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quinta-feira, 31 de março de 2022

O Apelo da Lua - Moon Called - Mercy Thompson #1


 

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2022 de março, com o tema escritora de fantasia ou ficção científica, resolvi tirar da estante uma indicação antiga, Patricia Briggs. A autora estado-unidense ficou famosa com sua série Mercy Thompson, e vai lançar agora em agosto de 2022 seu livro nº 13! Mas eu não tinha lido nada dela ainda, por motivos de saber que era uma série longa, e eu não tinha conseguido comprar o livro nº 2, e, conhecendo o estilo literário, gostar do primeiro sem ter o segundo seria um problema. Que foi resolvido ainda em março, quando consegui o volume faltante numa promoção. 

E assim peguei para ler O Apelo da Lua, como ficou a tradução pela editora portuguesa Saída de Emergência, que já publicou os 6 primeiros volumes de Mercy Thompson em português na terrinha. Não sei como ficou a tradução, mas, é a mesma editora portuguesa da Charlaine Harris, então imagino que façam um bom trabalho.

A série traz como protagonista Mercy Thompson, uma walker, que é um mito nativo dos EUA, onde uma espécie de bruxa seria capaz de se transformar ou disfarçar de animais (ver skin-walker). No caso do livro, Mercy é filha de um indígena, e é capaz de se transformar em coiote. Sua mãe, que não chegou a conhecer bem o seu pai, morto durante a gravidez num acidente, quando vê um filhote de coiote no berço da filha vai atrás da família do cara, e Mercy acaba sendo criada numa matilha de lobisomens.

Se você não achou nada de muito original até agora, some o fato de que Mercy, ou Mercedes, se formou em história na universidade, e na impossibilidade de conseguir um emprego no seu ramo, virou mecânica de carros da Volkswagen (sim, é uma piada proposital), tendo aprendido o ofício com um gremlin. O mundo onde se passa a história ainda é povoado de vampiros, bruxas e outros seres mágicos.

O livro tem um jeito que lembra o estilo da Charlaine Harris na série Sookie Stackhouse, que deu origem a True Blood, mas o mundo de Patricia Briggs me parece mais complexo e interessante, pra ser sincera. Fora que todo o romance não é o tema central do enredo, o que dá um certo alívio, e mais espaço para ação e adrenalina. Mas, não se engane, tem romance, tem triângulo amoroso, afinal ainda é uma fantasia urbana que tem lá seu público específico.

Tem umas questões estranhas nos relacionamentos também, mas, justiça seja feita, a autora deixa claro que são coisas estranhas e não romantiza. Ponto pra ela. No quesito problemas femininos do livro, o que acho mais complicado é a ausência de amigas mulheres da Mercy, mas, tudo bem, ela tem amigos homens que são só amigos mesmo, e não é como se o livro não tivesse outras personagens femininas ou que a Mercy só falasse com mulheres sobre seus interesses românticos. Meio ponto, podia ser melhor.

Agora no quesito ação e aventura, acho que é aí que está o trunfo da Patricia Briggs. A ação e o mistério do enredo, que envolve uma conspiração contra as matilhas de lobisomens que nossa protagonista conhece, é de tirar o chapéu. Me deixou ligada na leitura até o fim, e nem respirei e já comecei o livro seguinte, como eu sabia que corria o risco.

É um bom livro de abertura de série, tem toda uma ambientação no início, explicando como algumas coisas funcionam e em que ponto o mundo se encontra (os seres mágicos são parcialmente conhecidos dos humanos porque é difícil de se esconder com a tecnologia e ciência atuais), mas sem perder o fio da meada. Quando você vê já está envolvido no enredo. Confesso que fazia tempo que eu não pegava um livro que me deixasse tão viciada.

Estou animada para os volumes seguintes.

Nota 9.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

The Apocalypse of Elena Mendoza



SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022, com o tema livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita, escolhi um livro que não só tem uma capa lindona (tanto a versão original dela quanto a nova), como tem um título super interessante, O apocalipse de Elena Mendoza (em tradução minha, porque nada do autor Shaun David Hutchinson foi traduzido até hoje para o português).

Dessa vez, o autor nos traz a história de Elena Mendoza, nascida de uma mãe virgem (e cientificamente comprovado como único caso de partenogênese da história), e que certo dia, colocada diante de uma situação inesperada, descobre que tem o poder da cura. Porém, cada vez que ela usa esse poder coisas terríveis acontecem.

