também sofre com as limitações sociais da sua escola, se tornando uma jovem de pouquíssimos amigos.

O livro abre com o acidente de carro que mata Zarin junto com outro jovem, Porus, que também é de origem indiana, porém eles não são parentes, o que por si só já é um grande escândalo na sociedade saudita. Por que os dois estavam juntos? Como se conheciam? Seriam namorados? Essas e outras perguntas são feitas pelos os que conheciam Zarin, como suas colegas de turma, que apesar da proximidade, nunca realmente conheceram a jovem.

É um enredo muito rico. A autora conseguiu misturar culturas e retrata-las de forma impecável. Ouso dizer que é um dos melhores livros de 2020 para mim, de tanto que gostei. Recomendo muitíssimo a leitura.

Nota 10!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Kings and Presidents: Saudi Arabia and the United States since FDR (Geopolitics in the 21st Century)




SPOILER FREE

Na minha onda de estudos sobre Oriente Médio acabei por comprar na promoção esse livro. Escrito por um ex-agente da CIA e que trabalhou diretamente com diversos presidentes norte-americanos, o livro se propõe a contar a história da relação entre todos os reis sauditas desde a fundação da Arábia Saudita moderna (o que ocorreu entre a primeira e a segunda guerra mundial) e os respectivos presidentes norte-americanos.

Considerando que o escritor trabalhou na CIA, o livro tem um viés norte-americano bastante nítido, e totalmente esperado. As partes que envolveram pesquisas históricas e entrevistas por parte do autor para a realização do livro me surpreenderam muito positivamente pela qualidade do material. Em compensação, a parte mais atual da história, onde o autor teve um papel muito próximo de todos os contatos e políticas desenvolvidas deixaram a desejar.

Isso acontece primeiro porque tem uma questão de confidencialidade de diversos dados, e ele, como ex-funcionário, solicitou que a CIA fizesse uma revisão no texto final para retirada de quaisquer dados considerados ainda confidenciais. Segundo, o autor mostrou dificuldade em se distanciar da história que está contando. Talvez por conta de uma possível briga e posterior saída da CIA por conta da posse do presidente Trump, o que ele transparece em diversos momentos como algo muito problemático pessoalmente. Talvez porque ele se sinta mesmo muito próximo de toda a situação, porque passou a vida inteira trabalhando com isso e tendo contato direto com diversos personagens importantes que ainda são relevantes na política externa saudita.

Independentemente da causa, o resultado não é satisfatório, especialmente em comparação com a primeira parte do livro.

Questões de conteúdo e, após certo ponto, também de forma, à parte, o livro é uma leitura extremamente interessante e informativa, especialmente na história até o final do século XX. Essa é a data de corte da qualidade da informação e da narrativa bem escrita. Mas ao mesmo tempo, por ser um livro muito recente, e que se dispõe a tratar do assunto até a data da sua publicação, a sua contemporaneidade o torna extremamente interessante e valioso, pois muitos dos assuntos tratados ao final do livro eram, e ainda são, tão recentes que a análise que o autor se dispõe a fazer precisa ser superficial, mas não menos válida e necessária no atual cenário do Oriente Médio.

A questão passa a ser o quão bem o livro vai envelhecer. Acredito que a primeira parte vai continuar sendo interessante e válida por muito tempo. Em compensação, a segunda parte corre grave risco de envelhecer mal e ser considerada no futuro um texto com informações imprecisas e incompletas. Só o tempo dirá.

Nota 8.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Girls of Riyadh


SPOILER FREE

Depois de ler literatura feminina árabe de alguns países mais abertos, como Egito e o Líbano, finalmente consegui um exemplar de literatura feminina da Arábia Saudita! Artigo raro no mundo inteiro, inclusive dentro da Arábia Saudita, onde o livro foi devidamente banido, claro.

Rajaa Alsanea traz uma história escrita através de emails semanais, enviados para um grupo onde qualquer um pode se inscrever (gente, eu lembro desses grupos de emails! faziam o maior sucesso), onde a história de quatro jovens sauditas é contada em capítulos quase novelescos. A história é toda apresentada como sendo real, apenas com os nomes e alguns lugares trocados para manter a anonimidade e portanto a honra das quatro moças.

A parte mais interessante e maravilhosa do livro é que sim, tudo do que é apresentado no livro pode ser real, extremamente real. E a autora aproveita disso para fazer críticas nada discretas à forma como o governo saudita e a estrutura de clérigos wahabitas fazem o controle da sociedade. Dizer que a crítica é ferrenha é até pouco.

O livro está envolvido numa problemática de ter sido banido em árabe no Reino Saudita, apesar de poder ser encontrada a tradução para o inglês na terra do petróleo, além de vir com uma explicação com ar de desculpas pelas adaptações que foram necessárias na tradução. Isso porque não é possível reproduzir a quantidade de variedade de dialetos do árabe que a autora precisou utilizar para contar a história, apesar disso, o livro é recheado de notas de rodapé muito ilustrativas e bem feitas.

Questões de censura e linguística à parte, a história em si é maravilhosa, além de bem escrita, e de quebra faz um retrato muito realista da sociedade saudita, não só internamente, mas, se você prestar atenção, com relação aos seus vizinhos e com uma questão xenofóbica interessante também. Para aqueles que gostam de ler sobre a cultura árabe é um prato cheio, com a vantagem de ser não só uma visão originalmente saudita, mas também leve de ler. Em termos, se você considerar o conteúdo de algumas passagens da história. Apesar de que não tem nada explícito, claro.

A única coisa que me deixou triste é que a autora nunca mais escreveu nenhum livro literário depois desse (pelas minhas pesquisas ela só publicou um livro técnico sobre odontologia - informação interessante de você guardar quando for ler a história), o que é uma pena.

Super recomendo a leitura para todos!

Informação importante: o livro foi traduzido para o português com o título "Vida dupla"!

Nota 10!