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terça-feira, 23 de junho de 2020

Freshwater - Água doce



SPOILER FREE

Para fechar o mês de junho com chave de ouro, com o tema LGBT do Desafio Literário Popoca, resolvi me aventurar na literatura africana. E o livro de nigeriane Akwaeke Emezi é um campeão da crítica literária, especialmente por ser a primeira obra, uma autobiografia ficcionalizada, de autore trans não binária.

Freshwater, ou Água doce na tradução para o português, é um dos livros mais interessantes que já li, e dos mais difíceis de falar sobre. O texto tem uma questão cultural fortíssima envolvida na história de protagonista Ada, que é meio que possuída por diversos espíritos chamados Ogbanje no idioma Igbo, o que a torna uma personagem muito especial e única. Se você procurar no Google, vai encontrar que Ogbanje é um espírito que persegue uma determinada família, nascendo em crianças que morrem cedo e são muito diferentes, ao longo de gerações. Mas essa concepção não abrange o que acontece em Água doce, onde os Ogbanje levam Ada a ser uma pessoa que não é nem mulher (apesar de ter nascido com corpo feminino), e nem homem.

O livro é narrado em diversas vozes dentro de Ada, sendo que poucos são os capítulos narrados por si mesme. Na maioria das vezes quem está no comando é Asugara, um dos espíritos que habita Ada, e que nasceu por conta de uma experiência extremamente traumática. Muitos dos capítulos são narrados pelo coletivo dos Ogbanje, o que traz um distanciamento muito interessante e uma oportunidade a autore de tratar de temas diferentes, como consciência e questões psicológicas e espirituais profundas. 

A narração pelos Ogbanje também é uma oportunidade de se ver escrito um texto não binário. Em inglês isso é feito com o uso dos plurais "we" e "they", em português não sei como ficou na tradução, mas varia. Essa resenha, por exemplo, foi escrita usando-se uma forma de se fazer isso (minha primeira vez, tenham paciência comigo). Foi uma experiência interessante porque apesar de já ter encontrado personagens não binários em outros livros, essa é a primeira vez que vejo uma protagonista não binárie. E ainda por cima o livro nos conta sobre a descoberta dessa identidade e da sua sexualidade. 

O texto de Akwaeke Emezi é belíssimo, ainda que eu entenda as passagens em Igbo, e fácil de se tirar lindas citações. Mesmo com todas as mudanças de ponto de vista, o enredo é claro, ainda que extremamente complexo. Uma imperdível viagem pela cultura africana, com excelentes questionamentos sobre imigração, coletivo e identidade.

Nota 10.

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