Eu já conhecia o trabalho de Shaun David Hutchinson do livro The five stages of Andrew Brawley, e como amei, fui com convicção de que esse também seria bom. Adoro estar certa. O apocalipse de Elena Mendoza tem momentos tensos e de ação, mas a história não é sobre isso, é sobre o que cada um acredita estar certo, o poder de escolha individual, também conhecido como livre arbítrio, e ter empatia pela humanidade de todas as pessoas, independentemente de escolhas ruins ou más mesmo.

Por ser um livro sobre escolhas, e com uma protagonista com a escolha mais difícil a ser feita, o enredo é um tanto quanto lento, porque todo o drama gira entorno de como Elena vai escolher, e ela no fundo não quer fazer uma escolha. Mas, no caminho temos situações muito interessantes e um dos poucos livros que a maioria dos personagens não são héteros e onde isso não é o tema central da história que eu já li, o que é muito bom para variar. 

Shaun escreve muito bem, e sua voz para Elena convence e engaja o leitor no problema em questão, escolher quem deve ser salvo e como num apocalipse. E apesar do tema pesado e complexo em termos de como lidar com a fé das pessoas, Shaun não só faz escolhas interessantes e fora do padrão (inclusive em termos religiosos), como ele consegue trazer humor para a narrativa.

É um livro que vale tanto pela capa quanto pelo conteúdo.

Nota 9.

Broken (in the best possible way)

 


SPOILER FREE 

Para o Desafio Literário Popoca de fevereiro de 2022 o tema é livro com uma capa ou muito colorida ou um livro que foi comprado porque a capa era bonita. Esse caso é uma mistura de motivos. Particularmente, amo a capa de Broken pintada pelo artista Omar Rayyan, e teria pensado em comprar esse livro só por causa dela. Só que eu adoro o trabalho da autora Jenny Lawson, e teria comprado o livro independente da capa. Mas, claro, uma capa com a autora pintada segurando um monstro fofo é simplesmente irresistível e um bônus.

Jenny Lawson é uma figura interessante, seu blog me proporciona bons momentos semanais, e eu já li os dois outros livros dela, Alucinadamente Feliz e Vamos fingir que isso nunca aconteceu, e amei os dois. Não havia a menor chance de eu deixar Broken passar sem ler. 

A autora sofre de diversos distúrbios mentais e problemas de saúde, incluindo depressão, ansiedade e uma doença autoimune. Mas, ela consegue escrever sobre isso com uma honestidade bem humorada e sarcástica que não só torna a leitura agradável, mas também ajuda a entender melhor as suas questões e tornar o leitor mais empático com outras pessoas que possam ter problemas parecidos. Melhor tipo de literatura, né?

Entretanto, Broken foi escrito durante a pandemia, e eu confesso que acompanhei o processo no blog da Jenny, e não foi fácil. Atribuo a isso a minha sensação ao ler Broken, que foi diferente dos livros anteriores dela. Minha percepção é que a autora não estava nos seus melhores momentos, e, bem, por questões de prazo e da vida, ela fez o que dava para terminar o livro, mas, o resultado final não é o seu melhor trabalho. 

O livro tem bons momentos, assim como os volumes anteriores, é quase que uma coleção de causos e pensamentos da autora, e alguns dos capítulos são brilhantes. Porém, na média, Broken não é tão bom. Vale a leitura, claro, mas se você nunca leu nada dela eu indicaria os dois outros livros.

Mas, esse tem a capa mais bonita, sem a menor dúvida. Pena que como foi lançado em 2021, ainda não tem tradução para o português.

Nota 8.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Beirute Noir


 

SPOILER FREE

Para abrir o ano, e o Desafio Literário Popoca 2022, que tem o tema de janeiro livro de contos, escolhi um exemplar da série Noir da editora liberal e alternativa Akashic Books. A editora se especializa em autores que são ignorados ou não querem trabalhar no mainstream editorial dos EUA, e a série Noir tem ainda um viés internacional, pois foca em autores de diversos países.

A série Noir hoje já conta com mais de 70 cidades espalhadas por todos os continentes, com contos de autores locais e histórias inéditas que se passam na cidade título do livro. Beirute Noir, a minha escolha da vez, pode ser encontrado também em português, pois foi publicado no Brasil pela Editora Tabla, especializada em literatura árabe.

Para a capital libanesa, a seleção de contos foi organizada pela autora Iman Humaydan, também libanesa, e contem 15 contos de 14 autores libaneses e um palestino criado no Líbano. Os contos foram originalmente escritos em três idiomas, árabe, francês e inglês, o que já uma traz uma característica bastante interessante do Líbano, onde não só é comum encontrar pessoas bilíngues, mas o país também possui uma diáspora considerável espalhada pelo mundo inteiro.

