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terça-feira, 5 de abril de 2022

O Céu Não Sabe Dançar Sozinho


 

SPOILER FREE

Quem me acompanha sabe que eu tenho uma listinha de autores favoritos que eu tento ler algo com alguma frequência, Ondjaki é um deles. O autor angolano é uma preciosidade capaz de escrever em diversos estilos literários, incluindo poesia, livro infantil, livro adulto, contos e romances. E ele não só escreve de tudo, mas escreve tudo muito bem.

Esse livro já estava fora da estante, rodando por aí na minha bolsa de praia, mas só essa semana eu consegui sentar na areia e lê-lo, de uma vez só, diga-se de passagem. Ainda bem que estava debaixo de uma barraca e com protetor solar, porque só consegui fechar o livro quando terminei.

O céu não sabe dançar sozinho é uma coletânea de contos, com um quê de realismo fantástico, que parecem relatos do autor em suas estadias ao redor do mundo. Cada conto se passa numa cidade diferente, num continente diferente, mas todos tem aquele quê característico de Ondjaki.

Apesar do livro se passar por diversos cantos do mundo, não espere um relato de viagens ou descrições de diversas cidades. Isso talvez seja comum demais para o autor. Seja na África, na Ásia ou na Europa, o autor traz pequenos retratos do que é um ser humano num lugar onde não pertence, onde se sente um tanto quanto inseguro e incerto das regras, mas que mesmo assim tem uma razão para estar ali. Nem que essa razão seja estar aberto para o improvável e para novas experiências.

Assim como outros livros supostamente autobiográficos do autor, não é claro o quão real ou fantasioso ou uma mistura dos dois os contos são. E no fundo, esse é um dos trunfos de Ondjaki, ele consegue capturar o humano em situações por vezes estranhas, mas não necessariamente impossíveis. E com isso ele transmite uma beleza única em coisas que podem parecer banais ou simplesmente surreais.

Mais um livro do autor que entra na lista de mais uma razão para ler Ondjaki.

Nota 10.

domingo, 30 de maio de 2021

Os da minha rua


SPOILER FREE

E quase no apagar das luzes do mês, aproveitei para tirar da estante o escolhido para o tema do Desafio Literário Popoca de maio: livros escritos originalmente em português! Dessa vez optei pelo premiadíssimo angolano Ondjaki com o seu vencedor do Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco de 2007: Os da minha rua.

Para quem nunca ouviu falar de Ondjaki, alcunha do angolano Ndalu de Almeida, ele é um poeta e escritor nascido em Luanda, Angola, em 1977, formado em sociologia, estudos africanos e teatro. Ele escreve de tudo, poesia, contos, romances, livros infantis, infantojuvenis e adultos. Já ganhou diversos prêmios, como o Jabuti (AvóDezanove e o segredo do soviético, 2010) e o José Saramago (Os transparentes, 2013), para dizer só dois. Seus livros já foram traduzidos para diversos idiomas, e boa parte da sua obra já foi publicada no Brasil, o que é uma maravilha.

No Brasil, você vai encontrar suas obras editadas pela Companhia das Letras, pela Pallas e pela Língua Geral. É um autor africano bastante disputado, como se pode notar, o que não é comum.

Pessoalmente sou muito fã do seu trabalho, tudo o que já li dele é de uma beleza ímpar, não importa o gênero literário, e sou afortunada, já li diversas de suas obras. Os da minha rua não foge à regra de que Ondjaki escreve admiravelmente bem.

Nesse livro de contos, todos bem curtinhos, o autor caminha por suas memórias de infância em Luanda, nos anos 80. Vale mencionar que nessa época o país passava por uma guerra civil, entre um partido comunista e um partido anticomunista, de forma que Angola era um terreno de guerra por procuração entre os EUA e a URSS. Não tenho certeza de quão autobiográficos os contos realmente são, mas as histórias soam sinceras, e apesar de não entrarem na questão política que marcava o país, a presença soviete está lá em quase todos os momentos, de pano de fundo. O que é interessante, pois, como numa visão infantil, o autor não julga aquilo, eles simplesmente estão lá. E essa presença é marcante em diversas obras de Ondjaki.

Em Os da minha rua, o autor usa os contos não exatamente para contar uma história, ou várias, mas sim, como num álbum de fotografias, para construir um conjunto de imagens de uma época, que apesar de serem suas memórias pessoais, são capazes de dar um panorama do que era ser criança em Luanda nesses anos. E, quem foi criança nos anos 80 no Brasil, vai ver diversas similaridades no mínimo curiosas. E quem não foi, sentirá aquele gosto nostálgico de ser criança, porque no fundo, são histórias e momentos muito humanos que o autor descreve.

E como ele descreve... Ondjaki tem um talento para palavras, seu texto tem uma beleza simples, que no fundo esconde uma sofisticação e erudição interessantes. Sua prosa tem um quê de poético e cria imagens belíssimas e cheias de sinestesia que são características do autor. Não é à toa que ele ganhou tantos prêmios, e que tudo o que ele escreve acaba sendo bonito e gostoso de ler.

Recomendo realmente qualquer coisa dele. Mas, se você quiser começar por Os da minha rua, será uma belíssima porta de entrada.

Nota 10.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Amargos Como os Frutos by Paula Tavares



SPOILER FREE

Apesar de todo um esforço para tornar minha biblioteca digital, é frequentando livrarias e ainda comprando livros físicos que faço novas descobertas em português! Dessa vez descobri a poetisa angolana Paula Tavares, e que grande achado!

O trabalho de Paula é de uma beleza incontestável, com um sabor extremamente africano, o que, infelizmente, nem sempre é fácil de achar. Muito bem recebida pela crítica e bastante estudada nos meios literários, sua poesia exala África, Angola e o que é ser mulher.

Meu único problema com sua obra reunida aqui numa edição da Pallas é que eu não conheço o suficiente de cultura africana para ter aproveitado ao máximo o seu trabalho. Confesso que senti falta de notas de rodapé. O que obviamente é culpa minha, porque posso dizer que seu trabalho me deixou babando e cheia de vontade de conhecer mais. Ainda bem que os tempos tem mudado e trazido mais edições de literatura africana no geral, realmente a gente não tem ideia do que está perdendo.

Nota 10 para a poesia e 9 para a edição que podia ser mais rica.