Uma característica da série Noir é que os contos acontecem por diversos bairros da cidade título, e no caso específico de Beirute, os contos ainda se passam durante a guerra civil libanesa, que ocorreu entre 1974 e 1990, acontecimento que marcou profundamente o país. Por ainda por cima ser um livro de temática noir e com contos passados durante uma guerra civil... já dá pra sentir que as histórias não são exatamente leves.

Como todo livro de contos, é claro que Beirute Noir tem seus altos e baixos, mas de forma geral os autores trazem um retrato bastante interessante da cidade dividida pela guerra, com personagens pertencentes às diversas etnias e religiões que dividem o país. Achei especialmente interessante ver os armênios (com direito a citação à fuga do que hoje é a Turquia e o genocídio armênio), os muçulmanos, os cristãos, com direito as suas variações... o Líbano é um país muito mais diverso do que se costuma imaginar.

Mas é preciso estar preparado para a brutalidade da guerra, que muitas vezes é retratada de forma corriqueira, e o fato de que nenhuma história vai ter um final feliz. Eu confesso que gostei particularmente das histórias cujos protagonistas são mulheres, e algumas com protagonistas homens foram especialmente marcantes também. Com exceção de um ou outro conto que não me caiu bem, a leitura foi bem rápida e surpreendente agradável, considerando o tema.

Recomendo muitíssimo para ter contato com autores que dificilmente temos acesso, especialmente em português. É uma oportunidade imperdível.

Nota 9.


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Coffee will make you black

SPOILER FREE

Para o Desafio Literário Popoca 2021 de novembro, com o tema protagonista negro, escolhi um já quase clássico da autora norte americana April Sinclair, Coffee will make you black. Apesar do livro ter sido lançado em 1994, até hoje não foi traduzido para o português, então, traduzo eu mesma o título: Café vai fazer você ficar preto

Pode parecer estranho, mas o título se refere a um dito popular dos EUA, especialmente nos séculos XIX e XX, que se dizia para as crianças não quererem beber café, para que ficassem com medo de escurecer sua pele. Em outras palavras, o título desse livro sozinho já diz muita coisa e a quê ele se propõe.

April Sinclair, criada em Chicago durante o movimento dos direitos civis dos negros americanos, traz a história de Stevie, uma jovem negra que começa o livro com 12 anos, e que vive durante os anos 60, bem no meio do movimento Black Power. A narrativa é toda centrada no ponto de vista de Stevie, que mesmo sendo uma leitora voraz e boa aluna, quer muito ser considerada cool

Apesar do pano de fundo político forte e do tema constante do racismo institucional dos EUA, a história de Stevie é de uma jovem se descobrindo, brigando com sua mãe, tentando fazer e manter amizades e conseguir um namorado. Talvez hoje seja meio clichê já, mas esse é o livro mais antigo que já li com esse tema onde praticamente todos os personagens são negros e que não é uma autobiografia.

Dentro do tema criança virando adolescente e se descobrindo, Coffee will make you black é um volume bem dentro do esperado, bem escrito, com questões típicas, mas muito abrangente, porque a autora não fica só no basicão. Ela inclui por exemplo, questões de descoberta da sexualidade que não eram muito comuns em livros publicados nos anos 90. 

Entretanto, o pano de fundo do movimento dos direitos civis e a questão do racismo trazem um peso para a trama que o leitor precisa estar disposto a enfrentar. Além disso, mesmo em inglês a leitura não é das mais simples, porque April caprichou nas gírias da época, o que, pessoalmente, eu gosto, porque data a história sendo contada, o que é mesmo o objetivo, mas, por outro lado pode deixar a leitura mais lenta.

No geral, é um excelente livro, e estou animada para pegar o volume seguinte, pois é uma duologia. Mal posso esperar para ver para onde vai a história de Stevie em Ain't gona be the same fool twice!

Nota 9,5.


domingo, 31 de outubro de 2021

Confissões de uma Irmã da Cinderela - Confessions of an Ugly Stepsister

 

SPOILER FREE

Para fechar o Desafio Literário Popoca de outubro, com o tema contos de fadas, resolvi finalmente pegar um outro livro do Gregory Maguire, famoso por Wicked, que ficou tão conhecido que transformaram num dos musicais de maior sucesso da Broadway. Tanto que quase virou filme, mas produziram aquele espanto que é Cats no lugar (pense numa aposta ruim!).

Wicked - versão original da Broadway

O lance do autor é reconstruir outras histórias clássicas, como ele fez tão brilhantemente com O Mágico de Oz em Wicked, mas ele tem uma preferência por contos de fadas. Caso você procure por sua bibliografia, vai perceber que ele já escreveu diversas adaptações dos mais variados contos supostamente infantis, mas, suas versões costumam ser bem mais, como dizer, adultas.

Lançado em português pela José Olympio, Confissões de uma Irmã da Cinderela traz uma versão um tanto quanto diferente da história tradicional, mas mantendo todos os principais traços do enredo original. Contada do ponto de vista da filha mais nova da madrasta, Gregory nos apresenta personagens bem mais humanos e, portanto, imperfeitos do que estamos acostumados. Iris é uma jovem que se considera totalmente sem graça, mas, fugindo com o resto da família da Inglaterra, se encontra numa cidade da Holanda onde oportunidades novas surgem. Sua mãe, Margareth, recém viúva, consegue um emprego no atelier de um famoso pintor da região, e ela e sua irmã Ruth se veem atraídas por uma das pessoas mais misteriosas da cidade, Clara, uma jovem de beleza tão incrível que seus pais a mantém presa em casa.

Com maestria, Gregory consegue criar uma história que leva essa situação até a do conto original, onde Clara se torna Cinderela, mas não exatamente a mesma que conhecemos, mas sim uma bem mais complexa e interessante, assim como suas meias-irmãs e madrasta. Sem fazer uso de realismo fantástico, o autor fia um enredo crível não só de acontecer, mas também de explicar porque o conto terminou contado da forma como é. E isso mantendo o leitor entretido e curioso ao mesmo tempo.

Considerando que Cinderela é um dos contos de fadas mais insossos que tem e com personagens tão preto e branco, o que o autor consegue fazer é quase um milagre, porque o resultado é uma história sensacional e cheia de personagens interessantes.

Assim como Wicked fez a passagem para outra mídia, Confissões de uma Irmã da Cinderela chegou a virar um filme da Disney, lançado direto para TV em 2002. Infelizmente o programa que ele fez parte é tão obscuro que hoje não está disponível em quase lugar nenhum, o que me impediu de assistir. O que é uma pena, adoraria ter visto Stockard Channing (uma das dias do filme Da Magia à Sedução) no papel de madrasta, tenho certeza que ela acertou em cheio na personagem.

Versão Disney do livro

Com toda a qualidade de Gregory Maguire, não entendo porque tão pouco de sua obra saiu em português, vale a pena ler o que tem disponível.

Nota 9.

domingo, 24 de outubro de 2021

Geekerela


SPOILER FREE

Continuando o Desafio Literário Popoca de outubro com o tema contos de fadas, resolvi ler algo mais leve, e acabei optando pela comédia romântica Geekerela, que saiu com o mesmo título em português pela editora Intrínseca.

Como o título já deixa claro, a autora americana Ashley Poston traz uma releitura moderna de Cinderela, com uma boa dose de nerdice, o que achei uma premissa interessante. Então somos apresentados a Elle, uma órfã que vive com a madrasta e duas irmãs, e que é fã de uma série de televisão chamada Starfield, que ela assistia quando criança com o seu pai, um nerd de carteirinha que é um dos criadores de uma Comicon na região onde ela mora.

A tal série agora vai virar filme, e para estrelar a nova versão da saga, escolhem um ator famoso de uma série adolescente, Darien, que Elle acredita que não tem conhecimento suficiente do fandom para interpretar o Príncipe Carmindor, sem saber que ele frequentava cons antes de ficar famoso.

A história de Elle e Darien é muito fofa, e a autora caprichou em detalhes como o food-truck abóbora mágica, onde Elle trabalha, toda a disputa de cosplay, o fandom... realmente o enredo é cheio de referências nerds, e os elementos de Cinderela estão todos lá.

Por outro lado, o enredo tem furos complicados. Todo o drama de Darien com o pai e com os fãs da série adolescente que ele estrelou e com Starfield não faz muito sentido. As decisões dos personagens que deveriam ter sido racionais são totalmente ilógicas, o que, confesso, me deu muita raiva ao ler.

Outra questão que me incomodou é que toda a relação de Elle com a madrasta e as irmãs é muito exagerada. Tudo bem que Cinderela é um conto de fadas exagerado, mas, numa versão moderna, que se passa no século XXI num lugar como os EUA, para mim, ficou um tanto quanto forçado. O enredo teria ganhado com um pouco mais de sutileza.

Enfim, o resultado é uma leitura mediana, que ajuda a passar o tempo, com uma ideia interessante e fofa, mas que poderia ter sido mais bem trabalhada.

Nota 7.